A Fonte Secreta - 39º Ato

Ainda esbaforido pela alucinada correria, o grupo viu-se em frente a uma grande porta metálica, magnificamente esculpida com a figura de Zagyg sendo adorado por uma multidão. Certamente uma referência à sua ascensão ao status divino, parecia-lhes óbvio que era aquele o caminho a seguir, mas o grupo se encontrava em péssimas condições. O corredor em que estavam ainda prosseguia por alguns metros antes de virar à esquerda e Beren propôs ao grupo seguirem por ele e procurar por algum lugar para descansarem, mas Dragnar não concordava com isso. Nivasti ainda estava viva e procuraria de todas as formas alcançá-los, sendo deveras perigoso ficarem ali. O quanto antes alcançassem a prisão dos deuses, melhor...

O meio-elfo estava destruído psíquica e fisicamente, mas não tinha como questionar a lógica do velho anão. Aproximou-se da porta para investigá-la, percebendo que era feita de um metal que jamais havia visto antes. Parecia muito duro, talvez até mais do que o lendário adamante. Dragnar não sabia o seu nome, mas sabia que era extremamente raro e caríssimo, além de ser quase indestrutível. Derrubá-la não era uma opção.

Havia uma grande abertura para uma chave, mas Beren nem tentou utilizar-se de sua chave mágica para abri-la. Havia uma Tranca Arcana na porta, mas não uma comum: a magia ali lançada lhe era desconhecida e, certamente, única, tamanho seu poder. Tinha sérias dúvidas se conseguiria dissipá-la, mas usou a última de sua mana para tentar fazê-lo, infrutiferamente.

Não restou alternativa ao grupo que não seguir pelo corredor. Após a guinada à esquerda, ele terminava em outra estátua de Zagyg e, a seus pés, encontrava-se o corpo de um pequeno. Ele ainda estava vivo, mas parecia extremamente adoentado. Dragnar procurou dar-lhe os primeiros socorros, mas não havia muito que pudesse fazer. Ao menos, não antes de descansar e fazer suas orações a Moradin.

O halfling estava sob o efeito de algum veneno ou doença bastante poderoso e parecia que não suportaria por muito tempo. Não era capaz de falar nada e olhava para os personagens com bastante dificuldade, como se não os estivesse enxergando direito. Ele não parecia um pequeno qualquer, portando uma bela armadura e bons itens, além de parecer ter sido colocado ali por alguma outra pessoa, não estando simplesmente jogado ao chão.

Beren deu-lhe um pouco de água, que ele bebeu com extrema dificuldade, enquanto Dante vasculhava a mochila que o pequeno agarrava com tanto fervor. Talvez ele possuísse algo que pudesse ajudá-los a salvá-lo. O sacerdote nada encontrou, mas o mago sim. Com um olhar melhor treinado, ele viu um porta-mapas com um mapa bastante detalhado dos subterrâneos do castelo, mostrando um caminho de entrada totalmente diferente do que eles fizeram. Havia uma imensa rede de túneis que se estendia por quilômetros em volta do castelo, com diversos níveis. Além disso, viu uma grande chave dourada enrolada em uns trapos. A chave trazia um brilho arroxeado, além de possuir esculpido o mesmo estilo de desenho da porta que haviam acabado de deixar pra trás.

Um grande estrondo foi sentido. As paredes reverberaram e o grupo precisou agir rápido. Não sabiam se aquilo era Nivasti tentando arrebentar a muralha conjurada por Beren ou se era fruto do ritual realizado por Iggwilv, mas não tinham mais tempo a perder. Dante pegou o pequeno nos braços e o grupo voltou à porta. A chave encaixou perfeitamente, revelando uma sala com um grande portal mágico à frente. Nos lados da sala, dois golens de diamante pareciam guardar o local, parecendo claro que seriam atacados assim que pisassem naquela câmara.

O grupo partiu em uma desesperada corrida na direção do portal, subindo os degraus na maior velocidade possível. Dante parou para fechar a porta, mas, graças ao uso de Recuo Acelerado, conseguiu mover-se mais rapidamente do que os golens, e todos entraram no portal sem maiores problemas.

