Os Herdeiros de Ânn - 14º Ato

Adan ficou paralisado de medo nos primeiros instantes que se seguiram. A criatura Troll parecia enfurecida. O odor da podridão que dali exalava denunciava que aquele se seu covil.


A enorme criatura estufa o peito e solta um urro gutural!


Os aventureiros estavam em torpor, amedrontados. Bartolomeu, no entanto, disse:


– Rápido! Adan e Bruenor comigo nestas escadas! Wurren e Duncan adiante no outro lance de escadas, vamos flanquear a criatura!


Adan ouviu sem compreender as ordens do astrólogo.


Duncan avançou ignorando o comando do colega. Enquanto se desloca rapidamente para junto do Troll ele balança luminosa com destreza e acerta um golpe cortante no abdômen da criatura. O espadachim, então, se espremeu contra a parede para abrir caminho aos demais que se seguiam.


Wurren exortou os espíritos da natureza que o abençoam e enfeitiçou sua clava, agora abençoada pelos deuses! Partiu, então, para cima da temível criatura, que revidava com golpes brutais. Bruenor também avançou, fechando um círculo entorno do monstro, que estava enfurecido por ser encurralado daquele jeito!


Bartolomeu podia sentir o cheiro da morte no ar e lembrou-se do amuleto que Ânn lhe dera. Ele o tomou em mãos e pensou com força em sua mentora, lembrando-se das lições que ela lhe deu sobre Wee Jas. Assim, viu-se uma aura translúcida de mulher saindo do corpo do próprio Bartolomeu e se dirigindo ferozmente, em seguida, contra o Troll. As mãos gélidas do espectro invocado pelo feitiço inconsciente do astrólogo apertavam o pescoço da criatura!


O combate, que parecia difícil de ser vencido inicialmente foi, porém, encerrado com êxito antes que as forças dos aventureiros estivessem exauridas. Está certo que todos agiram com precisão em seus movimentos. Adan acertou diversos golpes de sabre em pontos fracos do monstro, e as mãos gélidas invocadas por Bartolomeu pareciam capazes de estancar a capacidade do Troll regenerar seus ferimentos.


Assim, com golpes violentos e sucessivos e espadas e machados, o monstro caiu no chão inerte, momento em que Bruenor repetiu o mesmo exercício de outrora e enfiou-lhe uma tocha acesa na cara, de modo a queimar a criatura e impedir que ressuscitasse – algo que os Trolls eram infames por conseguirem fazer.


– Ora, ora! Mas o que é aquilo?! – perguntou-se Bruenor, em voz alta, depois que se acenderam as chamas que consumiam o corpo do inimigo caído.


O anão obviamente se referia à pilha de lixo, dejetos e carcaças de animais que servia de ninho para dois pequenos filhotes de Troll. O anão cerrou os dentes e apertou as mãos entorno do cabo do seu machado, pronto para matar as criaturas.


– Não! Você não vai fazer isso! – Wurren se interpôs rapidamente em seu caminho, olhando-o com firmeza – São criaturas inofensivas, inocentes. Não podemos mata-las!


– O quê? Você enlouqueceu?! São filhotes de troll!!! – respondeu Bruenor, exasperado.


Duncan e Bartolomeu se aproximaram, enquanto Adan ouvia de longe a conversa.


– Não importa se são filhotes de troll ou não. São filhotes ainda assim – disse Wurren, com calma.


– Saia da minha frente imbecil! Você não sabe o que está dizendo, estas são criaturas vis que merecem morrer! – o anão insistia, cada vez com mais raiva.


– Wurren, você está tendo uma piedade sem cabimento. Esses filhotes indefesos se tornarão perigosos em breve e assolarão toda a região! – Bartolomeu interveio.


– Que região? Estes pântanos fétidos? Eles não farão mal a ninguém aqui. Não há civilização por perto! – o meio-orc continuava firme em sua posição.


– Ele tem razão, Bartolomeu – interrompeu Duncan – Eles não podem fazer mal algum aqui.


– Claro que podem! Eles não ficarão limitados ao perímetro de seu covil! Sairão para caçar e vilipendiarão a própria natureza dos pântanos! São criaturas bestiais que decerto não merecem qualquer piedade nossa! Se refestelarão com o sangue de suas presas aqui e se não as encontrarem por perto irão atrás de vilas próximas, como Folly! – disse Bartolomeu.


– Você acha que estas criaturas teriam a mesma piedade se fosse o contrário?! É claro que não! São criaturas não civilizadas! São monstros! Bestas! Não são animais! Sua própria existência agride a natureza, é uma afronta a sua postura, Wurren! Meu povo já sofreu demais nas mãos deste tipo de monstro, que carregam o sangue os gigantes malignos que destruíram Geoff – Bruenor argumentou.


– Ainda assim, acho inadequado mata-las! – respondeu Wurren, com o consentimento de Duncan.


– Faça o que quiser então. Mas o próximo troll que vier te pegar vai lhe comer por inteiro e eu não irei ao seu socorro! Idiota! – bradou Bruenor, saindo com fúria daquele covil.


– Se vocês querem minha opinião. Acho que o Bruenor tem razão, e nunca pensei que diria isso do mestre anão! Vocês estão dando uma chance a criaturas que bem podem nos matar em breve. Sei não… – Adan ponderou com sabedoria – Mas a discussão é inútil e devemos prosseguir.


Bartolomeu, então, se aproximou do fundo da caverna, em direção ao ninho. Wurren ficou sobressaltado e preocupado com aquilo, mas o astrólogo só queria vasculhar em busca de algum tesouro, afinal, trolls são conhecidos por coletarem objetos de suas vítimas e podia haver algo de interessante ali. Não. Não era exatamente dinheiro que Bartolomeu procurava, tanto que avistou moedas (muitas delas), mas não pegou nenhuma. Interessou-se, porém, em objetos de arte como pentes, taças, broches e jarros dourados e prateados, adornados com fitas e pedras semipreciosas. São itens que possuem alguma história, algum valor estético para além de seu valor material. Isso, sim, agrada ao astrólogo.


Duncan e Wurren observavam a tudo interessados apenas em prevenir que o colega vilipendiasse o sono das criaturinhas nojentas, e saíram do local assim que Bartolomeu o fez.


O corredor adiante continua estreito e cheio de mistérios. Os aventureiros descem mais um lance de escadas e, então, encontram uma bifurcação.


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