O Legado de Sangue - Atos Não Narrados - Parte 02

Aqui e ali ambos os personagens sobreviventes conseguiam alguma caça para se alimentar, muito embora ela se limitasse a insetos e pequenos lagartos. Para não morrerem de sede, Astaror lançou mão de seus conhecimentos de sobrevivência, valendo-se de um farrapo da roupa de Rhalevahn para filtrar a água escura e pútrida e encher os cantis.



A névoa eterna daquele local ainda era bem densa acima de suas cabeças, e o ar parado e úmido começava a sufocar-lhes quando encontraram uma área relativamente seca para se abrigarem. Ali, os personagens tentaram acender uma tocha, mas toda a madeira que acharam estava encharcada demais para ser usada. Para lidar com o frio, retomaram a leitura interrompida pelo surgimento das harpias dias atrás.

O lorde estava furioso, as cartas diziam. A notícia da morte de Miranda incutiu-lhe ódio ao nome de Ardrus Witigis. Aquele sentimento perverso era acrescido da dor imensa da perda, e todo aquele sofrimento aparentemente perturbou de vez a mente de Durzgol.

Paulatinamente o lorde foi terceirizando suas atribuições relativas à administração de Curdven, cada vez mais se isolando do contato com seus servos. Muitos boatos começaram, então, a circular – inicialmente na própria vila e, posteriormente, em feudos mais distantes. Louco, era como a maioria se referia a Durzgol naqueles dias.

O tempo provou que não estavam de todo errados.

O que segue às cartas e diários pessoais de Durzgol são relatos distorcidos de uma realidade não completamente compreendida pelo narrador. Não se pode saber se o próprio Durzgol os redigiu ou se outrem o fez.

Durante muitos anos Pharagûl associou-se ao Lorde Durzgol de Curdven. Ninguém na vila conhece sua origem (a exemplo que ocorreu em Premolen, ao testemunho de todos os personagens), mas todos parecem temer seu olhar penetrante. Com aqueles olhos pálidos Pharagûl parece penetrar nas cabeças de suas vítimas, lendo seus pensamentos mais obscuros e subjugando-as à sua vontade. Seus métodos eram, portanto, deveras sutis. Contudo, seus objetivos permaneciam um mistério.

Os meios pelos quais Pharagûl alcançou tamanha proximidade com o lorde não estão detalhados nos documentos, mas parecia claro que ele se tornou o homem de maior confiança e conselheiro inseparável do comandante daquelas terras.

O comando da região ainda pertencia a Durzgol, mas a própria sanidade do lorde pertencia a Pharagûl e lentamente o ducado imergiu nas trevas dos pântanos juntamente com o que restou da família do lorde.

As coisas não teriam chegado a tal ponto não fosse pela morte de Miranda. Isto já está claro para qualquer leitor, mesmo o mais incauto. A morte da menina revelou-se o ponto central de uma reviravolta que beneficiou Pharagûl diretamente, já que Durzgol tornou-se cada vez mais suscetível à suas “sábias” palavras após a morte da filha.

Seduzido pela pele branca tingida pelo sol das manhãs frias de Cosdol, enlevado pelas formas roliças de seu corpo juvenil que transpirava o doce perfume da inocência, arrebatado pelos seios volumosos que se apertavam sob os vestidos justos que lhe comprimiam a cintura, Pharagûl havia muitas vezes sucumbido aos desejos carnais e tentou ter Miranda para si. Crescia em seu peito um sentimento louco pela menina; sentimento repugnante, mas irresistível.

Contudo, Miranda jamais teria qualquer caso com um homem tão horripilante. Inicialmente, Pharagûl causava-lhe apenas asco, contudo, após suas investidas mais austeras, ele passou a lhe causar também medo.

O horripilante conselheiro do lorde não chegou a tentar violentar a jovem (embora esse pensamento delicioso tenha passado pela cabeça, e tenha planejado mil formas de consumar seu desejo tão carnal), pois certamente calculou (com razão) que qualquer tentativa neste sentido despertaria o lorde para as palavras enfeitiçadas que seu conselheiro lhe dispensava a todo tempo. Isto acabaria com qualquer pretensão de Pharagûl.

