A Desolação de Beren - 1º Ato

As coisas estavam estranhas, e os personagens podiam perceber isso.

Enquanto Inon saia em sua caminhada noturna para tentar encontrar algum escriba que pudesse ajudar, Beren vasculhava as estantes repletas de livros e manuscritos bizarros na loja de alquimia de Melbreunor. Do outro lado da sala Dragnar acomodava o corpo inerte do chaveiro élfico para que ele repousasse de modo mais confortável, entoando cânticos anões para mantê-lo vivo de alguma forma, já que o poder de Moradin não surtiu o efeito desejado e o anfitrião ainda estava perigosamente desmaiado.

Dante lançou um olhar de perplexidade para um caderno velho que estava caído em um canto da sala, atrás de uma das poltronas que ornavam o local, logo a frente da escrivaninha onde Melbreunor foi encontrado.

"Hey! Tem algo aqui! Beren você consegue ler isso?"

Era uma escrita estranha para o kalamariano, obviamente.

Inon dava passos apressados pelas ruas magníficas de Sigil, contemplando seu poder e sua glória pela última vez. Perdendo seu olhar nos confins de uma avenida, Inon percebeu que a rua estava estranhamente vazia e que uma bruma espessa e de sobrenatural tonalidade púrpura invadia lentamente a paisagem.

Ele resolveu tomar o caminho de um beco que conhecia razoavelmente bem. Ao entrar, seus olhos logo se acostumaram com a escuridão mais profunda e notaram o corpo de um vagabundo, lixo e alguns ratos. A esta altura, os vigias noturnos da Cidade das Muitas Portas acendiam as candeias das ruas com seu fogo azul, mas aquela penumbra não penetrava pelo beco senão de modo muito tênue.

Ao dobrar uma esquina, Inon viu-se no mesmo beco de antes. Seu coração foi tomado de momentâneo terror e desespero, pois o Labirinto era um semiplano coexistente a Sigil para onde a Dama da Dor enviava aqueles que a desagradavam. E Inon questionou se havia infringindo alguma regra importante da cidade.

O terror passou, quando ele subiu em um telhado e percebeu que o Labirinto não tinha nada a ver com o que se passava. As ruas estavam sendo tomadas pelas Brumas, o silêncio ecoava pelas ruas de Sigil, o povo havia se recolhido.

Inon deu mais um passo adiante, alcançando a beirada da cumieira, quando viu a figura d'Ela! A criatura portentosa deslizava pelo ar de modo mais altivo do que qualquer um jamais poderia desejar. Seus olhos encheram-se de temor novamente, a Magistrada, a Dama da Dor, a Senhora dos Horrores, a inefável criatura estava ali diante de seus olhos vivos, pelas Brumas flutuando através das ruas e avenidas de seu reduto inviolável - Sigil!

Inon estava determinado a chegar até os salões do Clã dos Escribas e saltou um, dois, três telhados.

Beren estava sob o poder de um feitiço mágico capaz de dobrar as distâncias linguísticas que o separavam do idioma comum das Terras Exteriores. Dante lhe entregou o caderno. A capa era de couro, mas estava muito puída. O conteúdo, porém, era novo e muito recente. As páginas de papiro estavam amarradas com sisal à lombada e a tinta ainda estava fresca.

"Os sábios já anotaram nos anais dos mais elevados estudos arcanos que a viagem pelos portais, especialmente pelos de Sigil, são uma modalidade extremamente peculiar de passeio. Ao invés de percorrer o plano astral, este tipo de viagem permite conectar-se diretamente com o plano designado, tornando a viagem mais rápida, direta e tranquila. Pode-se dizer que estas viagens são mais seguras também, pois é essencialmente a natureza abrupta, imprevisível e violenta do plano astral que torna viagens interplanares tão perigosas e até mortais.

Pois tenho notado nos últimos dias, recentes dias, que mesmo as viagens pelos portais de Sigil estão estranhas, perigosamente estranhas. Além de potencialmente instáveis, as viagens estão prejudicadas pois os portais estão simplesmente... Falhando! Aliás, tal evento é digno de nota, observação e estudos, pois não há registros de que isso tenha ocorrido alguma vez desde a batalha dos sete infernos, e isto já tem alguns milênios - não restando seres mortais que possam dar testemunho de tais fatos.

Algo de estranho acontece. Sinto isso no ar. A estabilidade da cidade está... Esquisita, anormal. Uma força oculta movimenta os planos e nenhum feitiço mágico é capaz de detectar. Sua onipresença é inefável, inexorável. Pergunto-me se isto é fruto de alguma mudança de humor da Dama da Dor ou se algo pior está acontecendo. Todos esperariam que ela proteja a cidade. Ninguém, porém, rezará por isso - obviamente."


As duras palavras acabaram de serem lidas em voz alta por Beren. Todos haviam prestado muita atenção e um presságio lúgubre era como viam a última mensagem de Melbreunor. Então, um forte tremor sacudiu tudo.

