Os Herdeiros de Ânn - 17º Ato - Parte 1

Os aventureiros se surpreendem com o encontro. A figura ameaçadora da naga é assaz diferente daquilo que imaginavam, além do mais, ela não parecia interessada no confronto.

- Quem são vocês que me despertam do sono profundo?! – sua curiosidade a levou a tentar compreender primeiro quem eram aqueles que vilipendiavam seu esconderijo. A voz dela ecoava em suas cabeças, pois ela não tinha boca para falar, então usa a telepatia.

- Somos aqueles que vão destruir o culto de Sess’inek e livrar os pântanos de sua ameaça! – o astrólogo hesitou um pouco antes de responder isso, e o fez porque os demais silenciaram.

Diante das explicações fornecidas por Bartolomeu, Salahadhra não se espantou:

- O culto de Sess’inek você diz! Vieram para matar Kharlixes!

- O dragão?! – Adan indagou.

- Sssssssimmm – Salahadhra respondeu com evidente ódio.

- O que ele tem a ver com tudo isso? Não estamos aqui para matar dragão algum! E sim para matar o Grell! – Bartolomeu disse.

- Hahahahahaha – Salahadhra ri com eloquência – Tolo! Você está muito enganado! Kharlixes engana todo o povo-lagarto fazendo-se passar por seu proscrito deus, Sess’inek. No entanto, ele está aprisionado numa profunda camada do inferno, impossibilitado de fazer contato com seu povo! Se querem derrotar o culto de Sess’inek devem matar Kharlixes.

- Onde está o maldito dragão? – Adan perguntou.

- Na torre negra no centro de Ykrath! – Salahadhra respondeu.

- Esqueça! Não vamos nos curvar aos seus caprichos! – Duncan bravateou.

- Já dissemos! Estamos aqui para acabar com o Grell! Vimos quando o maldito foi conjurado para este mundo! – insistiu o astrólogo.

- Tolice! Uma farsa armada por Kharlixes! – a naga retrucou.

- Seja como for, não temos como matar um dragão! – respondeu Duncan – Não podemos...

- Calado!!! – Salahadhra interrompeu – Vocês subestimam minha inteligência?! Estou aqui pelos séculos dos séculos e vocês acreditam saber mais do que eu?! Malditos! Kharlixes está por trás de tudo! Ele quer os pântanos para si! Tomou a torre de meu mestre como covil e está iludindo o povo-lagarto, usando a loucura de seus adoradores para manipula-los. Vocês estão atrás de um simulacro! Um avatar desformado! Um espantalho que Kharlixes usa para enganar a todos! Mas eu não pediria que matassem um dragão com suas mãos nuas! Eu tenho uma oferta! Sua lealdade: a cabeça de Kharlixes! Em troca, a arma que pode pôr um fim a esta ameaça.

- De que arma está falando? – Duncan perguntou.

- Oferece sua lealdade? – a naga replicou.

- Nada feito! – Wurren finalmente se manifestou.

- Não mesmo! Já dissemos. O dragão não é de nosso interesse – Bartolomeu complementou.

- Mesmo que fosse, não estamos dispostos a fazer um acordo com alguém como você, demônio! – Duncan sabe que se trata de um morto-vivo, uma criatura vil, feita de pura energia negativa. Sua aura exala o fétido odor de enxofre!

- Tolos! – a naga reclamou.

- Não aceitamos sua proposta. A menos q não tenhamos outra escolha. Temos? – Bartolomeu perguntou. Nada obstante a oferta, os aventureiros se recusam a aceitar, pois entendem que seu rival é o Grell e somente ele, mas evidenciam o receio de que esta resposta possa redundar num confronto com Salahadhra.

- Não pretendo impedir que sigam seu caminho! Mas que sois tolos, isso são! – A naga afirma que não pretende impedi-los de destruir o Grell, mas insiste que ele é apenas um simulacro: um avatar de menor importância utilizado habilmente por Kharlixes para sustentar sua farsa a aumentar seu domínio sobre o povo lagarto. Seja como for, pensou a naga, se os aventureiros conseguirem derrotar o culto de Sess’inek destruindo o Grell, os efeitos para si serão de algum modo proveitosos.

Logo, não! Ela não pretende impedir que os aventureiros prossigam! E eles deixam as cavernas: assustados e desapontados.