Não obstante, dentro daquele homem sinistro crescia o incontrolável ciúme da relação entre Ardrus e Miranda. Desviando-se momentaneamente de seus objetivos principais e esquecendo-se das razões últimas pelas quais tivera que se aproximar de Durzgol, Pharagûl aproveitou-se do coração paterno do lorde para semear discórdias e criar contendas capazes de afastar o casal.

Conquanto seus esforços tenham resultado inúteis para este propósito, quis destino que deles resultasse a morte de Miranda e a abertura final para subjugar o lorde. Sim, porque, afinal, dos esforços de Pharagûl resultou a decisão da jovem de partir para os campos de batalha, onde mais tarde veio a falecer.

Qualquer homem médio já teria compreendido a ironia neste momento. A morte de Miranda foi, indiretamente, ocasionada por uma pressão criada por Pharagûl e, embora este não tenha sido seu propósito inicial, a morte da jovem deu abertura para que a sua influência junto ao lorde Durzgol alcançasse patamares antes impensados.

Com a fragilidade do lorde, Pharagûl iniciou o processo de transformação de Curdven e suas redondezas. No interior das turfeiras de Avdoron (como o pântano era chamado pelos locais) começou a construção de um novo templo da escuridão, de onde ele começaria a devorar a luz de Tellene, contribuindo para que Aquele que espreita na escuridão finalmente pudesse reinar sobre o mundo.

Pharagûl falava de muitas coisas e nem todas pareciam fazer algum sentido – algumas de suas falas pareciam retiradas de tomos obscuros, outras eram simples criações de sua mente perversa, brilhante e ainda assim doente. Com o passar dos anos o projeto de Pharagûl tomou forma, e grande parte dos pântanos foram imersos em profunda escuridão, bem como Curdven foi reduzida a uma sombra do que fora outrora. Os servos que viviam na vila foram escravizados ou mortos e apenas poucos conseguiram fugir para terras distantes.

Rhalevahn e Astaror estavam bastante perplexos com o que iam lendo. O projeto maligno de Pharagûl de fato havia se consumado e aquela região conspurcada para sempre. Não podiam entender, contudo, em que se encaixava a história do bebê e que tipo de ritual macabro poderia envolver a reencarnação de Miranda. Estas dados não constavam das cartas e dos diários, certamente por serem muito recentes.

Contudo, parecia-lhes razoável concluir que Durzgol e Pharagûl tinham motivos pessoais para desejar Miranda de volta e, ademais, considerando que dentre os dois apenas o último parecia ser realmente uma pessoa poderosa o suficiente para realizar um ritual de tal magnitude, certamente Pharagûl deveria ser encarado como o grande vilão e não Durzgol (que diante de tudo ficou submetido a uma posição de lacaio).

Aquelas eram suposições e reflexões superficiais dos personagens, mas logo os pântanos chamariam sua atenção de volta para as redondezas e foi preciso agir para não sucumbir à ameaça do Povo Lagarto (desta vez uma mera conversa não iria resolver).



Eventualmente Rhalevahn e Astaror deixaram os pântanos, passados muitos dias desde a sua saída das mansões de Durzgol. Os relatos da história trágica de Miranda retumbavam em suas cabeças e muitas outras idéias pairavam no ar, mas das quais não ousavam falar para não tornar a caminhada mais árdua do que já era.

Os dois deixaram as turfeiras ao norte da brandobia, graças às colinas que se erguem próximas da borda setentrional dos pântanos (as quais serviram de guias para não andarem em círculos e se perderem para sempre). No entanto, a caminhada estava longe do fim, pois aquelas regiões são ermas, e tiveram sorte de alcançar Lidsven antes que o frio e a fome lhes matassem. Demorou muito para compreenderem onde estavam, e ao se localizarem rumaram margeando a Baía de Voldor até Crandolen e de lá eventualmente de volta para Premolen.

