Os Herdeiros de Ânn - 15º Ato

Adiante, a caverna se estende apenas alguns metros, passando por um lanço de degraus irregulares esculpidos de modo tosco na rocha, quando então se subdivide em duas passagens.

Percebe-se de plano que os dois segmentos distintos do túnel são entrecortados por fendas subterrâneas. A luz não alcança o fundo, do qual se ouve ocasionalmente gemidos sinistros que se confundem com o eco dos passos dos aventureiros e com o sopro da brisa gélida que sibila da escuridão até as frestas das rochas que ladeiam o bando.

No primeiro caso, através da passagem à direita, fica claro que do outro lado da fenda o túnel prossegue tal como antes, adquirindo poucos metros depois, porém, características semelhantes ao salão das escadas onde Wurren escorregou – ou seja, parecem ter sido trabalhados por mãos humanas. Já na passagem à esquerda, o túnel ruiu por completo, tendo sido muito certamente engolido pela fenda – conforme atesta Bruenor. Aqui, até onde a luz alcança, é possível ver, cravados na parede da fenda, diversos parafusos cujas cabeças são terminadas em anéis vazados por cordas de cânhamo apodrecidas. Nota-se, outrossim, que há marcas na pedra que parecem ter sido deixadas por picaretas de escalada.

– A passagem por aqui é perigosa. É melhor vermos os corredores primeiros – diz Adan, pretendendo evitar uma escalada pelos pítons, favorecendo, com isso a exploração pelos túneis antigos.

Bartolomeu assente positivamente, enquanto Duncan inspeciona a fenda profunda, aguçando a audição e o olfato a fim de detectar sons e cheiros estranhos que exalam de demônios e outras criaturas baixas que podem estar espreitando na escuridão.

– Aquela criatura bizarra, do grande olho verde, parece que ainda nos está observando – diz Adan em tom soturno.

– Bah! Vamos logo explorar aqueles túneis – grunhiu Bruenor, por fim, levando os aventureiros até lá.

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Transpor a fenda não foi difícil: bastou saltar. E mesmo o anão conseguiu fazê-lo sem maiores dificuldades.

Os túneis adiante levam os aventureiros até um conjunto de câmaras especiais, nítida e cuidadosamente escavadas na pedra por mãos habilidosas, possivelmente de humanos, como já asseverou Bruenor mais cedo. As passagens são estreitas e baixas, mais baixas do que estreitas.

O anão observa tudo com atenção e perspicácia. Depois de algum tempo, vira-se para os demais colegas e diz:

– Parece que os túneis foram projetados para pessoas pequenas!

– Anões? – Dágora interferiu, quebrando seu silêncio.

Bruenor olha de soslaio para a felina e responde:

– De modo algum. Os salões dos anões costumam ser gigantescos! São magníficos! E mesmo os túneis mais estreitos costumam preservar uma altura e largura consideráveis, haja vista a necessidade de ventilação e controle de temperatura. Não. Aqui as paredes são baixas, sufocantes. A umidade parece que vai inundar nossos pulmões a qualquer momento.

Bruenor desliza a palma da mão pela parede, fitando-a com olhos consternados. Parece que ele pensou em dizer algo, mas o que quer que fosse, preferiu guardar para si mesmo.

Nos corredores, de doze em doze metros, aproximadamente, as paredes possuem suportes metálicos destinados a segurar tochas. Não estão todas lá, obviamente, e as que ali se encontram estão há tanto tempo apagadas que as cordas de algodão usadas já estão secas e, de certa maneira, inutilizadas.

Numa bifurcação adiante, os aventureiros tomam o caminho que ziguezagueia como passagens de um labirinto!

– Que tipo de lugar é este, Bruenor, que precisa fazer tantas curvas assim? – pergunta Bartolomeu.

O anão dá de ombros, pois não tem uma resposta para tal pergunta. De fato, a geometria da construção é estranha e as curvas são claramente desnecessárias.

Seja como for, ao final do corredor Bartolomeu avista uma enorme estátua de serpente mirando a passagem. Como possui herança faérica, o astrólogo avança no escuro, permitindo que seus olhos se acostumem com a escuridão e as imagens antes apagadas surjam como borrões cinza que aos poucos ganham definição. É que apesar de conseguir enxergar no escuro, nestas condições seus olhos não distinguem cores – característica, aliás, compartilhada com anões e outras raças semi-humanas.

O astrólogo avança com cuidado, se aproximando. A estátua descreve uma serpente gigante, dona de um enorme capuz (tal como uma naja), enrolada sobre o sol (como se sobre ele reinasse). Mais tarde Bartolomeu veria que em suas costas está pintado um símbolo estranho e indecifrável. Por ora, contudo, sua concentração estava voltada para a mítica figura diante de si, a qual acreditava fosse a representação de alguma divindade cujo nome, entretanto, não sabia dizer.

Repentinamente, então, um estalo seco e Bartolomeu sente que uma placa de pedra escondida no chão cede com o peso de seu corpo, disparando uma armadilha! Um alçapão se abre sob seus pés. O astrólogo salta para frente e para o lado. Mas, então, um outro alçapão se abre, forçando-o a agir com puro reflexo novamente!

Quando se recuperou do susto e viu que os alçapões reservavam fossos profundos e mortais, ouviu-se um estrondo surdo vindo do fundo do corredor, onde estavam os demais.

