Os Herdeiros de Ânn - 13º Ato

Quando Bartolomeu deixou a tenda de Ânn e reencontrou os colegas ele tinha um sorriso no rosto que não podia disfarçar.


– Está tudo bem? – Adan perguntou, despretensiosamente.


– Certamente – respondeu Bartolomeu, levando a ponta dos dedos até os lábios, acariciando-os suave e rapidamente. – Não temos tempo a perder, temos que chegar ao rastro da naga o quanto antes!


Os aventureiros se despediram dos Wyverns, que não tiveram tempo de acenar em adeus graças às tarefas que empreendiam para o desmonte do acampamento.


A estrada adiante era já suficientemente conhecida para que os aventureiros se metessem em encrencas. A trilha sinuosa entre o lago pantanoso e os outeiros, as palafitas sinistras de Folly e os labirintos alagados que só podiam ser percorridos de barco.


Wurren se lembrava bem dos caminhos, pois havia prestado muita atenção, especialmente às passagens alagadas que levam até o rastro da naga. Sua mente trabalhava constantemente para não se esquecer dos pequenos detalhes sem os quais o grupo inteiro poderia se perder. Sua responsabilidade era muito grande, e quando olhava para os colegas e os via conversando durante a caminhada, sentiu que devia desculpas a eles:


– Eu sei que já passou algum tempo, mas eu quero me desculpar com vocês pelo que aconteceu ontem. Eu não pretendia fazer mal ao ser Olin.


– O quê?!?! Você pode virar um urso gigante num piscar de olhos?! – disse Bartolomeu de forma marcadamente irônica.


– Eu sei que deveria ter contado isso a vocês antes… – dizia Wurren em resposta quando foi interrompido por Adan.


– Pois é, mas não contou. Agora é que ficamos sabemos que estamos andando com uma aberração de circo! E ainda por cima uma totalmente descontrolada!!! – o ladino deu uma tremenda bronca no meio-orc, enquanto Duncan só ouvia o diálogo sem expressar nenhum sentimento.


– Do que vocês estão falando? – perguntou Bruenor, desligado.


– Ué?! Você não ficou sabendo meu bom anão? – retoricamente perguntou Adan – Nosso amigo aqui tem poderes além da imaginação que ele escondeu de nós o tempo inteiro.


– Hummm… – Bruenor coçou a barba e deu um olhar desconfiado para Wurren.


– Não é nada disso! Parem de falar besteiras! Nem eu mesmo sabia que era capaz de fazer este tipo de coisa. Ainda estou aprendendo a lidar com a situação – respondeu o meio-orc.


– Pois então é pior ainda! – bradou o anão – Você está mesmo descontrolado! Hahahahaha – e deu uma longa gargalhada.


– Eu avisei – disse Adan.


– Não. Olha só. Não é nada disso. Eu sabia que um dia este tipo de coisa poderia acontecer, graças aos meus conhecimentos, meus estudos e minha cultura. Mas não podia adivinhar quando! É só isso. E quando eu fui pego na armadilha de urso, fiquei furioso! Detesto caçadores! – explicou Wurren.


– O caso é pior do que pensei – disse Adan – Você por acaso é estúpido?! Pense Wurren! O homem tinha uma armadilha armada na soleira da porta de casa, no meio de um brejo infestado de homens-lagartos! Você achou mesmo, por um só segundo, que ele pretendia caçar ursos!!! Pelos deuses…


– O Adan tem razão – grunhiu Bruenor – Você tinha que ter feito melhor julgamento.


– Eu sei. Não pensei direito. Mas isso não vai mais acontecer… – Wurren estava ficando muito envergonhado, e seu rosto, embora marcantemente duro como a face de qualquer meio-orc, esboçava tristeza e vergonha além do que era merecido.


– Rapazes, já chega. Wurren já se desculpou. Estávamos todos nervosos e muito preocupados. Ninguém esperava encontrar um velho solitário no meio dos pântanos. Vamos encerrar o assunto de uma vez por todas, pois temos muitos problemas pela frente ainda! – disse Duncan, pacificando a conversa ao lembrar a todos que a estrada era longa e os perigos muito grandes.


