Os Herdeiros de Ânn - 12º Ato

Os aventureiros retornam para Stonebridge em paz. A caminhada foi tranquila. Antes de partirem, o velho barqueiro retornou para sua casa a fim de recolher alguns poucos pertences, e de lá todos rumaram em marcha acelerada para reencontrar Katherina.


O vilarejo ainda exibe sinais da agitação da noite anterior, com homens e mulheres perambulando de um lado para o outro com gravidade no olhar, ocupados com preparativos das mais diversas espécies. Duncan repara que ainda há wyverns supervisionando a movimentação, fazendo às vezes de guardas da cidade. Isto o tranquiliza, pois os aventureiros ainda devem caminhar ao norte, através dos outeiros e colinas, para alcançar o acampamento situado no círculo druídico – é lá que Katherina está, conforme fora combinado.


Chegando àquele local, encontraram apenas cinco wyverns esperando. Quando Duncan (que tomou a dianteira da marcha) primeiro apareceu entre os caules dos carvalhos e dos olmos, um deles soou uma corneta, reunindo os demais em torno de si para aguardar pela chegada dos aliados. O espadachim percebe que há uma aflição nos seus olhares. Mais uma vez, ele vê a simplicidade e a humanidade daqueles que compõem o bando de Katherina. Aqueles homens sofridos pelas agruras de suas difíceis vidas, surrados pela ação irrefreável do tempo, ostentam armaduras precárias, formadas majoritariamente por placas de metal coletadas dos espólios de muitas batalhas e unidas sobre corseletes de couro puído e sujo ou cotas de malhas enferrujadas e amassadas. As calças de cânhamo raramente oferecem qualquer proteção, exceto quando enxertadas com pads de couro – uma luxúria que eles não podem ainda sustentar. As botas de solas desgastadas indicam o tanto que estes homens andam e perambulam, sustentando o peso de suas escolhas e a sombra de seus passados.


Os aventureiros finalmente se aproximam o bastante do acampamento. Os wyverns que os aguardam perfilam diante de si para saudá-los, mas antes que pudessem fazê-lo os aventureiros reparam que por trás dos soldados Katherina caminha lentamente se aproximando. Ela eleva sua mão direita até os ombros de um de seus homens, apoiando-a graciosamente para pedir licença e tomar-lhe a frente. Assim, finalmente, os aventureiros reveem Katherina. Bartolomeu percebe que a atmosfera está soturna. Adan só consegue notar, no entanto, que Ânn está de algum modo diferente – e não se trata apenas da notável capa de pelos brancos ,vistosos e forro púrpura que pende sobre seus ombros, presa por um bóton dourado adornado com uma grande e polida pedra de ametista, e que recai sobre as suas costas até altura da parte posterior das coxas. Não. Não é apenas isso.


– Que bom que retornaram! Estava ficando muito preocupada! – Katherina diz, com a voz abafada pelo capuz de couro branco que está, como de costume, vestindo – Venham comigo, contem o que encontraram – e ela os leva até uma mesa improvisada que foi montada com tábuas e tocos de madeira próxima ao centro do acampamento.


Os aventureiros iniciam, então, a narrativa dos acontecimentos. Duncan era quem mais falava, seguido por Bartolomeu. Wurren estava mais preocupado em observar os arredores, ainda premido pela necessidade de compreender como um círculo da antiga fé foi abandonado para se tornar o centro de um ritual macabro. Adan, por sua vez, estava concentrado mais em ouvir Ânn e fazer uma leitura de sua personalidade, de suas intenções secretas, as quais Adan tem uma estranha certeza de que existem. Já Bruenor simplesmente se afastou dos colegas para se juntar aos homens do bando, falando sobre amenidades e buscando algo quente para comer e gostoso como cerveja para beber.


