Os Herdeiros de Ânn - 1º Ato - 1ª Parte

Aventura de Dungeons & Dragons 5ª Edição

Ambientada no fabuloso mundo de Greyhawk


O sol está raiando mais uma vez nas terras de Flanaess. A estrada pedregosa adiante de Duncan serpenteia ainda alguns quilômetros adiante, cortando o denso bosque que recobre as heartlands. O caminho é longo, mas pelo menos não é muito íngreme. A estrada foi toda pavimentada com rochas de basalto em priscas eras. É o início do verão do ano de 588 do calendário comum, portanto, o bosque está verdejante.


As faias e os carvalhos gigantes que predominam na flora local balançam suavemente com o sopro do vento que teima em espantar o calor da manhã. Com os pés, Duncan joga um pouco de terra sobre os resquícios da fogueira que o aqueceu na noite que passou; recolhe seus pertences e retoma a caminhada: Orlane está situada em uma estreita faixa de terra entre a Floresta Escura e os brejos de rushmoor, e faltam poucos quilômetros para o fim da jornada – menos de um dia de caminhada.




A estrada estava vazia, e a subida foi lenta e solitária.


Duncan olha adiante para observar o esplendor das colinas verdejantes adiante, enquanto enquanto se aproxima de uma acolhedora estalagem para viajantes. Restavam ainda algumas horas até que o sol se pusesse no oeste, e a lua ainda estava discreta nos céus. Havia tempo para alcançar a cidade, porém Duncan refreou a pressa e parou para observar o prédio da estalagem: uma construção de alvenaria com dois pavimentos com mansarda.


O Urso e Durserald: o nome da estalagem estava escrito em alto relevo numa placa de madeira pendurada sobre a porta.


Duncan caminhou até a porta de madeira, subiu dois degraus até a soleira e, sem hesitação, abriu a porta. Diante de seus olhos estava agora o salão do primeiro pavimento da estalagem, o qual funcionava na verdade com uma legítima taverna – repleta de aventureiros e viajantes como ele. Pelo modo com se vestem, Duncan presume que a maior parte dos hóspedes da estalagem estejam se dirigindo para Orlane também.


Distraído enquanto observava as pessoas no local, Duncan não percebeu que o estalajadeiro se aproximou:


– Er, uhm, caro senhor! O que posso fazer por você esta noite?


Duncan abortou de súbito o transe e lançou um olhar condescendente para o homem que lhe falava.


– Eu gostaria de uma mesa e um caneco de cerveja, se não for pedir demais, meu bom homem!


Alto e barrigudo, o estalajadeiro enfiou as mãos no grande bolso frontal de seu avental de pano, tirou lá de dentro uma toalha de algodão imunda, enxugou o suor no rosto e depois as próprias mãos, e respondeu:


– Não se acanhe! Veja! – apontou para o meio do salão – Há uma mesa vazia logo ali. Vá se sentar e eu levarei seu caneco num instante.


Duncan sorriu, e fez como fora mandado. Dirigiu-se à mesa, puxou um de seus banquinhos, e se sentou à espera da cerveja.


****


– Ahhhhhh, que alívio! – Adan estava apertado, e precisou deixar a estalagem correndo para a “casinha” do lado de fora para se aliviar.


Ele caminha lentamente de volta para dentro do prédio, absorto em seus pensamentos ambiciosos, esfregando as mãos hábeis e fitando os olhares dos desconhecidos no salão. Despreocupado, quando retorna para sua mesa, nota que ela jaz ocupada por um homem alto, musculoso, vestido em uma garbosa cota de malha, com um cavaleiro.


Adan se aproxima com um olhar malicioso e diz:


– Ei você! – Ducan, neste momento, observa que um jovem rapaz, muito branco, com cabelos ruivos e olhos verdes, lhe dirigira a palavra. – É, você mesmo aí! – Prosseguiu Adan. – Você está sentado na minha mesa!


Duncan ficou surpreso, olhou em volta para se certificar, mas era consigo mesmo que aquele homem esguio estava a falar.


– Eu lamento, mas vi que a mesa estava vazia e me sentei. Não sabia que era sua. – Respondeu Duncan, com muita calma.


– Ora! Mas por caso não viu que eu deixei minha mochila aí num dos bancos justamente para reservar a minha mesa?! Eu fui apenas tirar água do joelho e nada mais. A mesa é minha se não se importa. – Retrucou Adan, ainda preservando o sorriso no rosto.


Duncan discretamente olhou por baixo da mesa, e percebeu que o rapaz diante de si falava a verdade, pois ali estava o banco e a dita mochila.


– Eu lamento pelo transtorno. Queira me desculpar, não tive a intenção, pois não vi sua mochila debaixo da mesa.


Sem hesitar, o cavaleiro se levanta.


– Não, não! – Disse Adan. – Não precisa se levantar. Vejo que não há mais mesas disponíveis e, aparentemente eu sou um só e aqui temos uma mesa para quatro pessoas. Se não se importar, pode se sentar comigo.


– Ah sim, claro. Obrigado pela gentileza, vou aceitar o convite. Estou muito cansado pela longa viagem.


Neste instante o estalajadeiro chegou até a mesa com a cerveja de Duncan. Adan aproveitou a oportunidade para pedir seu prato favorito: frango com batatas.


– Então, viajando para Orlane? – Perguntou Adan, de modo atrevido.


– Sim, como sabe?


– Todo mundo está viajando para Orlane, ora essas.


Ducan deu uma olhada em volta novamente, a respondeu:


– É, parece que sim. Tantas pessoas assim vão atender ao torneio? Não entendo o interesse de pessoas comuns em uma atividade como essa.