Sim, foi uma longa jornada. Muito longa, é verdade.

Na época em que finalmente chegaram à Premolen, muita coisa já havia mudado. As recordações da influência das Cortes da Iniquidade ainda os deixaram ressabiados em buscar informações, tendo preferido agir com cautela, gastando algum tempo observando o ambiente da cidade antes de tudo.

Souberam, afinal, sobre o retorno de Beren à Premolen e sobre as informações que ele trouxe sobre o que habitava nos pântanos ao norte. Sabiam, agora, que seu amigo ainda estava vivo. Porém, sabiam também que a Assembléia de Luz não dispunha de recursos para combater, sozinha, o mal nas turfeiras de Avdoron.

“Em alguns momentos na vida precisamos pensar de forma linear, Astaror. Sabemos agora que Beren está bem, e tenho certeza que o destino irá conspirar para que nos reencontremos em breve. Afinal, ele não deve estar muito longe daqui. Contudo, sinto que o dever nos chama e precisamos ajudar esses valiosos sacerdotes no combate ao que restou dos planos de Pharagûl para aquela região desafortunada.”

O svimohz foi contundente em seu discurso e Astaror assentiu. Mais uma vez ardia neles o espírito aventureiro e a vontade de fazer a coisa certa. Beren estava bem, e de acordo com Namac (Chama de Bleslelna, servidor da Assembléia da Luz em Randolen) estava muito engajado em uma certa missão também.

Logo, os dois personagens organizaram um grupo de aventureiros dispostos a viajar até os turfeiros de Avdoron, desta vez para expulsar Pharagûl e Duzrgol daquela região, livrando-a da influência dO Escuro.

Aquela pequena campanha travada por Rhalevahn e Astaror ganhou contornos épicos quando o grupo encontrou indícios da localização do templo obscuro de Pharagûl. Isto foi cerca de oito meses depois de terem deixado os pântanos pela primeira vez e, com tal notícia, muitos governantes locais se mobilizaram e uma verdadeira cruzada foi preparada para destruir os servos das trevas viventes nos pântanos.

A missão não foi simples, como o tempo demonstraria. Foram necessários muitos meses até que fosse possível declarar alguma vitória. Muitos homens morreram em conflitos com os habitantes dos pântanos (inclusive trolls e ogros). A maioria dos homens de armas competentes estavam nas guerras contra os lathlani e muitos dos que acompanhavam Rhalevahn e Astaror eram apenas jovens garotos inexperientes. Eventualmente, porém, a sorte sorriu para os dois personagens e o templo foi descoberto. Durzgol e Pharagûl estavam lá e ambos acabaram sendo vencidos pelos personagens.

A vitória só não foi completa naquele dia porque o bebê (Miranda?) não foi localizado.

As explorações no templo, contudo, haviam deixado algumas pistas sobre o possível paradeiro da criança – um ponto de partida para que Rhalevahn e Astaror começassem sua busca. A ameaça de Pharagûl havia sido debelada e os turfeiros de Avdoron estavam livres daquela influência maligna, de modo que encontrar o bebê, agora, era uma questão prioritária. Essa missão, todavia, não seria curta ou simples.

Muitos anos se passaram desde então. Os dois personagens principais desta narrativa não pretendiam deixar tanto tempo ir embora sem rever o amigo meio-elfo. Mas se eles se ocuparam de diversos assuntos nos últimos anos e o destino não foi gentil, pois Beren já estava muito longe dali, no Império de Kalamar, do outro lado das grandes Montanhas de Elanon.

Novamente, entretanto, o destino agiu e, sete anos depois, preparou um reencontro que já não era mais esperado.

Agora, só resta aguardar o desenrolar dos próximos atos desta história.

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NOTAS: A história aqui contada é a apertada síntese dos eventos mais importantes que sucederam após a fuga de Beren das mansões de Durzgol sob o ponto de vista de Rhalevahn e Astaror.

Nem tudo o que foi dito aqui representa a verdade real, daquilo que verdadeiramente ocorreu naqueles dias (embora não se possa dizer exatamente o quê), pois a verdade nunca é uma só.

