Os Herdeiros de Ânn - 2º Ato - 2ª Parte

Os combates já tinham começado na arena improvisada no pátio do castelo. A maior parte dos combatentes eram jovens de 14 ou 15 anos de idade, inexperientes e inábeis com o manejo de armas. Evidentemente, todos maltrapilhos, usando como armaduras – quando muito – jaquetas de couro e escudos de madeira que pareciam ter sido feitos a partir de ripas de caixotes de tomates. Suas armas eram deploráveis e sua técnica pior ainda.


A esta altura, Duncan já estava começando a se perguntar se o torneiro era sério mesmo. Porém em dado momento, foi chegada a sua hora de lutar. O arauto ingressou na arena e anunciou aos brados que entrariam em combate Duncan, o alto e Tishki, o gigante.


Duncan entrou na arena confiante, sob aplausos de uns e vaias de muitos.


A multidão se abriu logo em seguida para dar passagem ao gigante Tishki. O homem devia ter uns 2,50m de altura e ser tão largo quanto um homem era capaz de ser. Sua enorme barriga dava-lhe uma circunferência lunar. Mesmo assim, seu corpo inteiro estava coberto por placas metálicas que utilizava como armadura. Sobre a cabeça um elmo fechado deixava apena o rosto à mostra.


Tishki entrou na arena e olhou para trás. Foi quando Duncan percebeu que o acompanhava um homem pequeno, ou melhor, pequeno perto do gigante Tishki, que servia como uma espécie de escudeiro. O gigante guerreiro tomou das mãos do seu escudeiro uma maça estrela enorme!


Segurando-a pelo cabo de madeira com a mão direita, Tishki prendeu uma corrente que pendia da arma diretamente à sua manopla de couro na mão esquerda. Depois, segurando a arma com a mão esquerda, levou a destra ao topo de cabeça, até a viseira do capacete e disse:


– Você vai morrer hoje rapaz! Está preparado? Vou trucidar você! Hahahahaha! – ao dizer estas palavras, Tishki usou a mão direita para abaixar a viseira. Agora, só seus olhos podiam ser vistos, e assim mesmo somente através de frestas estreitas em seu elmo.


– Não estou preparado para morrer, porque não vou morrer! – disse Duncan, ainda confiante, enquanto desembainhava sua espada longa e ajustava as fitas de couro que prendem o escudo de metal ao braço esquerdo.


O arauto, então, anunciou o início de combate!


Duncan agiu mais rápido e investiu contra seu oponente para espetar a espada longa em sua barriga. Contudo, a ponta da espada foi defletida pelas placas metálicas que protegiam o gigante.


Tishki se assustou um pouco com a velocidade do espadachim, mas dando um grito gutural ergueu com as duas mãos sua maça estrela enorme! Enquanto estava erguida, a cabeça redonda da maça, repleta de cravos e espinhos, ocultava parcialmente a luz do sol. Duncan não hesitou em observar o tamanho daquela arma e quase se ofuscou.


O gigante desceu a arma com uma violência incrível, zunindo para acertar a cabeça de Duncan e enfiá-la para dentro de seu tronco. Mas o espadachim foi ágil mais uma vez e deu alguns passos para o lado direito do seu adversário, quando num movimento rápido balançou sua espada lateralmente, de modo que o golpe transversal produzisse um efeito de corte.


Duncan conseguiu atingir uma região do antebraço de Tishki que estava protegida apenas por couro – uma pequena fresta entre as placas. Ao sentir o contato de sua espada com a pele de seu adversário, Duncan fez um movimento como a puxar a espada, deslizando-a pela ferida aberta e agravando o dano aos tecidos.


O gigante urrou de dor, e ele se enfureceu.


– Maldito seja! Vou esmagar sua cabeça!!! – Tishki bradou estas palavras e ergueu sua maça estrela mais uma vez. Só que agora, Duncan não teve velocidade nas pernas para desviar. Teve tempo apenas para erguer o escudo!


A maça desceu com violência e o atingiu em cheio! Um som metálico altíssimo ecoou pelas paredes do pátio e a plateia chegou mesmo a se exaltar, imaginando que Duncan tivesse sido esmigalhado.


****


Do lado de fora do castelo estava Bartolomeu, recém-chegado à vila de Orlane. O sujeito estava entediado com a longa viagem e observava com curiosidade o movimento na feira, e as coisas ao seu redor.


Muito lhe impressionou o enorme templo que bem em frente ao castelo se erguia majestoso. Diante dele um pedestal de granito servia de base para uma estátua de bronze de uma mulher que segurava com o braço direito uma cesta de agricultor e na mão direita um pergaminho. Já sobre a porta dupla do templo pendia um enorme disco de bronze onde estava entalhado em alto relevo a imagem do cesto e do pergaminho.


– Merikka – pensou Bartolomeu, ainda desinteressado.


