A Fonte Secreta - 13º Ato

Após algum tempo de caminhada, encontraram uma rachadura em uma das gigantescas pedras presentes em toda a praia. Parecia um local razoável para um esconderijo e resolveram ficar por ali. Ainda estavam próximos demais, mas não havia muito a fazer. Nada adiantava seguirem se o dragão abandonasse a montanha, já que seriam facilmente vistos. Melhor se esconderem e torcerem para que ele não os visse.

O local não era muito confortável, mas havia espaço suficiente para todos. Enquanto olhavam apreensivos para o céu, o grupo aproveitou para tentar conseguir mais informações do misterioso marinheiro. Ele afirmava estar seguindo para o norte quando seu navio foi atacado. Beren questionou se o atacante era uma criatura marinha ou um navio pirata e, após uma certa hesitação, Wooly disse ter sido uma serpente, mas rapidamente procurou mudar de assunto, não se mostrando muito confortável com as perguntas.

Percebendo a hesitação do náufrago, o meio-elfo resolveu revelar algumas coisas a respeito de sua missão e sobre como despertaram a fúria do dragão. Acreditava que, com isso, faria o marinheiro soltar a língua e melhor se integrar ao grupo, o que poderia ser útil, já que nenhum deles, inclusive Togus e Phrowenia, conheciam nada daquela região. Falou sobre serem de um local muito distante, fora de Flanaess, e da necessidade de encontrar um imperador de suas terras, aprisionado por uma entidade maligna em uma cidade anteriormente atormentada pela loucura de um arquimago e hoje dominada pela ladinagem e a corrupção.

Wooly não soube identificar uma cidade simplesmente com essas informações, mas afirmou acreditar que a melhor opção seria seguirem até Greyhawk, a maior cidade do continente. Se nada descobrissem por lá, nada haveria a descobrir em lugar algum. Para ele, o melhor seria seguirem até Rel Astra e de lá pegarem um navio, pois a cidade de Greyhawk ficava a meses de distância...

Vendo que Beren estava confiando demais na misteriosa figura e acabaria revelando ainda mais coisas, Brÿjoff resolveu intervir. Alegando uma imensa vontade de comer carne fresca, chamou o meio-elfo para uma caçada. Inicialmente o mago mostrou-se contrário à idéia, já que seria muito perigoso acender uma fogueira, mas, antes mesmo de completar a frase, percebeu que aquela era apenas uma deixa para conversarem em particular.

O anão ralhou com o mago. Não sabiam quem era aquele sujeito e não poderiam revelar sua missão assim! Togus já estava algum tempo com eles e era seu cunhado, sendo aceitável revelar-lhe aqueles assuntos, mas o marinheiro não parecia ser nada confiável. Beren reconheceu que o anão talvez estivesse certo. Sua ânsia em descobrir logo um rumo para a sua missão o estava fazendo ser inocente demais...

Aproveitando que estavam sozinhos, aproveitou para mencionar a outra questão que o atormentava: o ovo negro que estava com Unmada. O pergaminho que Felana lhe dera ainda era o principal caminho para retornarem à Tellene, mas se algo acontecesse a ele, ficariam presos naquele plano por muitíssimo tempo, o que poderia afetar o resultado de sua missão. Com o ovo, ao menos haveria uma chance de encontrarem um novo portal e não estariam tão dependentes daquele frágil pedaço de papel. Por isso, pretendia retornar à montanha assim que possível, de preferência quando percebesse a saída do dragão para procurá-los.

Brÿjoff foi radicalmente contra a idéia. O dragão não dera as caras até aquele momento, talvez tendo optado por permanecer guardando seu tesouro. Logo, voltar sozinho à montanha seria suicídio. Se necessário o retorno, que ele e Dante o acompanhassem. Além do mais, talvez o melhor fosse conseguir algum invólucro para proteger o pergaminho e deixar o dragão quieto por um tempo. Se algum dia precisassem da pedra, retornariam para buscá-la. Beren viu sabedoria naquelas palavras (ainda mais considerando-se quem as proferia, justamente aquele que mais defendeu o embate com o dragão) e resolveu acatar o conselho do amigo.  