****


Seguir o rastro da naga não foi difícil. Wurren desempenhou com maestria a tarefa de guiar os colegas, que abandonaram a canoa e seguiram caminhando lentamente através do estreito canal, desviando de raízes e galhos retorcidos, numa estafante trilha até que, no ponto em que o rastro desaguava numa zona alagada muito maior, puderam ver um grande paredão de pedra, como uma vasta falésia que se alastra de leste a oeste até onde os olhos podem ver e que se ergue dezenas de metros, como uma monumento imponente diante de seus olhos.


– Mas que diabos! – disse Bruenor.


– Esse lugar… – disse Adan – Parece deslocado de todo o restante do pântano.


– Sim. Você tem razão. Este paredão de pedra não se parece com nada que seja comum num pântano normal – falou Wurren.


– Vamos atravessar esse canal mais largo. A correnteza é fraca, como podem ver – comandou Duncan, vendo que do outro lado há uma faixa de terra seca e cascalhos que se estende aproximadamente por cinquenta metros até o sopé do paredão. Apontando na direção de tal área, o espadachim ainda disse:


– Vamos conversar melhor lá, onde poderemos descansar um pouco também.


Eu acho que estamos perto de um lugar especial – disse Adan – Lembrem-se das história que ouvimos: o império perdido, a cidade oculta, existiam neste local antes mesmo disso tudo ser alagado e virar um pântano!


Os aventureiros atravessaram o canal com muitos pensamentos em sua mente, especialmente o temor por algum terrível adversário. O local estava estranhamente calmo, e a travessia do pântano, até agora, muito pouco preocupante de fato.


Bartolomeu remexeu algumas rochas no solo primeiro e depois se aproximou o máximo que pode do paredão, num ponto mais alto, para olhar com calma a majestade dos pântanos de rushmoors – encobertos que estavam apenas por uma fina camada de brumas, que permitiam, nada obstante, ver com relativa clareza as léguas e léguas percorridas com ardor através dos canais alagados que entrecortam aquilo que aos olhos do astrólogo era uma espécie de bosque sinistro, cheio de árvores e arbustos retorcidos que parecem assombrados.


– Olhando daqui, sinto até saudade de Folly – disse em voz alta, sem que houvesse ninguém por perto para ouvir – Lá, pelo menos, os pântanos tem mais vida. Aqui tudo é desolado.


Duncan estava de plantão na margem do canal, observando enquanto Adan subia (à exemplo de Bartolomeu) para uma parte mais alta próxima do paredão. Só que o ladino andou na direção oposta, olhando com atenção para os cortes existentes no granito em busca de alguma coisa estranha e diferente: uma pista que pudesse lhes dizer para onde ir agora que o rastro da naga acabou.


– Essas rochas têm um formato estranho – sussurrou Wurren, de modo que só Bruenor ouviu. O anão olhou para o chão, onde o meio-orc supunha ter encontrado algo estranho, e depois olhou para o lado e para cima.


– Não me estranha – respondeu Bruenor – Elas rolaram lá de cima, está vendo? – e ele ergueu o braço para apontar a existência de uma pequena construção em ruínas no alto do paredão.


Bartolomeu, que se aproximava, ouviu o final da conversa, olhou para cima, viu o que apontava Bruenor, e disse:


– Ameias! Havia ameias lá em cima?!


– É o que parece – responde o anão.


– Parece que esse paredão era uma muralha na verdade – ponderou Wurren.


– Ei pessoal, tem alguma coisa aqui! – gritou Adan, quando ouviu um grunhido assustador atrás de si. O ladino desceu com pressa até a margem, onde se encontravam os demais.


– Tem uma abertura na rocha, uma fenda que parece dar acesso à uma caverna, porém eu acho que pode ser o lar de … – a fala de Adan foi interrompida quando o anão gritou:


– TRRRRRRROOOOOOOOOOOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL!!!!!!!!!


Todos olharam assustados para o paredão e viram uma gigantesca criatura saindo da caverna a que Adan se referia. Sua pele era meio esverdeada, como se estivesse repleta de musgos. Era bípede, e seus braços particularmente longos – aliás, como também era seu nariz.


