Os Herdeiros de Ânn - 16º ato

Uma enorme coluna de fogo se ergueu do fundo da forja até o teto, rodopiando com violência. Detritos em brasas voam pela sala forçando os aventureiros a buscarem abrigo. Bruenor e Wurren olham estarrecidos ao gigantesco elemental quando a coluna de chamas desloca-se para fora dos limites da forja e projeta verdadeiros braços em sua direção.

Bartolomeu ficou irritadíssimo. Sabia desde o começo que seus colegas estavam sendo ousados demais, subestimando os perigos que uma masmorra como essa poderia esconder. Assim, o astrólogo murmurou alguma coisa como “se virem aí” e caminhou lentamente até o corredor de saída da sala: não pretendia enfrentar um problema a que não deu origem.

Enquanto isso, o enorme elemental do fogo balança seus braços em chamas e atinge Wurren, cujas vestimentas incendeiam-se instantaneamente. Bruenor dá alguns passos para trás, atormentado pela ideia de ser queimado vivo. A reação durou poucos instantes, pois logo em seguida o anão sentiu o sangue subir à cabeça como sempre acontece quando enfrenta um adversário temível.

Duncan olhou para trás e viu que Adan também estava se retirando da sala. Porém, o espadachim não teve tempo de pensar demais. Agora, mais do que nunca, era preciso ter fé em suas convicções: os bem triunfa sobre o mal, nem que para isso seja preciso um milagre!

E ele operou esse milagre!

Porquanto ao avançar heroicamente entre o anão e o meio-orc, Duncan balançou sua espada e sentiu seu brilho mágico se intensificar a cada palmo que se aproximava do corpo incendiário do elemental! A lâmina esquentou e ficou vermelha, mas não sofreu danos. Já a criatura demonstrava uma tênue redução na intensidade de seu brilho.

- As armas mágicas podem feri-lo! – gritou o espadachim.

Era o incentivo final de que Bruenor necessitava. O anão ergueu seu machado e passou-o pela coluna de chamas, percebendo novamente as chamas oscilarem e perderem brilho.

A reação do inimigo foi imediata! Rajadas de fogo elemental foram disparadas como tentáculos aptos a transformar os aventureiros em carvão! Wurren foi atingido novamente. Sua situação agora era crítica, o que o levou a recuar mais um pouco.

O meio-orc levou a mão ao colar de visgo que Ânn lhe deu e, como se recordasse agora dos poderes que os espíritos animados da natureza lhe conferiam, se concentrou e adquiriu a forma de um lobo gigante! Suas queimaduras e ferimentos se curaram no processo, e o couro que agora mimetizava parecia revigorado e vistoso.

Wurren estava pronto para tentar abocanhar o elemental, o que poderia se mostrar uma má ideia. Contudo, antes que pudesse fazer qualquer coisa, a criatura rodopiou pelo ar e a coluna de chamas se deslocou rapidamente através da sala e pelo corredor: a criatura queria impedir a fuga de Adan e Bartolomeu.

Surpreendidos, ambos pararam sua caminhada. A esta altura, já estavam de saída da antessala vizinha à forja. O astrólogo suspirou, desencantado com a ideia de enfrentar a criatura, porém convencido intimamente do sucesso iminente de sua empreitada. Tomou seu cantil em mãos, deu um gole refrescante na água ali armazenada e conjurou um feitiço que lhe veio à mente por inspiração divina. Seu pensamento viajou para Ânn e Wee Jas e de seu braço esticado uma sombra partiu para constranger a criatura.

Os demais aventureiros correram ao seu encontro e cercaram o elemental, que parecia sujeito à paralisação da magia de Bartolomeu. Duncan e Bruenor desferiram golpes ferozes com suas armas. Adan recuou e voltou para o corredor a fim de se abrigar das chamas que se espalhavam.

Bartolomeu deu um novo gole em seu cantil, ergueu as mãos para o alto com as palmas abertas e conjurou uma verdadeira chuva sobre a criatura, cujo fogo arrefeceu rapidamente. O espadachim e o anão agiram rapidamente e impuseram ainda mais ferimentos mágicos à criatura – o aço de suas armas ardia vermelho, mas resistia.