De repente, o viajante ouviu um estrondo metálico enorme vindo de dentro do pátio do castelo. Curioso, entrou para ver do que se tratava, e quando o fez, após abrir caminho entre uma multidão, viu dois guerreiros se digladiando sem sentido algum senão somente para quiçá ganhar algumas moedas de ouro ou conseguir um senhor rico pelo qual morrer em vão numa guerra estúpida.


Nada obstante, Bartolomeu ainda assistiu ao combate por alguns breves instantes e viu quando um dos guerreiros, desviou um golpe com um escudo todo amassado, com o braço visivelmente em frangalhos.


Aquele espetáculo não interessava a Bartolomeu. Nem mesmo ele parece saber o que buscar, e porque havia decidido viajar até Orlane, mas fato é que não tinha sido para se enfadar com lutas sem sentido.


****


Duncan desviou um segundo golpe que Tishki desferiu com a maça. Por breves instantes se perguntou se conseguiria suportar o impacto com seu braço ferido, já que uma dor atroz lhe corroía por dentro e imaginava que pudesse ter quebrado o membro no último impacto.


Embora com tantas adversidades, Duncan não só desviou o golpe, como deixou o gigante Tishki em desvantagem. Quando a sua maça estrela enorme colidiu com o pátio poeirento, Duncan saltou à sua frente, apoiou o pé esquerdo sobre a haste da arma de seu adversário, e usou todo o impulso do seu movimento para desferir um golpe quase mortal nele: a espada longa provocou um corte profundo no pescoço do gigante guerreiro.


Tishki passou alguns instantes tentando recuperar o fôlego. Quando olhou para baixo viu sua enorme pança toda ensanguentada e percebeu que estava a perder o embate. Todavia, não desistiu. Era um guerreiro afinal. Com a mão direita abriu a viseira do elmo e revelou seu rosto rosado e suado, cheio de raiva, e retirou forças de onde não tinha para desferir mais um golpe, desta vez usando toda sua força. Mas Duncan desviou e, não só isso, parece que os deuses não desejam sorte ao gigante, já que sua arma escorregou das mãos e a corrente que a prendia na manopla se rompeu com a violência.


Duncan olhou bem no rosto de seu adversário.


– Acabe com isso! – gritou o gigante.


– Renda-se! Você perdeu – respondeu Duncan, altivo.


Tishki levou as mãos aos joelhos arqueados, arfante. Ponderou suas chances por uns instantes, olhou para sua maça jogada no chão. Finalmente, olhando para Duncan, disse:


– Você é arrogante garoto! Eu poderia ter te triturado, mas você venceu! Eu desisto!


Duncan, que já estava com a espada apontada para o rosto do seu adversário, a recolheu à bainha num gesto magnânimo.


O público delirou com sua atitude nobre e sob aplausos e gritos entusiasmados Duncan deixou a arena e foi até seu colega Bruenor. Lá, desprendeu o escudo e observou atônito que seu braço esquerdo estava mesmo quebrado.


****


Wurren ficou feliz com a vitória de Duncan, e especialmente com sua demonstração de benevolência ao final. Outro combate havia se iniciado, mas o meio-orc não podia mais ficar para assistir, pois queria tentar encontrar os caçadores de Dragora.


Assim, ele deixou o pátio do castelo e começou a caminhar pela feira, observando atentamente as barracas para ver se alguém estava vendendo peles de animais.


– Vejam só, que verme escroto esse meio-orc! – depois de alguns minutos andando pela feira, Wurren já tinha percebido que alguns engraçadinhos estavam tentando provoca-lo, mas fazia questão de ignorá-los.


– Ei, vá para casa seu meio-orc nojento! Volte para sua tribo seu imundo! – Wurren desta vez olhou para trás e identificou os arruaceiros como quatro moleques, meninos mesmo, que estavam de zombaria e fazendo provocações em meio às suas risadas e trejeitos propositalmente exagerados.


Wurren olhou para eles, balançou a cabeça negativamente decepcionado com a atitude daqueles jovens e se virou para continuar a caminhada pela feira. Porém, logo que se virou de costas sentiu um impacto na nunca e algo escorrer pelas costas. Wurren para e leva a mão direita até o pescoço, pegando um pedaço de tomate espatifado que foi atirado pelos meninos contra ele.


Wurren cheira o tomate, que não está podre, come uma parte dele, se vira e começa a caminhar na direção dos rapazes, que permanecem ali rindo e zombando do meio-orc.


Bartolomeu assistiu a toda cena.


Ele estava observando uns objetos interessantes em uma das barraquinhas, quando ouviu a zombaria e percebeu que o caldo estava prestes a entornar.


Quando o meio-orc começou a avançar em direção ao jovens zombeteiros, Bartolomeu se apressou:


– Ei, ei, chega disso rapazes! Já causaram confusão demais! – disse Bartolomeu, se intrometendo na história.


Com Wurren já próximo, alguns meninos resolveram se afastar, mas um deles, o maior e aparentemente mais velho ficou para preservar sua “honra” perante os coleguinhas covardes.