Duncan sacou sua espada nova, Bartolomeu deslocou-se para o lado, rapidamente armando sua besta e Wurren já preparava um de seus feitiços druídicos. Adan puxou o capuz, se camuflando junto ao cascalho. Bruenor pegou o machado em mãos, girando-o com gosto. Seus dentes estavam cerrados, mas seus lábios (mesmo debaixo da vasta barba marrom) denotavam um sorriso sádico.


– Fogo! Óleo e fogo! Trolls padecem ante o fogo purificador da forja de Moradin! – e quando disse isso o anão partiu para cima do gigantesco inimigo.


Bartolomeu retardou um pouco sua ação, pois tinha entendido as palavras do anão e tinha consigo um fraco de óleo para lamparinas, o qual pegou com uma das mãos e atirou na direção do inimigo, esperando vê-lo embebido no líquido viscoso. Porém, o recipiente não se partiu com o impacto, e caiu no chão ileso – sem espalhar o óleo que continha.


Neste momento, Duncan e os demais já estavam cercando a criatura, que entre um golpe e outro parecia se regenerar magicamente. Adan conseguiu atingir o inimigo com seu sabre em diversos pontos fracos, Bartolomeu atirava com maestria e até mesmo Dágora teve seu momento de protagonismo, quando abandonou sua forma de felino doméstico e, se transformando em uma temível pantera, atacou o Troll com suas patas e mandíbula!


Bruenor gritava e gesticulava. Como todo bom anão, ele conhecia muito bem a ameaça que os Trolls representam, pois eles são familiares dos gigantes que ameaçam a paz nas montanhas e nas colinas – inimigos seculares do povo anão.


Ainda bem que o anão era útil taticamente, pois, infelizmente, estava com a pontaria pouco afiada naquela tarde, já que o Troll desviava de todos os seus golpes.


Wurren desta vez não hesitou: era o momento de mostrar novamente seu poder! Transformou-se num urso marrom enorme e avançou com ferocidade contra o inimigo nojento.


O combate era terrível, mas a força de urso do meio-orc parecia agora trazer uma vantagem para os aventureiros que lutavam com bravura, sem deixar rota de fuga para o inimigo.


Finalmente, porém, a monstruosidade atingiu um golpe muito violento no druida, que quase caiu no chão, sendo obrigado e recuar e abandonar sua forma de urso. A criatura, porém, estava muito furiosa e não se contentou com isso. O Troll ainda atingiu Dágora com sua garra afiada e quase matou o felino, que caiu inerte no chão!


Duncan, porém, se aproveitou do momento de distração da criatura, que saboreava o revés imposto aos múltiplos adversários, e atingiu um golpe quase fatal ao monstro, cuja carne se abriu expondo vísceras e um odor insuportável. O gigantesco corpo caiu no chão se retorcendo.


– Ele vai se regenerar assim! Fogo! – gritou Bruenor, ao que rapidamente respondeu Bartolomeu, que acendeu uma tocha e jogou-a para o anão. Ele a pegou e enfiou com brutalidade na cara do Troll.


Ouviu-se então um silvo agudo, denotando que a carne de sua face fritava com o calor da tocha. Iluminado pelo fogo, o rosto de Bruenor suava e evidenciava o prazer sádico que sentia naquele momento.


Wurren e Adan observaram com preocupação a exibição de crueldade do anão, embora fosse um mal necessário naquele instante.


Subitamente, então, ouviu-se um estalo.


– Afastem! – gritou Bruenor.


O frasco de óleo se partiu sob o corpo do Troll, e o anão fez questão se fornecer o calor necessário a que se iniciasse o grande incêndio que consumiria tudo o que restava no gigante monstruoso.


– Nós precisamos sair daqui agora, essa pira denunciará nossa presença – disse Bartolomeu, enquanto Wurren se ocupava de ajudar Dágora, impondo-lhe as mãos para curar seus ferimentos.


– Vamos explorar a caverna, é o único lugar onde podemos ficar agora – respondeu Adan.


– Não sei se é adequado – ponderou Wurren – Trolls dificilmente andam sozinhos. Podem haver mais.


Os aventureiros debateram a questão por alguns minutos, mas acabaram se convencendo de que era melhor enfrentar algum perigo sob o abrigo da misteriosa caverna do que no descampado dos pântanos, afinal, Kharlixes e Salahadhra poderiam encontra-los lá.