Enquanto isso, aproveitando que Wooly ensinava ao sacerdote de Natirel algumas regras sobre um jogo de cartas, os dois irmãos resolveram trocar algumas palavras. Togus disse a Phrowenia que veio atrás dela em razão de seu desrespeito, pela sua fuga desvairada, tendo a bela ruiva afirmado não ter pretendido desrespeitá-lo, mas ela não suportava mais a vida nas Charnecas e sabia que ele não a deixaria ir embora. Além do mais, realmente se apaixonara por Beren e sabia que ele sentia o mesmo, considerando tudo o que fazia para protegê-la. Ainda que um pouco contrariado, o guerreiro aceitou as explicações. Até porque, em verdade, ele também não suportava mais a vida de refugiado e aproveitou aquela fuga para abandonar o acampamento e perseguir seus próprios objetivos. E, assim, os irmãos se reconciliaram...

Dante estava fascinado com a facilidade com que aprendera as regras daquele jogo. Ganhara todas as mãos, era um dom nato! Por um breve momento, divertia-se, esquecendo-se da morte de Unmada pelas garras do dragão e do perigo a que ainda se expunham.

Beren e Brÿjoff retornaram com alguns lagartos e o grupo providenciou uma pequena fogueira para assá-los. Era um risco, mas estava difícil resistir a chance de comer algo diferente de rações. Empanturrados, dormiram, e a noite, surpreendentemente, foi tranquila.

No dia seguinte, contrariando a opinião de Wooly, seguiram para o sul, com a intenção de circundarem Grandwood. Marceen e Gwidiesin haviam sido categóricos quanto a evitarem a cidade de Rel Astra e eles preferiram seguir tal conselho. Caminharam por muitos dias, atravessando os campos cultivados de diversas fazendas. Mas os fazendeiros mostravam-se arredios e muito temerosos. O clima de angústia e medo em que aquelas pessoas viviam era facilmente visível.

Ao longe viram uma cidade fortemente murada. Em seu interior, uma grandiosa torre de mármore negro destacava-se, com imensos animais flutuando ao seu redor. Os animais não pareciam se mexer e apenas quando chegaram mais perto puderam perceber que se tratavam de grandiosas balestras, esculpidas com as formas de animais e magicamente encantadas para flutuarem ao redor da cidade.

Wooly procurou iniciar conversas com o balconista de uma taverna e o empregado de um estábulo, mas as respostas grosseiras e de má vontade, mesmo após o uso de moedas de ouro, o desestimularam. Apenas esperou o grupo acabar suas cervejas para propor o abandono imediato da cidade, antes mesmo de sequer cruzarem seus muros.

Beren resolveu procurar um curtidor. Inicialmente antipático, o velho acabou relaxando após receber a encomenda do mago: um porta pergaminho bastante resistente. Tal exigência tornou o item bastante caro, mas o visitante nem barganhou e ele acabou revelando algumas coisas ao grupo. Aquela era a cidade de Strinken, o último bastião sob o controle de Lorde Drax. Ao sul dali havia apenas a vastidão de Medegia, território hoje dominado por demônios e diversos outros seres malignos. Caso quisessem evitá-la, seria obrigatório cruzarem a floresta, eis que impossível circundar Grandwood sem passar pelo dizimado reino. Porém, caso realmente seguissem para o sul, pagaria uma boa soma por couro e chifres de demônios, os quais poderiam render belas peças a serem vendidas em Rel Astra.

Seriam necessários dois dias para o item ficar pronto e Wooly irritou-se. Considerava uma idiotice ficarem na cidade, ainda mais por um motivo tão banal. Exaltou-se com o grupo, tentando convencê-los a seguir viagem. Afirmou que aquela era uma cidade perigosa, adoradora de Hextor, e estariam correndo grande risco ali, mas Beren mostrava-se irredutível. Não exigia que ninguém ficasse com ele, mas a sua decisão estava tomada.

Brÿjoff, que já desconfiava do marinheiro, acusou-o de estar escondendo informações. O receio demonstrado não parecia natural para alguém que afirmava pouco conhecer do Grande Reino e uma discussão iniciou-se. Dante tentava conter os ânimos e, apesar de compreender os motivos de Beren, chegou a demonstrar uma certa concordância com os argumentos de Wooly, no que era seguido por Togus.

Será que o grupo se dividirá?

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