Inon quase caiu do telhado neste momento. As Brumas se agitaram nas ruas. Sigil é uma cidade que flutua sobre o alto da mais elevada montanha das Terras Exteriores. Nenhum terremoto podia sacudi-la. Mas o que estava para acontecer não era um fenômeno geológico. 

Fortes tremores abalaram Sigil e a cidade rachou ao meio, como se fosse possível imaginar uma rosquinha de polvilho sendo partida nas mãos de uma criança esfomeada. O som ensurdecedor, o horror dos gritos, era tudo apavorante, mas a visão da cidade de abrindo era mais impressionante do que tudo. 

Seccionada em duas metades, Sigil começou a cair sobre a montanha, como se toda a sua força mágica tivesse se esvaído. Naqueles instantes a gravidade enlouquecia, invertida pela velocidade vertiginosa da queda. Inon foi içado ao ar, mas agarrou-se a uma biruta que existia no alto do telhado.

De cabeça para baixo, via as Brumas se dissipando rapidamente, tragadas pela força do vento. E neste momento Inon viu a Dama da Dor, impávida, observando os acontecimentos. E dela emanou grande poder mágico, quando seu corpo se partiu em mil pedaços, espalhando o caos pela cidade já atormentada.

Na casa de Melbreunor, os personagens não entendiam o que se passava. Os telhados ruíam sobre suas cabeças, lançando perigosos objetos contra os aventureiros. Dragnar protegeu o corpo do elfo. Beren, sobre o efeito de vôo, que conjurara para enfrentar a besta negra anteriormente, não sentia os efeitos da queda livre em que a cidade se encontrava. Dante invocou Natirel mais uma vez, crescendo e ganhando massa para ajudar a evitar que os escombros piorassem a situação de todos ali.

Beren escalou pelo corpo do crescido amigo, e verificando o que passava na cidade teve uma ideia.

Inon colidiu contra o telhado quando a imensa cidade finalmente atingiu a encosta da montanha, em um impacto de muitas gravidades. A estrutura da cidade fraturou-se em muitos pedaços, esmigalhando a maioria das construções mais altas ou mais frágeis de Sigil. O povo urrava de dor e terror. Os olhos de Inon se encheram de sangue, os músculos se inflaram, pois era preciso agora lutar pela sobrevivência em meio ao caos.

Os enormes fragmentos da cidade deslizavam perigosamente pela montanha, sacudindo todas as estruturas. Inon podia imaginar o cenário de destruição caso estes pedaços da cidade começassem a rolar ao invés de simplesmente deslizar. 

O cume da montanha rasgava pelo interior de Sigil, separando os pedaços a cada centena de metros percorridos pelos destroços. 

Beren via o mesmo e pôs em prática o seu plano: teletransportou a todos dali para o único local "seguro" que podia ver, que era a própria montanha! E de lá os personagens contemplaram a queda e a destruição de Sigil!

Inon saltava de telhado em telhado, controlando os movimentos para evitar os destroços que voavam caoticamente pelos ares e também para não pisar em falso nas superfícies combalidas. Sua mente pensava rápido, entorpecida de adrenalina. E lembrou-se, então, da localização do portal mais próximo! Estava com a chave no bolso ainda, pois não a devolvera a Melbreunor por engano!

Saltando com dificuldade e superando obstáculos, Inon alcançou o pé do maior olmo que ornava a praça do bairro dos escribas. O chão, porém, se inclinou a mais de 45º graus numa fração de segundos. Aquele ponto da antiga cidade começaria a rolar pela encosta, esfacelando-se de uma vez por todas.

Reunindo forças, Inon lutou contra blocos de pedra, postes e enormes galhos de árvores que voavam para baixo em sua direção. Agarrou-se ao gramado, que agora lhe servia de paredão de escalada e, vencendo a gravidade, entrou na fenda existente no caule do olmo, instantaneamente sendo engolido pelo portal que o deixaria nas terras devastadas próximas a Rigcage, que dista muitos quilômetros de Sigil e da montanha sobre a qual outrora flutuava.

E de fora da cidade os personagens viram a cidade reduzir-se cada vez mais ao pó, para antes de chocar-se com o chão explodir na maior dispersão mágica que jamais ouviram falar. A violência quase os jogou ao chão e os detritos ardentes da cidade voaram em todas as direções das Terras Exteriores, muitos dos quais montanha acima, colocando em risco Beren e os demais.

O corpo de Melbreunor foi atingido por um destes detritos ardentes, mas foi Dragnar quem sentia a dor, pois sua magia de proteção mais solidária já havia sido conjurada sobre o elfo. Brÿoff foi outro que sofreu para evitar ser atingido. Ainda gigante, Danta se esforçava para proteger os colegas, mas estava claro para Beren que a montanha arderia em chamas e que era preciso sair dali.

Montanhas se erguiam no horizonte, saídas do solo em velocidade inacreditável, formando cordilheiras maciças ao redor das Terras Exteriores. A montanha aonde os personagens estavam também sofria alterações, evidentemente fruto de um poder mágico digno dos deuses maiores! O topo das montanhas se erguiam em lanças escarpadas e... em TORRES NEGRAS de poder profano!

