Os Herdeiros de Ânn - 10º Ato

Os aventureiros iniciam a caminhada. Sua rota exige um breve retorno para Stonebridge, de modo que possam seguir pela estrada que ruma até Folly.


A trilha que leva do círculo druídico até Stonebrigde está vazia e calma. Os aventureiros percorrem a maior parte do caminho em silêncio. Por vezes Wurren olha para os céus e observa as nuvens se movendo rapidamente, empurradas por um vento forte que sopra do sul.


– Parece que vai chover – diz Dagora em voz baixa, andando próxima do meio-orc. Wurren olha para ela, ainda espantado com o fato do felino poder falar.


Ele ensaia uma pergunta para ela, a fim de espancar suas dúvidas a seu respeito, mas hesita.


Quando chegam a Stonebridge, os aventureiros percebem que a cidade está lentamente retomando a normalidade. Há evidentes marcas do desespero da noite anterior nas faces de seus cidadãos. São rostos inchados, olhares assustados: um senso de desconfiança e temor que antes não estava tão presente, ou que se estava não se mostrava tão evidente, mas que aflorou quando os tambores ribombaram na noite anterior e o fogo púrpura revelou que a ameaça lagarta estava muito, muito próxima.


Há alguns wyverns estacionados na vila. Pode-se ver isso pela presença de homens de armas e suas flâmulas e bandeiras azuis e douradas. Tudo indica que Katherina deu ordens a estes homens antes mesmo de ir até o círculo druídico na noite anterior. A despeito do fato de não tê-lo mencionado, parece que ela pensou nisto também.


Aqueles homens estão ajudando a trazer um pouco de paz e segurança aos aldeões. Em breve, o corpo de Dillan chegará até a vila e mui certamente haverá grande alvoroço. Isso, é claro, se Katherina expuser os fatos ao povo, ou ao menos ao prefeito, como se espera que faça.


– Acho que é uma boa ideia investigar a casa do Dillan pra ver se encontramos alguma nova informação sobre ele e Sess’inek – diz Adan.


– Tipo o quê? – pergunta Wurren.


– Um livro com uma língua colada na capa? – ironiza Adan em resposta.


– Pode ser uma boa ideia sim – diz Duncan – E enquanto você faz isso, eu vou conversar com o prefeito Orren.


– Bom, então não demorem. Como não tenho nada a fazer na vila, vou aguardar na estrada, próximo aos muros – disse Bartolomeu, no que foi acompanhado por Bruenor.


****


Adan entrou na aldeia sozinho, e logo se dirigiu para a casa onde morava Dillan. O ladino tinha apenas uma vaga ideia de onde ela ficava, pois somente Duncan havia ido até lá pessoalmente, quando conversou com ele e sua esposa.


Chegando ao local, Adan viu que uma moça cuidava da horta e que a casa estava aberta, com o fogão queimando lenha e aquecendo um caldeirão que exalava um cheiro agradável. O ladino observou por instantes, e decidiu então se aproximar para ver o interior da casa em mais detalhes. Quando passava em frente à janela, com o olhar pregado no interior do imóvel, a moça que cuidava da hora disse:


– Posso te ajudar em alguma coisa?


Adan ficou surpreso, mas manteve a calma e se aproximou dela.


– É aqui que mora o senhor Dilla?


– Sim. É sim. Por que pergunta? – indagou a mulher.


– Eu estou procurando por ele. Ele não está em casa, está? – respondeu Adan.


– Não. Mas quem é você? Você é um wyvern?


– Ahm, sim. Sou sim. Chamo-me Julius. Queria falar com Dillan. Qual o seu nome? – perguntou Adan.


– Vivianne. Sou irmã de Dorene, mulher de Dillan – respondeu a mulher, deixando as ferramentas no chão e entrando na casa para controlar o cozimento dos vegetais no caldeirão.


Adan fez algumas perguntas para a mulher, a fim de descobrir novidades sobre o vilão, enquanto isso, olhava com atenção para as paredes e chão da casa em busca de evidências sobre a existência de alguma passagem secreta, mas não encontrou nada.


