Os Herdeiros de Ânn - 11º Ato - 2ª Parte



Há cerca de meia dúzia de casas abandonadas na plataforma seguinte. Os aventureiros chegam até lá depois de retornarem pelos deques ao sul e, na encruzilhada, tomarem o caminho da direita.


– Vamos nos dividir e inspecionar cada casa. Coletem os materiais que possam dar pistas – disse Duncan.


Deste modo, os aventureiros se dividiram para investigar casa por casa.


Quando Wurren entrou numa delas, ao cruzar a soleira, sentiu uma dor atroz e ouviu um estalo metálico agudo. Sua perna direita foi esmigalhada por uma armadilha de urso, que estava pronta para pegar um incauto que cruzasse os limites daquela propriedade. Com dor e raiva – posto que odeia este tipo de armadilha – Wurren ouviu um novo estalo, e ergueu os olhos, que até então estavam plantados no ferimento, e viu um velho decrépito sentado numa cadeira de balanço com um largo sorriso no rosto. O sujeito tem uma besta simples armada e apontada para a cara do meio-orc.


Wurren se enfurece, perde completamente o controle e se transforma magicamente num gigantesco urso marrom, partindo para cima do velho, dando uma patada violenta em sua besta. Com o golpe, a arma voa da mão do inimigo e atinge a parede se partindo.


– Ahhhhhhh!!! Ahhhhhhhhh!!! O que é isso?! Pelos deuses!!! Ehlonna me acuda!!! – gritou o velho. Mas Wurren estava possesso. A armadilha de urso que o prendera ainda doía em sua perna. Mas não era a dor que o perturbava. O que o tirou do sério foi a presença da própria armadilha em si. Wurren, como um defensor das bestas e animais silvestres, odeia – simplesmente odeia – os caçadores e suas artimanhas, usadas para enganar, ferir, capturar ou matar os animais.


O meio-orc não conseguia enxergar que aquela poderia ser uma proteção contra lagartos ou outros invasores. Não importava. Ademais, o velho parecia decrépito demais, sádico demais para merecer uma ponderação de possibilidades inúmeras agora. Wurren decidiu agir com impulso, extravasando o ódio e a repulsa.


Neste instante, Duncan entrou na casa, pois ouviu os gritos de horror do velho e o urro da besta em que Wurren se transformara. O espadachim se assustou com a presença do urso. Naquele momento, entendeu que se tratava de uma (estranha) ameaça natural. Ele passou por trás do animal, arrebentou uma janela e gritou para que o velho fugisse com ele por ali, evitando cruzar com a fera.


Já Wurren, ainda transformado em urso, se dedicou a usar sua força revigorada para abrir a armadilha e tirar sua perna lá de dentro. Enquanto isso, o velho se levantou cambaleante da cadeira de balanço e foi ao encontro do espadachim.


Vendo essa cena, e percebendo a aproximação rápida dos demais, especialmente de Bartolomeu, o meio-orc parecia estar recobrando a consciência após o surto de violência. O urso se acalma e lentamente começa a retornar à sua forma humanoide.


– É você Wurren? Está louco? – perguntou Duncan.


– Vo… você conhece esse sujeito? – perguntou o velho.


– Ele é nosso amigo. Foi um mal entendido – interrompeu Bartolomeu.


Wurren ainda estava com uma cara de bravo.


– Não entendo! Por que usar armadilha para caçar urso? – perguntou o indignado meio-orc.


– Não vê que o velho estava só se defendendo dos lagartos? A armadilha estava aí para pegar lagartos! É óbvio – respondeu Bartolomeu.


Wurren continuava irritado. Mas nada retrucou.


– É verdade isso? – Duncan perguntou para o velho.


– Sim! Claro que sim! Todos fugiram de Folly, mas eu me recusei a abandonar a única coisa que tenho nessa vida, que é essa casinha simples. Eu fiquei. Não vai ser um bando de lagartos que vai me afugentar. Botei essa armadilha aí porque queria me defender e pegar um intruso! – afirmou o velho.


– Compreendo. Neste caso, peço desculpas em meu nome e em nome do meu amigo. Estamos todos tensos e achávamos que a aldeia estava vazia, que todos tinham ido embora – disse Duncan.


– E quem são vocês? – perguntou o velho.


– Somos emissários da província – respondeu Bartolomeu.


– Ah! Chegaram tarde! Todos já foram embora! – resmungou o velho.


