A Fonte Secreta - 32º e 33º Atos

Era com um olhar de desconfiança que Sarana ouvia o narrar dos personagens. Não era a primeira vez que ela ouvia aquelas afirmativas. Muitos pretensos adivinhos haviam feito previsões a respeito de um vindouro ataque à cidade de Greyhawk, mas nada que fosse digno de nota. Há sempre exploradores tentando gerar o caos para se aproveitarem do desespero da população e ela precisava ter certeza de que aqueles dois realmente haviam visto e ouvido tudo aquilo que contavam. Começou a fazer uma prece para Pelor...

Beren e Dragnar identificaram a magia lançada pela sacerdotisa para ler os seus pensamentos. Preferiram não resistir. O quanto antes ela tomasse ciência do tamanho do problema, melhor para eles e para a sobrevivência da cidade.

Vasculhando a mente de seus interlocutores, Sarana percebeu que eles realmente haviam visto aquilo que narravam. Eram pessoas de bem, sem dúvida, mas talvez tivessem sido iludidas por alguém. Talvez a própria Iggwilv... Porém, a verdade era que isso pouco importava. A cidade não possuía meios de resistir a uma tropa daquele tamanho. Passar aquelas informações às autoridades da cidade não traria nada de bom, apenas o terror e o desespero. Melhor seria que eles procurassem pelo Capitão Gallancs, pessoa que ela há muito desconfiava ser mais do que aparentava. No mínimo, ele teria maior capacidade de analisar as anotações constantes do pergaminho.

A Sumo-Sacerdotisa de Pelor falou a respeito de suas preocupações e os orientou a procurar o capitão na Estalagem do Dragão Verde, eis que ele era muito amigo de seu dono, Ricard Damaris. Antes, contudo, deveriam retornar ao Castelo para buscar seus companheiros. Não era seguro que lá permanecessem, eis que poderiam ser facilmente descobertos.

Beren conjurou nova magia de teleporte e trouxe todo o grupo ao Templo de Pelor. Phrowenia já lhe esperava, tendo o meio-elfo a difícil tarefa de contar à sua amada acerca do desaparecimento de Togus.

Não havia muito tempo para que ele pudesse contar mais detalhes do acontecido nem matar as saudades. Logo partiram em direção à estalagem, que estava praticamente vazia devido ao avançado da hora. Damaris não se mostrara muito disposto a ajudar o grupo, mas acabou decidindo por acordar o capitão quando Dante revelou a presença da bruxa no Castelo. Aquilo era algo que ele gostaria de saber... Mandou um de seus funcionários expulsar os clientes que ainda se encontravam por ali e foi ele próprio acordar o Capitão.

Gallancs estava visivelmente aborrecido. Com cara de poucos amigos olhava para o grupo de forma intimidadora. Dante preferiu ser bastante direto, contando acerca de vir de outro plano, de Kabori, de Iggwilv, da tropa pronta para atacar a cidade... Não escondeu nada. Beren não apreciava uma conversa tão direta com um desconhecido, mas preferiu não intervir ante a urgência da situação. Mantinha-se ao fundo, observando cautelosamente o olhar do capitão, que parecia cada vez mais atraído pela história.

Após ouvir Dante por um tempo, Gallancs, para espanto do grupo, gargalhou de satisfação. Aquela era uma oportunidade maravilhosa de uma verdadeira aventura! Convidou o grupo para cearem juntos. Queria saber todos os detalhes que pudesse...

Enquanto Dante narrava os acontecimentos, o meio-elfo continuava desconfiado. Lentamente sacou a Piscadinha, percebendo o olhar do atento capitão preso em si, e viu a figura de Gallancs se alterar, surgindo um homem feio, de cabelos negros e olhos ameaçadores, que em nada lembrava o jovial e garboso capitão.

Beren preferiu ser direto, afirmando saber da ilusão e solicitando ao capitão que se apresentasse como quem realmente era. O capitão abriu um sorriso ao perceber a habilidade da espada. Demonstrando conhecer perfeitamente o funcionamento do item, revelou chamar-se Robilar, Lorde Robilar...

Dragnar e Valandil conheciam aquele infame nome. Comandante militar de Rary, o Traidor, ele era conhecido como um sujeito cruel e soturno, que fizera fortuna ao ser companheiro de diversas pessoas importantes, tais como Mordenkainen, Bigby e o próprio Rary. Era, certamente, o guerreiro mais poderoso de Oerth, mas também um dos mais traiçoeiros.

