A Desolação de Beren - 2º Ato

O grupo está em Bet Rogala, e tudo indica que irão se voltar para encontrar com a arquimaga Felana. Na mata dos Bosques Fantasmagóricos o grupo eventualmente se reencontra com a combalida torre da arquimaga. Ela não está inteiramente ciente do que está ocorrendo, mas vinha observando sempre que possível os avanços dos personagens. Iggwilv é uma bruxa lendária e perigosa, de modo que a sua infâmia transcende os limites dos Planos, e foi com surpresa e temor que ela assistiu o caminho dos personagens se cruzarem com os planos diabólicos da bruxa.

"Estou feliz em revê-los, meus bravos heróis." Ela diz centrando-se em Dante, Beren e Brÿoff. "Estou profundamente triste pelo infortúnio de Unmada." Ela demonstra pesar. "Mas assim são as teias da vida, quando um fio se rompe, encerra-se uma direção, entretanto, os artífices do tempo se encarregam de tecer novos fios mais seguros e resistentes. Não se pode duvidar e nem se questionar a sabedoria do destino, mesmo quando o fim parece ser tão dramático e iminente. Sabemos que o fio que se rompeu com a morte de Unmada permitiu que outros mais resistentes se conectassem aos seus e agora vocês estão unidos em uma única linha sobre a qual reside todo o esforço de equilíbrio do multiverso."

Ela olha para Inon, Dragnar e Vexia:

"O mal que assombra o multiverso não pode ser detido por forças mundanas como a minha ou como a de vocês. Eu sei pouco mais do que vocês sobre a maldição do Incarnum, sei apenas que esta é uma força poderosa e imbatível por qualquer meio que as raças disponham. Vocês vieram até mim em busca de conselhos, mas eu só enxergo a destruição e a danação deste mundo e de todos os outros que conhecemos. Eu não posso interferir com isso. O meu destino eu conheço muito bem e pretendo cumpri-lo à exatidão do que foi planejado. Cedo ou tarde Iggwilv irá clamar o direito de governar todas as terras. Muitos serão os seus opositores, heróis e divindades de muitos mundos, porém tudo o que conseguirão será o derramamento infindável de sangue. Os deuses serão mortos ou banidos, subjugados pelo poder primordial que a bruxa agora domina. Ou dobrarão seus joelhos e jurarão fidelidade à nova soberana do multiverso."

O olhar de Felana é soturno, sombrio, cheio de medo e desesperança.

"Nada obstante, aí estão vocês, reles seres comuns resistentes em seus bravos corações ante os ventos da mudança, dispostos a navegar contra o mar turbulento, remando contra o fluxo dos acontecimentos, como se num esforço sobrehumano pudessem suplantar as próprias limitações e vencer o caos. Como capitães de uma galera, vocês parecem dispostos a dominar a força dos mares e a corrente do destino que os empurra em direção ao olho da tempestade. Eu não posso remar com vocês, e nem lhes dar a direção - pois não cabe a mim este papel. Vocês estão com o fio e com o tear à mão, para fazerem o seu próprio destino ou reescrevê-lo ..."

Felana perde o olhar por breves instantes e continua:

"... Em sua caminhada por Flanness vocês conheceram uma pessoa especial, com quem eu tive o prazer de viajar uma parte da minha vida. Ele, mais do que ninguém, pode ajudar vocês. Mas ele nunca pode ser encontrado, a menos que queira ser encontrado. E a minha intuição me diz que ele quer."

Felana estava falando de Gwidiesin, o Bardo, que os personagens conheceram nos outeiros desolados do Grande Reino.

Beren, principalmente, compreendeu bem o recado. Era preciso falar com O Bardo novamente. E, assim agindo, o grupo conseguiu combinar com ele um encontro nas Colinas das Tumbas, nas imediações da Cidade Livre de Greyhawk.

O grupo, então, viaja até lá pelas mãos do poderoso Beren, montando acampamento nas colinas em busca de sinais dO Bardo. Certa hora na noite profunda, detectam um foco de luz na mata distante e Inon vai verificar. Ao chegar no local vê que O Bardo está sentado sobre uma rocha, instigando o fogo de uma fogueira, brincando com suas chamas e contemplando as brasas que estalam e caem sobre a terra escura ao seu redor. Ele convida Inon e os demais a se juntarem a ele.