– Queremos acabar com essa ameaça. Será que pode nos ajudar? Acabamos de lutar contra um destes lagartos que assolam sua aldeia e o interrogamos. Ele nos disse para ir até as ruínas que ficam aqui perto, e que deveríamos seguir a trilha da naga. Sabe do que ele está falando? – perguntou Duncan.


– Uhmmm… – o velho parou para pensar por um instante – Talvez sim. Bom, na verdade eu não sei ao que esse lagarto se referia ao certo. Porém, suponho que estivesse falando das antigas ruínas da Cidade Oculta. Os pântanos de rushmoors não foram sempre pântanos. Dizem os antigos que aqui existia, milênios atrás, um grande império que floresceu e prosperou durante muitos séculos, até ser destruído numa grande batalha mágica que transformou este lugar nos pântanos que são hoje. Quando o império desapareceu, seus tesouros ficaram abandonados, à mercê de exploradores. Ou pelo menos era o que se pensava, pois logo surgiram os rumores (mais tarde confirmados) de que subsistia um guardião, um ser imortal e muito, muito antigo, que guardava os tesouros dos antigos reis contra os assaltantes e mercenários. Esse guardião é Salahadhra, uma naga terrivelmente cruel!


Duncan ouvia com atenção. Wurren e Bartolomeu já tinham saído da casa, mas logo atrás deles o espadachim vinha trazendo o velho, que caminhava com dificuldade, eis que muito ferido. Lá fora, Bruenor e Adan aguardavam junto de Dágora.


– O lagarto que vocês interrogaram podia estar se referido a ela, Salahadhra. A naga, porém, sofreu um grande revés – disse o velho.


– Kharlixes? – perguntou Duncan.


– Sim, Kharlixes. Uma terrível sombra. Um dragão negro mitológico que foi atraído para as ruínas do império oculto por seus tesouros mágicos de grande valor. A naga e o dragão se enfrentaram e ela perdeu. As ruínas da cidade oculta hoje são o covil de Kharlixes, e de lá exala um mal muito profundo. Agora, melhor pensando, é possível que o próprio Kharlixes seja o líder dos lagartos! – disse o velho.


– Não creio nisso – disse Duncan – O líder deles é o Grell.


– O que é isso? – perguntou o velho.


– Depois explicamos – respondeu rapidamente Bartolomeu, lançando um olhar de desaprovação para Duncan.


– Bom, pode ser que o lagarto estivesse se referindo a outra coisa também. Estes pântanos são formados por diversos canais de água doce que escorrem das montanhas mais distantes e dos outeiros ao norte. Estes pântanos são como diversos rios, uns imensos, outros pequenos como um riacho, que se movem muito lentamente carregando sedimentos para o sul. A água fica acumulada na grande baixada que existe aqui, mas eventualmente continua seu caminho.


– Uhm… se existia um império, uma cidade, que acredito fossem dos flans, fato é que eles deveriam ter um caminho, uma trilha para chegar e sair, para viajar – disse Wurren.


– Claro – respondeu o velho – Mas boa parte de tudo o que existia foi destruído ou está submerso. Porém, agora que mencionou isso, na esteira do que vinha dizendo, me recordo de que dentre os vários canais que formam estes pântanos, existia um bem estreito e sinuoso que chamávamos de rastro da naga. Ele recebeu esse nome justamente porque era tão sinuoso e lembrava o rastro que uma serpente deixa no chão.


– Ora vejam só! – comentou Bruenor.


– Como podemos fazer para chegar lá? – disse Duncan.


– Ah, meus caros, a caminhada pelos pântanos não é tranquila. Cada passo tem que ser cuidado, pois o solo nunca é firme, a água e turva e pode ser profunda, e as raízes que se espalham são capazes de prender os pés de qualquer aventureiro. O melhor é viajar de barco, um barco pequeno, como uma canoa. Eu conheço tudo aqui, muito bem. Posso levar vocês até o rastro da naga – disse o velho.


Os aventureiros se entreolharam, e ficou tacitamente decidido que a melhor coisa a se fazer no momento era aceitar o conselho e a orientação daquele velho desconhecido, afinal, era isso ou entrar às cegas num pântano vasto e perigoso.


****


O velho demonstrava ser uma pessoa sábia. Enquanto conduzia os aventureiros através dos deques de Folly, ele contava sobre os perigos do bosque e sobre a fundação da aldeia, de sua importância como ponto de ligação entre Tamlin e Stonebridge, além de explicar como seus moradores viviam, como faziam para se sustentar e porque foram embora: o dono do entreposto, um senhor chamado Irvin, recebeu o aviso de um emissário, ordenando a evacuação da cidade. Seguiu-se um grande alarde e muitas pessoas decidiram ir embora ao invés de enfrentar o possível ataque dos lagartos, afinal, aquela aldeia não tinha nenhum tipo de milícia que pudesse os defender. A maior parte das pessoas fugiram para Tamlin.


