Os Herdeiros de Ânn - 19º Ato

Bartolomeu caminhou com calma até a porta dupla de madeira contra a qual o corpo do beholder se chocou antes de morrer. O astrólogo olhou com desconfiança, pois a criatura guarda algumas diferenças com as lendárias descrições que tal monstruosidade costuma receber.

- Ele não devia ter mais tentáculos? – perguntou – Achei que esses monstros tivessem mais deles, e fossem mais poderosos também.

- Talvez não seja um verdadeiro beholder. Quero dizer, é provável que seja apenas da mesma espécie, mas não parece ser um Olho Tirano – comentou Bruenor, se aproximando.


- Como você saberia diferenciar? – perguntou o astrólogo.

- Não sei se saberia. Esse aí tem quatro tentáculos. Mas sempre ouvi relatos de beholders com dezenas deles, nunca com tão poucos. Além do mais, as lendas falam de um inimigo formidável, com inimaginável poder mágico! Esse daí não é nada disso. Ficou nos observando apenas, como um espectador – explicou o anão.

Bartolomeu ouviu com atenção, enquanto levava a mão direita até uma das portas de madeira diante de si, empurrando-a levemente para expandir a fresta. A sala atrás da porta era absolutamente bizarra, conforme observou o astrólogo. As paredes eram formadas por rochas derretidas, como se parte do teto tivesse incandescido e escorrido na forma de plasma magmático até o piso, a partir de cujo momento se resfriou e deu forma àquelas estranhas e irregulares paredes. O astrólogo viu ainda que nelas havia frestas grandes, mas não podia ver além, pois a sala estava imersa em um denso vapor que saía de três grandes escotilhas no chão.

- Que sala estranha, Bruenor. Essas paredes são normais? – tratava-se de uma pergunta retórica.

- Certamente que não. Parece que alguma coisa derreteu esses rochas! – respondeu o anão.

Entretanto, naquele momento, Duncan, Adan e Wurren já investigavam outras salas. Bartolomeu achou melhor, então, seguir com os colegas ao invés de se aprofundar nas investigações daquele local. Bruenor o seguiu.

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Os aventureiros se reuniram em uma sala adjacente ao salão principal, a qual davam acesso duas portas de madeira. Contudo, a sala não era reveladora. Ao contrário. Adan entrou e viu que trava-se apenas de uma antessala, repleta de outras portas.

Duncan se aproximou.

- Tome cuidado Duncan – disse Adan.

- Aramadilhas? – perguntou o espadachim.

Não. Eu já verifiquei. Não há nenhuma aqui. Mas cuidado é bom, né?! – o ladino respondeu.

O paladino assentiu com a cabeça, e logo levou a mão até a maçaneta de uma das portas. Tão distraído estava que não percebeu imediatamente o tremendo calor que dela emanava.

- Argh! – Duncan queimou a mão no metal quente da maçaneta, mas a porta já estava aberta e sentiu uma lufada de ar quente no rosto que quase derreteu seus olhos. Diante de si, uma sala infernal! O chão estava recoberto de carvão em brasas que ardiam vermelhos e saltavam incandescentes.

Três criaturas vermelhas de aspecto ofídio, cujos torsos lembram vagamente o corpo humano, se arrastam pelo carvão ardente como a trabalhar numa forja improvisada.

- Ahhhh!!! Feche a porta maldito! Esssstá deixando essscapar o calor!!! – disse uma das criaturas, olhando fixamente para Duncan.

- Pelo martelo de Moradin!!!! São salamandras!!! – gritou Bruenor, estupefato!

- Feche a porrrta malditoooo!!! – a criatura começava a gritar.

- Feche logo essa merda de porta Duncan – Bartolomeu gritou, para tirar o espadachim do transe. Isso deu certo, pois ele atinou para o perigo e a fechou.

- Por tudo que é bom neste mundo! O que eram aquelas coisas?! – perguntou.

- Salamandras!!! – Bruenor respondeu, ainda esfuziante.

- Deixem isso pra lá. Elas queriam ficar sozinhas, não queriam combate. O que quer que estivessem fazendo não nos interessa pela visto – falou Bartolomeu. Enquanto isso, Wurren apenas observava.

Adan estava plenamente de acordo com as palavras do meio-orc. E por essa razão, abriu outra porta. Esta revelou uma sala grande forrada por um felpudo carpete (arruinado pelo tempo). No seu centro, uma porção de caixotes e barris, além de algumas ferramentas (picaretas, serrotes e pás). Sobre um dos barris, uma lamparina ardia com uma pequena chama.

Os aventureiros entraram na sala, observando a tudo com curiosidade. Bruenor abriu um dos barris e viu que estava repleto de carne salgada. Ele levou um pedaço à boca e imediatamente fez uma capa de nojo:

- Eca! Carne de lagarto! Quem come carne de lagarto!

- Você, pelo visto – disse Adan, apontando o fato de que o anão conhecia o gosto da iguaria.

- Hum... pessoal, tem algo de estranho nessa parede – Bartolomeu apontou. Adan se aproximou e confirmou a impressão do astrólogo. O ladino percebeu que se tratava de uma porta secreta, e abriu seu estojo de ferramentas para pegar dois clipes metálicos, os quais enfiou numa reentrâncias que cria se o buraco de uma fechadura.

Sua primeira tentativa falhou, mas Adan insistiu e, então, ouviu-se um estalo metálico e uma risada maligna escoou pela sala. Bartolomeu correu para fora, imaginando se tratar da chegada de algum inimigo.