Vivianne, por sua vez, contou como nunca gostou de Dillan, pois o achava violento com Dorene, e ficou chocada quando Julius contou-lhe que Dillan estava aliado com os lagartos e que vitimou a própria esposa e sua filha, Brenna. A irmã de Dorene aguentou com firmeza as péssimas notícias, e ao fim quase não suportava mais o choro e a dor. Mas Adan deixou-a para trás, despedindo-se, para voltar para junto dos colegas.


****


Duncan seguia para o centro da vila, a fim de encontrar o prefeito.


Repentinamente o aventureiro ouve um choro.


– Obrigado senhor! Obrigado! Terá sido Pelor que te enviou? – uma mulher muito emocionada corre em direção à Duncan com o braço esquerdo esticado e a mão direita sobre o peito. Sua veste é simples, tem um tem de azul ou cinza. O rosto possui uma beleza singela.


Duncan olha num primeiro momento sem compreender.


A mulher lhe alcança e toca em seu peito com a mão esquerda, jogando-se nos seus braços em seguida, lançando o rosto contra seu peito forte, abraçando o espadachim e depois levantando o rosto para olhar na face daquele que reputa ser seu herói.


Duncan agora se lembra. Ao ver o rosto da mulher ensopado de lágrimas, as maçãs do rosto vermelhas e as sardas marcadas pelo sofrimento imposto pelo sol à pele. Sim. Duncan se recorda agora, pois na noite anterior aquela foi uma das mulheres com quem falou antes de seguir os colegas rumo à clareira e agora seu espírito se enchia de alegria porquanto o esforço em manter a ordem em meio ao caos estava sendo naquele instante reconhecido – e isso é sempre bom.


Logo, contudo, Duncan se recorda da humildade como virtude.


O espadachim se despede da mulher, após agradecer o afago e o carinho. Ela, no entanto, recusa ir embora. Fica parada, estática na rua poeirenta, observando o herói. Ainda emocionada, porém menos chorosa – mais alegre.


Finalmente, Duncan encontra a casa do prefeito, e vê que há três wyverns por lá. Dois do lado de fora, guardando a entrada, e o terceiro dentro da casa, conversando com Orren.


Inicialmente, a entrada de Duncan não foi autorizada pelos guardas do lado de fora da casa, e ele decidiu aguardar pelo fim da reunião do lado de fora, onde ficou de pé esperando.


Porém, não se passou muito tempo antes que Orren o visse pela janela.


– Ora pois! Aquele não é Duncan? – o perfeito pergunta para Oridigg. O wyvern nada respondeu – Mandem que ele entre! – gritou, por fim, o prefeito para os guardas que estavam do lado de fora.


Com sua entrada franqueada, o espadachim conseguiu falar com Orren e conheceu Oridigg. Duncan contou como foi o embate no vale, inclusive sobre a infeliz participação de Dillan, revelando, ainda que ele e seu bando partirão para o norte dos pântanos em uma importante missão atribuída por Ânn.


****


Após a reunião do grupo, como não há tempo a perder, os aventureiros seguem pela trilha ao leste, se afastando dos pequenos muros da cidade. A trilha adiante nada mais é do que um sulco aberto na relva. Um filete de terra cavada pelas insistentes passadas daqueles homens e mulheres que lutam para sobreviver na região.


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A trilha serpenteia ao longo do caminho. À esquerda os aventureiros são ladeados por outeiros verdejantes, algumas árvores frutíferas e arbustos floridos. Ocasionalmente pequenos animais se expõem livremente, o que arranca um sorriso de Wurren e o leva a dar um carinho na cabeça de Dagora, que solenemente ignora num primeiro momento e depois reage lambendo a pata dianteira esquerda e a esfregando em seguida na orelha e em parte da cabeça.


À direita, os aventureiros observam que há uma pequena área de transição das terras secas para o terreno alagadiço. Naquela altura, os pântanos parecem pouco ameaçadores. A vegetação é predominantemente rasteira ou baixa e as águas que escoam dos outeiros e colinas ao norte o fazem tão lentamente que formam um imenso lago. Ali, melhor observando, os pântanos se parecem mais com charcos.


