A Fonte Secreta - 31º Ato

Enquanto Dragnar conjurava as magias necessárias em Dante, Valandil e Beren investigavam os corpos, mas não foram capazes de encontrar nada de muito útil, apenas parcas moedas e itens de menor importância. Todavia, imaginando que talvez houvesse a necessidade de se disfarçar no futuro, Beren pegou o robe púrpura do mago. Estava um pouco chamuscado, mas nada que fosse facilmente perceptível à distância.

Absolutamente necessitados de um descanso para recuperar suas forças, o grupo procurou uma sala com menos passagens. Beren utilizou-se de sua chave mestra para trancá-la e o grupo teve uma "noite" tranquila.

No dia seguinte, prosseguiram por um longo tempo sem qualquer incidente. O lugar era absurdamente gigantesco, mas há muito o grupo havia desistido de uma exploração completa. Seguiam pelos corredores e salas com a esperança de que o destino os levaria até onde deveriam chegar. E assim foi...

Valandil seguia por um corredor quando ouviu um choro a poucos metros de onde estava. Embora não tivesse total certeza, parecia um choro feminino. Com receio avançou até uma encruzilhada e viu uma pequena fada soluçando encostada a uma parede.

Após alguns segundos de tensão em que a fada tentava identificar se poderia ou não confiar no grupo (enquanto o grupo fazia o mesmo), ela revelou-lhes chamar-se Vexia. Um poderoso lacaio de Iggwilv havia raptado uma importante pessoa de seu plano, alguém absolutamente venerável, e ela havia vindo junto com alguns companheiros para tentar resgatá-la. Fracassara, contudo. Em um poderoso combate, seu grupo fora derrotado, e agora ela estava desesperada e sozinha.

Aquela história trouxera surpresa ao grupo, especialmente a Dante e Beren, que ali estavam na mesma busca: salvar uma importante pessoa de seu plano. Enquanto o meio-elfo começava a antever parte do que a bruxa planejara, o sacerdote revelava à fada que eles também eram extra-planares e procuravam o mesmo que ela.

Vexia sabia que os raptores haviam seguido por uma porta secreta na parede atrás de si, só não havia tido coragem de seguir sozinha. Dante logo a convidou para prosseguir com eles, eis que poderiam ajudar-se mutuamente.

A passagem revelou um longo corredor. Valandil continuava à frente e encontrou ossos de humanoides, além de uma armadilha. Como não possuía a perícia necessária para desarmá-la, utilizou-se de um servo invisível para ativá-la. Poderosas grades desceram do teto, tanto antes dos ossos quanto logo depois deles. Apenas uma força sobre-humana seria capaz de levantá-las. Dante, um adepto do Domínio da Força, não teve dificuldades para erguer as grades e o grupo continuou pelo corredor.

Chegaram a uma imensa caverna. Uma pirâmide erguia-se no centro dela, mas algum poderoso evento provocara uma grande rachadura na imponente construção, derrubando, inclusive, o poderoso colosso que ficava no seu topo. Em uma mão ele ostentava uma gigantesca foice, enquanto na outra segurava uma caveira. Não foi difícil a Dragnar reconhecer que a pirâmide devia ser um templo dedicado a Nerull, o deus da morte.

Valandil descia as escadas quando, subitamente, viu a foice vir em sua direção e atingir-lhe um poderoso golpe. Tremendamente ferido, correu em busca da segurança do túnel. Vexia voou para o alto da caverna enquanto lançava Mísseis Mágicos; Dante manteve-se na saída do túnel e conjurou Arma Espiritual; Dragnar manteve-se atrás do companheiro, pronto para utilizar uma de suas magias de cura; e Beren voou para o lado oposto da pirâmide, de forma a ficar longe do alcance da foice. Mas qual não foi sua surpresa quando viu o colosso girar em sua base, aproximando-se de si e girando a foice em sua direção. Ele não esperava aquele golpe e foi jogado vários metros para trás. O alcance da criatura era altíssimo e ele precisava fugir para o mais alto que pudesse.

A criatura era poderosa demais e bastaram poucos segundos para o grupo perceber que não era páreo para ela. Beren não se arriscava a chegar perto o suficiente para lançar uma de suas orbes e suas bolas de fogo não pareciam afetá-la significativamente, enquanto Vexia já havia esgotado suas magias e preferira ficar escondida atrás de uma estalactite. Dante causava grandes danos com suas alabardas mágicas, mas também fora atingido pela criatura, sendo obrigado a recuar. Dragnar procurara trocar de posição com Dante ao mesmo tempo em que se mantinha a uma distância segura, mas, incapaz de atacar com a foice, ela lançou a caveira na direção do anão. A explosão de pedra causara imensos danos e apenas a famosa robustez de sua raça impedira a sua morte instantânea. Resignado, recuou para o fundo do túnel para se curar, principalmente ao perceber que outra caveira instantaneamente surgira na mão do colosso.

A situação era crítica. Havia muito pouco que os personagens pudessem fazer contra aquele portentoso oponente. Valandil não via muita esperança, mas almejou uma possibilidade. Invisível, seguiu até a pirâmide. Talvez houvesse algo lá dentro que pudesse acalmá-la.