– E você, tô vendo que é um estrangeiro! Sai fora daqui também ô cara, ninguém te chamou nessa conversa. Eu estava falando com o monstrão aí. O lugar dele não é Orlane! – disse o jovem ,sem calcular o tamanho da patada que tomaria de Wurren se não fosse pelo grito de um guarda:


– Ei! Vocês aí! O que estão aprontando seu bando de vagabundos?! – o guarda claramente estava se referindo aos rapazes jovens, que pelo visto eram baderneiros conhecidos da guarda da cidade.


– Sujou galera! Vamos embora daqui! – os meninos saíram correndo. Bartolomeu levou sua mão esquerda até o ombro do meio-orc como forma de conter qualquer ímpeto de ir atrás dos garotos, pois já tinha percebido que o guarda o faria.


– Vai, vai, rapazola. Segue com a sua vida e não ligue para o que dizem os imbecis – disse Bartolomeu com estranha linguagem vulgar.


O meio-orc assente com a cabeça e retoma a caminhada, porém logo parou quando viu que, mais adiante, no meio da feira, dois cavalos que puxavam uma charrete se assustaram com alguma coisa e estavam relinchando e empinando. Com os movimentos bruscos dos animais, a charrete balançava com violência e o grande barril que estava deitado sobre ela, amarrado apenas com cordas de cânhamo, ameaçava se soltar.


Um mercador, aparentemente dono da charrete, tenta acalmar os animais, mas não consegue, até que o pior acontece: um dos cavalos se desprende do arreio e parte com velocidade, completamente desorientado, para cima da multidão!


Wurren imediatamente dispara atrás do equino, e Bartolomeu assiste a tudo incrédulo.


Quando o cavalo se soltou, o peso do barril fez com que a charrete inclinasse para trás, erguendo o outro cavalo que ainda estava preso ao veículo. Contudo, as cordas de cânhamo não aguentaram a tensão e se partiram, liberando o pesadíssimo barril para rolar livremente pela feira. Com o alívio do peso, cavalo que estava içado no ar caiu abruptamente no chão, para desespero de seu dono.


O animal que estava solto corria pela feira dando voltas, sem saber para onde ir ou que fazer. Um senhor que carregava uma cesta de frutas foi atropelado por ele, atingido no ombro esquerdo pelo peito do animal, e caiu muito ferido no chão. O cavalo ainda atropelou uma velhinha feirante, jogando-a no chão, o que fez com que ela batesse a cabeça e abrisse um corte profundo.


Por sorte, Wurren alcançou o animal e conseguiu montar nele, domando o cavalo xucro em poucos minutos. O meio-orc se segurava pela crina e encostando seu rosto no do bicho falava com ele e o acalmava.


Ao término da confusão, os guardas já haviam chegado ao local e, ajudando a pobre velhinha ferida, acusavam o mercador e o ameaçavam com a prisão!


Neste instante, Bartolomeu se aproximou para ajudar o senhor que estava caído a se levantar, e pondo-o de pé foi até os guardas.


Wurren levou o cavalo, agora calmo e manso, até seu dono, que dobra os joelhos e se joga no chão chorando, desesperado:


– Serei preso meu senhor! Serei preso! Olha o que eu fiz! O que será de mim agora? – chorava o mercador.


O meio-orc estava sensibilizado pela situação, e verificou que o que de mais grave aconteceu foi o ferimento na senhorinha, de modo que pôs-se a caminhar até ela. Vendo que os guardas a estavam acudindo, tentou se aproximar, mas foi impedido por um deles:


– Saia daqui sua fera! Não vê que já aconteceu confusão demais por hoje?! Fildurn vai pagar pelo que fez! Esse velho irresponsável! – o guarda se dirigia ao mercador.


– Calma lá! A senhora está ferida e ficar aí blasfemando não vai ajudar em nada. Deixe que o meio-orc faça algo por ela, se é que ele o pode – disse Bartolomeu.


Os guardas, então, permitem que Wurren se aproxime e ele, pronunciando palavras fortes e enchendo seu coração com os sentimentos dos espíritos da natureza, impôs as mãos sobre a pobre senhora, cujas feridas começaram imediatamente a sarar e sua alma a se encher de alegria.


– Estou bem! Estou bem! Agora me larguem seus brutamontes! – disse para os guardas a velha senhora, com voz débil, porém cheia se súbito vigor – Agora venha aqui meu bom rapaz – completou ela olhando para Wurren.


– Deixe eu ver o rosto do meu príncipe encantado! – disse ela levando suas mãos até o rosto feral do meio-orc – Você não é exatamente como eu sempre sonhei que seria, é melhor! Me salvou! Eu estava morrendo! Como posso retribuir?


– Não é necessário senhora – disse Wurren, meio sem jeito, mas com um sorriso incontido no rosto.


– Ah, é sim. Pelo menos aceite tomar um chá em minha humilde casa! Me dê essa honra. É só perguntar pela casa da senhora Duhbra – disse a velha senhora.


