A Fonte Secreta - Prólogo - 1º Ato

Durante a última noite, Beren, Unmada, Dante e Brjoff tiveram um estranho sonho:

Corvos rodopiam numa espiral negra de pavor e ódio. As brumas se abrem sob o céu vermelho para revelar um torre de horrores noturnos. E sob esta torre, em suas masmorras mais profundas, agoniza a sombra de um homem desfigurado sobre o qual ainda paira a majestade. Os dedos daqueles que não têm face, sem remorso, lhe transfiguram a alma. Retorcem suas emoções e extraem dele sua vitalidade. Ondas de energia extravasam e permeiam o ar. Fluem sem direção aparente até serem capturadas pelos dedos, e a risada triunfal, o regozijo do triunfo vil. E seu coração se aperta e se comprime. E o ar que tu respiras vai se tornando espesso e quente penetra nos pulmões. E o sabor do sangue quente e salgado alcança o tato da sua língua, quando o frio atinge sua espinha e embrulha o seu estômago. A face inominável dos dedos revela ser mais aterrorizante e execrável do que o pior dos seus temores. Mas já não há muito o que fazer. Pois sua energia está sendo drenada para alimentar aqueles cujo nome não pronunciamos. E, então, você desperta do seu transe. E percebe que esteve acordado o tempo todo. Sua mente viajava e seu corpo jazia ali, inerte. Demora um pouco até você perceber o que estava acontecendo, e quando o faz, retoma o controle do seu estado físico e verdadeiramente reage aos estímulos. Não sem antes sentir nas narinas o odor pútrido da masmorra, lhe trazendo a nítida sensação de que aquilo não era meramente um delírio.

O grupo se reuniu e decidiu: Beren, Unmada, Dante e Brjoff irão atravessar o portal situado nos Bosques de Ryakk a fim de procurar pela alma perdida do Imperador Kabori. A chave oval que caiu dos céus abrirá a porta que os levará até o plano material onde Kabori ficou aprisionado. Após a reunião, os integrantes do grupo que não estão interessados neste tipo de aventura se despedem e partem. Os demais, então, vão ao encontro de Felana para discutir as últimas medidas necessárias para atravessar o portal.

- Me entristece que os demais não queiram participar desta aventura. E me surpreende que Galahad não queria participar apesar de ter dito expressamente que queria reestabelecer o estado anterior das coisas em Kalamar. Apesar de tudo, eu até consigo entender a importância do papel que ele escolheu desempenhar. Zelar pela incolumidade do corpo de Kabori, e pela paz no Império pode mesmo ser a tarefa do clero de Dirasip neste momento. Certamente o povo vai precisar da Luz da Lanterna Eterna. Só resta saber se os nobres não conseguirão ofuscar esse brilho todo. – Felana diz estas palavras com tom de frieza e descrença em sua voz – Mas isso já não importa mais porque cada um já fez suas escolhas. Quanto a vocês dois, não sabem como me orgulho da decisão que tomaram. É uma decisão brava e heróica, para muito além do que pessoas simples e desimportantes deveriam ter a obrigação de desempenhar. Mas, vejam só, vocês deixaram há muito tempo de serem apenas isso. São verdadeiros heróis, salvaram o mundo dos horrores do enganador, e agora aceitaram graciosamente mais esta árdua tarefa. Eu não tenho sombra de dúvidas de que os deuses irão recompensar vocês com manjares e muita prosperidade. Isso é certo que sim. – Ao assim dizer, Felana caminha lentamente até sua escrivaninha abre uma gaveta e retira dela uma pequena caixa de jóias. Coloca-a sobre a mesa por uns instantes a fim de liberar as mãos para pegar um pergaminho na gaveta ao lado.

- Para onde vocês irão haverá muitos perigos. Eu espero que sejam capazes de superá-los um a um até o seu triunfo final. Uma coisa, porém, é certa: os habitantes deste distante plano material para o qual irão não devem ser falantes do kalamariano ou da linguagem dos mercadores de Tellene. – Felana pega a caixinha de jóias, a abre e exibe dois anéis feitos com tiras de couro tingidas de vermelho, azul e dourado. – Quero que vocês recebam, cada qual, um anel destes. São anéis de proficiência com línguas, dotados de inteligência própria. Estes anéis são capazes de ouvir as vozes daqueles que falam ao seu redor e, com o conhecimento neles imbuído, interpretam e traduzem com precisão assustadora tudo o que é dito, transmitindo telepaticamente para o usuário. Igualmente, eles conseguem traduzir seu pensamento na língua mãe para o idioma desejado, permitindo que vocês falem no mesmo idioma em que estão ouvindo. Eles devem funcionar bem para a maioria dos idiomas falados por humanos e humanóides, mas pode não ser capaz de entender o que é dito por criaturas que não pronunciam fonemas e apenas vocalizam. Além disso, o anel precisa ser capaz de ouvir o som da fala, na mesma medida em que vocês precisariam em uma situação qualquer. O anel também não é capaz de guardar uma mensagem ouvida para só depois transmiti-la ao usuário, de modo que seu funcionamento se limita a transmitir e traduzir em tempo real uma conversação qualquer. Eles serão muito importantes para vocês.