Assim, Inon chama os demais personagens e eles se reúnem em torno de Gwidiesin. Todos encontram assento, menos Dragnar, que olhava para a infame figura com descrença. O Bardo não perde tempo.

"O Incarnum é o Poder fragmentado do Criador, é o princípio e o fim de todas as coisas, a matéria prima de onde tudo se criou, inclusive os deuses e, portanto, nem mesmo os deuses podem vence-lo, ao menos não diretamente.

O machado de Heironeous irá se partir, os exércitos de Hextor serão dizimados e mesmos as hordas de Erythnull não podem vencer o Incarnum. Não há nada na criação que não possa sucumbir ao seu Poder.

Se tivessem a oportunidade, perguntariam à Sua Senhora, Lady Istus, porque teceu teia de tamanha perdição para os povos deste e dos outros mundos. Ela, a mais antiga, e a mais poderosa, é a Senhora do Tempo e do Destino, em sua infinita sabedoria e onisciência, então porque optou por deixar que os planos de Iggwilv se concretizassem? "

O Bardo toma umas ervas de fumo de sua bolsa, ajeita seu cachimbo, dá uma pitada e o repassa aos demais. Todos pitam, exceto Dragnar, que ainda persiste de pé. Ainda incrédulo de que o velho homem pudesse ajudar!

"Eu conheço muitas coisas, pois já perambulei por toda a existência. Os planos de Iggwilv são antigos, muito, muito antigos. Não se enganem, pois ela não se engana. Iggwilv é hábil e capaz. Ela buscou pelo Segredo do Incarnum por toda a sua longa vida, e planejou cada etapa de sua ascensão ao Poder.

Quando o criador decidiu partir, após as inúmeras contendas entre os seus filhos amados, aqueles que conhecemos como deuses, tomado de dissabor, ele decidiu fragmentar seu poder, espalhando-o por todo o multiverso, protegendo os fragmentos em pequenos receptáculos chamados de Octychs - que nada língua primordial quer dizer "arca". Os Octychs foram então espalhados e escondidos por toda a criação, lacrados com o selo da magia primordial para nunca mais serem encontrados e violados.

Muitos deuses malignos se dedicaram a encontrar os Octychs. Uns queriam destruí-los, por temerem que se tratasse de uma cilada do Criador, outros queriam seu Poder para si mesmos, para que se alçassem à condição de deuses supremos. Alguns deuses bondosos trabalharam ativamente para proteger o segredo, simplesmente frustrando os planos de quem pretendia desvenda-lo, outros também queriam encontra-lo, para restaurar a glória do seu amado pai.

Seja como for, os planos divinos mais ousados nunca funcionaram, e após o primeiro concílio divino, os deuses, liderados pela Senhora Istus, concordaram em nunca mais perseguir este objetivo. E Istus concordou também, que nunca iria interferir, fosse pelo motivo que fosse. Neste mesmo concílio os deuses concordaram em não tornar a influenciar diretamente nos assuntos dos mortais, mas em realizar suas obras somente por intermédio da fé de seus fiéis seguidores.

Isto foi no primórdio, na aurora dos tempos, na primavera das eras.

Deste modo, acompanhando o fluxo do tempo e do espaço, nenhum dos deuses viu o mal se aproximando. A crescente ganância de Iggwilv e seu plano terrível ganham forma a cada novo dia. Ela foi hábil em distrair os deuses. Ela incitou guerras, instilou o ódio e a inveja e por intermédio de suas nefastas ações determinou a ascensão e a queda de deuses, anjos e demônios, nestas e em terras mais distantes. Seu filho foi a maior distração, e o golpe mais letal à percepção dos deuses. Ele não sabe disso, mas seu nascimento fez parte dos planos da bruxa, pois foi a presença do Ancião em Oerth que causou o desequilíbrio de forças que iria distrair os deuses dos planos de Iggwilv, que usou as décadas do porvir para tramar e executar suas ardilosas intenções enquanto todos voltavam suas atenções para os acontecimentos de Flanness, ora preparando seus fiéis, ora deliberando sobre a forma de atuação nos anos de desastre e guerras que se seguiriam.