Adiante a estrada segue livre, estreita como sempre. Às vezes ela cruza um pequeno riacho desimportante, onde a terra é mais úmida e a estrada vira um lamaçal. Num destes locais, os aventureiros encontram um homem tentando desesperadamente desatolar sua carroça, cuja roda afundou substancialmente na lama preta, impedindo que seu burrico possa puxá-la.


O sujeito ao que tudo indica é um plebeu. Uma mulher está próxima, cerca de dois metros distante da carroça, segurando um bebê de colo, ninando-o e tentando fazê-lo dormir. Um garotinho com não mais do que sete anos de idade está todo sujo de lama tentando ajudar o senhor a levantar a carroça, sem sucesso.


Aquela é uma família como tantas outras nas vilas próximas. Gente simples, muito humilde que trabalha o ano inteiro basicamente para ter o direito de viver naquelas terras. A maior parte do que plantam, da carne que produzem, da lã que tosquiam, de tudo o que produzem, enfim, é recolhido pelos coletores de impostos. Resta-lhes apenas o suficiente para vestir e o bastante para não morrer de inanição. Ainda assim, de algum modo, não se sentem prisioneiros. Sentem-se como se fossem homens livres. Querem, em troca de todo o sacrifício que fazem diuturnamente, apenas segurança.


E é justamente a segurança que lhes falta no momento. Aquela família deixou Stonebridge precisamente porque consideram que a vila não é mais segura. Seu plano envolve certamente uma passagem rápida por Folly e depois uma viagem mais longa ao norte em direção à Tamlin. Esta vila é bem mais distante dos pântanos, de modo que o pesadelo dos ataques noturnos dos lagartos fica mais distante.


Uma viagem desta jamais é segura. Animais selvagens famintos, salteadores, bandidos comuns, são comuns em áreas assim. Isso sem falar em outras criaturas hostis que às vezes perambulam pelos ermos em busca de vítimas fáceis. Uma simples poça de lama, no entanto, pode ser o bastante para expor essa gente a um perigo imenso.


Duncan e Wurren se apressam para ajudar a família. Depois deles, Bruenor também decide ajudar. A tarefa é simples. Basta erguer a roda que está presa na lama, permitindo que o burrico tracione a carroça.


– Temos que nos apressar. O dia está passando depressa e hoje vai escurecer mais cedo – diz Bruenor, depois de ajudar aquela família, atentando os colegas para a necessidade de marchar em maior velocidade em virtude das nuvens que já acinzentam completamente os céus de Flanaess.


No exato instante em que deixam aquela família para trás, os aventureiros sentem um estranho pesar em seus corações. Mais ou menos forte, consoante as suas personalidades, fato é que um breve pensamento cruza suas mentes, um pensamento de tristeza pelas nefastas circunstâncias de vida daquelas pessoas que vivem em Stonebridge e em tantos outros vilarejos parecidos.


Estranhamento, nenhum dos aventureiros podia se identificar em verdade com as dificuldades dos plebeus. De largada, são aventureiros e isso por si só já diz algo sobre si mesmos: não estão presos aos grilhões que a nobreza lhes impõe através da maçante rotina de plantar, colher e pagar impostos. Ademais, ninguém ali, talvez exceto por Duncan, pode realmente atestar quais são as agruras que se enfrenta na miséria em que vivem aquelas pessoas.


O espadachim começa a compreender, neste instante, um pouco do discurso de Katherina. Seus homens são evidentemente pessoas do povo. Não são soldados profissionais. Não são cavaleiros de sangue nobre. Nada disso. São homens comuns, pessoas que talvez tenham perdido tudo em um ataque de orcs em sua aldeia natal. Talvez seus pais estivessem de exílio de uma das inúmeras cidades saqueadas pelos gigantes em Geoff. Ou talvez simplesmente sejam homens fartos das imposições da nobreza.