Enquanto a narrativa segue Katherina ouve com grande atenção. Então, Adan conta sobre o mito dos pântanos e menciona Kharlixes, momento em que a líder branca interrompe o relato dos aventureiros:


– Kharlixes!!! É possível que o infame dragão esteja colaborando com os fanáticos? – perguntou retoricamente – Como pude negligenciar a sua presença neste cenário? Era óbvio desde o começo que não seria possível que uma força poderosa se erguesse nos pântanos sem que Kharlixes estivesse de alguma forma envolvida. E não estou dizendo que ela está colaborando com os lagartos, mas sim que, na melhor das hipóteses, eles têm uma trégua.


– Eu não sei ao certo. Acho que é impossível dizer – pondera Adan – Quando mencionei a história de Kharlixes é porque acredito que isso possa ser útil para nós. Primeiro porque agora sabemos que esta investigação nos pântanos tem uma dimensão bem maior, é bem mais perigosa. Segundo porque talvez possamos usar isso a nosso favor. Se a naga e o dragão tem uma rixa, acho que podemos nos valer disso.


– Não temos como sondar os pensamentos de uma criatura tão magnífica… – responde Ânn, sendo interrompida por Adan:


– Podemos jogar um contra o outro…


– Contudo, se uma força ameaçadora surge dentro de seu quintal e ameaça a sua soberania sobre os territórios, você não reagiria? – Ânn prosseguiu atropelando a sugestão oferecida pelo ladino, que ainda tentou ponderar:


– Claro. Mas…


– Então – Ânn interrompe Adan –, é inconcebível que Kharlixes não tenha percebido a ascensão ao poder dos fanáticos adoradores de Sess’inek. Se admitimos isso, então é lógico que o dragão tomou posição, quero dizer: ou ele é aliado, ou inimigo ou, ainda, neutro em relação aos planos do povo-lagarto – mas aqui diz-se neutro como convicção e não como nesciência. Em outras palavras, inexoravelmente, o dragão é uma peça do tabuleiro.


Seguiu-se uma longa discussão de ideias. Adan e Duncan estavam particularmente ativos, notadamente o ladino, que demonstrava ter meditado em silêncio durante longo tempo antes de chegar às propugnações que ora trazia à baila. Estava claro que Adan vinha se comportando como um hábil observador e que, ao contrário do que alguns de seus colegas podiam pensar, sua abstenção e desinteresse em momentos cruciais para os aventureiros nos últimos dias não passava de uma fachada útil à dissimulação do olhar crítico do ladino e à formulação de suas convicções pessoais.


Contudo, nada obstante seus esforços, restou evidente ao final da conversa que Ânn não pretendia se deixar influenciar pela verborragia dos aventureiros. Com polidez, colocou-os no lugar seu devido lugar e manteve-se na liderança moral da situação:


– Seja como for, estou grata pela ajuda dos senhores. Vocês têm provado seu valor a cada nova empreitada, o que só me faz desejar mais e mais que se sintam parte de nosso bando. Descansem agora. Comam e bebam. Antes de decidir o próximo passo, ainda temos que aguardar pelo retorno do restante de meus homens. Estou com um mau pressentimento.


A conversa se encerrou assim e os aventureiros foram se preparar para o merecido descanso. De fato, enquanto a noite fluía com a chegada de um frio desolador, não havia sinais do restante do bando. Trata-se do grupo que ficou encarregado de vasculhar o quadrante oeste, o mais distante dos três…


****


Mulheres misteriosas e sedutoras, trajando mantos escuros, com os rostos cobertos por véus negros cercam Bartolomeu em uma clareira pela qual perambulava durante a noite estrelada. Tambores ribombam enquanto ele corre através da relva. Há uma luta física e moral cujo desfecho o astrólogo não pode controlar. Sua mente tenta se libertar, mas seu corpo quer fraquejar. Impuras! Sedutoras! Pelos deuses! Bartolomeu sente um estranho calor e uma forte ereção, um desejo pulsante toma conta de cada palmo de seu corpo, que enrijece ante a possibilidade do coito.