De posse da Piscadinha, Beren viu o elfo avançar em direção à morte certa. Porém, o colosso, não encontrando outros invasores, retornou a sua posição original e manteve-se imóvel. O mago imitou seu companheiro e desceu invisível.

A maior parte do templo havia sido destruída, não havendo muito o que explorar. Havia uma imensa quantidade de provisões, garrafas de vinho, barris de cerveja e flechas estocadas. O suficiente para uma grande tropa, sem dúvida. Além disso, encontraram alguns óleos e poções mágicas e uma grande escada de madeira em espiral, a qual parecia descer infinitamente. Aquele era o único caminho disponível e o meio-elfo voou até seus companheiros para também deixá-los invisíveis, permitindo uma passagem tranquila pelo colosso.

Desceram por muito tempo até perceberem barulho abaixo. Pareciam vozes, tambores e toda uma variedade de sons que imediatamente provocou a parada do grupo. Ainda invisível e voando, Beren foi à frente o mais silenciosamente possível, vendo uma cena que o deixou completamente atônito: dezenas de milhares de criaturas encontravam-se ali reunidas! Eram homens, duergars, orcs, trolls, elfos negros, demônios, todos juntos, em uma imensa tropa. Ao menos três Lordes das Profundezas eram percebidos em meio a toda aquela infinidade de criaturas.

Um de seus generais encontrava-se no alto de um patamar. Sua voz parecia magicamente se estender por toda a imensa plateia. Beren não conhecia aquela língua, mas seu anel lhe permitiu entender perfeitamente o discurso. Ele conclamava a tropa para um vindouro ataque à superfície, primeiramente à cidade de Greyhawk. Estavam muito próximos do momento do ataque e ele pedia calma. Em breve, muito breve, todos teriam a chance de conquistarem toda Oerth...

O meio-elfo descreveu toda a cena que presenciara ao grupo. A situação era muito mais perigosa do que imaginavam e Dragnar manifestava-se quanto à necessidade premente de avisar as autoridades da Gema de Flanaess. Não conheciam ninguém de autoridade na cidade, então cogitaram alertar o clero de Pelor. Se conseguissem convencê-los da gravidade da situação, eles alertariam a cidade para que tomassem as medidas protetivas necessárias. Não viam como a cidade teria forças para sobrepujar aquela ameaça, mas era necessário ao menos dar-lhes uma chance. Depois retornariam e tentariam impedir o ritual que Iggwilv utilizara para reunir toda aquela força. Talvez essa fosse a única chance de salvação, mas precisavam preparar a cidade para o caso de falharem...

Beren não possuía poder suficiente para teleportar todos até Greyhawk, ficando decidido que ele seguiria juntamente com Dragnar. Os demais, em uma missão quase suicida, permaneceriam ali e procurariam retardar a tropa caso essa iniciasse o avanço antes do retorno dos dois. Aquelas escadas eram de madeira, não sendo tão difícil destruí-las. Além do mais, Valandil poderia usar alguns dos pergaminhos dados por Beren para fechar a passagem por um tempo.

Antes, contudo, Dante pediu a Piscadinha emprestada e aproximou-se da caverna. Ele possuía grande conhecimento militar, sendo capaz de identificar as lideranças e possíveis táticas que poderiam ser usadas para derrotá-las no campo de combate. Anotou tudo pormenorizadamente e entregou o pergaminho ao amigo.

Beren concentrou todo o seu pensamento no lugar que mais tempo estivera na cidade de Greyhawk: a Estalagem do Dragão Verde. Era a primeira vez que utilizaria aquele feitiço, aprendido diretamente do grandioso tomo que encontrara no castelo. Apreensivo, começou a dizer as palavras mágicas...

Embora não soubessem, o grupo, após todas as suas andanças, havia retornado à Torre de Magia do Castelo de Greyhawk. Aquela era uma área de magia selvagem e muitas vezes a magia não funcionava exatamente da forma que devia. Em uma magia de teleporte, as consequências de um fiasco poderiam ser catastróficas.

Alheio a tal possibilidade, Beren terminou de dizer as palavras e simplesmente desapareceu, juntamente com Dragnar, surgindo em um local totalmente inesperado: o jardim interno do Templo de Pelor! Ele nunca havia estado ali e foi com assombro que olhou a face, também assustada, de uma das sacerdotisas do Deus-Sol. 

Dragnar estranhou o fato de terem ido parar em um local diverso do planejado, mas rapidamente se refez. Apresentando-se como um seguidor de Moradin, ele requisitou uma audiência com o responsável por aquele templo, informando ter informações cruciais para a sobrevivência da cidade e talvez de toda Oerth. A sacerdotisa parecia indecisa, mas o semblante decidido do anão lhe convenceu a interromper o descanso de Lady Sarana.

A Sumo-Sacerdotisa aproximou-se dos personagens um pouco irritada. Não estava acostumada a ser importunada tão tarde e o estado deplorável daqueles dois (o meio-elfo estava, inclusive, sem camisa) só piorou o seu humor. E esse nada melhoraria após ouvir tudo o que eles tinham para contar...
      

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