Os Herdeiros de Ânn - 18º Ato - 2ª Parte

Adan jogou sua tocha pelo buraco. Ela quicou pelos primeiros degraus da escada espiral, e depois desceu rolando suavemente. Então, subitamente caiu diversos metros até o chão.

- Mas o quê? – Adan ficou perplexo.

Bartolomeu desceu os primeiros degraus e olhou com atenção. Suas pupilas dilataram e o sangue faérico mostrou-se valioso outra vez.

- A escada acaba abruptamente! O chão debaixo dela desabou. Estou vendo os destroços daqui. Há uma queda de aproximadamente quatro metros até o salão logo abaixo – disse o astrólogo.



Adan, então, tratou de pegar sua corda e fazer um nó firme para prendê-la à estátua da serpente – o local de ancoragem mais seguro que encontrou. Depois, desceu a corda inteira pelo túnel até o chão do salão abaixo.

- Quem vai primeiro? – Bruenor perguntou desconfiado.

Duncan estava disperso. Algo o distraía e ele não sabia direito o quê. Talvez estivesse amoado graças à ríspida conversa que teve antes do descanso com o grupo. Seja como for, o paladino encontrava-se com os pensamentos longe dali.

- Eu vou! – disse Adan.

Bartolomeu se prontificou a ir logo atrás. Os demais viriam em seguida, com o anão e Duncan por último.

O astrólogo e o ladino viram que o salão era enorme. Adan, então, ouviu uma sinistra voz infantil sussurrando ameaças de morte e maus agouros. Aquilo arrepiou todos os seus cabelos do corpo.

- Puta merda! Eu não desço aí nem por um cacete! – disse o ladino, arfando, enquanto recuava rapidamente degraus acima.

- Se acalme Adan. Eu vou olhar – disse o intrépido Bartolomeu, que avançou e logo começou a ouvir os mesmos sussurros, sempre acompanhados pelo constante tilintar de metais se arrastando pelo chão e o som de água corrente. O astrólogo olhou com calma para o salão e viu que nas paredes norte e sul há lanços de escada que levavam até o mezanino que desabou – onde a escada espiral deveria terminar.

Bartolomeu viu ainda que há uma poça de água negra próxima da parede norte e que nela há ainda diversas portas de madeira reforçada. No centro do salão, uma grande escadaria parece levar ao submundo das trevas absolutas.

- Esse lugar é mesmo assustador! Mas temos que prosseguir! – disse, com confiança, o astrólogo.

- Sim, vamos logo! – Duncan se manifestou após longo silêncio.

Então, os aventureiros desceram pela corda. E ao fazê-lo, viram um grande vulto passar pelas sombras tremulas de suas tochas na parede norte.

- Fantasmas! – sussurrou Bartolomeu.

- Pode ser... – disse Duncan, desconfiado, enquanto se concentrava em orações internas para aguçar seus sentidos. Buscava sentir o cheiro do enxofre e da amônia que é característico da presença de criaturas demoníacas e mortos-vivos em geral - ... mas não sinto a presença de nada anormal.

- O que é aquilo então?! – Bartolomeu disse em tom alarmado, enquanto observava no escuro uma enorme esfera de carne flutuando pelo norte do salão.

Todos estavam estupeficados.

- Pelo martelo de Moradin! O que é aquilo? É um beholder? – Bruenor disse quase sem ar nos pulmões.

- Ela está ali!!! – o meio-orc apontou com alarde.

- Calado Wurren! Ele vai perceber o que vimos! – Bartolomeu observava a criatura e até tentou desviar o olhar para não chamar sua atenção, entretanto esse esforço foi em vão. A criatura arregalou seu grande olho e abriu sua enorme bocarra, projetando a fina e longa língua através de suas presas afiadas. Soltou, então, um som aterrorizante e de um de seus quatro tentáculos disparou um raio contra Wurren e outro contra Bartolomeu.