– Hum. Está bem. Farei isso, se é tão importante. Mas não é necessário, sério – replicou Wurren, ainda sem graça.


– Eu faço questão – e assim, a velha senhora Duhbra encerrou a questão.


– Venha conosco Duhbra. Conte ao condestável o que aconteceu e poremos esse Fildurn no xilindró! – disse um dos guardas segurando-a pelo braço.


– Tire suas mãos de mim seu ogro! Eu não vou me queixar com ninguém! Não vê que estou bem? Esse belo jovem me salvou! Não quero ver Fildurn ou ninguém indo para a cadeia por este tipo de besteira! Já passou! – disse a velha Duhbra.


– Mas…


– Sem mas. Me deixem em paz – Duhbra falou com firmeza em sua voz e, se despedindo, foi arrumar sua barraquinha de feira que estava toda revirada. Os guardas desistiram de tentar convencê-la.


– O dia hoje teve um herói – Bartolomeu disse para o meio-orc, que retribuiu com um sorriso – Qual o seu nome?


Bartolomeu, que estava frio e distante, desinteressado por tudo o que estava vendo à sua volta, parecia ter sido de alguma forma tocado pelos esforços do meio-orc, despertando seu legítimo interesse e curiosidade.


– Eu me chamo Wurren. E você?


– Bartolomeu.


– Senhor Wurren, senhor Bartolomeu! – exclamou o mercador – Eu não sei como agradecer pela ajuda que me deram hoje! Vocês não fazem ideia do que poderia ter me acontecido! Os magistrados escolhidos pelo barão são muito duros e muito rígidos, teria me arrancado todo o ouro e todo o couro e ainda assim, talvez tivessem me jogado para passar uns dias na masmorra! Vocês me salvaram!


– Não… quem te salvou foi o rapazola aqui – disse Bartolomeu, colocando a mão esquerda sobre o ombro direito de Wurren.


O meio-orc, porém, estava distraído. Momentaneamente ignorando os elogios do mercador, caminhou até o cavalo que ainda estava preso ao arreio da charrete. O animal estava com a pata ferida e muito mal.


O mercador veio atrás dele, falando e falando:


– Eu preciso retribuir a vocês. Uma vez eu aprendi com um sacerdote de São Cuthbert que a retribuição é o melhor sentimento da vida! Tenho praticado essas lições desde sempre e tenho tido muitas bênçãos. Portanto, preciso retribuir o que fizeram por mim hoje.


– Eu aceito sua retribuição, mas apenas se me prometer que não vai sacrificar esse animal – disse Wurren, deixando clara a sua preocupação com o cavalo.


– Mas ele quebrou a pata e está muito ferido! É inútil. Ninguém pode ajuda-lo – respondeu o mercador, desolado.


– Talvez eu possa, mas só amanhã. Prometa-me que não vai sacrificá-lo – disse Wurren.


– Está bem. E, olha, se você conseguir salvar esse animal eu sou capaz de dá-lo a você! Vejam, eu não sou um homem rico. Mas sou o dono de uma estalagem aqui em Orlane, como forma de retribuição, quero oferecer estadia e um jantar. Tudo de graça – disse o mercador.


– Nós aceitamos, disse Bartolomeu – vendo que Wurren estava ainda sem graça, e sem modos – Qual é o seu nome e o nome da sua estalagem?


– Eu me chamo Fildurn, e a minha estalagem se chama Rancho Quebrado! Podem ir quando quiserem! Esperarei por vocês!


E, assim, Fildurn se despediu, pois tinha que recuperar sua charrete e tocar sua vida e seu negócio. Bartolomeu e Wurren, por outro lado, foram cuidar de seus afazeres pessoais, sabendo que mais tarde se encontrariam novamente na estalagem do Rancho Quebrado.


****


Finalmente chegou a hora de Bruenor entrar na arena! O arauto fez o anúncio, e chamou para seu centro, para enfrentar o anão, um sujeito chamado Doshend.


Bruenor entrou na arena carregando seu martelo, um machado grande e um machado de batalha. O anão da montanha tem esse hábito: sempre carrega consigo diversas armas e escolhe a mais adequada para o combate após analisar seu contestante.


Quando Bruneor viu Doshend entrar na arena quase deu uma risada. Estava diante dele um homem muito jovem, com não mais do que 20 anos de idade. Era um sujeitinho magro e baixo, vestido com não mais do que um corselete de couro preto. Ao ingressar no pátio, a multidão suspirou, pois viu que o combate pendia claramente para o anão.


O combate se inicia ao sinal do arauto. Doshend saca uma espada curta e uma adaga e surpreende Bruenor com dois ataques ferozes. O golpe de espada resvala na cota de malha do anão, que impede que seu gume afiado alcance o couro do anão. Com a faca, Doshend tenta um golpe perfurante no abdômen, mas, com pouca força nos braços, não consegue romper a defesa passiva do anão.