Alguém lhe agarra por trás e constrange seus passos. Bartolomeu olha para baixo e para a direita, encostando o queixo no peito, e vê um braço fino e delicado deslizando com a mão por sobre seu peito agora desnudo, afagando os pelos que recobrem seu torso até o umbigo, momento em que hesitam. O astrólogo sente a respiração arfante na nuca e no pescoço. Ele desvia o olhar e fecha os olhos por um instante, quando sente lábios quentes tocarem o pavilhão de sua orelha direita com lascívia:


– Te quero Bartolomeu. Quero você para mim! Quero beber de tua alma, desvendar os seus segredos e libertar o seu poder! Faz de mim tua serva e tua deusa! E traga-os até mim! Preciso te ti! Ohhhh – a voz feminina solta um gemido gostoso, cheio de tesão, que quase faz Bartolomeu explodir.


Os pelos de sua pele estão eriçados. Ele, então, se controla e dobra o braço direito alcançando o antebraço da mulher, segurando-o com firmeza. Bartolomeu levanta a cabeça e olha para o lado a fim de alcançar o rosto daquela que desperta tanto prazer nele, mas antes que pudesse vê-la, suas mãos fraquejam e o braço dela finalmente desce até o interior de suas calças, quando segura suas partes íntimas.


– Dobre-se a mim Bartolomeu!!!! – a mulher solta um grito aterrorizante, Bartolomeu abre os olhos assustados quando a mulher lhe aperta os bagos com toda força esmigalhando-os, forçando-o a despertar.


****


Estranhos sonhos perturbam a noite de Bartolomeu, de fato.


Suado, o astrólogo se levanta e sai de sua tenda improvisada. A noite está escura, e o acampamento é iluminado apenas por uma fogueira mantida acesa até agora graças à atenção de um wyvern que está de prontidão, sentado sob um toco de árvore fazendo esforço para não dormir.


Embriagado de sono, o astrólogo cogita render o guarda, assumir a prontidão do acampamento e dar-lhe um momento de descanso. Em verdade, Bartolomeu já se encaminhava para falar com o colega, quando, de relance, vê Katherina andando bem devagar, sem ser percebida por ninguém, saindo do acampamento em direção ao interior dos bosques. Ela está vestida com seu corselete de couro branco, seu manto e, desta vez, nenhum capuz. Mas Bartolomeu não consegue ver sua face.


– Será que ela está me chamando? – Bartolomeu pensou alto, mas em voz baixa. Há assuntos não resolvidos com Ânn, um mistério que ainda assombra o astrólogo desde que sonhou com ela antes de chegar a Stonebridge.


– Sim… – ele ficou receoso. Estava certo que Katherina o olhava antes de sair para os bosques e, mesmo das trevas, sentia o desejo implícito em seu olhar de ter consigo.


Bartolomeu, então, caminha pelo bosque cuidando para não tropeçar com o pé em pedra ou raízes, seguindo os passos da líder branca. De modo estranho, sente-se ansioso. Mas olha em volta e não vê nada. Sozinho no escuro, Bartolomeu se sente estranhamente nu.


Então, repentinamente, ouve o som de uma harpa: é ela!


Guiando-se pelo som, finalmente Bartolomeu encontra Katherina. Ela está sentada numa pedra próxima de um riacho, sobre a qual a copa de um salgueiro delicadamente se dobra, como se estivesse a reverenciar a graciosa melodia. Sua perna direita está dobrada, com a planta do pé apoiando-se sobre a rocha. A perna esquerda está esticada, repousando relaxada sobre a pedra. O corselete de couro está aberto, revelando a parte superior de seu peito. Sua pele é branca e delicada. Bartolomeu pode ver uma fina corrente de ouro entorno do pescoço dela, mas seu rosto ainda está encoberto pelas sombras.


O astrólogo para, e depois continua andando, com um misto de receio e desejo. Lentamente, o rosto de Katherina vai se revelando. O queixo é fino e delicado, como deve ser o de uma donzela. Os lábios são carnudos e estão pintados de vermelho. Katherina morde o lábio inferior e coloca a harpa de lado, embora o som de sua música continue ecoando nos ouvidos de Bartolomeu como se nada tivesse acontecido. Ela continua sentada, observando imóvel a aproximação do astrólogo.