Como esperado, o portal levou-os à prisão dos deuses, um grande eneágono. Em cada uma das paredes havia um cristal contendo figuras humanoides, a maioria completamente desconhecida ao grupo. Dante identificou o Imperador Kabori, apenas uma sombra dentro de um dos cristais, e Vexya viu Shenda, a quem procurava desesperadamente salvar. Já Beren teve seu olhar atraído por um velho mago, que lançava um olhar de curiosidade e esperança aos recém-chegados, enquanto Dragnar, com horror, viu Iuz, o Ancião, e simplesmente não conseguia compreender como ele houvera sido novamente aprisionado... Também havia um homem aparentemente franzino e com um olhar extremamente calmo, um forte guerreiro de olhar ameaçador e decidido, um lich e outras duas figuras que não eram capazes de discernir.

O grupo apareceu aos pés de uma estátua de Zagyg com cerca de 3 metros de altura. Diversas runas mágicas formavam um círculo ao redor da estátua, que se encontrava exatamente no centro de um grande círculo translúcido, o qual se equilibrava sobre uma pirâmide de pedra. Raios de energia mágica provinham dos cristais em que os seres divinos encontravam-se aprisionados, indo em direção à pirâmide, de onde nove raízes saíam na direção de um dos extremos do círculo, onde estava ela: Iggwilv...

A bruxa pareceu surpresa ao ver os novos visitantes. Corpos de diversos de seus oponentes encontravam-se no chão, o último deles agarrado por uma das raízes. Mas ela não estava preocupada. "Mais alguns dos seus lacaios para eu destruir?", disse ela olhando para o homem imobilizado, incapaz de responder, pois já inerte. "Você chegaram tarde, o Incarnum já é meu! Ajoelhem-se perante mim e talvez eu os poupe! Enfrentem-me e sofrerão o mesmo destino dos que estão à frente de vocês!", ameaçou.

Beren, pensando em ganhar um tempo, ajoelhou-se, mas manteve seu olhar nas runas e na estátua, que tinha a palma de uma das mãos estendida. Precisava descobrir como interferir no ritual, se é que ainda havia algo que pudesse fazer, e conjurou vôo de um pergaminho. Dante gritou em desespero ao ver o amigo fraquejar, não percebendo que aquilo se tratava apenas de um engodo. Tentou identificar o que diziam as runas arcanas e ver se a energia mágica concentrava-se na estátua, mas viu que apenas uma ínfima parte parecia dirigir-se a ela. A maior parte parecia ir para a pirâmide ou algum outro lugar. Já Dragnar solicitava o auxílio de Moradin enquanto olhava para a bruxa, aguardando pelo seu próximo movimento.

Vendo que sua ameaça não surtira efeito, ela apenas gargalhou. Conjurou quatro criaturas demoníacas para acabar com eles e se dirigiu até Iuz. "Meu filho, há quanto tempo está aí, aprisionado? Agora é a hora de tomar de volta o lugar que lhe pertence no norte, acabando com aquele impostor, com Furyondy, com a Irmandade, com todos que se interpuserem no seu caminho!" Ao terminar de dizer isso, o cristal abriu-se, libertando o Ancião.

Beren saiu voando para a pirâmide, procurando pelo local em que a energia se concentrava e se juntava às raízes, mas não encontrou nada do tipo. Mas viu um homem saindo de uma abertura na parede: Robilar! Voou rapidamente até ele, requisitando por sua ajuda, ao mesmo tempo em que perguntava pelo "maquinário" que o guerreiro utilizara para impedir o ritual quando lá estivera, muitos anos antes. Ele disse que era a própria estátua no centro da câmara, mas perguntou se o mago havia achado algum objeto no caminho até ali. Beren mostrou a chave e Robilar demonstrou certa surpresa. "Devolva a chave a seu dono e leve-me para cima".

O mago levou Robilar até seus companheiros, que se encontravam em um feroz combate. Suas energias eram poucas e eles não eram páreo para aqueles demônios, que trocavam constantemente de forma. Tremendamente feridos e já nas últimas, lutavam com bravura e determinação, mas era apenas uma questão de tempo até a inevitável morte.