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Atingido, o meio-orc ficou paralisado, pois seus músculos enrijeceram.

O astrólogo conseguiu desviar.

Duncan correu para junto do amigo e abraçou Wurren a fim de erguer seu corpo e tirá-lo da linha de visão da criatura.

- Ahhhhhhh!!! Eu vou acabar com você!!!! – Bruenor ficou ensandecido e partiu pra cima do monstro.

Bartolomeu também não hesitou! Atirou sua adaga em direção da criatura e, enquanto ela voava pelo ar, o astrólogo fez uma breve prece:

- Wee Jas é a senhora da morte! Só ela tem a autorização sobre nossos destinos!!! – a adaga ficou translúcida em pleno ar e ainda assim atingiu a criatura fazendo derramar seu sangue esverdeado. Evidentemente, os anjos da morte de Wee Jas haviam guiado a arma até o alvo certeiro.

Dágora também avançou, mas a criatura flutuou rapidamente para a região do salão que estava alagada pela água negra, e o felino escorregou, deslizando pelo chão e batendo com a cabeça na parede, vindo a desmaiar.

Wurren, então, sentiu força nos músculos novamente. Com um olhar agradeceu ao Duncan e se aproximou do local da batalha. Invocando os poderes da natureza disparou raízes espinhosas mágicas, mas errou o alvo e acabou atingindo Bruenor!

- Maldito meio-orc! – bradou o anão, que ainda conseguiu atingir a criatura com um golpe certeiro de seu machado mágico.

Adan observava a criatura com dificuldade, já que sua tocha não iluminava o salão inteiro. Contudo, assim que Duncan se aproximou do monstro isso mudou, já que sua espada irradiava luz!

O ladino avaliou as opções de ataque. Estava com medo, pois um beholder é um inimigo mitológico formidável! Era preciso agir rápido! Deste modo, ele pegou o arco que Salahadhra lhe deu, tomou uma das flechas élficas em mãos, e disparou com incrível precisão!

- Booooa!!! – gritou Bartolomeu, empolgado com o sucesso do ataque de Adan – Alguém aqui entende deste tipo de monstro? Não era para ele ter mais tentáculos? – Bartolomeu notou que o corpo esférico do monstro tinha apenas quatro tentáculos, mas os beholders das lendas contavam com muitos mais.

- Não! Não importa! Ataquem! – gritou Duncan, arfando enquanto tentava dar um golpe de espada na criatura, que revidou disparando dois novos raios de seus tentáculos. Duncan acabou atingido e todos viram sua energia vital ser drenada imediatamente!

O espadachim caiu no chão somente em pele e osso!

- Duuuucannnnn!!!!!! – Wurren urrou correndo em sua direção para lhe impor as mãos e transferir um pouco de energia positiva e impedir, com isso, que a alma do paladino partisse deste mundo.

Bruenor acertou um novo golpe de machado! Bartolomeu ergueu o símbolo sagrado de Wee Jas e voltou a pedir as bênçãos da deusa de Ânn! A energia mágica envolveu o monstro que foi sufocado, disparando raios a esmo.

Adan, então, ergueu o arco mais uma vez, disparando outra flecha certeira embora as mãos trêmulas dificultassem a mira. Alvejado fatalmente, o monstro saiu flutuando e sangrando até colidir com uma porta dupla de madeira na parede oeste. Com a violência do impacto a porta ficou entreaberta. Ouviu-se a criatura murmurar “falhei com meu meeestreee” numa fala agonizante antes de sua mágica esvair e seu corpo oval cair inerte.

- Ouviram isso?! Ele tem um mestre! – Bartolomeu falou.

Adan olhava para as próprias mãos maravilhado com o resultado de seus primeiros contatos com o arco de Salahadhra. Duncan e Wurren o parabenizaram pela pontaria. Bruenor olhava com atenção para a porta na parede oeste, preocupado.

Que espécie de lugar é este afinal?

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