O astrólogo refuga. Há um estranho encantamento, uma mística delicada e nem por isso menos sinistra. O ar parece mais denso do que o normal e apesar do frescor da noite, o ar lhe parecia estranhamento quente nas narinas.


– Bartolomeu? – Katherina pergunta, diante de sua hesitação.


O astrólogo deixa o estado contemplativo de lado por um instante e arrisca um pouco mais. Está confuso, mas continua sua lenta e contida caminhada. E com os novos passos pode ver que as maçãs da face de Ânn são plenas, e levemente rosadas. A face tem um formato meio redondo, os olhos são verdes e grandes, os cílios longos, a testa lisa. Tudo é proporcional. Os cabelos levemente ondulados são curtos e loiros, entre o mel e o dourado.


Tudo é belo demais e parece haver faíscas no ar. Não, são centelhas de uma aura mágica.


O som da harpa continua soando delicadamente, embora o instrumento repouse inerte sobre a pedra.


Bartolomeu, então, vira-se de costas. Ele está decidido a sair dali! Feitiçaria! É o canto da sereia. Uma armadilha estranha. Quiçá mais um sonho (ou pesadelo) a lhe provar o juízo.


– Quem é você Bartolomeu? – Katherina rompe o silêncio novamente. Bartolomeu refreia sua fuga. Vira-se de frente para a líder branca novamente. A pergunta lhe soa familiar.


****


Esta não é a primeira vez que Bartolomeu ouve Katherina fazer essa mesma pergunta.

Ainda naquela noite em que Ânn, abandonando sutilmente a polidez, mostrou-se incomodada com as perguntas diretas do astrólogo sobre a participação dela em seu sonho, após se despedir, Bartolomeu foi até os bosques, subiu em uma árvore e começou a tocar sua caixinha de fósforos, cantarolando baixinho uma antiga canção élfica que aprendeu na infância.


Distraído, ele não percebeu que Katherina se aproxima caminhando lentamente até o pé da árvore e o fita até que ela comece a tocar em sua harpa a mesma melodia, fazendo percussão para sua canção.


Surpreso, intrigado, e de certa forma lisonjeado, o astrólogo desce da árvore.


– Lamento por interromper sua sinfonia. Quero me desculpar se fui rude contigo mais cedo, em nossa conversa na tenda – disse Katherina – Eu realmente fiquei incomodada com a pergunta que me fez. Não sei por que sonhou comigo, quero mesmo crer que não tenha sido bem assim, e que você esteja a me confundir com outra pessoa. Ainda que tivesse poder para interferir nos sonhos alheios, eu não te conheço, e não teria jamais propósito algum em emitir para alguém como você qualquer tipo de mensagem astral. Na verdade, me assusta que creias que sou capaz de realizar tal tipo de feito. Não estou acostumada a ser interpelada desta forma.


– Não foi minha intenção te constranger de forma alguma – respondeu Bartolomeu – Eu apenas cri que se tratasse, realmente, de algum tipo de providência que encontrasse contigo num momento tão nervoso e tenso, justamente contigo, com quem vividamente sonhei.


Katherina permaneceu imóvel. O astrólogo não podia ver a expressão de seu rosto, coberto pelo capuz de couro branco que dava a sua interlocutora um ar de mistério.


– Onde aprendeu a tocar este instrumento? Notei também que sua voz é bela e suave… – Katherina decididamente quer abrandar o tom belicoso entabulando entre os dois anteriormente, e optou por fazê-lo ao discutir uma amenidade banal como essa.


– Fui criado entre os elfos – Bartolomeu responde levando a mão esquerda até o rosto de modo a afastar os cabelos e revelar suas orelhas levemente pontiagudas. Katherina se surpreende.


