Os Herdeiros de Ânn - 1º Ato - 2ª Parte


O salão da estalagem estava se esvaziando. A maioria das pessoas se retirou para seus aposentos no andar superior. Uma meia dúzia saiu para a estrada, ora para seguir para a vila mais próxima em busca de abrigo, ora para acampar como Duncan faria. Dois aventureiros, porém, desmaiaram com a cabeça sobre a mesa, bêbados e cansados: o estalajadeiro não faz caso.


Duncan eventualmente se retirou, honrando primeiramente com seu compromisso junto à taverna. Ao sair do prédio, notou que Luna brilhava linda e pálida nos céus de Geoff. Já Celene jazia escondida no firmamento em algum lugar entre as estrelas, em sua fase nova.


O cavaleiro cruzou a estrada de basalto, refletindo sobre quantos já não foram os homens a cruzarem aquele caminho nos últimos anos, apenas para se juntar às legiões que combatem os gigantes à oeste? Quanto já não vem sendo derramado naquelas terras? Quanta falta não lhe faz seu mestre neste momento de dúvida e hesitação.




Duncan caminhou alguns metros para dentro do bosque que margeia a estrada. Recolheu alguns galhos secos e acendeu uma fogueira. Abrindo sua mochila, apanhou um punhado de frutas cristalizadas e as comeu. Bebeu um gole de água de seu cantil, desenrolou o saco de dormir e se enfiou nele, buscando abrigo contra o frio da madrugada vindoura.


E adormeceu.


****


Wurren estava cansado. Seu corpo fatigado, porém, não venceria sua mente obstinada. Com a ferocidade de uma besta, ele perseguia um grande felino na mata. Wurren estava de olho nele há uns dois dias. O bicho foi ferido por caçadores, mas conseguiu escapar. Ultimamente esta praga tinha se espalhado na Floresta Escura: os caçadores, é claro.




Seu coração ardia de raiva destes homens covardes que invadem as matas e sacrificam seus moradores por direito não para se alimentar ou para se vestir, mas por esporte e por prazer. O número cada vez maior de caçadores na região induzia em Wurren uma dúvida cruel quanto a natureza dos últimos eventos nas vilas humanas próximas. Desde que Geoff caíra perante a fúria dos gigantes, os caçadores sumiram. Os únicos homens a cruzar a Floresta Escura eram soldados e mercenários à serviço de Sua Graça, marchando contra os exércitos inumanos que outrora infestavam a região.


Os rumores, porém, dão conta que Hochoch foi liberada semanas atrás, somente o que justificaria o retorno da prática esportiva abominável na região: a (baixa) nobreza estava retornando a estas terras, e com ela seus hábitos detestáveis.


Wurren seguiu a onça parda por dois dias, e no seu encalço identificou que os caçadores eram de Orlane. Lá, certamente, poderia descobrir quais rumores são verdadeiros e quais são delírios dos sátiros da floresta.


O felino não conseguia caçar direito por causa de seus ferimentos. Era preciso encontrar uma presa fácil, e o animal estava se aproximando perigosamente da estrada quando percebeu um acampamento.


A onça se aproximou lentamente e, por trás de um arbusto, observou por minutos inteiros as brasas da fogueira lentamente se extinguido enquanto um homem indefeso jazia adormecido no chão. Era a oportunidade que a onça desejava, e ela começou a se aproximar.


Wurren observou com cautela e orou aos seus deuses para que a natureza seguisse seu curso sem traumas.


****


Duncan desperta assustado. Parecia ter visto um vulto cruzar seu acampamento. Ele rapidamente sai de seu caso de dormir e num movimento suave saca sua espada longa. Os olhos demoram para se acostumar com o ambiente. Quando consegue focar a visão novamente, Duncan apenas percebe que um grande felino o espreitava da mata adiante.


Lentamente, o Alto tirou a mochila das costas e num movimento suave levou a mão esquerda até seu interior, buscando um pedaço de carne seca, alguma comida que pudesse atirar para o animal faminto. Quem sabe assim não se livraria de uma batalha fatal?


A onça decide agir.


Ela sai detrás dos arbustos que lhe davam cobertura e avança lentamente na direção de Duncan.


Wurren percebe que o animal está preparando o bote, e nota que o homem diante dela vai inexoravelmente ser devorado se ele não fizer nada.


– Pssssiu! – Wurren emitiu o sibilo para atrair a atenção da onça. Imediatamente, ele pegou o cadáver de uma lebre que trazia amarrado à sua cintura por uma corda de cânhamo e o atirou para próximo da onça.


– Coma minha amiga! – Sussurrou Wurren.