****


Adan foi o primeiro a entrar na caverna. Com sua nova capa e capuz, era praticamente indistinguível do meio-ambiente. Além disso, era naturalmente muito silencioso, andava como se tivesse plumas nos pés e cuidava sempre para tomar rotas escuras e pouco óbvias.


Depois de penetrar alguns metros, viu que o segmento inicial da caverna era seguro, embora mal cheiroso.


– Façamos silêncio e, com sorte, poderemos descansar um pouco aqui antes de prosseguir. Ficarei de vigia. Aproveitem para comer e esticar as pernas. Algo me diz que esse lugar é importante. Pode ser até mesmo uma passagem através do paredão rochoso para a cidade antiga, é o que penso – disse o ladino.


– Ótimo – respondeu Bruenor, tirando as botas para esvaziá-las de toda água que havia entrado nelas durante as “aulas” de natação no rastro da naga – Aposto que também está cheio de tesouros. Trolls são ávidos colecionadores! Aposto que há riquezas espalhadas por aqui! Hahahaha!


– Fale mais baixo Bruenor – sussurrou Wurren.


– Sim. Mas não estamos aqui para roubar tesouros, e sim para encontrar a cidade do povo-lagarto – respondeu Duncan, dando uma leve bronca no anão.


– E daí? Você não ouviu o que o Adan falou? Essa caverna bem pode ser nosso portão de acesso à cidade antiga, onde vivem os lagartos e, possivelmente, Kharlixes. Explorá-la não fará mal algum. Pegar tesouros também não! Além do mais, Trolls são criaturas vis.


Duncan não podia responder com propriedade ao que Bruenor ponderou, porém, admoestou a todos sobre a necessidade de permaneceram focados no objetivo maior, que é descobrir o paradeiro do Grell e a ralação do dragão e da naga com a revolta do povo-lagarto.


****


Finalmente, depois de uma hora de descanso, os aventureiros se puseram de pé novamente e, liderados por Adan e Wurren, começaram a andar pelos túneis estreitos.


A caverna tinha um chão traiçoeiro, pois era uma abertura natural na rocha, escondendo, portanto, muitos buracos e passos em falso. O gotejar constante também denunciava a extrema umidade do lugar, e contribuía para que o cheio do confinamento se tornasse ainda mais sufocante.


Adan tomava cuidado à frente do grupo. O caminho se bifurcou adiante, porém, e os aventureiros ficaram em dúvida sobre qual túnel tomar.


– O ar do túnel ao norte é mais fresco – disse Wurren.


– Devemos ir por ele então – falou Duncan -, já que provavelmente leva até uma saída.


– Nada disso! Ainda não encontramos o covil do Troll – disse Bruenor.


Duncan ficou um pouco estressado, mas pelo menos contou com o apoio de maioria para seguir adiante, pelo corredor que exalava um ar mais fresco.


Desta vez, porém, foi Wurren que tomou a frente, sendo seguido de perto pelo ladino.


Muitos metros depois da bifurcação, os olhos do meio-orc tiveram dificuldade para se adaptar à grande claridade que emanava de uma abertura enorme diante de si cerca de vinte metros abaixo, ao final de uma escadaria cuidadosamente esculpida na rocha com detalhes que sugeriam mãos humanas (conforme mais tarde Bruenor diria).


Wurren ergueu o braço direito até a altura dos olhos, para minimizar o incômodo com a luz forte. Deu um passo adiante e… ZUPT!


O meio-orc escorrega rapidamente pelos degraus, como se fossem feitos de óleo. O corredor tem uma inclinação de quase quarenta e cinco graus, o que fez com que o druida rolasse até o final, quando atravessou a luz e o clarão e viu que a abertura da caverna estava dezenas de metros acima do outro lado do paredão!


Wurren conseguiu evitar a queda mortal, contudo, ao se agarrar à uma raiz que, muito saliente, se projetava para fora da rocha com insistência. O meio-orc estava agora dependurado no paredão, observando maravilhado que havia um vale secreto escondido atrás da falésia. Aliás, o paredão circulava todo o vale, no centro do qual podia ver remanescentes de uma antiga civilização: tudo tomado pela vegetação ou alagado.