A bruxa é a mestra dos disfarces, ela possui muitas faces, e enganou a todos. A Istus, que não pode ser enganada, assistiu calada enquanto Iggwilv percorria os fios de suas teias rumo a Fonte Secreta do Poder mais devastador que jamais existiu. E como jurou nunca interferir, nunca o fez. E na terra, os homens simples dedicavam-se às orações ao deuses menores da agricultura, enquanto que os cavaleiros encontravam resguardo sob o machado de heironeous ou sob o mangual de hextor. Já os sábios, dedicavam-se aos segredos mágicos de Boccob, ou aos mantras ocultos WeeJas, buscando domínio sobre a vida e a morte.

Istus não possui obras na terra dos homens. A Grande Tecelã não passava de uma observadora cautelosa, e levou muito tempo até que encontrasse o nó que poderia desatar esses fios todos, remodelando o destino e a perdição da existência.

Mas Istus jurou não interferir. Então, a bem da verdade, é que cabe aos mortais desatar o nó, uma vez que ele seja conhecido pela sagrada razão da Senhora do Tempo e do Destino.

No tabuleiro das intrigas divinas, somente as criaturas desta terra possuem o direito de mover as peças. Lamentavelmente, as peças não foram movidas e Iggwilv nos deu um check-mate. O destino desta terra é perecer, eventualmente.

Os homens ainda lutarão muito, e demorará até que percebam o tamanho do inimigo. No leste as forças resistentes irão confrontar muitas vezes os lacaios de Ivid. No oeste, Furyondy e Veluna irão se ocupar de conter o avanço do Ancião, renovado em sua plenitude ao seu trono. No norte, os bárbaros ainda esperam o retorno de Vatun e no sul as intrigas palacianas imobilizarão o povo suloise. Nerull ceifará muitas vidas, é certo. Muitos serão valentes, e outros serão covardes. Feitos de força e magia ainda irão permear Flanaess antes que o fim inevitável se aproxime. Tudo isto enrubescerá os deuses, mas nenhum esforço deste ponto em diante será útil de verdade. Este é o tempo da extinção, a era do inverno finalmente chegou sobre nós. "

Gwidiesin parece triste e desolado.

Ele pega seu alaúde, toca uma suave e bela melodia, entoando a seguinte canção:


"Quando virarem as páginas da história

Quando estes dias já tiverem passado há muito tempo

As pessoas irão ler sobre nós com tristeza

Pelas sementes que deixamos germinar?

Nós olhamos pasmos

Dos castelos no passado

Olhos levados

Pelo caminho de menor resistência



Cidades cheias de ódio, medo e mentiras

Corações murchos e olhos cruelmente atormentados

Demônios conspiradores vestidos como monarcas

Massacrando a multidão e

Zombando dos sábios



Os hipócritas estão difamando

As salas sagradas da verdade

Nobres anciões estão descarregando

As suas mágoas na juventude

Será que não podemos encontrar os propósitos que nos ensinaram a ser fortes?

Será que não podemos aprender o que é certo

E o que é errado?

O que é errado?



Quando virarem as páginas da história

Quando estes dias já tiverem passado há muito tempo

As pessoas irão ler sobre nós com tristeza

Pelas sementes que deixamos germinar?"


Neste momento, os personagens observam que as brasas que ardiam sobre a terra escura brilham de modo muito tênue, mas estranhamente reconfortante. A fogueira arde de modo menos intenso, recolhendo-se a uma chama menor, e os personagens podem ver como essa fogueira se torna uma metáfora para o sol que gira em torno de Oerth, e como a terra escura se forma a exemplo do firmamento, e as brasas que ardem formam as estrelas do céu. Todo aquele fenômeno traz aos personagens uma sensação estranha de familiaridade e reconforto, embora no fundo de suas cabeças a dúvida e o temor estejam formigando.