– Explicado está então. Vejo que tens o sangue faérico em suas veias – diz a líder branca.


A conversa, então, muda novamente de rumo. Desconfortável em tratar de tão sublime questão, Katherina fala de sua companhia, os Wyverns Dourados. Foi uma conversa longa e significativa, em que ela explicou que eles não buscam riquezas e fama, mas a glória de fazer o bem para locais aonde ninguém mais ousaria fazê-lo.


– Stonebridge é um exemplo. Uma aldeia pequena e insignificante aos olhos da nobreza, que justificadamente se ocupa com os gingantes e seus asquerosos aliados nos ermos de Geoff – explicou a líder branca, enquanto Bartolomeu ouvia com atenção às explicações, filtrando e refletindo imediatamente sobre suas palavras – Cá estamos nós, cumprindo um papel que ninguém mais pode cumprir neste momento, caçando lagartos e demônios infames para salvar o povo da desgraça iminente.


– Deve ser difícil encontrar homens dispostos a arriscar suas vidas em tal nobre mister – aduz Bartolomeu em tom de pergunta.


– De fato. Mas todo o meu bando foi formado por voluntários que se juntaram a nós em nossas campanhas. São em sua maioria plebeus, camponeses ou ex-escravos atormentados por seus gananciosos senhores, ou flagelados pelas guerras. Não lhes prometo nada, nem lhes peço nada. Ofereço apenas a oportunidade de lutar por algo que valha a pena, algo que lhes dê sentido para continuar lutando para viver. A vida é um dom raro e precioso, fugaz como o dia que inexoravelmente sucumbe à noite. No crepúsculo de suas vidas, eu lhes dei uma chance de ver novamente o alvorecer. Por isso esses homens lutam ao meu lado, por isso são Wyverns Dourados.


Bartolomeu agora fitava Katherina com admiração e respeito.


– Entendo agora porque seus homens demonstram verdadeira devoção a você e te seguem para onde vai. Eles te devem a liberdade! – diz o astrólogo.


– Não é nada disso. Eles não me devem nada. Não os libertei das garras da morte, a que equivale uma vida sem sentido, para aprisiona-los aos meus grilhões – Katherina estava calma, mas demonstrava desaprovar severamente as considerações tecidas pelo aventureiro.


– Ainda que penses assim, creio que é assim que as coisas são – diz altivamente Bartolomeu, deixando a máscara de humildade para revelar sabedoria digna dos mais antigos escribas – A liberdade é a maior dádiva depois da própria vida, e de todas as prisões que podem existir, certamente aquela em que você abriga seus homens é a mais doce. A dívida deles para com você mais conforta do que tolhe, dá a eles sentido e senso de dever. Digamos, então, que se trate do vetor axiológico da retribuição, um dever moral que vincula os libertos para com a libertadora. É, sem dúvidas, uma amarra moral a quem muitos gostariam de ter. Seja como for, deve ser bom, realmente, estar junto de pessoas com esse comprometimento, e a causa dos Wyverns parece ser, de fato, justa e boa.


Desta vez, foi Katherina que passou a observar Bartolomeu com outros olhos, intrigada, em seu íntimo, com a sabedoria desvelada nas palavras filosóficas do astrólogo. Ela, porém, não esboçou isso de modo claro e perceptível. Antes, guardou o sentimento para si e prosseguiu no diálogo:


– Vejo um turbilhão quando te olho. Quem é você Bartolomeu?


O astrólogo não tem os meios de responder essa pergunta, pois ele próprio não sabe se definir ainda.


– Eu sou apenas um andarilho, pois não tenho lugar para ficar desde que a guerra destruiu meu lar – respondeu o aventureiro.


– Como consegue viver assim, sem esperança, sem propósito, vagando de cidade em cidade sem nenhuma crença maior, nenhum valor moral que te guie, um dia após o outro, agarrado somente à necessidade instintiva de sobrevivência enquanto a vida lhe escorre por entre os dedos diminuindo a cada dia enquanto a morte se apressa?