Bruenor ficou abismado com a incompetência de seu adversário, e um pouco decepcionado também. Optou pelo martelo, e puxando-o do seu suporte de couro nas costas, balançou-o sem conseguir atingir Doshend, que demonstrava mais capacidade para fugir de golpes do que para acertá-los nos adversários.


Tendo visto que o anão é, literalmente, casca grossa, Doshend abdicou de tentar dois ataques e empenhou toda sua força no braço direito golpeando o anão com um ataque perfurante! Contudo, mais uma vez toda a força de Doshend não foi o bastante para ultrapassar a armadura do anão.


Bruenor agiu rapidamente, e dando um pequeno passo para trás, fez outro movimento de balanço com o martelo e atingiu o braço do seu adversário, praticamente partindo-o em dois!


Doshend dobrou os joelhos e gritando de dor caiu ao chão completamente indefeso.


O anão pensou que aquela era uma oportunidade para demonstrar também ele a sua própria virtude de grande combatente e, ao mesmo tempo, sua benevolência e altivez perante um inimigo indefeso. Em uma fração de segundos, planejou como movimentaria seu martelo novamente para, ameaçando esmagar seu adversário, interromper o balanço na hora certa e assim impactar a audiência. Certamente, isso impressionaria os lordes que estavam assistindo ao combate dos púlpitos, sacadas e janelas dos aposentos do castelo.


Todavia, quando Bruenor iniciou o movimento planejado, imediatamente uma voz ecoou pelo pátio:


– Pare! Pare imediatamente! Este homem já está derrotado! – de uma sacada não muito alta via-se um homem gordo e baixo, vestido com calças e casado de veludo azul, colete de couro vermelho e camisa bufante branca.


Bruenor teve seu barato cortado. Mas mesmo assim a multidão o saudou como a um herói.


O combate foi rápido, mas satisfatório. Tanto Bruenor quanto Duncan estavam classificados para a próxima etapa do torneio e, assim que se encontraram no meio da multidão que os congratulava, foram avisados que só tornariam a lutar novamente amanhã.


– Confesso que fico aliviado com essa notícia – disse Duncan, preocupado com o estado de seu braço.


– Sinto pelo seu braço, mas preferia lutar hoje. Mal tive tempo de me aquecer. Aquele cara era muito fraco! Necessito de um desafio maior! – resmungou Bruenor.


Para a surpresa do anão, Duncan levou a mão direita sobre a ferida no braço esquerdo, e fazendo uma oração, o ferimento se curou e a dor que lhe constrangia o movimento parecia ter passado completamente.


****


Satisfeitos com seus afazeres na vila de Orlane, Bruenor, Duncan, Wurren e Bartolomeu se encontraram na estalagem do Rancho Quebrado – a mais próxima do castelo.


Quando Bruenor e Duncan chegaram, por acaso, até lá, Wurren já estava sentado à mesa junto com Bastolomeu. Fildurn os recebeu muito bem, servindo-lhes uma deliciosa cerveja em canecas de estanho escovado.


Assim que Bruneor e Duncan se aproximam, Wurren diz:


– Colegas, este é Bartolomeu. O conheci na feira hoje.


– Como você é volúvel! – brincou Bruneor – Só porque o conheceu na feira já o chama para tomar uma cerveja?


– Nós ganhamos a estadia e comida de graça aqui nesta estalagem – disse Wurren.


– Como assim? O que fizeram para merecer isso? – perguntou Duncan.


– Wurren ajudou o estalajadeiro a conter um de seus cavalos xucros na feira – disse Bartolomeu – e ganhou a simpatia dele.


– Não foi somente isso, vocês salvaram a minha vida! – irrompeu na conversa o senhor Fildurn – O problema com os meus cavalos pôs pessoas em risco e causou tumulto na feira. As leis de Orlane são muito duras a este respeito. São leis marciais. Eu poderia ter ido para a cadeia, no mínimo. Não quero nem imaginar o que aconteceria comigo se meus animais matassem alguém!


Duncan e Bruenor ouviam a história com atenção.


– Estes dois homens não só contiveram o meu cavalo, como ajudaram a curar as pessoas feridas e ainda convenceram os guardas a não me denunciar para o condestável! Devo minha paz e minha liberdade hoje a eles! – prosseguiu o enfático Fildurn.


– Muito bem senhores – disse Duncan – Os congratulo pelas boas ações.


– Vocês todos se conhecem? – perguntou o estalajadeiro.


– Sim – disse Wurren – Chegamos juntos em Orlane.


– Ah, que boa notícia! Trarei cervejas para os senhores também. O que desejam comer? – perguntou Fildurn.


– O principal prato da casa – comentou Bartolomeu.


– Assim seja. Trarei nosso melhor prato!


Os aventureiros falaram brevemente sobre amenidades, e logo Fildurn retornou com dez canecas de cerveja nas mãos, espantando a todos com sua incrível habilidade para equilibrar tantas canecas sem derrubar nada!


