Tragédia em Chathold - 13º e 14º Atos

Innspa não era a mesma que Dante conhecera. Após a longa e tranquila viagem, ele pôde, finalmente, revê-la. Seus muros estavam mais altos e havia uma certa aura diferente, pesada... Poderia ser apenas algo da sua cabeça, fruto das notícias de que a cidade se aliara à Ivid, mas lhe parecia realmente ter algo de diferente na atmosfera da antes acolhedora cidade...

O grupo estava cansado e ansioso pelo conforto de uma bela estalagem e Dante logo os levou a uma. Estava com medo de ser reconhecido por alguém (como explicar não ter mudado nada em trinta anos?) e ele resolveu levá-los a uma que não costumava frequentar, assim como decidiu esperar pela chegada da noite antes de procurar por seu comandante. Os demais ficaram na estalagem, bebendo e comendo até a chegada do companheiro.

Horas depois, ele retornou, trazendo más notícias. Innspa realmente decidira se aliar ao Imperador, muito em razão de toda a destruição que ocorrera com aqueles que decidiram confrontá-lo. Aurold não aceitou tal decisão, assim como muitos de seus homens, e houve um princípio de revolta, que terminou com a sua expulsão. Aurold e seus seguidores estavam proscritos e pouco se sabia a respeito de seu destino. Aparentemente, eles vagam pelo Grande Reino, numa vã tentativa de trazer o bem novamente àquelas terras.

Se Dante fosse reconhecido como um dos homens de Aurold, ele seria encarcerado e preso. Innspa não era mais um lar para o guerreiro e ele via poucas razões para permanecerem ali. Mas Beren acreditava ser necessário buscarem por alguma informação acerca dos Contempladores. Devia haver alguma informação sobre esse inóspito mosteiro em algum lugar. Pediu que aguardassem pelo dia seguinte, pois ele procuraria encontrar alguma biblioteca que pudesse pesquisar, tendo Dragnar se disposto a ajudar nessa tarefa.

No meio da madrugada, os personagens foram acordados por leves batidas na porta de seus quartos. Havia uma carta próxima a ela, parecendo que fora o mensageiro a acordá-los. Dragnar e Beren abriram as portas na tentativa de encontrá-lo, mas não havia ninguém no corredor e o silêncio era sepulcral.

O papel da carta, assim como seu lacre, estavam bastante envelhecidos, como se há muito houvessem sido escritos. Dentro dela havia uma espécie de poema. Alguém estava aprisionado no Lago dos Druidas e clamava pela ajuda deles.

Conversaram por bastante tempo sobre a carta. O envelhecimento da missiva parecia indicar que eles estavam sendo esperados novamente e a estranha sensação de fazerem parte de algum tipo de profecia se mantinha. Ao mesmo tempo, temiam que aquele fosse algum tipo de artimanha para atraí-los a uma emboscada. Tinham consciência da importância do item que portavam e deveriam agir com cautela.

Dante lembrou-se de já ter ouvido sobre esse lago em uma espécie de cantiga infantil, uma que era usada para assustar as crianças. A canção dizia que ninguém nunca voltara de lá e que o local era assombrado por espíritos. Beren também lembrou-se de ter ouvido histórias acerca de um lago localizado na encosta das Montanhas Escarpadas. Talvez a carta estivesse indicando a eles o caminho que precisavam seguir...


Resolveram ficar na cidade por mais um dia. Beren e Dragnar tentaram acesso à alguma biblioteca, mas não havia nenhuma que fosse aberta ao público. Mas, em suas andanças, acabaram descobrindo que o Lago ficava em uma estrada ao sul, a poucos dias de viagem. Não tinham muito por onde começar e decidiram responder à ajuda requerida. Partiram na manhã seguinte, bem cedo...

O lago estava cercado por uma forte bruma. Havia um deck bastante antigo, que parecia não ser utilizado há séculos. Começaram a vagar no entorno do lago, receosos de apenas terem perdido tempo, quando ouviram um chapinhar. Olharam para o interior do lago e avistaram a sombra de um bote se aproximando. Alguém lenta e calmamente dirigia-se ao deck e o grupo esperou pacientemente por sua chegada.

O elfo afirmou estar esperando pelos personagens e pediu para que entrassem em seu bote. Perguntaram para onde ele pretendia levá-los e o enigmático elfo afirmou que era para a Capela dos Contempladores dos Astros. Disse não saber nada sobre mensagem alguma, sendo seu dever apenas levá-los até Jumdish Dour.

O grupo não fazia ideia de como alcançariam o topo das Montanhas Escarpadas naquele barquinho, mas, ainda assim, aceitaram a carona.

