A Lenda da Folha Caída - 16º Ato

Conforme iam sendo derrotados no jogo de xadrez, os personagens era transportados magicamente para uma sala sem saída aparente, onde havia manjares e tesouros.

Assim que o jogo terminou e o último personagem entrou na sala (no caso, Beren, já que ele fazia o papel de ‘rei’ no jogo de xadrez) todos foram tomados de sobressalto com o ascender repentino de duas labaredas de fogo azul de dentro das bacias de prata dispostas sobre o mesão que existe no centro da sala.

O fogo crepitava por alguns instantes apenas, mas isso já era o suficiente para que os personagens fossem capazes de admirar sua beleza sobrenatural. As chamas ardiam em um azul pálido quase celestial, embora seu calor fosse infernal.

Logo os personagens ouviram uma voz ecoando como um trovão pela sala:

“Vós que estais aqui. Sois intrusos indesejados ou amigos? Chegada é a hora de revelar sua natureza, pois somente de um modo e não do outro serão dignos de conhecer a morada dos sábios de Bet Rogala.”

Uma vez dito isso, ainda com a voz ecoando pela sala, as chamas ganharam altura e poder, brilhando muito fortemente, ofuscando a visão de todos os personagens por breves segundos. Neste instante, surge na sala um ‘guardião protetor’, que nada mais é do que uma espécie de golem, um constructo maciço composto de pedra, ferro e carne.

Fulrik tentou dialogar com o constructo, sem sucesso. A criatura revidou seus esforços com um soco violento que tirou o ar dos pulmões no nobre anão. Por essa razão, os personagens verificaram que seria necessário lutar - já que outra alternativa não restava.

Beren ainda insistia, sem sucesso, em evitar o combate - tentando convencer quem quer que estivesse controlando a criatura de que o grupo estava ali em paz.

O combate foi feroz, e se não fosse pela ajuda sagrada de Dante (o sacerdote dO Senhor da Estratégia, do Templo do Conflito Armado) Astaror e Fulrik poderiam estar no julgamento final nos salões dO Criador.

Ao final, com o dispêndio de muita mana e suor, o golem foi vencido.

“Já basta! No calor da batalha revelam-se os sentimentos que motivam o coração do guerreiro. Sois amigos de Felana, A Arquimaga e procuram pelo tomo de seus segredos. Nem todos são verdadeiramente dignos, mas a vossa companhia os honra e a passagem lhes será garantida em obediência aos desígnios dos Mestres da Chave Dourada de Bet Rogala”

A voz ecoava como trovão novamente, e o golem parou de lutar.

As chamas de fogo azul cresceram muito formando, entre si, um portal para um outro local. Tratava-se de um corredor mais amplo e arejado, com janelas para o exterior (de onde entravam raios de luz) e muito mais adornado - definitivamente não se tratava da masmorra onde se encontravam.

Os personagens caminham através de tal salão até encontrar no seu final (quando se abre uma sorte de salão circular) uma espécie de altar e 7 homens vestindo robes coloridos reunidos ao redor do altar.

Trata-se dos arquimagos que comandam o Colégio de Magia de Bet Rogala. Os personagens encontram-se num dos mais elevados andares da torre da guilda. Toda a exploração às catacumbas do colégio de magia foi arquitetada por estes homens.

“Bem vindos ao concílio diretor do Colégio de Magia de Bet Rogala. Eu sou Zenith, Diretor do Colégio de Magia de Bet Rogala. Vocês estão aqui porque procurar o tomo secreto de Felana, A Arquimaga; uma das matronas do nosso colégio. A imensa honra de poder acessar um tomo repleto de segredos não poderia jamais ser conferida a pessoas de menor caráter ou coragem.

Aqui não prezamos pela valentia excessiva que ensoberbece o homem, nem pela virtuosidade insensata dos espadachins ligeiros, mas apenas pelo merecimento e pela verdade existente por detrás no inexorável coração humano.

Prezamos pelo intelecto afiado, mas não podemos exigir tanto de homens comuns como vocês. Fossem verdadeiramente sábios e teriam desconfiado desde o princípio que seria impossível adentrar nossos salões desapercebidamente, ainda que Allus se mostrasse o maior mestre da enganação.

Qualquer tentativa realizada sem nosso consentimento seria duramente punida, e certamente vocês não saberiam nem quem nem o que os teria fulminado. Sábia foi a decisão de Allus de trazer ao conhecimento do Conselho sua intenção e seus planos.”

Zenith e os demais conselheiros já conhecem, por intermédio de Allus, a história envolvendo a Máscara das Raças e o Imperador Kabori. Nem os mais elevados conselheiros jamais haviam prestado atenção na existência de tal tomo, alguns conhecendo apenas com vagar a lenda da Máscara.


Fato, porém, é que o conselho se interessou pelo tomo e pôs-se a buscá-lo nos recônditos mais obscuros de suas bibliotecas, até que finalmente o encontrou. Desde a notícia de Allus até a presente data não foi possível para os Arquimagos conhecer a íntegra do conteúdo do tomo, já que além de extenso, ele foi escrito em um idioma conhecido como Kalamariano Antigo.

Deve-se dizer que foi com surpresa que os demais personagens souberam da participação de Allus na trama arquitetada pelo Conselho de Magistrados. Mais tarde Allus viria a explicar a circunstância em que foi selado o acordo entre ele os Conselheiros.

“Não existe, obviamente, qualquer motivo pelo qual nosso Egrégio Colégio estaria interessado em partilhar um de seus segredos mais bem guardados com estranhos. Não esperem, por outro lado, que nos compadeçamos das agruras do povo comum pela guerra promovida por Kabori e no pífio argumento de que existe alguma chance de que vocês, sozinhos serão capazes de fazer qualquer coisa contra Sua Majestade Imperial e suas Legiões Milenares para impedir o avanço de suas tropas por sobre os povos livres dos Reinos Jovens.