Colocando-as sobre a mesa disse:


– Já, já trarei sua refeição. Não se preocupem. Olhem, eu fico muito feliz que o senhor Wurren e o senhor Bartolomeu tenham aceitado meu convite, e mais feliz ainda fico ao conhecer seus amigos tão distintos. Vejo que são todos aventureiros – ele suspira, como se estivesse resgatando antigas memórias em sua mente – Eu já fui um aventureiro como vocês, mas aí eu levei uma flechada no joelho!


– Hahahahaha – todos riram do comentário bem humorado de Fildurn, mas ele continuou:


– Pois é. Bom, eu tenho que atender as demais mesas, e ainda tenho que ajudar na cozinha. Estão vendo aquela moça ali? – Fildurn apontou, então, para uma linda mocinha, de pele branca, cabelos castanhos encaracolados formando cachinhos que suavemente pendiam de sua cabeça e iam se deitar sobre seus ombros e suas costas. Bartolomeu chegou a suspirar quando viu a moça e seu vestido de pano, delicadamente bordado – Então, aquela é minha filha, Zolu. Se precisarem de algo basta chamarem-na que ela vos dará a maior prioridade!


Todos se entreolharam na mesa, pensando a mesma coisa: Zolu era uma das mulheres mais bonitas de Orlane.


Passado o choque emocional por verem tamanha beleza à disposição de seus olhares, os aventureiros retomaram a conversa sobre amenidades.


– Então, Bartolomeu, o que você faz da vida? – perguntou Duncan.


– Eu sou um astrólogo – respondeu.


– Astrólogo? – indagou Duncan.


– Sim, eu leio as estrelas e a partir delas tento adivinhar as coisas, conhecer as pessoas e entender seus passos – explicou Bartolomeu.


– Você é um adivinho? – Wurren estava perplexo.


– Não é bem isso. A astrologia é uma arte diferente da adivinhação pura e simples. Nela não me valho somente da inspiração divina, ou de alguma arte arcana como os reles adivinhos, mas sim de um estudo organizado dos astros, especialmente das estrelas – Bartolomeu falava com muita seriedade do assunto, abandonando o jeito vulgar de se expressar que antes vinha utilizando.


Enquanto se distraíam conversando, um bando de menestréis, liderados por um bardo, adentrou alegremente a taverna e começou a tocar belíssimas e animadas canções que iluminaram ainda mais aquela noite.


– Então você vê o futuro das pessoas nas estrelas? – Bruenor estava provocativo.


– Mais ou menos isso. Às vezes as estrelas convergem e é possível fazer algumas adivinhações, mas na maior parte do tempo não funciona exatamente assim – explicou Bartolomeu.


– Hum. E o que pode dizer sobre as estrelas do céu de hoje? – retrucou o anão.


– Tudo o que posso dizer é que elas se alinharam para permitir que nos encontrássemos nesta cidade, nesta estalagem, no dia de hoje, para celebrar com boa música e ótima bebida! – disse em tom alegre o senhor Bartolomeu.


– Yay! – gritou o anão – Um brinde às estrelas e a esta noite memorável! – Bruneor ergueu seu caneco de cerveja e, quando todos fizeram o mesmo, bateu com força seu caneco contra os outros para, propositalmente, espirrar um pouco da cerveja.


****


Mais tarde naquela noite, e algumas canecas de cerveja depois, Fildurn trouxe à mesa uma travessa com um javali inteiro, todo assado e tostado, embebido em um caldo feito de sua própria gordura e no qual estavam mergulhados suculentos pedaços de batatas cozidas e assadas com casca. Algumas ervas davam um toque especial ao javali e uma maçã estava decorando sua boca.


Os aventureiros lamberam os beiços e ficaram impressionados com o tamanho da gratidão de Fildurn: aquilo era comida demais mesmo para eles!


Sem hesitar, Bruenor pediu mais uma rodada de cerveja, e com uma faca partiu o javali e beliscou um pedaço, enchendo sua boca de saliva, e soltou um gemido de prazer com o sabor maravilhoso da carne.


A noite estava, sem dúvida, muito agradável, e muitos outros brindes foram dados pelos aventureiros, que compartilharam um pouco de suas histórias – sem muitas intimidades, é verdade.


– Os senhores me dão licença, mas eu preciso ir até a casinha – disse Duncan.


– Não demore, e use apenas a mão esquerda! – brincou Bruenor, já ébrio de tanto beber e vermelho de tanto comer.


– Vou aproveitar e ir lá fora pitar meu cachimbo. Não me demoro – disse Bartolomeu.


Duncan saiu e ficou como um doido procurando pela casinha, apertado que estava. Bartolomeu se divertiu um pouco com a cena.


– Ô maluco. A casinha está bem ali em frente – disse Bartolomeu, dirigindo-se para Duncan.


– Ah, obrigado – a urgência não permitia que Duncan dissesse mais do que duas palavras.


Enquanto o espadachim se alivia, Bartolomeu acendeu seu cachimbo próximo à soleira da estalagem. A noite estava iluminada. Luna brilhava alto nos céus de Flanaess, enquanto que Celene lentamente deixava seu estado de nova e passava à fase minguante, deixando um filete levemente azulado no firmamento.