– Cuidado! – disse Adan, dando alguns passos adiante para ver o que tinha acontecido com o amigo – O piso está escorregadio! – e, então, pegou corda e arpéu e improvisou um laço que fosse útil aos mais estabanados.


Na verdade, o chão não estava cheio de óleo ou coisa assim. Pelo contrário. Estava limpo de entulhos, apenas levemente empoeirado, e seco – definitivamente seco. Porém, os degraus de granito eram tão polidos que formavam uma superfície tremendamente escorregadia para aventureiros cujas botas estavam preparadas com pregos bons apenas para transpor terrenos lamacentos, ou terras selvagens, mas não para deslizar graciosamente por pisos polidos!


O meio-orc conseguiu subir pelas raízes até voltar para dentro da caverna. Adan e os demais já tinham ido até ele neste instante, preocupados com o colega, instante em que se maravilharam com a visão da cidade perdida.


Bartolomeu era o único que não tinha descido, pois certamente se preocupava em não expor a retaguarda do bando.


****


De repente, o astrólogo sentiu alguma coisa cair na ponta de sua bota (sim, ele arranjara um par de botas antes de sair do acampamento dos Wyverns, afinal, perdera as sandálias em Folly).


Bartolomeu abaixou a cabeça para olhar a ponta dos pés, quando sentiu um líquido viscoso e nojento cair na sua nuca e escorrer pelo pescoço e ombros. O aventureiros olhou para cima e para trás horrorizado ao perceber um enorme verme espreitando no teto da caverna.


A criatura era cumprida e tinha muitas patas minúsculas, como uma centopeia. O seguimento superior de seu corpo cilíndrico, porém, ostentava uma cabeça horrivelmente feita e nojenta, com dois olhos esverdeados que eram ladeados por um par de antenas e dezenas de tentásculos pegajosos os quais estavam cheios de uma gosma branca.


O monstro atacou Bartolomeu com seus tentáculos, atingindo o rosto do astrólogo. Embora o golpe não tenha causado muita dor, o aventureiro se apavorou ao sentir seu corpo enrijecendo com a toxina inoculada pelo ataque da criatura. Antes de ficar completamente inerte, porém, ele ainda tentou empreender uma corrida, sem sucesso, e gritou:


– Carniceiro Rastejante!!!


Os seus colegas conseguiram ouvir a mensagem.


– Carniceiro?! – perguntou Duncan.


A pergunta era retórica. A maioria dos aventureiros já ouviu falar desta criatura terrível, que geralmente espreita em masmorras, cavernas e túneis abandonados. São vermes enormes e muito perigosos, que paralisam suas vítimas e espera que elas apodreçam para só então comer sua carne.


– Subam rápido! – gritou Wurren.


Na verdade, todos tiveram que tomar cuidado para não escorregar nos degraus de pedra polida. A tarefa foi feita mais simples, contudo, graças à corda que Adan instalou no local.


Quando chegaram ao topo das escadas, viram o verme nojento tentando capturar o corpo inerte de Bartolomeu, que havia despertado do torpor por breves instantes, já que se organismo lutava para mantê-lo em movimento. Entretanto, um novo ataque o Carniceiro inoculou mais veneno no astrólogo, cuja boca se encheu de saliva, enrijecendo o cada músculo seu.


Com Bartolomeu imobilizado pelo veneno, os aventureiros tinham que ser rápidos ao eliminar a criatura.


Adan conseguiu driblar as defesas dela, e abriu um corte em seu abdômen com o sabre afiado. Duncan também não hesitou, cortando o monstro com sua espada longa, que agora brilhava como uma tocha!


Dagora deu um impulso e saltou alto para agarrar-se ao corpo do inimigo, que ainda estava preso ao teto. O movimento impressionante do felino deslocou o Carniceiro, porém, ele conseguiu inocular seu veneno também no pobre animal, que caiu inerte no chão com a boca salivando.


Duncan atingiu o corpo da criatura mais uma vez, quando vísceras e sangue verde jorraram no chão. A criatura então refugou, encolhendo o corpo contra as rochas em claro sinal de medo. Wurren olhou-a nos olhos, e percebeu que a criatura estava faminta e seu ventre, agora rompido e exposto, carregava uma saca cheia de ovas.