A criatura rodopiou, lançando tentáculos contra seus adversários. Duncan foi atingido e viu parte de seu equipamento sofrer um princípio de incêndio. Dágora avançou, mas conseguiu apenas queimar seu focinho.

O astrólogo, no entanto, não se deixou intimidar. Deu o terceiro e último gole em seu cantil, e ergueu as mãos novamente, repetindo o gesto anterior. Uma enorme quantidade de água choveu sobre a criatura e suas chamas se apagaram de vez. A enorme criatura tornou-se um vapor que se dispersou pelo ar rapidamente.

Bartolomeu deu um olhar maroto aos demais colegas e disse:

- Querem ajudar mais alguma criatura perigosa hoje?

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Os aventureiros estavam estafados.

Bartolomeu recolheu alguns objetos que encontrou próximos à forja.

- Precisamos descansar – disse Wurren.

- De fato. Não temos condições de enfrentar um novo combate como esse. Estas masmorras estão se mostrando muito perigosas – respondeu Duncan.

- Vamos ficar por aqui mesmo, então – diz Adan – Este local é obviamente o mais seguro.

- Eu aceito ficar, é claro. Mas quero lembrar que não estou disposto a salvar o rabo de vocês novamente quando decidirem fazer benfeitorias para criaturas bizarras! – admoestou Bartolomeu.

- Ele tem razão! – bradou Bruenor, com evidente tom jocoso.

Wurren e Duncan sentiram a crítica do astrólogo.

- Essa situação não tem nada a ver com os filhotes de troll que encontramos lá atrás – disse Wurren.

- Não?! Como não?! Você achou mesmo que aquela porcaria que estava no fundo de uma forja abandonada era coisa boa que merecesse ser salva? Pelos deuses Wurren! – Bartolomeu mesclava a acidez com certo tom de bom humor. Sua intenção não era constranger os colegas, mas despertar o bom senso que parecia adormecido.

- Melhor não continuar a discussão. A estrada é espinhosa – Duncan não pretendia criar cisão no grupo, pelo menos não enquanto dependerem uns dos outros para sobreviver dentro da masmorra.

O grupo se recolheu então. Os aventureiros se estiraram pelos cantos da sala para relaxar o corpo e a mente. Adan tirou um cochilo. Bruenor acendeu seu longo cachimbo e fumou uma erva. Wurren apenas fechou os olhos e meditou. Duncan e Bartolomeu, contudo, passaram a vasculhar a sala silenciosamente.

O espadachim encontrou alguns objetos de arte, confeccionados em bronze, mas nada que merecesse especial atenção: tudo era reles espólio, que não interessava a ele. Bartolomeu teve mais sorte, pois numa gaveta do aparador que estava à direita da forja, encontrou um fundo falso e, escondido sob ele, um pequeno livro envelhecido.

Encantado pelo achado, Bartolomeu sentou-se no chão e encostou na parede para ler aquele que, a esta altura, percebia ser na verdade um diário. Nos minutos que se seguiram, o astrólogo decifrou os textos escritos em keolandish arcaico e viu que sua autora é a arquimaga Melza, dona da forja diante da qual o grupo estava prostrado. Do que pode extrair de sua rápida leitura, Melza era uma importante artífice da cidade de Ykrath – capital do Império Ykrathian. Tudo leva a crer que a cidade oculta existente nos pântanos é, portanto, a antiga Ykrath. O diário contém, no mais, essencialmente anotações de pouca relevância para o astrólogo, já que são notas sobre processos para preparar poções e unguentos mágicos, ou para encantar armas. Palavras, ingredientes e gestos de difícil compreensão, o que desestimulou o prosseguimento da leitura naquele momento.

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Descansados, os aventureiros se arrumaram para continuar a exploração da masmorra.

- Sinceramente, acho que é melhor sair daqui. Está claro que não há nada para nós aqui. Os caminhos que percorremos redundaram em inutilidades! – disse Adan.

- Ele tem razão. Os pântanos parecem mais promissores. Achei, por um instante, que este lugar guardaria melhor sorte para nós – concordou Duncan.

- Pelo menos tivemos um vislumbre daquela misteriosa cidade abandona, e acho que encontramos o local certo para investigar – ponderou Wurren.