Enquanto isso, a porta secreta se abriu e uma terrível criatura emergiu! Um monstro que possui um corpo de ave e tronco de gente. O corpo é revestido de pelos azuis e negros, seu bico longo estava repleto de vísceras e sangue putrefato. Em suas costas, um par de enormes asas recobertas de penas brancas e longas. O bicho tinha ainda uma cauda longa.

O nariz de Duncan se encheu do cheiro de enxofre e amônia:

- É um demônio!!! – gritou, agitando as mãos rapidamente em uma oração firme – Você tem não poder aqui!!! – e então, vinhas espirituais surgiram do chão e se enroscaram no corpo da criatura, imobilizando-a sob o batente da porta secreta.

Adan deu passo atrás e pegou o arco de salahadhra. Bruenor gritou e correu com o machado em mãos. Primeiro deu um golpe rápido com a mão direita, e depois – com as duas mãos, acertou mais um ataque certeiro.

O ladino disparou uma flecha bem no alvo, enquanto Wurren usou seus misteriosos feitiços mágicos para se transformar em um logo atroz e partir, então, para cima do inimigo. Até Dágora atacou, inspirada pelos amigos.

- Sai da frente Dágora! – Duncan gritou. O felino deu um salto para trás, e o espadachim avançou dando um golpe feroz com sua espada longa iluminada!

A criatura tentou revidar. Mordeu Bruenor com seu longo bico, ferindo o anão. Tentou, ainda, atingi-lo novamente com sua calda, porém, as vinhas espirituais de Duncan ainda a prendiam sob o arco da porta, de modo que não tinha espaço para efetuar o movimento.

Adan disparou nova flecha, mais uma vez atingindo o monstro. Bruenor acertou nova machadada, num golpe descendente que quase partiu a cabeça do bicho ao meio!

Finalmente, Bartolomeu retornou e tomou um susto com a presença da criatura.

- Que porra é essa?! – o astrólogo levou as mãos ao símbolo de Wee Jas que lhe foi presenteado por Ânn e continuou - Que a coragem não lhes falte nesse momento!!! – Foi então que uma aura abençoada emana do corpo do astrólogo na forma de três anjos que abraçam Duncan e Bruenor com suas asas negras, dando-lhes proteção para enfrentar tão grande desafio.

Ameaçada e muito ferida, a criatura exala um odor pútrido e solta esporos esverdeados que recaem sobre a pele dos aventureiros que estavam no combate corpo-a-corpo. Bruenor e Duncan estavam protegidos por suas armaduras, contudo Dágora também foi atingida e seu couro foi afetado pela substância demoníaca. O felino começou a convulsionar e caiu no chão espumando pela boca.

O monstro recuou, conseguindo se desvencilhar das vinhas espirituais. Duncan aproveitou para tentar atingir o adversário mais uma vez, mas a espada escapuliu de suas mãos. Wurren entrou na sala e acuou a criatura no seu fundo.

- Volte aqui passarinhoo!!! – gritou Bruenor, entrando na sala logo em seguida, atingindo o monstro com seu machado pela última vez, já que o demônio caiu inerte no chão, tendo seu corpo tragado pelo plano astral de volta para o abismo de onde nunca deveria ter saído.

- Ufa! Não acredito! Conseguimos vencê-lo! Era um demônio! Sinto seu odor podre em minhas narinas! – diz Duncan.

Wurren voltou à forma humana para socorrer Dágora, que estava morrendo.

- Ela está envenenada! – disse com desalento.

- Não posso ajudar, Wurren. Infelizmente... – lamentou Duncan.

Sob o olhar de todos, Wurren impôs as mãos sobre Dágora e disse:

- Amiga, eu não posso lhe curar. Mas espero que minhas bênçãos surtam o desejado efeito. Lute até o fim amiga! Não nos deixe agora!

Dágora ficou deitada de lado, com a boca cheia de espuma. O coração de Wurren ficou apertado. Contudo, o suspense logo acabou, pois o felino se recuperou, claramente beneficiado pelo influxo de energias positivas que o druida canalizou através de suas mãos.

- Obrigado Wurren. Estou me sentindo melhor, mas ainda estou muito fraca. Gostaria de descansar – disse Dágora.

- Na verdade, eu acho isso uma boa ideia – respondeu o meio-orc - Você certamente ainda ficará por algum tempo com o estômago virado, até que seu corpo consiga se livrar da totalidade das toxinas que aquele monstro usou contra nós.

Lolth, a Rainha das Aranhas (DELIGARIS / DEVIANTART)
Os aventureiros concordaram com a necessidade de fazer um descanso rápido antes de prosseguir. Enquanto isso, Bartolomeu e Adan reviraram a sala secreta, pois viram que se tratava de um escritório revirado, onde muitos livros e pergaminhos estavam jogados pelo chão: mas tudo estava escrito em linguagem flan, desconhecida de todos.

- Nossa, eis aqui algo que não achei que fosse ver jamais! – disse Bartolomeu, quando tomou em mãos uma estatueta de aranha bulbosa com torso de drow.

- Um tesouro?! – Bruenor indagou, cheio de ganância.

- Não... é a estátua de Lolth, uma deusa corrompida que criou a nojenta raça dos elfos negros – explicou Bartolomeu.

- Elfos são nojentos! – o anão respondeu com brincadeira a uma questão muito séria. O astrólogo sabe que a presença daquele símbolo profano era um mau presságio, mas não disse nada. 

Há um longo caminho a ser percorrido ainda. Bruenor afrouxou os cintos para descansar, enquanto Duncan e Wurren oravam aos espíritos da natureza. Não imaginavam, neste momento, o período que o aguardava em breve.

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