Incumbe-me lembrar o leitor que um ou outro fato, como a origem de Durzgol e de seu ódio por Ardrus Witigis, contém divergências com a história aprendida por Beren antes de sair da Brandobia rumo ao Reino de Basir e o Império de Kalamar. Esta discrepância é proposital.

Beren ouviu sete anos atrás que Durzgol era lorde de Prevren, uma outra região de Cosdol, próxima de Curdven, mas substancialmente mais pobre. Esta informação não está totalmente equivocada, na medida em que Duzgol efetivamente foi senhor daquelas terras, não obstante já fosse conde de Curdven. Ocorre que sua derrota em batalha contra as tropas mercenárias de Eldor racharam seus domínios, cindindo a região de Prevren.

Naquela região, a batalha é falada em versos e prosas. Quando esteve por lá, Beren aprendeu sobre tal história e ouviu sobre um grande soldado eldoriano que comandou a vitória sobre o lorde e o fez cair em desgraça perante seu rei. O fato é que a identidade deste guerreiro jamais foi conhecida com precisão, havendo muitas divergências dependendo do bardo que repassa a história.

Não conhecendo nenhum outro motivo para que Durzgol odiasse Ardrus e sabendo (através de Harric) que ele havia lutado em muitas batalhas e era nobre (e logo detinha o status suficiente para liderar tropas, segundo as tradições brandobianas), a sugestão mais óbvia para Beren era que Ardrus Witigis fosse o nome do guerreiro valente em questão.

Isto jamais foi uma certeza absoluta para Beren, e tampouco se revelou em um fato de grande relevância para o personagem naquele momento.

Histórias mal contadas, incompletas ou distorcidas são coisas comuns em um mundo medieval tão vasto como Tellene. Não se fiem demais a tudo aquilo que ouvem no mundo, ou passarão por tolos inocentes, pois grande parte das lendas, mitos e histórias são contadas para ser interpretadas poeticamente, ou de acordo com as tendências culturais vigentes em determinado momento. Isto é parte da vivacidade e da magia do mundo de fantasia medieval, onde as coisas nem sempre são preto e branco.

Comentários

  1. E ae pessoal!
    Essa campanha de Kalamar parece legal.
    Eu tava procurando o livro do jogador 3.0 (impossivel alias de achar) e acabei tropeçando num material legal de kalamar e greyhawk:
    http://www.4shared.com/dir/13083900/5020d532/sharing.html
    http://www.4shared.com/dir/8389922/37f72a20/sharing.html
    Infelizmente nao peguei o PHB3.0 pra poder ver as magias de clérigo. A lista da 3.5 é diferente.
    Mas enfim, aproveitem!

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  2. Estava verificando a existência de discrepâncias mesmo e já tinha imaginado que os tomos, canções, bardos e sei lá mais o quê Beren consultou não eram plenamente reais, mas versões do que acontecera, como é natural em história... Já Astaror e Rhalevan estavam retirando suas informações quase que diretamente das pessoas envolvidas (digo quase porque se tratavam de diários e tal, além da verdade jamais ser absoluta, já dizia Hegel - acho que vou citá-lo em algum momento da campanha como um sábio elfo, rsrs)... E Ardrus também jamais chegou a mencionar essa campanha em Cosdol quando contou sua história a Beren, só que, como você colocou, isso não era um fato de grande relevância para o meio-elfo, embora o fosse para mim...

    Esperava que a vingança viria pra frente, mas parece que já ocorreu... Durzgol e Pharagul (principal vilão no fim das contas) foram mortos?? Será que realmente esse foi o fim deles?? Só o futuro dirá...

    Diego, eu gostava bastante dessa campanha. E, se lhe interessar se inteirar sobre fatos anteriores dela, o blog tá aí pra isso, hehe... E eu tenho os livros da 3.0 em pdf, depois podemos combinar uma forma de passá-los a você, msn talvez...

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  3. Finalmente o Atlas de Kalamar chegou!

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