Adan deu mais um golpe na criatura. Ao morrer, o restante de suas vísceras caiu no chão, e o ladino e o anão se divertiram esmigalhando as ovas no chão. Wurren ão sabia o que pensar a respeito, e preferiu não fazer nada. Embora se tratasse de uma monstruosidade, não podia deixar de sentir certa piedade.


****


Bartolomeu conseguiu mover os músculos de novo. O veneno inoculado não era tão poderoso assim, afinal. Aliás, o mesmo sucedeu com Dagora.


– Vocês viram aquilo? – Wurren perguntava sobre a vista da cidade antiga, após se certificar que os colegas estavam todos bem, sem maiores ferimentos.


– Mais ou menos. Não deu tempo de ver muita coisa depois que esse aqui começou a gritar de pânico – respondeu Adan.


– Há! Você viu o tamanho daquele bicho? – Bartolomeu tentou se escusar.


– E agora? – perguntou Wurren.


– Temos que prosseguir pelo único caminho que nos resta. Aquele buraco que quase te matou é alto pra burro! Não temos como passar por ali, principalmente porque pra voltar vai ser difícil! Prefiro encontrar uma passagem mais segura – disse Adan.


– Se ela existir – ponderou Bartolomeu.


– Só saberemos se procurarmos – respondeu Adan, avançando para a escuridão das cavernas de novo ao vestir seu capuz. O ladino avançou pela passagem que antes os aventureiros preferiram ignorar. Sim. Ali o ar é menos fresco. De certo, porém, que nem sempre ar fresco significa passagem segura: isso todos já tinham aprendido.


O ladino avançada com cuidado, em silêncio e absolutamente imperceptível. O corredor diante de si tinha outra bifurcação poucos metros adiante. Porém, Adan teve tempo de investigar uma das passagens antes que Bartlomeu lhe seguisse com uma brilhante tocha em mãos.


– Mas que raios!!! Por que tens que me seguir! Toda hora é isso! Deixa eu fazer meu trabalho cacete! – Adan dava uns berros de raiva ao ver-se iluminado pelo farol de Bartolomeu, que era seguido dos demais.


– Aqui é perigoso, cara! Você não pode ir andando sozinho assim! Vai acabar morrendo! – o astrólogo tentava ponderar.


– Bah! Esse é o meu trabalho. Eu sei fazer isso. Vocês precisam confiar em mim, se não de que sirvo! Que merda! Pra quer serve um ladrão neste bando de trogloditas? – Adan estava, realmente, muito aborrecido. E com certa razão. Afinal, até mesmo Katherina soube identificar nele os atributos de um ladino. Contudo, aqueles seus colegas, que com ele estavam há dias em convívio, não tinham conseguido perceber que seus talentos estavam nas operações à socapa e à sorrelfa.


Bom, a bem da verdade, isto poderia não ser muito óbvio para todos. Uns até poderiam tê-lo percebido, se Adan demonstrasse antes essa sua predisposição com maior franqueza. Outros talvez não percebessem nem assim. De qualquer forma, se antes havia alguma dúvida, agora estava claro que Adan se julgava o ladrão do grupo, alguém que era capaz de empreender missões silenciosas.


– Ah! O que é aquilo? – Duncan observou um olho grande e esverdeado espreitando no escuro, cuja pupila brilhou como a de um réptil que se ilumina pelas tochas.


Todos ficaram sobressaltados. Duncan avançou para ir atrás da criatura – podia jurar ser um demônio. Wurren, todavia, lançou um olhar de preocupação para a nova bifurcação.


– Não se preocupe com isso – disse Adan. Eu já olhei aí. Tem uma sala repleta de musgos e fungos que ficam aspergindo esporos venenosos no ar. É melhor não entrar. Não tem mais nada. Não há passagem alguma.


Os aventureiros, então, seguiram pela caverna sinuosa, empreendendo uma busca pelo olho verde que, de momento em momento, insistia em se exibir na penumbra das tochas.


– Que diabos será isso?! – Duncan tomou a frente, depois que o bando desceu um lance de escadas entalhado no chão da caverna. Bartolomeu e Wurren ainda conseguiram observar no canto do corredor uma porção de ossos empilhados e carne putrefata. Mas Duncan continuava andando, e avançando com certo descuidado, até que a caverna se abriu subitamente à sua direita e, quando se virou para olhar, viu que havia uma passagem para uma grande alcova e nela um Troll ameaçador surgiu com sangue nos olhos!