Bartolomeu ficou estático diante da pergunta. Aqui, mais uma vez, este se põe a refletir rapidamente, compreendendo a fala de Katherina muito mais como uma confissão de medo do que uma acusação real daquela mulher que nada sabe sobre ele.


– Ninguém sobrevive a três anos de prisão agarrando-se a nada que não a própria vida, ou arrastando-se, pois a vida apenas não vale tanto – finalmente respondeu o astrólogo com o dedo em riste.


Katherina ficou imóvel novamente.


– A vida só serve se ela tiver um propósito, se você, ao final de cada dia de cárcere, consegue responder satisfatoriamente à pergunta: vale a pena continuar vivendo? Para quê? Tornei-me um andarilho porque, apesar da fome, do frio, da traição, sofrimento e loucura, encontrei todos os dias a mesma resposta: o fim a que busco é o mesmo que você afirma querer com sua companhia do Wyvern Dourado, qual seja, levar alguma esperança àqueles que estão longe demais dos olhos quem deve proteger ou perto demais do chicote daqueles que os querem ofender.


Katherina continuava impávida. Não era possível ver sob a máscara seu olhar de aprovação e desejo.


A conversa ainda se prolongou entre os dois, quando falaram sobre a natureza da guerra e as suas consequências: a morta, destruição e escassez. Mas já estava tarde, e Katherina eventualmente se sentiu indisposta e retornou para sua tenda, deixando Bartolomeu sozinho no bosque até que o sono lhe acometesse.


****


Naquele dia, Bartolomeu não imaginava que pudesse ter um contato com a líder branco com este de agora. Definitivamente, essa situação estava fora de seu plano de ação e ele ainda se sente desconfiado.


Katherina se levanta e vira-se de costas para o astrólogo. Ela não diz uma palavra, mas ficam pronunciadas a fitas de couro que se entrelaçam unindo o corselete em suas costas. Ela olha sobre o ombro esquerdo, e cruza o braço direito sobre o peito colocando sua mão no ombro.


– Desenlace-me!


Bartolomeu, agora, estava certo de que aquilo tudo não poderia passar de alguma feitiçaria e deu passos lentos para trás, depois se virou de costas e começou a caminhar para longe dela.


– Cem anos de escravidão – ela rompe novamente o silêncio. Bartolomeu olha para trás e sente, de algum modo, ironizado por seu olhar – Por que foges de mim? – ela pergunta.


Enquanto ele ainda a observa, ela puxa uma das fitas, abrindo as costas do corselete. Para o espanto do astrólogo, as costas da mulher revelam-se repletas de cicatrizes horríveis, marcas que parecem ter sido feitas por chicotes, flagelos ou coisa pior. O astrólogo se apieda da mulher.


– Você tem vergonha de mim agora? – ela dá alguns passos para frente, se distanciando dele – Provoco-te repulsa?


Ela se vira, então, ficando de frente para o astrólogo. Seus lábios o chamam. O corpo de Bartolomeu quer, definitivamente, ser abraçado por ela, mas a mente resiste. É um feitiço. Bruxaria!!!


A mulher relaxa os braços, deixando o corselete se abrir e deslizar até que seu torso fique completamente desnudo. Seu corpo é perfeito. Sua barriga é lisa e apenas levemente musculosa. Os seios tem um tamanho mediano, o suficiente para encher as mãos de Bartolomeu, e pendem delicadamente apontando para os céus. Seu rosto agora lembra um templo, com uma cor que só se encontra na terceira hora da aurora. As extremidades são magras e as saboneteiras pronunciam-se. Suas mãos tem algum elemento gótico indecifrável.


Ela se aproxima de Bartolomeu agora e ele foge pelas matas.


****


O dia ainda não havia raiado quando Katherina retornou para o acampamento. Duncan e os demais despertaram e primeiro desjejuaram junto dos Wyverns. Depois, Duncan e Wurren se recolheram para locais discretos e mais silenciosos do acampamento para orar e se inspirar – como é de praxe que façam. Bartolomeu dormia pesadamente em sua tenda. Adan e Bruenor ficaram junto dos soldados, cuidando de seus equipamentos.