Katherina oferece a eles a chance de conhecer o mundo, de verdade. De transpor as limitações existentes na sociedade. Se os motivos de seus homens são mesmo nobres, como a glória a que a líder branca se referiu outrora, só o tempo poderá dizer. O discurso dela, neste momento, porém, parece realmente convincente. Noutro giro, a percepção de Duncan raramente se engana, e ela, Ânn, parece mesmo estar imbuída das melhores intenções. Permanece no coração de Duncan somente a dúvida sobre as origens da líder e suas motivações pessoais. Novamente, só o tempo trará respostas.


****


Eventualmente os aventureiros alcançam o entreposto conhecido como Folly. O lugar em si já é bastante diferente do que esperavam. Ali o vasto lago dos charcos dá lugar a uma área plana com vasta vegetação herbácea, e eucaliptos constantemente inundados por águas turvas, cheias de sedimentos e matéria orgânica em decomposição.


A trilha se encerra abruptamente à beira do alagadiço, de onde pilotis e estacas de madeira atravessadas por tábuas formam um caminho seco e relativamente seguro por sobre as águas paradas.


A esta altura, o céu já estava carregado de nuvens cinza e cinza-escuro. O vento estava quase parado, exceto por uma brisa ocasional. Para Bartolomeu, a nítida sensação é que os ventos trouxeram consigo as nuvens e as estacionaram sob aquele lugar para anunciar um mau presságio. Contudo, pouco há para se fazer senão percorrer aquele corredor de madeira úmida e apodrecida , fitando com atenção os sutis movimentos na água e na vegetação, que anunciam de modo estranho a presença de algo que espreita os movimentos dos aventureiros. Para tanto, sem chamar a atenção de ninguém, Dágora silenciosamente mudou sua forma para a de um gato doméstico comum.


Finalmente, percebe-se que o caminho leva até uma casa grande de madeira, erguida com palafitas, em frente à qual o corredor de madeira se abre para formar um pátio mais amplo. Os aventureiros logo percebem que há uma dúzia de caixotes de madeira empilhados em frente à casa, uma carroça e dois cavalos amarrados de frente a um cocho.


Todo o local está sempre encoberto pelas sombras dos eucaliptos que predominam ali. Devido à ausência de sol nesta manhã, uma penumbra ainda mais forte do que o usual recobre o prédio do entreposto, dando-lhe um ar assustador. Um velho gorducho e baixinho, que veste calças xadrez de pescador de siri, uma camisa de pano velha e um colete de tecido cinza, está sentado de cabeça baixa sobre um caixote bem ao lado da porta. Seus cabelos ralos são absolutamente desgrenhados e sujos. Não se consegue ver direito seu rosto posto que de cabeça baixa. Porém, pode-se notar possuir um grande nariz que, a exemplo do restante da pele do rosto, tem muitas marcas que indicam ter sido o velho acometido de alguma doença na juventude. Quando os aventureiros se aproximam da entrada do entreposto, notam que ali há apenas uma placa suja, apagada pelo tempo, onde se lê o nome da localidade Folly. O velho ergue apenas uma sobrancelha quando os aventureiros chegam ali, e assim que Duncan, o primeiro deles, empurra a porta dupla e estreita do entreposto para entrar, o velho dá uma resmungada mal humorada.


Dentro do entreposto tudo parece antigo, desgastado e escuro. Aquele pavimento é vasto e repleto de colunas de madeira que dão sustentação ao andar superior, ao qual se tem acesso por uma larga escadaria ao sul. No centro, um longo balcão em u que se estende até a parede oeste, onde um arco dá acesso ao que parece ser a cozinha. Em torno do balcão algumas mesas longas e vazias. Já a parede norte possui dois arcos, ambos os quais conduzem até um armazém meio vazio, onde se vê apenas caixotes e barris de todos os tipos, além de algumas sacas, uma mesa com balança e outras ferramentas típicas de mercadores.