– Cuidado! Bruenor, Adan! Saiam daí! – Wurren gritou a plenos pulmões, pois via que uma enorme bola de pedra descia pelos corredores provocando estrondos em cada esquina, apta a esmagar um incauto aventureiro!

Todos conseguiram evitar mais essa armadilha, exceto o próprio meio-orc! Quanta ironia! Pois ele, que alertou a todos para o perigo, propiciando a eles a chance de esquivarem, ficou ele próprio no meio do caminho e acabou esmagado contra uma das paredes do corredor contra o qual a pedra se chocou!

Duncan correu em seu socorro e rapidamente lhe impôs as mãos. Os ferimentos do meio-orc foram parcialmente curados. Wurren sobreviveria, porém, estava muito debilitado agora.

– Não há mais nada aqui, exceto aquela estátua que já inspecionei – diz Bartolomeu, que sob a luz da tocha de Adan percebeu que a serpente tinha suas escamas em coloração avermelhada – Se você estiver apto a caminhar, Wurren, é melhor sairmos. Há muitas armadilhas aqui. Estou certo que há alguma passagem escondida, do contrário este local não faria sentido algum. Mas não consigo achar nenhuma pista concreta!

O meio-orc tosse bastante. Seus pulmões quase foram esmagados. Suas costelas estavam fissuradas, e a imposição de mãos do espadachim não foi o suficiente para cura-las. Mesmo assim, ele disse:

– Depois de descansar um pouco, e sei que isso não pode ser feito aqui, eu orarei e pedirei aos espíritos da natureza que me abençoam que me concedam encontrar essa passagem secreta, se é que há alguma para ser encontrada!

Assim, os aventureiros saíram dali, de retorno para a segunda bifurcação, onde explorarão novas passagens. Duncan e Bruenor ficaram um tempo ainda contemplando a estátua da serpente, mas logo em seguida se juntaram aos colegas.

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A passagem restante leva os aventureiros a câmaras sinistras.

Uma delas é retangular e se estende desde sua entrada cerca de dez metros até uma grande construção de pedra, uma forja grandiosa que se encontra ainda fumegando, nada obstante o abandono, como se sua chama lutasse ainda para permanecer acesa. À direita dela, uma bancada de madeira repleta de ferramentas antigas: pinças, martelo, bigorna, espeto, sargento e fole.

Na parede sul, do lado oposto à forja, uma mesa redonda está cheia de antigas armas e aprestos (um sino, um jarro, um elmo, uma escultura que representa um cervo, uma espada curta e uma fivela de cinto). A maior parte parece inútil para os olhos de um guerreiro, eis que feitas com couro, que se encontra puído, e com bronze – denunciado pelo zinabre verde que lhe recobre após tanto tempo de abandono. Ainda assim, são peças belíssimas e mesmo o cardenilho lhes empresta algum valor estético.

Enquanto observam a sala com atenção, os aventureiros ouvem um estalo e logo percebem que uma pedra avermelhada saltou para fora da forja.

Bartolomeu e Wurren se aproximam e olham para o interior da forja.

– Meeee ajudeeemmmm…. meeee ajudeeeeeeemmmm… – uma voz rouca, mas que ainda assim revela-se infantil ressoa pelo cômodo, saída do interior da forja, onde o meio-orc e o astrólogo veem com horror uma criatura deitada sobre pedras em brasas nas profundezas. É pequena, não deve ter mais do que oito anos de idade (se humano fosse), não possui pelos no corpo e sua pele enegrecida pela agressão do calor, apresenta fissuras de vermelhidão como se fosse carne viva.

– Salveeeemm-meee!!! Arrrgggggg!!! – a criança, se é que se pode chamar assim, ergue uma das mãos em direção ao topo da forja, olhando para os aventureiros enquanto seus olhos ardem como o sol.

Bartolomeu recua e diz:

– Vamos sair daqui! Há uma estranha criatura agonizando na forja. Esse local definitivamente não é seguro!

– Espere! – diz Wurren em voz alta.

– Ah não! – exclama Adan.

– Putz! Não me diga que… – Bartolomeu foi interrompido pela fala de Wurren.

– Vamos ajudar essa pobre criatura!

– Não é possível! De novo isso? Que são vocês? – perguntou Bartolomeu, indignado.

– Aposto que novamente o astrólogo tem razão – disse Bruenor – Como é tal criatura?

Quando Wurren começa a descrevê-la, o anão avança em direção à forja e a espia.

– Pelo Martelo de Moradin!!! – exclamou Bruenor – Parece que é um elemental! Eu já ouvi dizer que ferreiros muito antigos aprisionavam estas criaturas para aquecerem suas forjas mágicas!

– Mais um motivo para irmos embora! – exclama Bartolomeu.

Wurren estava irredutível. Mesmo Duncan relutava um pouco em ajudar desta vez, mas havia algo em si que dizia ser necessário ajudar. Ainda indignado, Bartolomeu se afastou.

– Bruenor, me ajude com isso aqui! – disse Wurren olhando para um fole que está na mesa ao lado da forja. Ambos usaram o equipamento para soprar as brasas, aos poucos fazendo com que o fogo ardesse novamente!

Neste instante, porém, a inofensiva criatura se transformou num turbilhão de fogo e calor! De fato, era um elemental! E ele parece furioso!

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