A Lenda da Folha Caída – 12º Ato – O Retorno

O templo havia sido destruído e a escuridão debelada. Rhalevahn se sentia satisfeito pelo que realizara, mas não conseguia se esquecer da promessa que fizera. Não lhe importava que Lorandil, o pai do bebê, já houvesse desistido de recuperá-lo e que muitos anos já tivessem passado. Um seguidor do Arauto da Palavra jamais abandona um juramento feito e ele faria tudo que estivesse ao seu alcance para encontrar a criança, que agora já deveria ter uns sete anos de idade.

As pistas que encontraram em suas peregrinações eram mínimas, mas pareciam indicar que ela havia sido enviada para o leste. Não havia como ter certeza do local exato, mas o Svimohzish acreditava que os deuses lhe forneceriam mais informações se colocassem seus pés na estrada. Nada que não agradasse aos andarilhos Rhalevahn e Astaror...

A passagem pelas Montanhas Elanon, certamente uma das mais altas cordilheiras de toda Tellene, havia sido difícil e lenta, mas, ao menos, a viagem havia sido tranqüila e eles puderam admirar a bela paisagem durante todo o percurso sem qualquer incidente.

Na imensa cidade de P’Bapar, parada obrigatória de todos os comerciantes que atravessavam as montanhas, puderam ter o seu merecido descanso e renovar sua provisões. E, o que foi ainda mais importante, conseguiram informações: aparentemente um comerciante de escravos chamado Zangrim havia passado por ali há algumas semanas carregando várias crianças brandobianas. Não era muita coisa, mas ao menos lhes dava um nome e uma direção para iniciarem sua busca.

Por muitos dias seguiram para o sul, pela trilha às margens do Rio Banader, até que, em Kalokapeta, souberam que Zangrim havia partido para o leste, em direção ao Lago Eb’Sobet, localizado no Principado de Pekal.

Mais alguns dias de estrada e, enfim, os dois chegaram a Bet Rogala, a capital pekalense, com a imensa torre do Colégio de Magia se sobressaindo em seu centro. Esperavam que a busca por Zangrim acabasse ali, mas não era isso que os deuses planejavam. O encontro que teriam era com um velho e querido amigo...

***

Após a partida de Galahad para Bet Urala, Beren, Allus e Fulrik seguiram rapidamente em direção à capital, eis que era imprescindível encontrar os escritos de Felana nas catacumbas do Colégio Arcano.

Ao chegarem à cidade, Allus se despediu de seus companheiros e seguiu para a torre. O mago acreditava poder descobrir a localização com um de seus professores, mas sabia que deveria agir com cuidado, pois a entrada para as catacumbas era um segredo conhecido por poucos e ele não queria atrair uma atenção indesejada que pudesse colocar sua missão em risco.

Já o anão e o meio-elfo ansiavam por uma boa refeição. Seguiram para a estalagem em que haviam se instalado em sua última estada na cidade, desejosos por um belo e suculento almoço.

O cheiro da comida estava bastante agradável. Fulrik logo se dirigiu ao balcão para buscar duas canecas de cerveja, enquanto Beren foi procurar uma mesa. Mas uma visão o paralisou... O meio-elfo não podia acreditar no que via! Ou ele tinha voltado louco do semiplano de Veönamë ou alguém estava brincando com suas memórias! Sem pensar duas vezes, sacou a Piscadinha, certo de que ela lhe mostraria a natureza ilusória do que via...

O barulho da espada sendo retirada da bainha chamou a atenção de todos dentro do recinto. Os olhares se concentraram em Beren, com várias pessoas saindo de perto dele, receosos.

“Não disse que o encontraríamos novamente, Astaror!” – disse um sorridente Rhalevhan, se levantando da cadeira.

“Isso não é possível! Eu os vi serem derrotados ante os meus olhos! Como?!” – dizia um aturdido e confuso Beren, completamente incapaz de acreditar no que seus olhos, inclusive o da Piscadinha, mostravam.

“É uma longa história. Mas venha, meu rapaz, dê-me um abraço!”

Beren não sabia como reagir. A visão de seus amigos muito lhe alegrava, mas era difícil para ele entender como eles poderiam estar ali após tudo o que acontecera: a batalha nos pântanos, a fuga que empreendera ao vê-los cair, a perseguição pelas bestas, a solidão... Aquele era um milagre, só podia ser um milagre!

Os personagens conversaram longamente e muito foi falado a respeito dos anos em que estiveram separados. Muitas foram as revelações, que acabaram convencendo o meio-elfo da realidade do que via, e ele, enfim, se alegrou. Seus velhos amigos estavam de volta e talvez ainda houvesse esperança de encontrar o bebê...

Beren também lhes falou a respeito da Máscara das Raças e da necessidade premente de encontrar o livro de Felana. Revelou a eles todas as suas teorias a respeito da real natureza do artefato, o que deixou Rhalevhan duvidoso. Era muito importante para ele encontrar a criança, mas se essa Máscara fosse realmente o item maligno que Beren descrevera, eles deveriam agir com urgência!

“Essa Máscara nunca deveria ter sido encontrada, meus amigos. Deveríamos ter notado que aquele era um esconderijo, uma tentativa de impedir que fosse encontrada por mais alguém e espalhasse novamente o seu mau por Tellene. Todavia, acreditamos que ela era um item de Deb’fo, afinal aquele era um antigo templo do Cavaleiro dos Deuses, e resolvemos devolvê-lo à sua igreja em Bet Urala. De lá, ela acabou nas mãos, ou melhor, na face do Imperador Kabori, e seu avanço tem sido grandioso desde então. Sei que eu estava destinado a encontrá-la, isso foi profetizado por Thileranë a meu pai, mas não consigo deixar de ver essa guerra como minha culpa! Não sei se teremos forças, nem como o faremos, mas precisamos encontrar uma forma de destruir a Máscara das Raças ou, ao menos, tirá-la da posse do Imperador!”

"Não se sinta tão mal, Beren. Ainda que as forças do destino o tenham usado para tal fim, o seu desejo e as suas ações desde então o eximem da culpa. Talvez por isso a Corte Celestial nos tenha unido novamente, para debelar esse mau" – disse Rhalevhan.

"Sim, não desanime, Faísca. Nós o ajudaremos" – completou Astaror.

E assim aquela conversa terminou, sob os auspícios dos deuses...

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