Bartolomeu contemplou as estrelas e respirou o ar limpo e fresco. A erva que queimava o inebriava, fazendo cócegas na sua cabeça. Relaxado, ele sentiu estar em casa pela primeira vez em muitos e muitos anos. Havia algo de estranhamente familiar, de confortável (ou reconfortante) em tudo aquilo. Parecia ter encontrado algo de especial. Mas mesmo assim, perscrutando seus pensamentos mais íntimos, ainda não se permitia aceitar que estava tudo bem.


Por mau agouro ou não, Bartolomeu viu quando uma carruagem se aproximou da esquina da rua da estalagem e parou à distância. Dela desceram dois guardas e um homem gordo, baixo, vestindo sapatilhas de couro preto, meiões brancos, calças e casaco de veludo azul, colete vermelho e camisa bufante branca. E os três começaram a caminhar até a porta da estalagem.


Bartolomeu, percebendo isso, deu passo atrás e ficou encoberto pela sombra mais profunda. Duncan deixava a casinha naquele exato instante e viu, por trás, o estranho senhor e seus dois guardas se dirigindo até a taverna.


Duncan e Bartolomeu se entreolharam, e espiaram pela janela o que acontecia. Viam que os dois guardam ficaram parados junto à porta, pelo lado de dentro, montando guarda, enquanto que o velho gordo foi até o balcão.


Quando Zolu passou perto ele a agarrou pelo braço. Wurren e Bruenor estavam alheios a isso tudo, pois haviam apostado que o anão era capaz de comer o javali inteiro sozinho, e o meio-orc se divertia enquanto o anão bufava e atacava a comida.


Mas Duncan travou a respiração e Bartolomeu armou discretamente sua besta com um virote destinado ao pescoço gorduroso do velho.


O gordo falou alguma coisa ao pé do ouvido de Zolu e apontou para a mesa onde Wurren e Bruenor estavam alegremente sentados. Depois soltou o seu braço e, se levantando, contornou o balcão da taverna e saiu por um porta que dava para os fundos, como se já conhecesse bem o local.


Duncan resolveu que ia entrar, mas já estava esperando por alguma encrenca. Ele foi até a mesa onde estavam os colegas, e logo em seguida Zolu veio até a mesa e disse:


– Senhor Duncan, preciso que me acompanhe, o Lorde Leandonn quer conversar com o senhor em particular.


Sem dizer uma palavra, mas lançando olhares preocupantes para os colegas, Duncan se levantou e acompanhou Zolu.


Bartolomeu decidiu dar a volta por fora e, pulando uma cerca, contornou o prédio da estalagem e foi até os fundos para observar. E viu quando Duncan chegou e Zolu deixou o espadachim e o velho gordo sozinhos.


– Meu lorde tem uma proposta para o senhor, Duncan. Seu desempenho o impressionou, mas ele não está convencido ainda, e deseja testar suas habilidades em campo, numa prova real de coragem e destreza – disse o velho.


– Quem é seu lorde? – perguntou Duncan.


– Perceba, meu lorde é um benfeitor destas terras. Um homem apaixonado pelas virtudes que inspiraram os fundadores do Grão Ducado, e deseja contribuir com sua fortuna para fazer destas terras um lugar livre novamente – explicou o velho, enquanto acendia um charuto e, calmamente, ajeitava os parcos cabelos grisalhos que, de tão leves, esvoaçavam somente com a brisa – Eu lamento, mas meu lorde não deseja revelar sua identidade por enquanto. Há muitos aproveitadores nestas terras, espiões inclusive. De sorte que meu lorde prefere permanecer incógnito – prosseguiu.


– No que consiste essa prova? Seja mais específico – disse Duncan.


– Fato é que notícias aterrorizantes têm chegado de stonebridge, uma vila ao sul de Orlante. Fazendeiros e agricultores têm relatado com frequência cada vez maior a destruição de suas plantações de arroz e a morte de seu gado. A gota d’água ocorreu na semana passada, quando Brenna, a filha de um camponês chamado Dillan, desapareceu e depois foi encontrada morta, com suas vísceras abertas, em meio a uma trilha abandonada que leva até o interior do brejo de rushmoors – o velho parou para degustar o charuto e prosseguiu:


– Os plebeus estão culpando o povo lagarto, exigem que o barão Eirig de Orlane tome uma atitude, e estão hostilizando os coletores de impostos e ameaçando abandonar as terras e suas plantações.


Duncan ouvia a tudo atentamente, assim como Bartolomeu.


– Por que seu lorde precisa de mim para resolver isso? Ele já não tem homens para tanto? – perguntou Duncan.


– Meu lorde ofereceu-se para ajudar o barão neste momento de dificuldade, mas alguns de seus melhores homens não conseguiram retornar das fronteiras até o presente momento, e ele entendeu que essa seria uma boa oportunidade de recrutar novos soldados, já que a cidade está em pleno torneio. Mas, como lhe disse, meu lorde se impressionou com sua desenvoltura – o velho deu um sorriso amarelo.