Mas algo iria virar aquele combate... Após deixar Robilar no chão, Beren colocou a chave na mão da estátua, que instantaneamente fechou-se. Imediatamente sentiu as energias místicas convertendo-se para ele. As raízes pareceram momentaneamente perdidas, sem saberem para onde se dirigir. E o mago olhava para os cristais nas paredes, ciente de que, ao menos por aquele momento, ele tinha o poder para libertar um daqueles seres. Era informação demais para o jovem mago e sua mente parecia prestes a sucumbir perante toda a energia que lhe era dirigida, quando se viu novamente olhando para o rosto do velho senhor que lhe atraíra a atenção assim que entrara. Rezando para estar fazendo o que era certo, libertou-o...

Uma imensa energia divina foi liberada, jogando Dante e Dragnar ao chão. Essa energia curou-lhes todos os ferimentos, recuperou toda a sua mana e expulsou as criaturas demoníacas que os atacavam. Iggwilv olhou assustada, totalmente incapaz de entender como aquilo havia acontecido. Beren aproveitou a surpresa da bruxa e prendeu-a com uma das raízes.

O velho mago aproximou-se dos personagens, apenas olhando para o meio-elfo, como a indicar que ele sabia o que deveria fazer. Beren ainda parecia aturdido com toda aquela energia, mas decidiu que deveria prender novamente o Ancião. Ao tocar Iuz com uma das raízes, Beren sentiu toda a maldade nele contida. Viu sua verdadeira face e todos os atos malignos que ele já praticara e viria a praticar. Por mais que tentasse, era incapaz de suportar o mal em toda a sua magnitude, o mal provindo diretamente de um deus... Com a mente sucumbindo, perdeu o controle sobre a energia mágica, consequentemente libertando tanto o Ancião quanto Iggwilv.

Iuz parecia ultrajado com a audácia do mago em atacá-lo. Mas, ao mesmo tempo, isso parecia tê-lo divertido e ele tinha um leve sorriso nos lábios... Assumiu a sua verdadeira forma, demoníaca, deu uma rápida olhada nos personagens para gravar-lhes a face e simplesmente desapareceu...

Dante viu Robilar aproximar-se da estátua e de Beren e interpelou-o sobre o que estava fazendo. O guerreiro apenas disse que ele logo entenderia e girou a sua espada em um poderoso golpe contra a estátua de Zagyg. Uma gigantesca energia foi liberada, quebrando os cristais e provocando severos danos na estrutura da câmara. Pedras começaram a descer do teto e o círculo translúcido sobre o qual estavam saiu de sua posição de equilíbrio, começando a tombar. Os corpos no chão começaram a deslizar e o grupo tinha dificuldade em manter-se de pé.

Robilar foi até um dos cantos e Dante viu o corpo do guerreiro se desfragmentar, enquanto sua armadura e demais itens caíam ao chão. Praticamente ao mesmo tempo, ouviram a voz do velho mago em suas mentes: "Já não há nada a fazerem aqui. Nem vocês, nem eu, nem ninguém, pode fazer nada contra ela nesse momento. Vão embora e lembrem-se que eu estarei sempre com vocês. Basta me chamar que eu estarei lá!"

Iggwilv, ainda com um olhar de perplexidade, observou o grupo pela última vez antes de teleportar-se dali. Logo viram o velho, o lich e o jovem franzino (que agora Dragnar reconhecia como sendo Zuoken, o deus das artes marciais) fazerem o mesmo. Beren convocou todos a se aproximarem dele, com Dante chamando por Kabori para que viesse com eles. Shenda e Vexya também vieram, assim como o guerreiro desconhecido. Ele pegou o equipamento do chão e disse que aquilo era dele, já que ele era o verdadeiro Robilar...

Não houve tempo para que o grupo processasse todas essas informações. Uma nova explosão de energia fez com que o piso inclinasse ainda mais e Dragnar foi incapaz de manter-se em pé, deslizando em direção ao precipício.

Será que o grupo conseguirá salvar-se a tempo? 

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