Os aventureiros debateram as possibilidades rapidamente e decidiram sair do complexo de cavernas. Contudo, quando estavam realizando o caminho de volta, sentiram um forte tremor de terra seguido por estalos secos e sons estrondosos. Uma espessa poeira tomou os túneis e Bruenor correu à frente do grupo apenas para constatar que um desabamento de terra e rochas bloqueava a passagem e que o grupo não poderia mais sair da masmorra pelas vias já conhecidas. Seria necessário continuar a exploração.

- Tá. Mas tô vendo ali em cima alguma coisa. Parece um túnel ou corredor – Bartolomeu apontou para cima. As rochas que desabaram deixaram um rombo aberto, denunciando que havia um complexo de cavernas poucos metros acima dos aventureiros.

- É o que parece. Mas é inacessível. Não podemos escalar até lá – ponderou Bruenor – e nem podemos remover, pedra a pedra, do nosso caminho original.

- O que será que causou isso? – perguntou Adan.

- Não ficou claro? Foi um tremor de terra. Aposto que foi isso que fissurou a rocha lá embaixo também – respondeu o anão.

- Pouco importa. Temos que voltar então – interrompe Duncan, puxando a fila – Sugiro que exploremos aquela abertura que encontramos na antessala da forja – disse, se referido a um túnel aberto de modo grosseiro naquela antessala onde o elemental foi derrotado.

E assim fizeram.

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A parede leste da antessala foi claramente arrombada por alguma força inexorável que a rompeu de dentro para fora, escavando um túnel sinuoso e demasiadamente estreito. Para percorrê-lo, os aventureiros tiveram que se espremer um bocado.

Wurren foi à frente, para usar usa privilegiada visão no escuro – herdade do sangue orquico que carrega nas veias. Adan e Duncan, os dois únicos a carregarem fontes de luz, ficaram no fundo da fila que se formou e aguardavam sempre a uma distância segura, para não denunciar o avanço do grupo.

O túnel se abre uma caverna de aproximadamente trinta e seis metros quadrados. Há muitas estalactites e estalagmites, especialmente no sul, onde a caverna parece ter um prolongamento e a abertura de um novo túnel.

Wurren avança com cuidado, notando que do teto pinga uma água escura que se parece com piche, a qual se acumula no chão formando uma grande poça. A sala fede a mofo e seu ar confinado é sufocante.

O meio-orc evita a poça e avança cautelosamente pela caverna, notando que ali não há nada de muito especial. Segue, então, para o túnel adjacente e descobre que ele resulta em outra caverna com características físicas semelhantes.

Entretanto, nela o meio-orc tem uma visão absolutamente assustadora: entre as estalagmites serpenteia o corpo esquelético de uma enorme, gigantesca, cobra. Sua cabeça é uma caveira humana e seus olhos brilham com uma luz vermelha infernal.

O susto quase desprende a alma do corpo do meio-orc. Seu coração veio à boca.

- Ei! Wurren. Tome cuidado, vi que tem muitos restos de ossos na caverna – sussurrou Bartolomeu que vinha muitos metros atrás, se referindo à caverna com piche no chão.

O meio-orc retorna rapidamente, descuidado um pouco da cautela:

- Saiam! Saiam! A naga! É a naga! – ele sussurrava com claro desespero.

Os aventureiros se sobressaltaram e começaram o caminho de volta. Todavia, Wurren pisou na poça de piche e foi surpreendido quando ela projetou um tentáculo negro que o agarrou.

- Pudim negro!!! – Wurren falou em voz alta, tentando conter um grito para não acordar a naga que julgava estar em estado de torpor muito semelhante ao sono.

O meio-orc puxou a perna com força e se desvencilhou do fungo agressor, porém, todos ouviram neste instante um chocalho familiar!

- Vejo que há ratos no meu coviiiiiil! – a voz assombrosa se seguiu à visão da esquelética serpente saindo de dentro da caverna próxima. Ela não se arrasta pelo chão como uma cobra comum, mas ao invés disso flutua como uma exibição de grande poder mágico.

Os olhos dos aventureiros se arregalaram e o pavor tomou conta de todos!

- Esssstes são os pântanos sssão minha cassssa, meu território. Território de Ssssssalahadhra!

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