A onça deu o bote na lebre. Faminto, o felino tomou a presa na boca e se afastou.


– Quem está aí? – Duncan perguntou, sem conseguir distinguir mais do que uma silhueta na penumbra.


– Fique calmo. O puma só estava faminto, pois não comia há dias. Ela foi ferida por caçadores. Meu nome é Wurren e minha casa é esta floresta. E quem é você, incauto aventureiro?


– Me chamo Duncan, o Alto. Agradeço pelo que fez Wurren. Não tive a intenção de violar os recônditos da tua morada, mas não encontrei abrigo na estalagem e precisei dormir na mata. O animal está sob controle?


Wurren se aproximava lentamente do felino. Ele estava se refestelando na carne suculenta da lebre. Tomando o máximo de cuidado e sussurrando palavras dóceis, ele se aproximou da fera e, notando a aceitação do bicho, se agachou ao seu lado e colocou sua mão direita sobre a nuca da onça.


– Boa garota. Você está muito ferida, como vai se alimentar assim? – Lamentou Wurren.


Ouvindo a isto, Duncan se aproximou lentamente, tomando cuidado para não assustar a fera.


– Talvez eu possa ajudar. Será que ela vai me atacar se eu lhe impuser as mãos? – Perguntou Duncan.


– Creio que não. Ela está mansa agora. Só estava com fome. Venha, se aproxime mais e faça sua mágica. – Disse Wurren.


Assim, Duncan se aproximou e impôs as mãos sobre a onça, secando-lhe as feridas com poderosas orações para os deuses da natureza.


Curada, a onça esboçou um comportamento curioso: lambeu a mão de Wurren e, se comportando como um gatinho doméstico, se esfregava nas pernas dos dois homens ali.


– Vá amiga. Ninguém vai te fazer mal agora. – Disse Wurren.


Mas o animal não planejava ir a lugar algum.


A esta altura, Duncan já havia percebido que Wurren não era meramente um homem selvagem, maltratado pelas condições difíceis da vida na mata. O casado de pele de urso, as roupas maltrapilhas e a falta de banho certamente não contribuíam para que Wurren fosse distinguido de uma besta qualquer, mas se aos olhos míopes de Duncan ele não passara de um homem feio e sujo num primeiro momento, após melhor observar, o cavaleiro notara que se trava, em verdade, de alguém com um pé numa tribo de orcs.


Pobre diabo, o fruto de um estupro. Um bastardo indesejado e condenado para sempre por sua linhagem maldita. Duncan não pode deixar de sentir, no fundo de seu coração, uma certa piedade do meio-orc que estava diante de si. O notório respeito pelo animal ferido e pela sua própria vida, fizeram com que Duncan desenvolvesse instantaneamente uma empatia forte por Wurren.


Intrigados pela insistência do felino em ficar, ambos trocaram ainda algumas breves palavras. Sentaram em torno da fogueira para saber um pouco mais sobre os motivos, nas teias do destino de Istus, pelos quais ambos se encontraram naquela noite de verão.


– Dagora! Você vai se chamar Dagora! – Disse, em dado momento, Wurren fitando os olhos da onça parda, que teimava em ficar ao seu lado e lhe acompanhar. – Eu vou encontrar os homens que fizeram mal à você minha amiga.


Naquela noite, Wurren decidiu que iria até Orlane para encontrar os caçadores e, quem sabe, descobrir o que está se passando de novo nas terras civilizadas que tanto perturba a paz na Floresta Escura. O caminho até lá, fora decidido, seria feito ao lado de Duncan, que fez questão de oferecer-lhe esta cortesia por lhe ter salvado das garras do felino.


****


Bruenor arregalou os olhos aterrorizado com o que via: dois gigantes de fogo erguiam sobre suas cabeças blocos enormes de pedra incandescente. Liderados por eles, dezenas de gnolls, orcs e ogros avançavam sobre as legiões de Geoff com força brutal. As linhas de defesa da cidade caíram, os homens entraram em pânico e abandonaram suas posições expondo ainda mais seus exércitos aos ataques ferozes dos inimigos.


Bruenor percebeu que tudo estava perdido e que não haveria vitória naquele dia. Ainda estupefacto pela incrível organização do ataque, o anão viu companheiros seus correndo desesperados para escapar da morte certa. Bruenor, deixa o estado de transe, o som da batalha invade seus ouvidos. Os tambores dos trolls inimigos anunciam a derrota iminente e é melhor fugir do que morrer ali.