- Vamos para a sala da forja! Precisamos descansar por mais tempo. Estou exausto! – Wurren reclamou.

- Primeiro vamos voltar e investigar aquela misteriosa estátua da serpente. Estou certo de que há algo escondido por lá – disse Bartolomeu.

Em verdade, após a visita à estátua da serpente, os aventureiros ficaram convencidos de que havia uma passagem escondida por baixo da estátua da serpente, precisamente sob a rocha que imita o sol. Mas estavam cansados. Exaustos. E foram para a sala da forja descansar.

****

- Eu fiquei pensando... Imaginem só, se ela pode oferecer uma arma que pode acabar com toda essa parada... sei não. Não acham que pode ser uma boa? – Adan perguntou.

- Cara, o problema é o preço, né? Se uma bostinha de oito anos toda queimada porque vocês a salvaram, imagina o que essa criatura pode fazer? – Bartolomeu respondeu.

-Vocês uma vírgula! Fala aí com o capitão bondade! – diz Adan olhando em direção à Wurren.

Bruenor fechou a porta do corredor que dá para a sala da forja. Entrando, o anão desafivelou o cinto, afrouxou a armadura e pegou seu longo cachimbo de madeira de dentro da mochila, encheu-o de ervas e acendeu.

- Hahaha! Realmente aquela criança poderia ter acabado conosco, mas não acabou! O que mostra que estamos preparados! – disse o anão.

- De fato! – diz Adan – A minha ideia consiste em simplesmente aceitar essa proposta. Vocês não precisam se comprometer com ela. Apenas eu. Porque, vejam bem, mesmo que saiamos daqui e consigamos achar Kharlixes e que tudo seja ideia dele, deteremos que confronta-lo de qualquer forma. Não acham? Acho que o confronto com ele é inevitável! E queria ter um “ÁS” na manga!

- Eu acho sua ideia boa! Se você está disposto a fazer isso, acho ótimo. Pode ser uma chave para um poder que nós nem imaginamos o que seja! Imagina o que pode ser!!! Hummm... – diz Bartolomeu.

- Eu me disporia a me expor por isso. Mas isso se ela oferecer algo em troca.. – responde Adan.

- Você não sabe o que está dizendo! – Duncan balança a cabeça negativamente – Está falando em fazer um acordo solitário com aquela cobra esquelética, aquele ser desprezível e em troca matar um dragão?! Não viemos para matar dragões! Nós viemos para... – Adan interrompe a fala de Duncan:

- Espere! Hei! Você não pode falar assim...

- Ele pode fazer o que quiser Duncan! – Bartolomeu interrompeu.

- Isso é absolutamente inadmissível! Mortos-vivos são criaturas que contrariam todas as regras da natureza! São feitas de pura energia negativa! Você não pode fazer um acordo com uma criatura como essa! – Duncan insiste.

- Sim. Mas ele pode, pô! – retruca Bartolomeu.

- Você não entendeu! O confronto com o dragão é inevitável! Se quisermos ajudar a donzela branca, e as cidades de Stonebridge e Folly, se quisermos realmente resolver o problema com o povo-lagarto, o dragão é o problema. O confronto é inevitável! É isso o que você tem que entender. Se não viemos matar dragões, então viemos fazer o quê? Salvar filhotes de troll? – Adan responde.

- Ele vomita razoabilidade, Duncan! – Bartolomeu complementa – Lamento informar.

- Isso se ela tiver dito a verdade – pondera Wurren.

- Eu queria lembrar uma coisa a vocês – diz Bruenor – A naga disse que Kharlixes habita a torre negra que está no centro da cidade. Se quisermos explorar as ruínas antigas em busca do Grell, teremos que enfrentar o dragão. Adan tem razão.

- Sim. Eu compreendo. É bem possível que tenhamos que enfrentar o dragão. Mas a naga pode estar mentindo – responde Wurren.

- E daí se estiver mentindo? O dragão vai estar lá! E você vai fazer o quê? Vai tentar ser amiguinho do dragão como foi dos filhotes de troll? – Adan retruca.

- Eu não entendo nada de dragões e da vida de Salahadhra! Acho temerário pegar uma arma mágica que não conhecemos para enfrentar um dragão! – diz Duncan.