Não havia dúvidas, alguma entidade poderosa estava atuando ali. 

Foi quando Beren viu a sombra de uma cidade no solo, distante alguns quilômetros da montanha. Sem pestanejar usou o mesmo feitiço de antes, levando o grupo consigo para lá. 

Coincidência do destino, todos os personagens se reagruparam.

Encardidos, abalados, consternados. Vexia chorava de pavor e a rainha Shenda lhe consolava, pois Sigil, o centro dos planos, estava acabada. Uma sombra escura pairava sobre as Terras Exteriores.

Apesar da exaustão, Beren conjurou a magia do pergaminho mágico confiado por Felana a ele. E assim todos os personagens viajaram até Bet Rogala, no Principado de Pekal. Estavam de volta a Tellene!

"Bem vindos a Kalamar!" Disse Dante, antes que seus joelhos se dobrassem quando o sacerdote olhou para a torre de magia de Bet Rogala!

O crente sentia uma pressão no peito e falta de ar. O que estaria acontecendo agora? 

Tudo e nada, Dante sentia a pressão aliviar quando o peso de alma do Imperador Kabori saia de seu corpo. Um alívio instantâneo e um coração mais leve. Dante cerrou os punhos sobre o chão empoeirado, e seus olhos se encheram de água. A alma de Kabori estava livre, e uma vez de volta ao seu plano natal, a confusão se dissipou e a alma podia flutuar em paz para o seu corpo embalsamado no Palácio de Bet Kalamar.

Haveria festa na capital do Império.

O anão Brÿoff ajoelhou-se para pegar um pouco de terra, da terra de sua casa, Tellene, e a esfregou no rosto, enquanto os demais contemplavam a cidade e respiravam o ar inegavelmente mais leve dali.

Sem embargo, logo viram que o tempo parcialmente encoberto trazia consigo o começo da precipitação de uma grossa fuligem. O grupo se aproximou de uma estalagem conhecida, onde o povo se reunia alheio aos eventos que alteravam os planos da Grande Roda em um universo não muito distante.

Dante arranjou quartos, e o grupo se reuniu lá, para descansar, comer e tomar banho. Os anéis de idiomas foram entregues aos forasteiros, Dragnar e Inon, para que compreendessem as línguas faladas em Tellene. 

Sem pestanejar, Dragnar disparou mensagens mágicas para Solfiere...

O pior do pior aconteceu. Sigil quebrou e caiu. Literalmente. Os planos exteriores se remodelaram em torno de uma força maligna. Incarnum. Como está Greyhawk?

... e Solfiere respondia:

Deuses!!! Isso é impossível! Mas talvez só isso explique. Os ventos, os mares, o fogo e a terra. O mundo está convulsionando! O que está ...

O anão replicou:

Ventos? Fogo?? O que exatamente está acontecendo??? Estamos em Tellene. Precisamos descobrir o que está acontecendo! Mordenkainen? Ele saberia algo? O que podemos fazer?

Ainda não sei. Não tenho as repostas que precisa. Fogo, ar, terra, água. E não só. Os mortos se erguem. As energias estão loucas suponho.

Certo. Preciso descansar agora. Entro em contato quando descobrir mais alguma coisa.

No outro canto do quarto, Beren empreendia semelhante estratégia para falar com Galahad:

Galahad, chegamos. O espírito de Kabori já está se dirigindo a seu corpo, acredito. Problemas maiores surgiram e não poderei encontrá-lo agora. Mande notícias...

Problemas maiores? Falamos depois. Fico feliz pelo sucesso! Orei muito para Dirasip! Fique atento e evite viajar por Karasta. Os vulcões estão em erupção!

Claro que Galahad falava das montanhas de Karasta, e essa explicação justificava a fuligem, que deveria estar vindo das cordilheiras distantes trazidas pelos ventos meridionais. 

Beren também enviou mensagem para Felana:

Felana, precisamos nos encontrar com urgência! Sigil foi destruída, acredito eu, pela mesma bruxa que aprisionou Kabori. Venha a Bet Rogala assim que puder...

Vi algo estranho nas observações. Estou nos bosques em minha torre. Me encontre aqui e falamos.

Excitado com os acontecimentos, Beren achou que era uma boa ideia avisar também o bardo Gwidiesin, mas ele não parecia saber quem estava falando...

E, assim, o grupo descansou.

Comentários

  1. Ficou ótimo!! Bastante detalhado, até as mensagens vc colocou...

    Agora, Bogus, Bogus, por que vc foi dar essa ideia de nome pra fase da campanha ao mestre? Isso não pode dar boa coisa, rs..

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  2. Obrigado, mister.

    Pois é. Bogus deu a ideia, agora vai ficar. Resta saber se o Beren ficará mesmo tão desolado assim... hahahaha

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  3. Obrigado, mister.

    Pois é. Bogus deu a ideia, agora vai ficar. Resta saber se o Beren ficará mesmo tão desolado assim... hahahaha

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