A única alma viva do lugar é um sujeito esguio, de cabelo não longo nem excessivamente curto, que alcança no máximo a altura do maxilar e que parece muito ensebado, colado na cabeça e na testa evidenciando uma franja mal cortada. O homem tem os olhos fundos, com olheiras marcantes e o bigode mal disfarça sua boca repleta de dentes pretos ou amarelados que sorri quando os aventureiros olham em sua direção.


– Não há ninguém aqui! Foram todoss embora com medo dos lagartoss e de sseu novo reinado que se anuncia. Fujam enquanto é tempo, ou fiquem para assistir à dessgraça de Folly e de toda a terra – diz o homem, com largo e estranho sorriso no rosto. Sua face parece de algum modo deformada, seus olhos têm movimentos descoordenados e soltos nas cavidades oculares, a boca se movimenta de um jeito incompatível com o som que emite.


Wurren observa com atenção o sujeito, tal como os demais. Porém, o meio-orc nota algo que passa desapercebido dos outros aventureiros: ao piscar os olhos o homem diante de si movimenta as pálpebras de cima para baixo, normalmente. Porém, instantes antes parece que uma pálpebra interna se fecha, revelando que ele possui um conjunto separado, semelhante àquele que os répteis tais como os crocodilos e jacarés possuem.


O meio-orc levou a mão direita até o cabo de sua clava, o que assustou o sujeito, que gritou:


– É tarde demaisss para nóss!!! – e o homem partiu para cima do aventureiro!


Wurren reagiu rapidamente, lançando novamente seu chicote mágico de roseiras: raízes repletas de espinhos que se projetam de suas mãos se se enroscam no adversário! O homem, porém, consegue se desvencilhar da constrição – não sem sofrer cortes e lesões, as quais revelam (para surpresa dos aventureiros) que sob sua pele se esconde um homem-lagarto!


Duncan avançou com velocidade e flanqueou o lagarto, colocando-se do lado diametralmente oposto ao de Wurren. O lagarto inimigo tentou atingir o meio-orc com suas garras: sem sucesso! O espadachim, então, o golpeou com sua espada longa, abrindo uma enorme ferida no vilão.


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Do lado de fora do entreposto, o velho que estava sentado no caixote de madeira se levantou e partiu pra cima de Bartolomeu, Bruenor e Adan, que ainda estavam no deque e foram pegos de surpresa.


Adan se deslocou para perto do velhote e deu uma chave de braço nele, para imobilizá-lo! Bartolomeu, que estava mais distante, não conseguiu ouvir que Adan pediu para que os colegas não matassem o inimigo, a fim de interroga-lo. Por isso, o astrólogo repetiu os ágeis movimentos a que estava habituado e disparou um rápido virote, que atingiu o velho causando-lhe um grave ferimento.


Bruenor ouviu o que Adan disse, mas preferiu ignorar. Partiu para cima do velho e deu um golpe rápido de machado, irritando o ladino que não conseguiu mais segurar o inimigo. Escorregadio, o velho se desvencilhou, revelando que também era, ele próprio, um homem-lagarto! Dagora ainda tentou um novo ataque, porém errou o alvo!


De volta ao lado de dentro do entreposto, o lagarto se afasta de perto de Wurren e Duncan, levando uma pancada do meio-orc no processo, pois se distraiu e abaixou sua guarda. Apesar do revés, o lagarto não hesita. Ele vai para trás de uma mesa e ergue as mãos para o alto pronunciando palavras irrepetíveis, fazendo com que todo o entreposto tremesse e enormes rochas pontiagudas se erguessem rasgando o chão de tábuas corridas, ferindo os aventureiros criando uma área difícil de ser transposta. Aquele lagarto era uma espécie de xamã, ou algo assim.


Já do lado de fora, Adan e Bartolomeu se encarregavam do outro lagarto. Foram surpreendidos, porém, pela magia que fez erguer rochedos do chão e sacudiu o entreposto! O inimigo aproveitou a distração e correu para dentro, tendo sido seguido por um Bruenor furioso, que tentou golpeá-lo com seu machado, mas erro feio, permitindo que sua arma escorregasse da mão e voasse inofensivamente pela sala.