- Péra lá! Pode parar de falar por aí! Ninguém vai se comprometer! Eu vou! O problema será meu! Se você quiser sair correndo é problema seu! – Adan se irrita.

- Calma! Nós temos que fazer as coisas como um grupo. Como unidade! Entramos aqui dentro com um grupo, e temos que permanecer como um grupo! Se nos separamos aqui, se provocarmos uma cisão vamos morrer! – Duncan pondera, tentando evitar que Adan prossiga em sua ideia.

- Você fala de grupo quando lhe convém! Quando quis salvar os filhotes de troll nos ameaçou e fez o que quis! – diz Adan

- O que Adan propõe não provoca cisão alguma! É uma decisão dele e só vai recair sobre ele a decisão de fazer um pacto com uma criatura demoníaca! – fala Bartolomeu.

- Grupo é quando lhe convém! – Adan adota um tom acusador – Você pensa em você mesmo, não no grupo! Você pensa no grupo!

- Não estou entendendo sua postura! Mas não posso impor minha vontade a vocês – Duncan mostra-se decepcionado.

- Eu estou pensando em mim, não no grupo. Mas não finjo pensar no grupo. Assumo minhas atitudes – diz Adan.

- Bom saber Adan! Bom saber! Bom saber por que não posso deixar minha vida nas suas mãos! – Duncan responde com rancor.

Uma troca de acusações começou entre o ladino e o espadachim. Continuaram por longos minutos discutindo as atitudes um do outro. Adan lhe acusava de exibir pequenos sucessos obtidos na vila de Folly como troféus, como se estivesse esfregando em sua cara que foi a liderança do espadachim que levou o grupo a descobrir o algoz de Dorenne e Brenna.

- Vocês estão perdendo o foco! – diz Bruenor. Enquanto isso, Bartolomeu já havia desistido de participar da conversa. Depois de ajudar a incendiar o grupo, sentou-se num canto e acendeu seu próprio cachimbo – Deixe que Adan faça o que quiser! Não é hora para discutir isso! Se ele estiver errado pagará sozinho pelos erros. Se estiver certo, estará! E isso será útil!

Duncan suspirou com desalento:

- Eu, como disse, não vou impedir. Mas quero advertir que considero sua decisão errada e enquanto estiverem andando comigo e eu junto com vocês, suas vidas são responsabilidade minha também. Esse é o senso de responsabilidade que tenho para convosco enquanto formos um grupo. E é por isso, apenas, que estou esboçando essa preocupação, Adan. Mas você é o senhor do seu destino. Você pode estar atraindo uma grande maldição para sua vida.

****

Ao final e ao cabo da discussão, Adan resolveu voltar até a caverna para encontrar a naga e fazer um acordo com ela. Duncan e Wurren, contudo, manifestaram o desejo de ir junto:

- Espere Adan. Está certo que só você irá assumir esse compromisso – diz Duncan.

- É. É uma péssima ideia – diz Wurren.

- Ninguém vai assumir esse compromisso junto com ele. Mas não é prudente que ele vá sozinho! – complementa Duncan.

- Vamos com ele, então – responde o meio-orc.

Apesar da relutância de Adan, os três concordaram em ir juntos.

Chegando lá, Adan encontrou a caverna vazia. Wurren ficou observando o espaço anterior, onde o pudim negro se refestelava nos restos de carne existentes na ossada abandonada no fundo da caverna. Duncan foi um pouco mais adiante, escondendo o brilho da luminosa em sua bainha, dando espaço para que Adan encontre a privacidade que entender necessária a fim de dialogar com Salahadhra.

- Senhora Salahadhra... – Adan sussurra, diante da caverna vazia: a naga não estava lá.

Nenhuma resposta. E Adan continua chamando, enquanto observava uma fina camada de brumas que se espalha pairando sobre o chão, entrecortada pelas estalagmites presentes na caverna. O ladino pode imaginar a mítica figura da naga serpenteando entre as rochas e o pavor que Wurren deve ter sentido ao ver semelhante imagem.

- Está tudo bem Adan? – Duncan sussurra.

- Sim. Se afaste – Adan responde.

O único som a partir de então são produzidos pelas gotículas de água que caem do teto aqui e acolá.

- Acho que vou aceitar sua oferta de acabar com Kharlixes – Adan sussurra de novo.