Gwidiesin continua pitando seu charuto e torna a dispô-lo aos demais. Desta vez, Dragnar não somente pita, como TRAGA a fumaça do charuto, sentando-se logo em seguida, mais disposto a ouvir O Bardo.

"Vocês vejam, meus queridos, que vocês sempre viajaram muito. De lá pra cá, e de cá pra lá outra vez. Foram muitas idas e vindas, e eu me regozijo com isto. Pois eu sei que no horizonte está o sentido da vida, e nós nunca devemos nos cansar de perseguir a essência das nossas vidas. Por isso andei tanto na minha história. E vejo que vocês carregam as marcas de muitas viagens, muitas vitórias e de muito sofrimento.

Eu gostaria de oferecer a vocês mais uma viagem, possivelmente a última grande que faremos nesta era."

Dominados pelas palavras persuasivas dO Bardo e inebriados pelo poder de sua erva, a vontade dos personagens de ir com o Bardo é muito irresistível, pois ele é verdadeiramente capaz de acalentar os corações de cada um, com um reconforto caseiro, como o abraço da mãe e do pai. Logo, sem pestanejar os personagens manifestam o desejo de ir com O Bardo.

Num instante, como mágica, a fogueira se abre, como um anel de fogo, que forma um portal sobre o chão do bosque. Ao atravessarem, os personagens surgem no alto de uma pequena colina rochosa, rodeada de areia bege e grossa, contra a qual chocam-se as águas de um mar não muito grande, limitado pelas beiradas de uma gigantesca roda dentada sobre a qual tudo aquilo se assenta.

E os personagens podem ver que a roda dentada se conecta a uma outra, e esta outra a outra e assim por diante. As rodas dentadas flutuam sobre o universo. O vácuo é repleto de engrenagens colossais interconectadas, como o mecanismo interior de um relógio ornamental. Algumas se tocam em ângulos retos, e outras num mesmo plano. As engrenagens são compostas de pedra, terra e minérios metálicos, como se uma divindade as tivesse esculpido da crosta do plano material. Algumas são tão grandes que chegam a ter milhares de quilômetros e giram tão lentamente que sequer pode-se perceber o seu movimento, mas ainda assim giram, como provam as engrenagens menores que se conectam a elas. Muitas destas engrenagens menores giram a velocidades atordoantes para um observador comum.

O grupo foi levado ao Nirvana Tecnológico de Mêcanus!

Gwidiesin leva os personagens por dias e noites, através das engrenagens, até a cidade de Delon-Estin Oti, uma cidade perfeitamente simétrica que se localiza no centro de uma gigantesca engrenagem, embora só ocupe uma pequena parte dela.

No centro da grande cidade há uma enorme praça, onde seres de todas as naturezas muitas vezes se congraçam em paz. No centro da praça existe um grande coreto de mármore branco, ornado com estátuas de grifos, e sobre o qual uma trepadeira frondosa cresceu pelos séculos dos séculos. Gwidiesin sobe pelas escadas do coreto, e lá dentro, acompanhando-o, os personagens encontram uma mulher antiga, uma velha senhora com muitas marcas do tempo. Ela veste um manto azul muito escuro, quase preto, ao qual se sobrepõe parcialmente um manto vermelho. Os mantos são todos muito esfarrapados. Seus cabelos são grisalhos, perfeitamente lisos e longos, muito longos, indo quase até o chão. Ela está de costas para os personagens, contemplando a distância o final do Nirvana de Mêcanus.

Dragnar identificas aquela figura, pois sua aparência é muito semelhante às aparições dos avatares de Istus, tantas vezes narradas nos sonhos dos adivinhos do mundo todo.

Porém, quando os personagens chegam e contemplam a sua estranha figura, a senhora e vira para eles: era Felana! A própria!

"Meu amigo Gwidiesin, há muito tempo não te vejo! Como é bom olhar para você e ver que nada mudou desde nosso último encontro."

O Bardo responde à Felana:

"Senhora. Trouxe-os aqui. Nenhum local em Oerth é seguro. E nem em nenhuma outra terra, nem em Yrth, nem em Aerth, Uerth e Earth."