– Eu entendo também que o senhor não chegou desacompanhado, então, esta oferta é extensiva ao seu grupo. Meu lorde está preparado para pagar uma soma equivalente a 400 moedas de ouro se conseguirem descobrir o que está causando as mortes e a destruição em stonebridge, e ainda se propõe a pagar um adicional de 100 moedas de ouro caso consigam dar cabo dos malfeitores. Naturalmente, o pagamento só será realizado mediante provas concretas do êxito na missão, qualquer que seja ela – disse o velho.


Duncan refletiu rapidamente.


– É uma missão justa, como pude perceber, e estou inclinado a aceita-la. Mas preciso pensar um pouco – disse Duncan.


– Você não tem todo o tempo do mundo, meu caro. Essa é uma oferta generosa e justa, como disse. Quando souber sua resposta deixe um recado nesta estalagem do Rancho Quebrado em até no máximo uma semana e aguarde por mim, que o encontrarei. Lembre-se: você só tem uma semana!


– Eu entendi perfeitamente – disse Duncan.


– Agora, meu bom homem, importa-se de aguardar um pouco aqui fora enquanto me retiro? – perguntou lorde Leandonn.


– Não, de forma alguma – respondeu Duncan.


Depois que o lorde foi-se embora. Duncan entrou na estalagem e foi até a mesa sentar-se com os colegas e dar-lhes a notícia da missão.


Bartolomeu deu a volta de novo e entrou pela porta da frente, aproveitando para observar a carruagem do lorde indo embora. Quando entrou, logo procurou por Zolu:


– Aquele lorde te fez algum mal? Ele te machucou?


– Nã… não. Ele apertou meu braço com um pouco de força, mas foi só isso – respondeu, um pouco sobressaltada, a filha de Fildurn.


– Mas ele já te fez algum mal em outras oportunidades? – insistiu Bartolomeu.


– Não, de forma alguma senhor.


Convencido, Bartolomeu se encaminhou até a mesa, onde presenciou Bruneor desafivelando os cintos para tentar continuar comendo. Porém, premido pela urgência com que Duncan queria lhes falar, a sós, num dos quartos da estalagem, Bruenor preferiu se dar por vencido: e por isso terá que dançar uma música de seu povo na frente de todo mundo amanhã à noite.

Comentários

  1. É muito raro Bartolomeu estar perdido, mas ei-lo deitado em uma árvore, olhando aquele seu conhecido de sempre, a mata com aquele cheiro familiar, mas sem ter ideia de onde está. Já se vão cinco dias desde sua fuga, e ele não vê mais rastros de patrulhas. Todos os dias, vai mais ao sul e a leste, afastando-se das montanhas e seguindo ao longe um rio sinuoso e fraco, comendo raízes e frutos que encontra pelo caminho: um verdadeiro banquete após anos de ração minguada. Como é jovem, sua antiga força vai voltando rapidamente.

    Seus companheiros fugitivos se enebriaram com a liberdade e tomaram decisões tolas: montar acampamentos provisórios após dois dias de fuga alucinada, seguir para uma direção qualquer achando que sabiam onde estavam, perder tempo deliberando sobre que decisões tomar, quem era o líder... Como unir humanos de diferentes lugares, orcs de diferentes tribos e meio-orcs de tribo nenhuma? Já no segundo dia Bartolomeu abandonou seus companheiros, certo de que sozinho se viraria melhor do que com um bando de loucos, cuja prisão quebrara o espírito e a razão.

    Não é fácil manter a sanidade em meio às minas, os castigos, a pouca comida, a selvageria e os períodos de isolamento. As três primeiras quebram o corpo, a quarta o coleguismo e a quinta a mente. Durante cinco anos Bartolomeu flertou com a exaustão, a doença, a fraqueza, a traição e a loucura. E, mais do que tudo, com a morte. Um campo de trabalhos forçados é a pior das prisões. A fome, as doenças, a covardia e a insanidade assolam a todos, levando a cada dia corpos e corpos para o deleite dos abutres e corvos.

    Acorde, Bartolomeu, corra! Era a voz de sua mãe, eram as mesmas palavras que falou no último dia que a viu, na última aldeia resistente de toda a floresta. Bartolomeu não correu nesse dia. Ele ficou e lutou, para dar tempos para que os demais fugissem. Mas agora, acordou de sobressalto no galho de sua árvore, e ouviu passos ao longe: passos furtivos, de dezenas de pés. Não há espaço para dúvidas ou investigações, quando se está sozinho e fugitivo. Deslizando pela árvore, Bartolomeu continuou sua fuga madrugada adentro, e ouviu quando os cães foram soltos, ouviu gritos ao longe, e ouviu uma trombeta estranha também: uma vila! No dia seguinte, estava salvo, e não estava mais perdido.

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