– Alguma notícia de Egda? – Adan e Bruenor ouvem Katherina perguntando para um de seus homens.


– Não, senhora. Até agora nada. Eles já deveriam ter retornado – o ladino e o anão percebem que o rosto do soldado transmite consternação. A missão de reconhecimento não deveria representar maiores perigos.


– Ei! O que é aquilo?! – Bruenor fala alto, em tom de elevada preocupação, chamando a atenção de Adan, Ânn e do soldado com quem falava. O anão dá alguns passos adiante em direção à borda do acampamento. Todos olham para lá e veem um dos wyverns muito ferido. O soldado anda cambaleante, com muita dificuldade. Com a mão esquerda ele segura o braço direito, claramente ferido. Sua armadura está toda quebrada, sua espada partida e seu rosto ensanguentado. Um dos olhos está furado, escorrendo prurido e sangue.


– Pelos deuses! Ainin!!! – Katherina diz em voz alta, quase gritando, enquanto Adan avança em passos largos e depois correndo em direção ao soldado ferido. Assim que Adan se aproxima o homem desaba em seus braços. Ele o segura com força e se ajoelha, deitando o homem no chão. Katherina se aproxima rapidamente do amigo ferido e ergue a parte superior de seu torso e sua cabeça com carinho – Ainin!!! O que aconteceu com você?!


– Emboscada! Argh! – ele diz com dificuldade – Fomos pegos de tocaia quando descobrimos um entreposto inimigo!


– O que aconteceu com os outros? – Ânn tem urgência na fala.


– Foram capturados! Eles querem o livro de volta, se não matarão nossos amigos! – diz o homem, com a boca já cheia de sangue.


Bruenor somente agora chega ao local, e logo ouve:


– Rápido, Bruenor! Vá buscar ajuda! Este homem está muito ferido! Chame o Duncan e o Wurren! – falou Adan.


O anão estava aparvalhado, mas logo compreendeu a urgência das providências solicitadas pelo colega a partiu em desabalada carreira de volta para o acampamento a chamar pelos demais aventureiros.


Adan , então, presencia uma energia positiva que começa a fluir através do corpo de Katherina. O ladino vê uma aura pálida se formando em torno dela, brilhando intensamente e extravasando através de suas mãos diretamente em direção ao corpo combalido do soldado, que imediatamente tem algumas feridas curadas: verdadeiro milagre.


– Ainda não é sua hora de partir, Ainin! – diz Ânn com ternura, enquanto o soldado segura em seus braços e, com os olhos úmidos, direciona a ela um olhar de profunda gratidão e amor. Ele ainda está ferido, mas não corre mais risco de vida. Adan ajuda Katherina a erguer o homem, passando o braço direito dele sobre seus ombros. Então, ela olha em direção de Bruenor, dos demais soldados e dos aventureiros que agora chegam ao local e diz:


– Vingança! Levarei pessoalmente a dor e a morte àqueles que ousam ferir meus homens! – embora seu rosto esteja coberto pelo capuz de couro que lhe é característico, pode-se perceber que ela arde de ódio. Katherina se dirige aos seus soldados e diz:


– Preparem-se para levantar acampamento! Vamos partir hoje mesmo para resgatar nossos irmãos! – aí, dirigindo-se a Adan e Bruenor, ela continua – Preciso resgatar meus soldados. Eles me são fiéis, e eu a eles. Essa é a minha retribuição. Darei minha vida se for preciso. Reunirei os demais wyverns que estão estacionados em Stonebridge. Enviarei mensagens para meus aliados em Orlane e partirei rumo à destruição do entreposto do povo-lagarto. Porém, não podemos negligenciar a missão principal. Quero que sigam novamente rumo à Folly e descubram se o dragão está de alguma forma envolvido! E não temam, pois Wee Jas os livrará da morte!