Robilar revelou ter problemas pessoais com Iggwilv, que se apossara de algo seu no passado, e já ter estado no Castelo, sendo, ainda que de forma acidental, um dos responsáveis pela libertação dos deuses e semideuses que haviam sido aprisionados por Zagyg quando de sua ascensão divina. Conhecia bastante bem aquele local para guiar os personagens até o mais próximo possível da "prisão" do Mago Louco, mas, em contrapartida, precisava que eles chamassem a atenção da bruxa, de forma que ele pudesse recuperar o item que ela lhe roubara.

Ele também contou saber muito a respeito da busca de Iggwilv. Não é apenas o controle de Oerth que ela deseja, mas sim o controle de uma energia mágica conhecida como Incarnum. Tal energia não é arcana nem divina, provindo da alma dos seres vivos e sendo praticamente inesgotável, o que tornaria Iggwilv invencível e, consequentemente, uma ameaça a todos os planos.

Dragnar começou a questionar se Robilar não deveria convidar alguns de seus antigos companheiros para ajudar na resolução daquele problema, mas o poderoso guerreiro não tinha essa intenção. Segundo ele, outros arcanos desejavam o acesso ao Incarnum e solicitar sua ajuda apenas traria problemas semelhantes no futuro. O próprio Mordenkainen, líder do Conselho dos Oito, já estava há décadas estudando o Incarnum, tendo enviado dois grupos ao Castelo nos últimos tempos. Aparentemente, eles haviam perecido por lá, seja pelas mãos de Iggwilv ou de algum outro desafio presente na perigosa masmorra.

Os argumentos de Robilar pareceram convencer o grupo. Aquele era um tipo de conhecimento que não deveria ser obtido por ninguém e, se o maquinário de Zagyg era necessário para obter o Incarnum, destruí-lo era a melhor opção.

Passaram a noite na estalagem e, logo no início da manhã, perceberam a ausência de Valandil. Ele não pretendia arriscar-se em uma missão tão perigosa e preferiu ir para o mais longe possível da cidade de Greyhawk.

Robilar reuniu o grupo e fez uma prece aos deuses, solicitando proteção. Em seguida, entregou um pergaminho de Teleporte Exato a Beren e descreveu detalhadamente o local para onde deveriam ir. Embora acima de seu círculo de magia, o mago não teve dificuldade em usar o pergaminho, sendo o grupo teleportado até um grande salão, ricamente trabalhado.

Avançaram por diversas salas e corredores do castelo subterrâneo, sempre seguindo as indicações de Robilar, até que uma grande aranha de metal, montada por três estranhos pequenos humanoides, os atacou. Beren ficou intimidado e procurou fazer com que o grupo recuasse, mas apenas Vexia o seguiu. Robilar e Dante não lhe deram ouvidos, indo de encontro ao perigoso inimigo, enquanto Dragnar conjurou uma Coluna de Chamas. Todavia, para seu espanto, viu a aranha resistir totalmente a seu dano...

Os pequenos humanoides lançavam pedras de fogo que causavam bastante dano, mas os dois combatentes não pareceram se importar. Robilar tentou destruir a criatura com um único golpe, mas colocou muita força e acabou errando o golpe. Além disso, sofreu um contragolpe e acabou agarrado pela criatura. Rapidamente levado para baixo da mesma, seria esmagado se ela depositasse todo o seu peso sobre si. Enquanto tentava libertar-se, viu Dante sofrer o mesmo destino e a situação do grupo tornava-se crítica. Por sorte, pouco antes de serem esmagados, conseguiram se soltar, rolando desesperadamente para longe da criatura.

Os feitiços do grupo foram paulatinamente eliminando os humanoides, mas a aranha parecia ser imune à magia. Dante e Robilar até conseguiam causar algum dano, mas nada de muito significativo. Se fossem novamente agarrados, a chance de morrerem era grande e o combate seguia tenso. Por fim, o experiente guerreiro conseguiu acertar uma poderosa estocada no constructo e ele tombou.

Aquele era apenas o primeiro guardião daquele nível. Quantos mais teriam que enfrentar antes do encontro com Iggwilv?    

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