Deve existir algum motivo especial para que um grupo infame como o vosso esteja disposto a seguir adiante numa busca por conhecimentos que, como é de se supor, os jogarão num embate direto com o homem mais poderoso de Tellene.

Se o fazem somente por enorme estupidez, façam o favor de me poupar de suas historinhas tolas. Mas, se existe alguma razão motivadora maior, por favor, esclareçam ao conselho agora, sob pena de jamais terem acesso ao tomo de Felana.”

Os personagens emudeceram, e se entreolhavam na esperança de que alguém agisse na qualidade de boca do grupo. Este alguém foi Beren que, mais uma vez, tomou a iniciativa de explicar toda a história da Máscara sob seu ponto de vista.

“Vocês possuem o seu valor, se tudo o que contam é verdade. Ainda assim, se fosse preciso fazer qualquer coisa quanto à Máscara e Kabori, não acreditam que este Colégio poderia prescindir de vossas mercês?

É claro que sim, pois temos muitos guerreiros mais fortes e magos mais poderosos.
Entretanto, não subestimem seu próprio valor. Esta seria a primeira marca de uma fraqueza que poderia levá-los à derrota.

Este conselho já debateu o suficiente e percebo no semblante dos demais ministros que nossa decisão deve ser mantida e a proposta ofertada.

Estamos gratos pela notícia que Allus nos trouxe à atenção. Podemos apenas retribuir a vocês com um modesto e justo prêmio pela coragem de desbravar os mistérios da Máscara e, então, poderão retornar para suas casas um pouco mais ricos. Ou, podemos franquear acesso ao tomo de Felana, garantindo os meios pelos quais prosseguir na busca, em troca, é claro de um grande favor e dos votos que lhes confiamos.”

Zenith esclareceu seus termos em seguida, quando provocado por Rhalevahn.

"Se for do interesse de vocês prosseguir na sua demanda, então precisarão ter acesso ao conteúdo do livro de Felana. Para tanto, o Conselho de Magistrados demanda primeiramente que a Máscara das Raças seja entregue ao Colégio de Magia de Bet Rogala. Se isto não for possível em absoluto, o Conselho demanda seja o espólio da tal campanha dividido à proporção de ¾ para o Colégio. Isto tudo, é claro, se vocês conseguirem sobreviver e retornar para Bet Rogala."

O Portador dA Palavra estava fortemente inclinado a não aceitar tais termos:

"Receio que não será possível aceitar o acordo nestes termos, pois temo que a Máscara seja a materialização de algum tipo nefasto de demônio enganador, de maneira que de modo algum poderia deixar que tal item continuasse existindo sobre a face de Tellene. Assim, tão logo puser minhas mãos nele, o destruirei!"

O olhar de Zenith era penetrante. Era impossível ler suas intenções por detrás daquela face austera.

"Entendo. Se essa for a vontade de todos, receio que sua jornada acabou aqui, uma vez que nós somos os protetores do tomo de Felana, uma das arquimagas fundadoras deste Egrégio Colégio, e não estamos dispostos a ofertar a desconhecidos o acesso a tal tomo - exceto nos termos de que falei."

Beren olhava atônito a discussão, enquanto os demais pareciam indiferentes ao debate, confiando, talvez, no poder de convencimento do Svimozh.

"Eu talvez possa repensar o que disse, e aceitar seus termos se houver da parte deste Conselho a garantia de que a Máscara não cairá nas mãos erradas novamente e, mais importante, que não será utilizada em hipótese alguma - pois sabe-se que ela deve possuir vontade própria, graças à presença do demônio..."

Zenith, ainda sem revelar qualquer alteração de humor em seu semblante, objetou (interrompendo Rhalevahn):

"A qualidade respeitável de Portador dA Palavra deve ter obscurecido sua sabedoria, caso contrário jamais seria capaz dizer coisas tão pretensiosas. Acaso pensas que tu, ou teu grupo, é capaz de deter a vontade da Máscara, ou sequer de se aproximar dela, enquanto que os Arquimagos mais importantes do maior Colégio de Magia de Tellene não seriam capazes de fazê-lo?

Espero que não pense assim, pois seria tolice de sua parte acreditar nisso. Fia-te em minha palavra: somos infinitamente melhor preparados para lidar com tais fatos do que vocês.

Este Colégio não precisa de sua ajuda para resolver o problema da Máscara. Entre nós há os melhores arcanos de Tellene, e nas fileiras do Príncipe Kafen os melhores guerreiros.

Por que precisaríamos de vocês? Para nada, em absoluto. Se estamos dispostos a franquear-lhes acesso ao livro é por liberalidade e solicitude nossa, em respeito aos esforços já empregados por vocês e porque Allus é membro deste Colégio.

Os termos e as condições postas são inegociáveis, notadamente quanto à possibilidade de entrega do livro às nossas mãos. Se isto for impossível (e únicamente neste hipótese), terão seu quinhão do tesouro que recuperarem."

Rhalavahn ficou sem respostas, pois sabia que o grupo precisava e desejava acessar o conteúdo do livro. Sua postura era correta, mas poderia colocar em risco todos os esforços de Beren, Allus e Fulrik para localizar o tomo de Felana - que de outra forma estará para sempre fora de seus alcances.

Sendo assim, o Svimozh depôs as armas no conflito verbal com Zenith e aceitou os termos - ao que todos os demais personagens o seguiram.

Assim, a reunião terminou e Allus levou os personagens para aposentos no próprio Colégio de Magia, onde poderiam mais tarde estudar o tomo.

Como viriam a saber mais tarde, aquele livro realmente continha informações detalhadas sobre a Máscara...

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