– A mamãe Troll !!! – Bartolomeu soltou quase um ganido de dor.


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Comentários

  1. Os tremores da noite anterior ainda estremeciam Bartolomeu em sua esteira. 'Uma bruxa. Uma súcubo. Uma fada má. Mas não era Ânn, não podia ser', o astrólogo repetia debilmente, meio dormindo, meio acordado, como um mantra, se agarrando a essas palavras, tentando dar sentido àquela cena perturbadora, que ocorreu após um sonho incomumente perturbador.

    Além da questão de se era Katerina ou não, outra o incomoda: se ele tivesse certeza de que era ela, teria aceitado? Como um cão faminto escorraçado por bêbados de taverna, quando lhe estendem a mão com algum alimento, Bartolomeu desconfia do murro, ou da comida envenenada. É difícil se desfazer de certos hábitos, e neste último mês desde sua fuga, Bartolomeu tem tido dias conturbados, tentando se acostumar a sua vida de liberto, oscilando entre o instinto de sobrevivência que marcou seus anos de cárcere seus trejeitos juvenis, cercado de livros, lazer, cantos e danças.

    Parado pela segunda vez em frente à estátua de Tritereão, Bartolomeu rumina esses pensamentos, enquanto se apressa para alcançar seus companheiros. Sem perceber, leva a mão ao presente de Ânn, pendurado em seu pescoço, e lembra da observação de Katerina, que se disse incomodada por não conseguir "ver" Bartolomeu claramente. 'Claro que não', ele murmura baixinho.

    Educado com os maus hábitos dos elfos, Bartolomeu é dado a digressões, perguntas, causas e consequências. E ele pensa melhor quando toca sua flauta, em meio a notas cristalinas ou dissonantes, ou então, como agora, perambulando absorto. Claro que ela não conseguiu ver nada, se ele próprio ainda tenta arrumar o que sobrou daquele menino que se viu guerreiro com a guerra invadindo sua mocidade, e a escravidão maculando o que conhecia como vida adulta até agora! Aquele pingente era o símbolo de sua maior amante, que o deflorou com 16 anos e sussurrou indecências durante os 3 anos de cárcere, num flerte mórbido a cada noite, quando ele pensava em cortar sua garganta, ou fazendo com que ele não se entregasse ao cansaço ou desvario. Durante 6 anos foi a Morte a única a lhe fazer visitas, curtas ou íntimas, a lhe tentar, a espreitar cada emboscada.

    Bartolomeu morreu por duas vezes, percebia. Na primeira vez, enterrou lar e família. Da segunda, aprendeu a dar valor a vida. A mão que dá o murro é a mesma que alimenta. Não há escapatória: é fútil escolher voltar à vida que tinha antes, ou mesmo durante a guerra ou deixar-se corroer por todos os traumas do cativeiro, pois ambas as coisas já estão entranhadas e mortas dentro dele, e se sobreviveu a tudo isso é porque de fato aprendera a flertar com a morte dentro de seus próprios termos, nos extremos da vida: primeiro, quando lutou por (e perdeu) tudo o que conhecia como vida, e depois, quando sua vida era tudo o que lhe restara e escolheu não abrir mão dela.

    Enquanto se levantava, cheio de uma gosma fétida, do chão da caverna, Bartolomeu ainda estava perdido numa visão que imaginara ter enquanto vislumbrava a escuridão, enevoada como a seus últimos sonhos. Lembrou-se de memórias que julgava apagadas, sobre panteões e deuses. Na visão, viu claramente Wee Jas, Sehanine e Tritereão, deuses tão diferentes mas tão próximos entre si, trazendo visões complementares da morte e da vida. Seriam essas as forças que o mantiveram vivo até aqui? A violência fatídica da perda, a serenidade para manter-se de pé, caminhando atento e a força inabalável que desafia as palavras melífluas do abandono da vida, será graças a eles que Bartolomeu passou por essas encruzilhadas?

    Se assim for... que vontade de trepar com Ânn!

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