– É que nem todo mundo busca no torneio apenas provar seu valor e elevar sua honra, meu caro. Alguns procuram simplesmente a premiação, outros visam a atrair a atenção de algum lorde ou senhor, na vã tentativa de ingressar para alguma milícia que pague bem, outros, como eu, querem apenas se divertir e aproveitar a reunião de lordes e comerciantes para fazer negócios. Simples assim. A propósito, meu nome é Adan. E o seu?


– Duncan. Meu nome é Duncan, o Alto. Interessante as suas observações. Pelo visto você da região.


– Na verdade não. Venho de Niole Dra, você conhece?


– Já ouvi falar, mas infelizmente não conheço. Eu viajo muito, mas sempre por terras próximas e nunca me aventurei pela região próxima à capital de Keoland. Eu venho do Grande Ermo, de uma vila chamada Shiboleth. Já ouviu falar?


– Não, e acho o nome bem estranho pra dizer a verdade. – Adan deu uma risadinha, não como deboche, mas como expressão genuína de seu bom humor.


A conversa entre os dois se estendeu por longas horas: regada à muita cerveja e sempre falando sobre amenidades, é claro. Contudo, percebendo o adiantado avançar das horas, Duncan chamou pelo estalajadeiro e se lembrou de perguntar pelo mais importante: havia camas disponíveis para pernoite?


Infelizmente, não. O estalajadeiro muito lamentou, mas foi seguro ao enfatizar que todos os quartos estavam tomados e que, diante disto, o nobre cavalheiro poderia arriscar uma viagem pela estrada deserta, durante a noite sombria, de volta para Tamlin, ou dormir na beira da estrada em frente à estalagem.


Duncan nem discutiu. Aceitou as circunstâncias.


Mas Adan não se comporta assim. O suloise insistiu em obter uma cama, na verdade duas: uma para ele e outra para seu novo “amigo”, e diante da negativa do estalajadeiro, ocorreu-lhe a ideia de jogar cartas com um grupo de apostadores entusiasmados numa mesa próxima.


Adan é um habilidoso apostador e domina a maioria dos jogos de azar. Ao sentar-se na mesa, porém, fez-se de tolo por algumas rodadas, amargando prejuízos e esbravejando como um perdedor. Percebendo ter convencido a todos na mesa de sua fraqueza, passou a mostrar suas garras. Os adversários estavam agora lhe subestimando a inteligência e arriscando jogadas ousadas, só que desta vez Adan estava disposto a levar mão após mão, fechando o jogo à frente de todos, praticamente quebrando seus adversários – que ao final já estavam cabisbaixos.


– Bom senhores, foi um prazer jogar com vocês. Passem bem! – Disse Adan ao se levantar, coletando da mesa os espólios. Ele já se dirigia até o balcão da estalagem para pagar sua dívida com a taverna, quando ouviu um dos apostadores se queixar:


– Que WeeJas carregue sua alma, seu bêbado maldito! Como pode perder tanto dinheiro para aquele cara? E agora, como vamos pagar pelas nossas bebidas e comidas?


Adan percebia ali a oportunidade para apostar novamente. Aqueles homens não tinham mais o dinheiro para pagar a conta na taverna. Adan, por outro lado, estava mais do que disposto em lhes pagar a conta em troca de… uma cama para dormir.


E, assim, ele retornou à mesa e lançou a proposta aos seus colegas apostadores.


– Então, senhores, não pude deixar de ouvir que estão sem grana para pagar pela comida e pela bebida. Mas pelo que sei, vocês estão hospedados aqui. Vamos evitar constrangimentos, que tal? Eu pago a conta dos senhores, com o maior prazer, se me cederem uma, ou melhor, duas camas.


Os homens relutaram.


– Vejam: eu estou evitando que vocês se metam em encrenca com o estalajadeiro, e em troca a única coisa que peço é pelas camas pelas quais já pagaram. É uma troca justa, sem dúvidas.


Mesmo sendo uma proposta muito razoável, parecia que somente um dos apostadores estava mesmo sem dinheiro algum, de sorte que Adan logrou apenas êxito parcial, obtendo uma cama somente.


– Bem, meu caro amigo, eu bem que tentei. – Disse Adan retornando para a mesa onde Duncan, cansado, esperava apenas a hora de sair e preparar o acampamento.


– Não se preocupe comigo. Sou um viajante e estou mais do que acostumado em dormir na beira da estrada, mas agradeço pelo esforço.


– Não há de quê. – Replicou Adan. – Agora, se me permite, vou subir para desfrutar do aconchego de minha cama nova. Preciso descansar. Que acha de seguirmos viagem juntos amanhã, até Orlane?


– Acho uma ótima ideia. Uma boa companhia de certo encurtará o tempo de viagem. – Disse Duncan.


Assim, Adan subiu aos seus aposentos. O corredor da estalagem era estreito e o pé direito muito baixo. Na penumbra, Adan teve dificuldade para achar o buraco da fechadura. Quando o fez, enfiou a chave e abriu rapidamente a porta, revelando-se um quarto pequeno na mansarda. Do lado direito uma cama vazia e limpa. Ao centro uma janela empoeirada que dava vista para a estrada. Do lado esquerdo uma outra cama, esta, porém, recheada por um homem barbudo que roncava alto. Aos pés de sua cama, um baú chamava a atenção. Mas, Adan não é um ladrão, pelo menos não um do tipo vulgar. Sua arte é o subterfúgio, seu ofício um mistério.


Deitou na cama, abraçou sua mochila e virou-se para o canto. Ignorando o ronco do vizinho, fechou os olhos e adormeceu.


****


(CONTINUA NA PARTE 2)

Comentários