Os aventureiros tentaram ponderar com ela sobre os perigos da demanda, notadamente que ela se arriscasse com poucos homens os pântanos, mas a líder estava irredutível e acabou os convencendo ao afirmar que daria sua vida para salvar o menor de seus soldados se preciso for.


Naquele instante, todos viram que há um senso de fidelidade e reciprocidade muito próprio do bando. Ânn lidera não somente porque detém habilidade com as palavras e por ter, incontestavelmente, um carisma irresistível, mas sim porque demonstra em toda oportunidade que está pronta para morrer por aqueles que a ela se juntam.


****


Os aventureiros correm para recolher seus pertences e preparar a partida, enquanto os Wyverns desmontam o acampamento. Na correria do dia e no cansaço da noite anterior, Duncan nem percebeu se Olin havia conseguido conversar com Katherina, mas Wurren o notou de relance e tranquilizou o espadachim.


Antes de partirem, a líder convocou os aventureiros para uma breve conversa em sua tenda.


– Estou realmente grata pela fidelidade de vocês, especialmente porque sei das enormes dificuldades que se avizinham. Espero que compreendam minha decisão e não pensem que estou louca. Nada do que escolhi fazer em minha vida tem sentido se, podendo evitar mal maior, desprezo a vida daqueles que por mim estão dispostos a matar ou a morrer. Não é digno que um único homem meu fique refém dos nefastos lagartos. Não entregarei ao inimigo o livro que desejam, jamais sucumbirei às suas chantagens. De outro lado, não permitirei também que molestem os meus. Os resgatarei e os livrarei de seus algozes, pois a vida deles me pertence e não é chegada a sua hora.


Duncan e os demais olhavam com um misto de admiração e temor.


– Partam para os pântanos e descubram o que Kharlixes e Salahadhra têm a ver com os fanáticos do povo-lagarto. A missão será perigosa, mas irei ao seu encontro em breve. Sem embargo, quero que levem consigo alguns presentes dos quais julgo serem merecedores.


E, então, Katherina presenteia a cada um. Duncan recebeu uma bela espada de gume afiado chamada luminosa, capaz de brilhar como uma tocha no escuro. Adan recebeu uma capa élfica cinza, capaz de confundir a visão dos inimigos. Wurren recebeu um colar rústico, feito com folhas de visgo, que Katherina disse ter recebido de um amigo tempos atrás e que agora dava ao meio-orc como totem de amizade e respeito. Ele logo percebeu que se tratava, de fato, de um objeto místico da Antiga Fé, capaz de potencializar os efeitos mágicos de seus feitiços druídicos. A Bartolomeu ela deu um fino e delicado colar dourado, no qual pende uma delicada caveira envolta em chamas.


– Wee Jas? – Bartolomeu indagou.


– Te protegerá contra a morte – respondeu secamente a líder branca.


Todos se perguntavam intimamente, então, sobre o presente de Bruenor, mas Katherina logo dissipou o questionamento:


– O seu presente, Bruenor, meu caro anão, penso que já lhe dei anteriormente – e Bruenor assentiu positivamente com a cabeça, ostentando um sorriso malicioso no rosto que não passou batido pelos demais.


Assim, os aventureiros deixaram a tenda e estavam todos prontos às portas da clareira para colocar os pés na estrada mais uma vez, exceto por Bartolomeu, que permaneceu junto da tenda de Ânn e, retornando ao seu interior, perguntou:


– Era você ontem nos bosques? – Bartolomeu remoeu a dúvida durante toda a madrugada.


Ela, então, caminha com determinação na direção dele, com a mão direita puxou o capuz revelando seu lindo rosto e se aproxima do corpo do astrólogo, comprimindo seus seios contra seu torso, encostando seus lábios úmidos nos dele, fazendo-o ver estrelas.


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Comentários

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  2. que estranho, Mário, alguns de meus comentários q originalmente estavam duplicados, sumiram por completo!

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