A névoa se tornava cada vez mais espessa conforme adentravam o lago. Não viam um palmo a sua frente e apenas o chapinhar ritmado e lento do remo indicava que avançavam para algum lugar.

Logo, começaram a sentir um vento muito frio. Sabiam que o inverno se aproximava, mas ainda não era a época para um vento tão gelado. Flocos de neve começaram a misturar-se com a névoa e eles ficaram boquiabertos ao perceberem onde estavam... Picos rochosos cobertos de neve foram aparecendo, conforme a névoa foi diminuindo: estavam no alto das Montanhas Escarpadas!

Desceram do barco e o elfo disse apenas que eles deveriam seguir pela trilha a sua frente antes de se despedir com um leve aceno de cabeça...

Realmente não precisaram andar muito antes de verem uma construção no meio da neve. Uma mulher meio-orc encontrava-se guardando o portão e não demonstrou a menor intenção de permitir a entrada deles. Havia recebido ordens expressas de não permitir a entrada de quem quer que fosse e pouco se importou com o frio pelo qual eles estavam passando. Que tivessem se preparado melhor para a viagem! Admirava-lhe ver como eles haviam sobrevivido a travessia portando aquelas roupas...

O grupo mencionou estar sendo esperado, assim como o nome do elfo barqueiro, mas ela não fazia ideia de quem ele era e manteve-se irredutível. Foi quando as portas se abriram e um homem negro, corpulento e de voz bastante grave apareceu. Ele apresentou-se como Jumdish Dour e deu um olhar curioso para os personagens, antes de permitir sua passagem.

Aquele era um templo dedicado a Celestian, deus do espaço e das estrelas. Enquanto fornecia sopas e bebidas para aquecê-los, Jumdish disse que as estrelas haviam mencionado os personagens com bastante frequência nos últimos anos. Em verdade, ele não os havia visto diretamente, mas as estrelas alertavam para um grande mal que se aproximava, um mal que digeriria todo o universo. Para se opor a esse mal, havia um grupo de aventureiros desligados de seu próprio tempo, os quais portavam um poderoso artefato. Neles estava a esperança...

O peso de mais essa previsão se impunha ameaçadoramente sobre os ombros dos personagens. Todos eles ainda eram muito novos, inexperientes, e não conseguiam entender como tal tarefa parecia ser imposta a eles. Havia alguma coisa errada, não era possível...

Tais dúvidas foram levantadas pelo grupo e Jumdish disse saber que eles lhe diriam isso. Quando uma das sacerdotisas passou a ter visões com o mesmo alerta, resolveram procurar pelo arquidruida da Ordem da Cruz Sagrada. Extremamente sábio, ele poderia aconselhá-los sobre o que fazer.

Emissários da ordem druídica passaram a vir com alguma regularidade à capela para trazer e levar mensagens. O arquidruida era um homem que vivia em um extremo isolamento e esse era o único meio de contato que tinham com ele. Após algumas mensagens, em que ele conseguiu decifrar muito do que as visões pareciam indicar (como o artefato ser um dos Octysh, artefatos ligados a Tharizdum, antigo deus da entropia), orientou-lhes a procurar um velho bardo.

Gwydiesin respondeu ao chamado com prontidão. Quis saber todos os detalhes das visões e disse que um grupo de heróis chegaria ao templo precisando de orientação. O bardo se negou a responder às indagações, mas deixou com ele alguns presentes que deveriam ser dados ao grupo. 

Ao dizer isso, Jumdish puxou seis joias preciosas e as colocou sobre a mesa. Elas pareciam ser absolutamente perfeitas, com um brilho interior que rapidamente fisgou o olhar dos personagens. Cada um dirigiu suas mãos a uma delas e o toque provocou um choque imediato. Uma série de memórias inundou sua mente em rápida sucessão. Era um efeito parecido com o do fumo que haviam compartilhado com o bardo, mas agora ele era muito mais potente. Eles percebiam claramente que a essência de suas almas enfim se completava, se unindo a uma parte da qual estava há muito tempo separada. Era uma sensação de completude e de euforia, mas, ao mesmo tempo, era de grande estranheza. Eles agora possuíam dois passados, duas mães, dois pais, dois mundos, duas histórias, que se entrelaçavam, mas não se cruzavam. Era uma sensação estranha e eles não sabiam mais quem exatamente eles eram. Cada um deles era dois, mas dentro de uma única mente e corpo.

Junto das memórias, viera o conhecimento e o poder de anos de aventuras compartilhadas. Eles lembravam de todos os acontecimentos de sua vida paralela. De suas vitórias, suas derrotas, seus amigos, seus amores, de tudo que haviam aberto mão em prol de uma chance de tentarem de novo...

E, dessa vez, eles não poderiam falhar... 

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