Eventualmente, os aventureiros chegaram a uma espécie de pequeno porto, um atracadouro para embarcações pequenas – barcos de pescadores, jangadas e canoas usadas normalmente para trafegar pelos cursos d’água do pântano.


– Vamos seguir de barco agora. Entrem com cuidado – disse o velho.


Assim, aquele grupo de intrépidos aventureiros se pôs a remar com cautela pelo labirinto de rios e passagens alagadas dos pântanos. Remar, na verdade, é uma hipérbole, pois na maior parte do tempo o velho permitia que a embarcação seguisse lentamente impulsionada pela tênue correnteza, ou usava os remos para escorar em raízes e caules de árvores, afastando a canoa de áreas indesejáveis.


Somente depois de duas horas de precária navegação, após cruzar canais estreitos, rios largos, de contemplar a vegetação assustadora dos pântanos, se inebriar com o mau cheiro característico do local, fruto da matéria orgânica em decomposição e dos sedimentos que se acumulam, é que os aventureiros chegaram até um canal particularmente sinuoso e estreito.


– É aqui. Este é o rastro da naga. Percebem como se parece com o rastro de uma cobra? – perguntou o velho.


– Sim. Na verdade. É como se uma cobra colossal tivesse passado por aqui em priscas eras, marcando para sempre o solo, abrindo um sulco sobre o qual hoje a água escoa – complementou, em resposta, Wurren.


– Isso mesmo – disse o velho – É aqui! Não é possível seguir de barco. Daqui pra frente, descendo pelo rastro da naga, vocês terão que ir à pé, mas sempre tomando muito cuidado. Como viram, o solo negro é lodoso, molenga, e esconde outros perigos.


– Onde isso vai nos levar? – quis confirmar Bartolomeu.


– Às ruínas da Cidade Oculta – respondeu o velho, com gravidade na voz.


– Pois então retornaremos – disse Duncan – Temos que informar isso à Katherina.


O velho só ouviu.


– Quanto tempo leva para chegar nas ruínas? – perguntou Bartolomeu.


– Umas duas horas mais ou menos – respondeu o velho.


– Então dá tempo de irmos e voltarmos antes de escurecer – comentou Wurren.


– Mas como o velho fará? – perguntou Bartolomeu – Não podemos deixar ele aqui. E nem podemos deixar que volte sozinho.


– Não se preocupem comigo. Sei me virar nesta área – disse o velho.


– Não ouviram o que conversamos mais cedo? Há dragões por aqui. Temos que cumprir o combinado com Katherina – ponderou Duncan, convencendo os demais, especialmente Adan e Bruenor, que pressentiam o pior.


Os aventureiros ajudaram o velho a manobrar o barco para retornar pelo caminho que fizeram. Desta vez, Wurren estava atento ao traçado, tentando memorizá-lo para que pudessem refazê-lo por conta própria nos dias seguintes se necessário.


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O retorno teria sido absolutamente tranquilo, se não fosse o encontro dos aventureiros com um estranho fenômeno, um som repetitivo, muito característico, como um chocalho.


Duncan olhou assustado para Wurren, que assentiu com a cabeça, confirmando os temores dos colegas. Aquele era o chocalho de uma serpente, mas pela intensidade do som, deveria ser uma serpente enorme, imensa, gigantesca!


– Shhh! Façam silêncio. Fiquem parados! – advertiu o velho repentinamente – Olhem lá! – e ele apontou para um curso d’água vizinho, onde uma enorme criatura parecia se esconder sob as águas turvas. Tão grande era ela que mal podia se ocultar.


– Esperem! Não façam nada! – disse o velho. E assim todos ficaram em silêncio sepulcral. Imóveis. Estáticos. Logo, a criatura se deslocou à jusante, serpenteando com seu corpo longo e sinuoso. Wurren olhou para o lado e viu numa porção de terras úmidas (porém não submersas) à esquerda do canal e observou um gigantesco rastro de cobra, indicando que a criatura estava ali, sob os céus de Flanaess e mergulhou no canal de águas quase paradas para espreitar.


Ninguém disse mais nada. O velho os conduziu de volta para Folly e de lá todos decidiram que era melhor retornar imediatamente para Stonebridge a fim de encontrar Katherina, levando consigo seu velho “barqueiro”.


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