Os Herdeiros de Ânn - 11º Ato - 1ª Parte

– Eu irei então! Mas não pensssem que terão a minha gratidão! Vocêsss esstão me desgraçando! Seja como for, é melhorr ir andando! – disse o lagarto.


– Espere. Antes, nos diga o que quer dizer com ‘seguir o rastro da naga’! – disse Duncan.


– Salahadhra foi separada de seu tesouro muitos anos atrás, quando uma sombra recaiu sobre os pântanos de rushmoors. Seu nome é Kharlixes, um poderoso dragão negro que foi atraído para as ruínas antigas por seus tesouros incomensuráveis! Uma terrível disputa ocorreu o dragão saiu-se vencedor, enquanto a naga, espoliada, passou a vagar pelos pântanos tramando a derrocada de seu algoz, buscando vingança. Sejam bem pacientes, encontrem a naga, e quem sabe ela não os mostre o caminho para as ruínas, sob cujos escombros se esconde o culto de Sess’inek! – respondeu o lagarto, para a perplexidade de todos, após o que saiu para o deque e, transformando-se em um crocodilo, atirou-se às águas turvas e sumiu.


– O que ele quis dizer? – perguntou Adan.


– Eu não sei ao certo – disse Wurren, preocupado – Mas eu acho que estamos a cada novo passo mergulhando em um mistério mais profundo e cheio de perigos imensos.


Um abrupto ronco de trovão anuncia a chegada imediata da chuva, que começa a cair firme e constante sobre Folly. As águas antes paradas dos pântanos se agitam e os aventureiros conseguem observar suas estranhas criaturas se movendo.


Os aventureiros estão em silêncio. Adan perambula pelo hall do entreposto, observando cuidadosamente os tonéis e sacas de alimentos e outros víveres que estão armazenados no paiol ao norte. Sua mente se desloca dali para outro lugar distante. Vozes soam em seus ouvidos e ele já não sabe mais se são o fruto de alucinações ou cansaço. Suas pálpebras estão pesadas. O ladino sente dores nas costas e um desânimo que não consegue esconder.


Duncan e Bartolomeu sobem as escadas para alcançar o segundo pavimento do entreposto, encontrando ali um longo corredor e muitos quartos. Tudo parecia ter sido abandonado às pressas. Não houve tempo para recolher pertences, não foi uma fuga premeditada. O espadachim observa através de uma janela os enormes eucaliptos escondidos sob a densa neblina que se forma no pântano. Bruenor, que estava no andar de baixo, sentou-se em uma das mesas, observando com desolação o abandono do lugar, enquanto Dagora transmutou-se para uma forma felina menor, semelhante a de um gato doméstico e se deitou sob um banco.


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Contemplando a majestade da natureza, Wurren recorda-se de antigas histórias contadas em seu bosque druídico, quando ouviu pela primeira vez lendas sobre o império flan que se espraiava das costas do mar Azure até as montanhas Lortmill. Um império que desapareceu da face da terra sem deixar rastros, exceto por ruínas muito raramente exploradas e temíveis guardiões que protegiam seus segredos – sobreviventes imortais do império milenar. Guwenar, um dos arquidruidas com quem Wurren normalmente conversava e aprendia, sempre evitou se aprofundar do assunto, revelando com sua linguagem corporal que algum tipo terrível de maldade inefável reside na verdade por trás da lenda.


É possível que Salahadhra seja um desses guardiões?


Seja como for, o covil de Salahadhra e as ambições do povo-lagarto estão de algum modo interligados, conclui Wurren. Encontrar as ruínas em pântanos tão vastos e perigosos é uma tarefa árdua, uma missão quase impossível de ser realizada para estes aventureiros com tão poucos recursos.


– Nagas às vezes são criaturas malignas, seres extremamente gananciosos – diz Dagora, que se aproximou sorrateiramente – Se interessam especialmente por tesouros mágicos! São atraídas por sua aura de poder, por menor que seja.


– Você conhece nagas? Já viu alguma? – perguntou Wurren.


– Não sei muito. Apenas o que já disse – respondeu o felino.


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– Galera, precisamos decidir o que fazer logo! – disse Bartolomeu assim que desceu as escadas, descontente por não ter encontrado nada de interessante, nenhuma pista, no entreposto.


– Está chovendo muito agora – diz Duncan.


– E daí? – pergunta Bruenor – Você se desmancha na água? Temos pressa!


Bartolomeu olhou com desconfiança.


– De modo algum, mas os pântanos já são perigosos o suficiente para arriscar uma caminhada debaixo dessa torrente! – respondeu Duncan, sem perder a parcimônia com o provocativo anão.


– Ele tem razão – falou Bartolomeu – A chuva dificulta tudo.


– Nós não podemos ficar parados, porém. Temos que voltar antes do anoitecer, senão perdemos o encontro com Katherina – disse Wurren.


– Vamos dar uma olhada pelo menos no restante de Folly. Isso aqui não parece ser muito grande – diz Adan, dando alguns passos para fora do prédio, indo ao encontro de Wurren, que sob a forte chuva tentava observar alguma coisa na distância.


– Vejam lá – chamou Adan – Vejam que há outro grande deque mais adiante, cheio de casas. Vamos logo, vamos terminar com isso! – instigou o ladino.


E assim foi feito, conforme a sugestão do ladino, que ainda demonstrava estar amuado com alguma coisa.


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Os aventureiros seguiram pelas pinguelas de madeira que formam os caminhos de Folly, tais como ruas e becos flutuantes, suspensos da água apenas por precários pilotis.


– Será que essas águas são profundas? – perguntou Adan.