Cercados por rochedos escarpados, qualquer movimento descuidado seria punido com um corte profundo! Os aventureiros estavam numa situação delicada, embora numericamente muito superiores aos adversários!


O espadachim conseguiu driblar os espinhos, chegou perto de lagarto xamã, e o atingiu com um golpe violento de espada. Quando isto aconteceu, os rochedos desapareceram! As rochas encolheram e retornaram à sua forma original, deixando, porém, o entreposto arruinado!


Sobrava apenas o outro lagarto – aquele que estava disfarçado de velho. Desesperado com a queda do aliado, ele correu para junto das escadas, planejando sua rota de fuga. Foi neste momento que Adan correu atrás dele e conseguiu bloquear sua passagem.


Duncan se aproximou e deu um golpe violento contra o inimigo remanescente. Usou, porém, o lado da lâmina, de modo que o golpe poderoso jogou o inimigo no chão completamente zonzo e indefeso, incapaz de continuar lutando.


– É tarde demaiss para nóss! Podem me açoitar ou fusstigarrr! O reinado de Sessssss’inek não podemoss evitarrr! – gritou o largarto!


– Conte-nos agora tudo o que sabe e pouparei sua vida! – disse Duncan, em tom altivo!


– Nosssso rei foi morto e elesss tomaram seu lugarrr. Que maiss podemoss fazer senão somente obedecerrrr? Matem-me, pois não possso retornar, o meu túmulo é aqui neste lugar. Mas se querem ajudar, vão seguir a trilha da naga sem nadarrr! E o templo oculto e antigo irá se revelarrrr!


O réptil está sugerindo que os aventureiros sigam os rastros deixados por uma naga.


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Os aventureiros continuaram interrogando o lagarto.


– O que é isso, naga, que você falou? É o que estou pensando? – perguntou Wurren.


– A naga é uma criatura mísstica muito antiga! Seu nome é Sssslahadhra! A lenda dizia que Ssssalahadhra vivia nos pântanoss profundoss e refesstelava-se com o ssangue dos incautoss aventureiross e exploradores que ousavam perturbar seus domíniossss. A gigantesca criatura possui um corpo de sserpente e uma cabeça de mulher, uma inteligência ímpar e percepção arguta dos seus arredores. Seus tesourosss, contam as lendas, remontam a períodos tão antigos da história que nem mesmo os mais sábios suloise conhecem ao certo suas origens e seu conteúdo. Alguns sábios de meu povo teorizam se tratar de espólios de um império ancestral de homens que viveram muito antes das grandesss migraçõesss, outros acreditam que se trate do remanescente de uma outra raça dominada e extinta em priscas eras.


– O que mais você sabe? – perguntou Adan.


– Vocês devem ir embora! Não há nada que possam fazerrrr! – disse o lagarto.


– Talvez haja algo sim. Vamos libertar seu povo, basta nos dizer como! – insistiu Duncan.


– A vilania e o terror imposto por Sssalahadhra nunca permitiram que respostas concretas fossem encontradassss e boa parte da história antiga do Vale Sheldomar continua submersa nos pântanos de rushmoors à espera de aventureiros corajososs o suficiente para enfrentar a naga e recuperar seus tesouross. Ssssigam a naga! Encontrem seu covil e quem sabe não conseguirão matar o Grell?


Os aventureiros percebiam que o lagarto estava sendo, a seu modo, sincero e que lutava pela vida, demonstrando verdadeiro temor (e não adoração) a Sess’inek. Assim, optaram por deixa-lo partir.


– Matem-me! Não tenho para onde ir! Não posso voltar para junto de meu povo, pois lá serei morto! E não posso ficar em terras humanas, pois seu povo me odeia! – lamentou o lagarto.


– O que vai fazer não é problema nosso! Não vamos mata-lo. Está livre para ir e cuidar de seu próprio destino – disse Duncan.


E, assim, os aventureiros se viam diante de uma estranha charada. O que será que significa seguir a naga, e o que eles encontraram caso o façam?


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