"Eu sei disso, mas você sabe que não há nada que possamos fazer para evitar que ela se expanda cada vez mais. Os planos de Iggwilv estão adiantados, seu Poder já cresceu muito. Não demorará e Mêcanus irá sucumbir também, alterando definitivamente a engrenagem da Grande Roda, e os mundos vão cair, eu já vi isso na teia do Destino. Há muitos bravos heróis lutando para vencer o mal e o mal trabalha incessantemente para derrotar o bem. Tem sido assim desde o princípio dos tempos. Só que Iggwilv se tornou maior do que o bem e o mal, ela se tornou o caos supremo, que suplanta a ordem, e a própria noção de bem e de mal. Sua vontade não se submete a regra alguma."

Dirigindo-se aos personagens ela diz:

"Valentes heróis. Eu os vi se reunirem. Como vocês, já foram muitos. Eu vi alguns morrerem, e outros desistirem. Mas vocês fizeram o seu caminho até aqui e hoje estão diante de mim e de Gwidiesin. Eu não posso mudar as teias do Destino, eu apenas posso tecer a história, como um retrato falado dos Tempos desde o dia depois da criação até o último dia da existência como a conhecemos. Quem de vocês pode me dizer o que se pode fazer quando seu adversário lhe dá um check-mate?"

"TOMAR O REI!" Diz o insipiente Inon.

"Você começa uma nova partida!" Disse o confiante Dante.

Felana não resite, e emite um sorriso de aprovação para o clérigo de Natirel. 

"Sim, você pede uma revanche!"

Inon parecia desapontado com o seu próprio pessimismo. Mas não havia olhar de reprovação de ninguém. Felana, então, diz:

"Não é direito da bruxa destruir a criação, ou molda-la ao seu bel prazer. Este direito não cabe nem mesmo aos mais ousados deuses - os que ousaram foram rebaixados ou aniquilados. Contudo, não podemos intervir na natureza das coisas, impor aos mortais a vontade dos deuses ou restringir-lhes as ações. Temos que aceitar o Destino e contemplar o caminho que os seres viventes decidem tomar.

Vocês, porém, lutaram muito bravamente. Foram éticos e retos nos momentos onde outros fracassariam. Eu vi Dragnar nascer da forja de moradin e lutar pelos indefesos contra as hordas do Overking, eu o vi envelhecer e continuar fiel ao Ferreiro, lutando com dignidade e se expondo, mesmo velho e manco, a toda sorte de atrocidades em nome daquilo que acreditava ser o certo. Eu vi Brÿoff deixar as montanhas de Karasta em busca do primo, o vi lutar pela honra da família e manter o respeito e o amor pelos homens apesar das atrocidades que seu povo sofreu nas mãos dos artífices. E vi Dante se formar nas fileiras de Natirel, dedicando-se com paciência e afinco nas lições e na disciplina de seu senhor. Vi Inon andar pelas ruas tortuosas de Sigil, dobrando a realidade dos planos a seu modo, e senti seu fogo inflamar-se a cada nova aventura. E Beren... "

Felana demonstrava muita emoção. Gwidiesin contemplava os personagens e olhava para a deusa. Os joelhos de Dragnar há haviam se dobrado, pois sabia que Felana era, na verdade, a própria Istus. 

"...eu vi você desde o começo. Quando você se uniu a quem deveria odiar para salvar aquele bebê, em longínquos anos. Eu vi seu esforço e seu desespero para salvar Harric e Rhalevahn das garras do odioso Durzgol, vi sua alegria ao descobrir o paradeiro de seu pai Ardrus, e como agora está em vias de descobrir a sua própria família, pois o ventre de Phrowenia está cheio de vida graças ao seu amor. Vexia, pequena elfa, que saiu sozinha de seu reino para enfrentar todos os males disposta a dar a própria vida para salvar a rainha de seu povo..."

Vexia e Shenda pousam de seu voo gracioso, dobrando os joelhos em reverência à Senhora do Destino. Um a um os demais personagens são tomados de forte emoção, uma vontade incontida de chorar e,contendo os sentimentos pelas palavras profundas, dobram seus joelhos.