– Não creio. Pântanos não costumam ser muito fundos. Deve ter entre 0,80cm e 1,5m de profundidade, estimo – respondeu Wurren, enquanto caminhavam rumo a uma encruzilhada. Ali, o deque se abria em três possíveis caminhos, e os aventureiros decidiram instintivamente por seguir adiante, quando andaram mais alguns metros apenas antes de chegarem a uma plataforma circular.


Sobre ela, uma fonte de pedra cheia de água circunda a estátua de um homem jovem e altivo e seu enorme cão. O jovem é retratado na imagem vestido com uma cota de malha e um grande colar peculiar pelo desenho de uma estranha runa. Além disso, ele traz consigo uma lança curta nas costas, uma espada na bainha do cinto e empunha na mão direita o pedaço de algum artefato que não se pode dizer qual é, já que a estátua foi vandalizada e esta parte da escultura foi destruída, bem como a placa que identificava a fonte foi arrancada – conforme observou Bartolomeu.


O astrólogo, aliás, estava perplexo com a elegante figura. Certamente era algum herói do povo de Folly – pensou. Repentinamente, conseguiu ver um objeto reluzir nas profundezas das águas turvas do pântano.


– Olhem lá – gritou Bartolomeu – Estão vendo?


– Alguma coisa está brilhando – disse Adan.


– Algo me diz que é importante. Vou lá buscar – falou Bartolomeu.


– Tudo bem, mas vamos amarrar uma corda na sua cintura, para prevenir. Ok? – disse Wurren.


Bartolomeu assentiu com a cabeça, e logo os aventureiros providenciaram um forte nó numa corda que passaram duas voltas pela cintura do astrólogo, que em seguida desceu com cuidado pelo guarda-corpo do deque e começou a caminhar pelo pântano em direção ao objeto luminoso.


O chão é esquisito. Parece ser formado por uma lama fofa e pegajosa. As sandálias do astrólogo grudam o tempo todo, a cada passada, e, numa dessas, ele prendeu o pé em algo e caiu, desaparecendo da visão dos amigos que observavam seu progresso a partir do deque.


Enquanto isso, Duncan decide entrar na fonte e caminhar por ela, circundando a estátua para ver se acha alguma coisa escondida. Seu esforço é recompensado apenas quando encontra o pedaço da estátua que foi quebrado: é um bastão ou cetro de pedra, que deveria estar nas mãos do jovem retratado em granito. Alguém deve ter danificado a fonte.


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Foram breves e assustadores instantes.


Bartolomeu abriu os olhos e tudo o que conseguia ver era a água esverdeada, meio marrom, e centenas de partículas suspensas. Ele conseguiu prender a respiração antes de afundar, e manteve a calma a ponto de conseguir perceber que sua sandália se enroscou numa raiz. Ele percebe que é preciso se desvencilhar do calçado, o que logo faz sem pena. Agora seu pé poderia deslizar com facilidade para fora da armadilha natural. Porém, subitamente, a raiz se comprime entorno de seu tornozelo! Bartolomeu tenta gritar, mas tudo o que consegue é esvaziar um pouco os pulmões e borbulhar a água.


Do lado de fora, os aventureiros olham com preocupação. Passaram-se apenas alguns instantes, alguns segundos. Mas o astrólogo já deveria ter emergido. Duncan ergue o braço direito com a mão espalmada.


– Esperem um pouco! – ordena o espadachim.


Bartolomeu se agita. Ele pega sua adaga e tenta desferir um golpe contra a raiz, mas logo desiste. Força o pé e consegue se desprender emergindo para a luz novamente.


– Criatura!!! – grita o astrólogo assim que chega à superfície.


– Puxem! – grita Duncan em resposta.


– Ahhh!!! – Bartolomeu afunda novamente, e mais uma vez mantém os olhos bem abertos, razão pela qual consegue ver pequena criatura se erguendo do solo fofo do pântano. Seu formato é humanoide, porém seu corpo parece ser feito exclusivamente de galhos e raízes. A criatura parece ter uma boca, que se abre apenas parcialmente, e seus olhos não passam de cavidades vazias, mas que, ainda assim, emitem um estranho brilho dourado.


O astrólogo dá um chute no bicho estranho e tenta nadar. Tragado mais uma vez para o fundo, vê que está muito perto do objeto reluzente. Ele estica os braços e o pega do fundo arenoso, observando que se trata mesmo da placa de identificação da estátua, em que se lê: Tritereão, o arauto dos injustiçados, o libertador. Nemoud, o Cão. Com o objeto em mãos, Bartolomeu tenta nadar, mas o brilho do item ofusca sua visão e, por sorte, expulsa a criatura, que foge assustada para o interior do próprio solo lamacento.


Finalmente, a corda é tensionada e o astrólogo é puxado de volta para o deque, e depois içado para a plataforma seca.


– O que aconteceu? – perguntou Wurren.


– Uma criatura. Uma estranha criatura feita de galhos e raízes tentou me agarrar! – respondeu, ainda esbaforido, o astrólogo – Ela fugiu quando eu peguei isso aqui – ele mostra a placa – é a identificação da fonte. Este que vemos é mesmo um herói do povo. É Tritereão!


– Por Moradin! Este lugar é desgraçadamente estranho! – resmungou Bruenor.


Bartolomeu se preocupa apenas em colocar a placa no seu devido lugar, reverenciando o deus-herói que era homenageado ali.


– Tritereão, ou Thrithereon como é também chamado, é um deus na verdade, não meramente um herói – explica Duncan – Ele é chamado de O Conjurador, e comumente é associado às ideias de liberdade, individualismo e retribuição. Ele prega contra todo tipo de autoritarismo, crueldade e opressão.


– Bem oportuno. Bem oportuno – suspira Bartolomeu, dando uma última olhada para a estátua antes dos aventureiros se distanciarem rumo à próxima plataforma.


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