Os Herdeiros de Ânn - 18º Ato - 1ª Parte

Aparentemente há somente um caminho a ser seguido pelos aventureiros, qual seja, a passagem pela fenda, onde pítons e cordas velhas parecem indicar haver um caminho a ser perseguido. Resta saber: será um caminho rumo à saída, ou rumo à danação? Somente explorando para saber.

Nada obstante tal obviedade, Bartolomeu estava intrigado com a estátua da serpente no corredor vizinho. Nada, absolutamente nada justifica que uma estátua daquele porte estivesse protegida por tantas armadilhas mortais se não tivesse o propósito de esconder algo. Para o astrólogo, sob aquelas toneladas de rocha polida e trabalhada se esconde uma passagem secreta – preocupação eu externou por diversas oportunidades.



Na verdade, o astrólogo ficou com essa fixação depois que, dialogando com a naga, subentendeu que havia duas formas de sair dali: uma segura e outra não, tendo ficado claro para si que a forma mais segura não correspondia (ainda bem) à passagem pelo fosso escuro.

- Bom, para falar a verdade eu vejo quatro saídas – disse o astrólogo.

- Ahm? Não entendi. Pensei que eram apenas duas – Bruenor responde.

- Além das duas que já mencionei antes, temos a saída que está obstruída (e, portanto, não é uma opção) e a chaminé da forja – explicou Bartolomeu.

Adan, então, se aproximou e olhou a chaminé:

- Hummm... estou vendo aqui... ela é larga o bastante para que alguém passe por ela. Porém é muito longa e é feita de pedras polidas. É muito lisa. Mas eu posso tentar jogar uma corda com arpéu e ver se consigo firmar.

- Acho arriscado. E, além disso, se sairmos pela chaminé conseguiremos apenas volta para aquela pequena cordilheira dos pântanos. Acho que é melhor tentar um caminho que nos leve para a cidade perdida – comentou Wurren.

- Vamos ver aquela estátua da serpente de novo, então – decidiu Bartolomeu.

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Os aventureiros caminham pelos sinuosos corredores até encontrarem novamente aquela misteriosa estátua. Lá se encontrava a imponente serpente, assentada sobre o sol. Sob a luz da tocha de Adan, via-se a tinta vermelha que cobria suas escamas – agora pálida e descascada. As órbitas estavam vazias – afinal, Bruenor arrancou os olhos feitos de rubi e os guardou para si.

O ladino inspecionou a escultura novamente e não encontrou nenhuma pista. Tentou, ainda, erguer o arco mágico que lhe foi presenteado pela naga – como se o estivesse a oferecer para aquele ídolo. Contudo, nada aconteceu.

- Desisto. Ou essa porcaria não tem nada mesmo, ou está quebrada! – bradou Adan, mal humorado.

Wurren estava observando de lado. Dágora estava sentada próximo de seu pé. O felino olhou para o meio-orc e disse:

- Que acha? Você não disse que podia fazer alguma coisa?

- Quando eu disse isso? – perguntou o meio-orc.

- Da última vez que viemos aqui! Ora essas! – respondeu Dágora.

- Ah sim! Não sei se vai dar certo. Mas tenho uma ideia – Wurren aproveitou que Adan havia desistido de tentar, e se aproximou da estátua. Colocando-se de frente para ela, Wurren gesticula os braços, entoa palavras na antiga linguagem druídica e, então, seus sentidos se aguçam abruptamente lançando-o em contato com a trama mágica que Boccob teceu para o multiverso. Então, o meio-orc vê palavras douradas cintilando ao longo do corpo da serpente. Trata-se de uma linguagem para si estranha e desconhecida. Em poucos instantes, porém, diante de seus olhos nus, as palavras douradas esmaeceram e brilharam novamente – agora na língua comum dos homens:

“Já foi o tempo quando eu era arma e guerreiro;

Agora o jovem herói me troca por ouro e prata torcida;

Às vezes os homens me beijam;

Às vezes sou chamado à batalha na companhia de valorosos companheiros;

Às vezes um corcel me carrega em suas costas através dos ermos;

Às vezes um navio me carrega através das ondas, e eu ali brilhantemente adornado, aguardo a hora de entrar em combate mais uma vez;

Às vezes um guerreiro me carrega a cavalo como um adorno de batalha;

Comprimido em seu peito sinto sua respiração;

Às vezes, com estipe,, me chamam de herói;

Os homens sempre me usam em batalha;

Quem sou eu?”


Wurren repetiu as palavras para seus colegas. Bartolomeu ficou intrigado. Estava claro que se tratava de uma charada, cuja resposta poderia desvendar o mistério da estátua e, quem sabe, revelar a passagem secreta que ela esconde.

- Eu já sei o que é – comentou Adan.

- Ora! Vá lá e diga em voz alta! – falou Bruenor.

Adan se aproxima da serpente de pedra e diz:

- Glória!

Subitamente uma grande labareda é cuspida da boca da estátua: Wurren estava bem no caminho e não conseguiu desviar. Apenas fechou os olhos. As chamas queimam seus poucos cabelos e suas sobrancelhas - longe de ser capaz de matar alguém.

- Pode continuar aí na frente, Wurren – brincou Bartolomeu, ao ver que o meio-orc ficou apenas chamuscado.

- Nada disso! – o meio-orc saiu da frente – Nada nos garante que a ameaça vai ficar apenas nisso.

Os aventureiros continuaram discutido as possíveis respostas para o enigma da serpente. Bartolomeu, então, teve uma ideia:

- Estandarte! – falou, em voz alta, o astrólogo.

Porém, nada aconteceu.

- Ah! Mas que merda! – resmungou Bartolomeu, tirando o pequeno escudo das costas ao passo que caminhava para a frente da estátua: ninguém estava ocupando aquele espaço.

- Estandarte! – gritou novamente, erguendo o escudo para se proteger das chamas.

Desta vez, todavia, ouviu-se o som do enorme globo de pedra sob a serpente se movimentando. A pedra girou lentamente, afundando no pedestal até sumir completamente do campo de visão dos aventureiros. Finalmente, todos puderam observar que, com a rocha removida, abriu-se sob a estátua um túnel vertical e nele uma escada espiral que desce até um salão escuro de onde sons misteriosos ecoavam

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