"... Eu vejo os fios dos destinos de vocês. Vocês viveram vidas intensas e gloriosas, e vejo que mesmo a Tecelã pode ser surpreendida quando estes fios que teci os trazem até aqui no momento da minha maior necessidade e aflição. E por todos os predicados de que já falei, e porque o rio da vida os trouxe até aqui, vocês têm diante de si uma escolha desoladora. O seus Destinos pertencem a vocês, me digam como desato o nó."

Felana olha à distância novamente, atraindo o olhar dos personagens para os céus limpos de Mêcanus.

E no firmamento os personagens vêm a projeção da imagem de seus entes queridos, seus amigos, suas esposas. E vêm os seus grandes feitos de força, e de coragem, e tudo quanto de glorioso fizeram na sua infância, na sua juventude e depois dela. E eles observam suas vidas daquele momento em diante, com alguns momentos de alegria profunda com estas pessoas, mas vêm também quando os céus se tornam vermelhos, e sobre a areia do mar vêm subir uma gigantesca besta de oito patas e muitos olhos, e cada olho trazia consigo o nome de uma blasfêmia. E a besta trouxe consigo os seus cavaleiros negros, montados em pesadelos, que espalharam sobre a terra dor e ranger de dentes, assolando os povos viventes com fome, doenças e guerras. E por mais que lutassem, os personagens viveriam para verem seus entes queridos morrerem, esmagados pelo furor da besta, que é Iggwilv, a Senhora das Terras Exteriores, até que o sol se apagasse e tudo fosse transformado em trevas. Os deuses caíam sobre a terra e eram esmagados e triturados, quando a besta clamou para si o domínio de todo o mundo.

Alguns personagens se emocionam, devastados pelo realismo das imagens. É a predestinação do mundo, e o sinal do cruel destino que aguardava a todos, inclusive àqueles que mais amavam e desejavam proteger.

"Vocês podem retornar daqui para seus lares, para viverem a vida que bem entenderem. Aventurem-se ou não. Recolham-se às suas casas ou não. As teias do Destino estão costuradas e o Poder do Incarnum não pode ser detido, quiçá adiado. Vocês podem retornar daqui, e usufruírem de tudo o que conquistaram. Do prestígio, da honra, das riquezas, do poder e da glória, mas saberão que tudo isso irá se esvair. Tudo será lavado com o seu sangue e com o sangue das pessoas que lhes são caras. Isto ainda pode levar alguns anos para acontecer, mas é o que está tecido no emaranhado do Destino..."

O firmamento clareia novamente, voltando ao normal, e sopra um vento forte que traz consigo nuvens esparsas e novas imagens surgem nos céus. Os personagens se vêm jovens , muito jovens, cuidando de seus afazeres típicos, num mundo como costumavam conhecer, mais inocente e cheio de paz. Com aventuras infindáveis à frente, jovens amores, estalagens cheias de vida, glória e honra, luxúria e prazer, amizade, fraternidade, masmorras cheias de tesouros e tudo o mais que uma pessoa poderia desejar numa vida de explorador. A imagem é reconfortante demais para todos.

"... ou vocês podem tomar um caminho diferente, através do Plano do Tempo, cobrando de Šîþowidishtan a paga de um antigo favor que ele deve à Istus, e assim, eu lhes garanto, vocês viverão ainda muitas primaveras, pois lhes será dada uma segunda chance de viver. Os Senhores do Tempo são criaturas antigas e em grande parte desconhecidas até mesmo dos deuses. Eles manipulam o rio do tempo infindável, e lhes concederão a graça de uma nova oportunidade, na qual a história poderá ser completamente reescrita... Ou repetida. E como eu só teço as teias do Destino, mas não o defino, vocês poderão escolher o que fazer de suas vidas, mais uma vez. Poderão viver em paz e harmonia, ou poderão perseguir objetivos maiores e reescrever o Destino final de Oerth. Queridos, eu não vou lhes impor nada, mas se optarem por este caminho a criação terá nova oportunidade, vocês podem até não perceber, mas a história poderá ser reescrita. Gwidiesin os guiará até a Porta do Plano do Tempo."