 Felana entrega os anéis a Beren e Unmada, bem como a Dante e Brjoff. Depois, vira-se para a escrivaninha e pega o pergaminho.

 - Isto é para garantir que um dia vocês retornarão. – Ela entrega o pergaminho para Beren – Eu sei que você ainda não é treinado o suficiente para usar este tipo de magia, mas mesmo que até lá você não aprenda, poderá encontrar alguém que possa utilizá-lo. A magia aqui contida poderá abrir uma fenda no plano astral que a tudo une e, assim, abrir um portal de volta exatamente para as portas do Colégio de Magia de Bet Rogala. O pergaminho contém instruções claras de uso, facilitando a leitura por arcanos de outras escolas, além de uma descrição pormenorizada da torre do colégio de magia e de uma pintura do símbolo daquela ordem arcana. Isso servirá para facilitar a chegada de vocês ao ponto certo. Cuidem bem deste pergaminho. Desejo a vocês toda a sorte possível no mundo.

 Com estas palavras Felana encerra a última reunião com Beren e Unmada. Ela conjura um feitiço que lança os personagens distantes apenas alguns poucos metros de um gigantesco paredão de pedra, no qual ergue-se uma imensa porta de pedra negra como o ébano. Ela é uma porta antiga, cheia de esculturas de bizarras criaturas talhadas. Pode-se observar a sede de diversas pedras que uma vez adornaram esta porta e que agora estão perdidas. No seu centro jaz uma órbita vazia, onde a chave oval se encaixa perfeitamente.

Os personagens precisam fazer “pé-pé” para alcançar o centro da porta e assentar a chave. Quando isso ocorre, os personagens ouvem o som do ribombar distante de tambores tribais. A chave oval descola-se de sua sede e começa a emitir um brilho mágico. É uma luz dourada languida, mas poderosa, que flutua em torno da pedra enquanto ela se separa e se distancia da porta até estar levitando 2,5m acima do chão, praticamente sobre as cabeças dos personagens.

Neste momento, parece que algumas runas douradas surgem na superfície do artefato mágico, quando a chave rodopia e num piscar de olhos voa para a porta, se encaixando perfeitamente na sua sede. A porta, então, vibra em poder mágico. Um vento gélido corta os rostos dos personagens. E subitamente a porta desaparece, deixando exatamente em seu lugar uma abertura translúcida para uma terra desolada e fria. A pedra ainda flutua, todavia, no seu local de origem, apesar da porta não mais estar por ali. Quando o Unmanda passa pelo portal, o último a fazê-lo, a pedra cai em suas mãos, que instintivamente a seguram com firmeza.

A partir de então os personagens se vêem em uma louca viagem pelo plano astral. As noções de tempo e espaço são perdidas. Por breves e agonizantes instantes a respiração falha enquanto seus corpos viajam em um espaço psicodélico e viscoso. Seus olhos buscam o horizonte que não existe e seus ouvidos tentam silenciar a cacofonia dos sibilos que enlouquece suas mentes. Parece uma eternidade. E quando eles pensam que está tudo acabado e que as paredes do multiverso vão esmagar suas existências, eis que seus corpos se chocam contra um solo frio e pedregoso, permeado por uma vegetação esquálida.

 Este é um solo ácido e pouco fértil, onde a vegetação triunfa com sofrimento entre as pedras, formando no máximo arbustos de média estatura de emaranhados galhos retorcidos. O terreno pobre e infértil é todo acidentado, formando pequenos outeiros recobertos por tal vegetação. Uma brisa leve e morna sopra no local. Entretanto, ela carrega consigo um peso semelhante ao da maresia, carregando o ar com oleosidade e o cheiro característicos, que se impregna na pele e causa uma sensação de abafamento.

Bem vindos ao seu novo lar temporário. Bem vindos ao inferno.

Comentários

  1. "Eu não tenho sombra de dúvidas de que os deuses irão recompensar vocês com manjares e muita prosperidade."

    Acho que o presente do Beren vai dar mais dor de cabeça do que qualquer outra coisa, rsrsrs...

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