– Bater em retirada!!! Bater em retirada!!! Corram para os bosques e salvem suas vidas!!! A cidade caiu!!! – Gritava Bruenor, virando de costas e iniciando desabalada carreira. Porém, um choque bruto, um som surdo, uma dor aguda, e Bruneor caiu no chão após ser atingido por um fragmento de rocha incandescente.


O sangue descia-lhe pela testa e invadia o rosto até deixar seu gosto amargado na boca. Bruenor olha para a direita e só vê destruição, colunas de chamas erguendo-se da cidade mediante o avanço das hostes inimigas. Olha para a esquerda e vê seus irmãos, os anões das montanhas crystalmists, massacrados pelo ataque os vis gigantes de fogo!


Bruenor puxa e perna ferida. Ela está quebrada. Sorte sua não estar partida em mil pedaços. Ele se ergue heroicamente, grita para incentivar seus irmãos, mas ouve um som surdo novamente, e sente a sombra da morte sobre si. Tem tempo apenas para girar o quadril e perceber uma enorme rocha de fogo vindo em sua direção. Agora é tarde demais, a morte é certa!


– Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!


Adan acorda assustado, com os olhos arregalados observa o homem na cama a lado levantar-se de supetão e aos berros! Ele não pensa duas vezes: pega seu travesseiro de palha todo pulguento e arremessa com força sobre o sobre o homem.


– O que é isso? Pelos deuses homem! Se recomponha! – Disse Adan.


Arfando, Bruenor responde:


– Eu lamento. Tive um horrível pesadelo. – Bruenor dá uma olhada nos arredores para ver se suas coisas ainda estavam por ali. Vendo que sim, tornou a dizer:


– Eu não te conheço. Onde está o dono desta cama?


– Eu presumo que você esteja se referido aquele rapaz de apostou a cama comigo no baralho e perdeu. A cama é minha! – Disse Adan.


– Ah, tanto faz! – Bruenor, caindo de sono, não se fez de rogado e deitou. Adan, sem dar importância maior ao evento, também retornou aos braços de Celestian.


Deitado, porém, Bruenor não conseguia dormir. As imagens de seus amigos sendo mortos, esmagados pela impiedosa marcha das hostes inimigas não lhe saia da cabeça. Subiu-lhe um desejo de vingança muito forte, mas sabia que tudo na vida tem sua hora e seu lugar. Bruenor está convicto que em Orlane encontrará um lorde, um senhor da guerra, ávido por beber da sede de vingança do anão.


Sem sono, Bruneor deixou os aposentos e foi ao primeiro pavimento. Sentou-se numa das mesas e passou a observar, pela janela o vazio da estrada e a beleza da noite.


– Já encerramos o atendimento, mas se quiser te trago um chá. – Era o estalajadeiro, vestido com um pijama de algodão.


– Sim, eu aceito. – Disse Bruenor.


Instantes depois o estalajadeiro lhe trouxe uma caneca com um chá amargo, que Bruenor tomou com gosto, e assim passou a madrugada inteira.


Pela manhã, Adan se levantou e desceu para o desjejum. Encontrando Bruneor acordado, perguntou:


– Ora, ora. Veja se não é o anão gritão da noite passada!


– Eu lamento por isso. – Disse o soturno Bruenor.


– Não precisa lamentar. Eu estou indo para Orlane junto com um amigo. Quer se juntar a nós ou está indo em outra direção?


– Pode ser uma boa ideia. Esses bêbados desastrados com quem vinha andando já não me agradavam mesmo. E você se mostrou honesto o bastante para não saquear minhas coisas durante meu sono conturbado. Orlane não está muito longe e eu posso usar de uma companhia para dividir as atenções dos assaltantes. – Disse Bruenor.


– Ótimo. Faça o desjejum e venha comigo que lhe apresento meu amigo.


Adan foi até o balcão da estalagem e, com uma faca, cortou um pedação de queijo, abriu uma broa e enfiou a fatia lá dentro, triturando o alimento com poderosas dentadas. Quando terminaram a refeição, foram para a estrada. Adan, porém, se surpreendeu ao ver que Duncan tinha a companhia e um meio-orc.


– Quem é essa coisa feia aí heim? – Perguntou Adan.


– Essa coisa, ou melhor, esse é o senhor Wurren. Ele também está indo para Orlane. – Respondeu Duncan.


Wurren ficou preocupado, não por si, mas por Dagora. Ao olhar ao redor, porém, percebeu que o felino era de fato muito esperto, pois evitou o contato com outras pessoas e de escondeu na mata próxima da estrada.


– Bem, se é assim, vamos logo. Orlane não está distante e estou ansioso por chegar!


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Assim, Adan, Duncan, Bruenor e Wurren se reuniram e partiram para Orlane.

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