Silêncio. As brumas brilham intensamente, iluminadas pela luz da tocha que Adan porta, o que lhe causa certa ofuscação no olhar. Os cantos da caverna estão obscuros, entrecortados pelas rochas irregulares. Quando, de repente, Adan estava desistindo de receber uma resposta, uma lufada de vento afasta as brumas de uma das paredes no fundo da caverna. O olhar de Adan é instantaneamente atraído, e vê um espírito de naga atravessa a parede, adentrando a caverna com seus olhos vermelhos e suas feições esqueléticas. Quando o corpo espiritual termina de sair da parede, adquire um aspecto corpóreo e material.

- Por que me chamasssss? – a naga diz.

- Aguarde só um momento – Adan responde – Duncan, acho que você pode se afastar.

****

Bartolomeu solta uma gargalhada. Mas é só porque Bruenor lhe contou uma piada. Enquanto aguardava o retorno dos demais aventureiros, o astrólogo tentava ler o diário de Melza. Porém, o anão não lhe dava paz. Interrompia com conversa fiada. Era amistoso, mas causava algum fastio ao meio-elfo.

Quando Bartolomeu acendeu seu cachimbo, tossiu, e relaxou.

- Vejo que gosta de pitar um cachimbo também não é? – Bruenor disse, ao que o astrólogo apenas assentiu – E, por acaso, já provou dar ervas anãs que criávamos aos sopés das montanhas de Lortmils? Essas são de meus primos em Ulek – ele mostra, em suas mãos, um pequeno pacote de ervas embrulhado em seda.

Bartolomeu balançou a cabeça negativamente.

- E estas ervas que fuma. De onde são? – perguntou o anão.

- De um vilarejo qualquer pelo qual passei. Mas são boas – respondeu Bartolomeu.

- Por Moradin!!! – exclamou o anão – Que vergonha!

- Ah! Como pude esquecer! São, na verdade, ervas cultivadas por velhas freiras virgens e plantadas por freiras que já foram freiras virgens um dia, na terceira lua do outono! – Bartolomeu complementa, com certo tom jocoso.

O anão toma o cachimbo de Bartolomeu de suas mãos, entregando o seu. Pitando o cachimbo do astrólogo, o anão diz:

- Tenho dificuldade de sentir o gosto das freiras virgens de que falou.

- Sério? – o astrólogo perguntou, com genuína dúvida.

- Bom, pra falar a verdade eu não sei o que são freiras. Mas definitivamente sei o que são virgens! Hahahahahaha – Bruenor fez uma brincadeira e Bartolomeu riu com ele.

- Não existem freiras virgens!!! – Bartolomeu provocou ainda mais risadas no anão.

- E o que achou das minhas ervas? – o anão perguntou.

- Seu cachimbo é belíssimo. E a erva é muito boa. Mais seca do que estou acostumado – Bartolomeu respondeu.

- Não é à toa que a voz dos anões é rouca! – Bruenor retrucou em tom jocoso, mais uma vez.

Ambos compartilharam alguns momentos de felicidade e compadrio ali. O astrólogo contou porque estava tão entretido com o diário de Melza e sobre suas impressões sobre a naga. Ao fim, brincaram ainda de fazer anéis de fumaça, e Bartolomeu surpreendeu ao produzir elaboradas figuras!

Os olhos castanhos de Bruenor ficaram arregalados de espanto com as formas perfeitas que seu colega conseguia produzir somente com fumaça. Tentou fazer uns simples anéis, sem sucesso, e desistiu: era melhor sentar e esperar pelos colegas.

****

Comentários

  1. Rápido o post dessa vez!! Ficou muito bom! A posição do Duncan ficou boa. Eu teria discutido um pouco menos, mas teria a mesma posição sobre a coisa toda...

    ResponderExcluir
  2. Rápido o post dessa vez!! Ficou muito bom! A posição do Duncan ficou boa. Eu teria discutido um pouco menos, mas teria a mesma posição sobre a coisa toda...

    ResponderExcluir
  3. MestreCavernoso15/05/2016 00:26

    Culpa do Caca! Rsrsrs aproveitou q vc não estava presente para subjugar o Duncan! Fiz o q pude pra manter a coerência do seu pj.

    ResponderExcluir

Postar um comentário