Dante reage, sem muita hesitação, e se diz pronto para fazer o que entende ser o certo - honrando-se com o compromisso assumido com a Tecelã.

Dragnar olha para Gwidiesin, balbuciando seu verdadeiro nome, atordoado pela experiência única e maravilhosa.

 "Fharlanghn..."

Gwidiesin acena de modo muito discreto, talvez só perceptível para o Mestre Anão, que olha para Istus e, sorridente, aceita seu encargo nos planos dA Tecelã. Brjoff também aceita o caminho novo, proposto pela Senhora do Destino, pois estava disposto a fazer tudo para salvar o mundo da desgraça que a bruxa representava, honrando a tradição destemida dos anões de Karasta.

Beren parece inquieto. Ele pensa no amor de Phrowenia, no filho que ainda não conheceu, no pai libertado, nos amigos e em tudo. Tudo. Inconsolável com a cruel escolha que tinha diante de si, Beren perguntou:

"O que será destas pessoas? Irei me lembrar de tudo? Como saberemos o que fazer? Meu coração se afligem com a saudade e com o medo de falhar.."

Felana lança novo olhar penetrante, lendo a alma o arqueiro arcano:

"Eu te vejo, Beren. Vocês não se lembrarão de nada, ou se lembrarão de muito pouco. Isto estará nas mãos dos Senhores do Tempo. Sua existência estará vinculada a uma nova realidade, alternativa a esta e não há garantias, exceto que, no tempo certo, vocês serão chamados a completar os seus destinos, pois eu mesmo tecerei as teias dos seus caminhos!"

Beren reflete por breves instantes, porém não hesita de novo, e aceita o encargo.

Inon se levanta e vira de costas para Istus.

Todos os corações se inquietam, pois por um instante, o grupo achou que Inon iria negar-se a ir.

"Que sentido tem tudo isso? Como poderemos nós sermos capazes de tamanha missão?! Eu mal conheço estas pessoas, e sinto meu coração pesado por tudo o que perdi. Minhas referências, meu passado, tudo o que tinha por mais querido desvaneceu na encosta das montanhas das Terras Exteriores quando Sigil caiu."

Felana se preparava para responder, mas esse fio do Destino ela não teceu. O tear estava nas mãos dos personagens.

"... talvez, talvez, por isso mesmo eu deva ir. Nada me prende aqui, pois perdi tudo. Tudo o que tenho é o futuro, e se for para viver em um mundo governado por uma tirana malígna como Iggwilv, qualquer sacrifício não será em vão."

E, concordando com a missão, Inon se vira para todos, de modo muito soturno, mas suficiente para aliviar os corações.

Com isto, Felana diz que Gwidiesin os levará até o Plano Secreto do Tempo, para que tudo se concretizasse. Antes, porém, proporcionou-se o momento de despedida emocionada de Shenda, que retornou para sua casa, em Arbórea, nas planícies verdejantes.

Em seguida, num passe de mágica, os personagens se percebem em uma paisagens desoladora. Um terreno árido e infértil de terra seca e cascalhos. Sopra um forte vento, fortíssimo, que levante poeira, areia e pedras no ar encobrindo a visão. 

No horizonte percebem um grande palácio branco, onde vivem os Senhores do Tempo. Mas antes que pudesse tomar uma atitude, uma saraivada de pedras atinge a região. É uma tempestade violenta. O grupo estava o olho de um furacão, e muitas pedras voavam e muitas atingiam seus corpos, esfacelando-os e transformando-os em migalhas. Pulverizados, os corpos de Beren, Dante, Dragnar, Inon, Bryoff e Vexia deixaram de existir e suas existências foram apagadas do tempo e da história do multiverso.




Comentários

  1. Excelente post! Um final sombrio, mas que se abre para uma nova esperança. Resta saber se conseguiremos evitar que tal destino se repita...

    E adorei o "poderoso Beren", rsrs, mas em verdade é " poderoso Dragnar", já que foi ele quem nos levou de volta a Oerth...

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  2. HAuhauahuahua... vocês são todos poderosos. É o show das poderosas!

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