O Legado de Sangue - Atos Não Narrados - Parte 01

O último recôndito dos prazeres carnais.

“Devíeis alimentar-se com as coisas do espírito e não da carne, pois os que se alimentam das coisas da carne hão de apodrecer como ela. As coisas do espírito contêm a verdade pura de toda Tellene.”

Além de toda fartura, de toda a comida e bebida, havia também o sexo.

Sexo forte e viril, qualquer homem poderia deleitar-se naquele banquete de mulheres submissas. Havia sensualidade para onde quer que se olhasse.

As aquelas mulheres se ofereciam como harpias prontas para devorar suas almas.

“A castidade é a única via para que o homem não se desvie do caminho da virtude. Dentro de toda mulher há um demônio pronto para devorar a luz que reside no interior do homem. Cuidado, pois, para não entregardes vossa alma a uma mulher menos digna. Pois da mesma forma que a mulher sábia edifica sua casa, a mulher vil pode pô-la abaixo.”

Infelizmente, às vezes os homens deixam que seus corações sejam facilmente encantados pelo charme das mulheres.

Naquela tarde fria havia muitas delas, cercando o grupo nos salões de Durzgol. Rhalevahn tentou impedir que Harric e os demais caíssem de joelhos perante aquelas mulheres. Os ensinamentos dO Verdadeiro lhe alertavam para o perigo iminente.

Já faz muito tempo, cerca de sete anos. Rhalevahn não sabe ao certo. Ele só sabe que após escaparem daquelas demoníacas criaturas, retornaram para salvar o bebê. Mas o combate que se seguiria quase lhe tirou a vida.

Naquele dia houve o tão esperado confronto com Durzgol, o responsável pelo rapto da criança de Aryvel. Pobre garota, apaixonou-se por um elfo, e que crime haveria de ser esse? Em terras comuns, nenhum. Mas Eldor está em guerra com os Lathlani há muito tempo, por razões que nem mesmo o tempo foi capaz de apagar das mentes dos homens da Brandobia e a menina foi morta e pendurada numa árvore com seu filho ainda no ventre, prestes a nascer.

Não fosse pela intervenção se Harric (que O Honorável tenha clamado sua alma nos Salões dos Mortos) o bebê teria morrido no frio do inverno. Mas a luz que iluminou Harric e o fez salvar o bebê foi entorpecida pelas trevas de sua estupidez, que o fez entregar a pobre criança à Glorath – sacerdote das Cortes da Iniquidade.

Malditos sejam aqueles mentirosos.

Glorath entregou o bebê aos auspícios de Pharagûl, que (ninguém na vila de Premolen sabia) trabalhava para Durzgol.

Pobre bebê.

Foi vítima de um ritual maluco para reencarnar o espírito de Miranda, filha do Lorde Durzgol.

Todo o grupo se envolveu com a história, e tentou salvar a criança. Foram tempos difíceis, mas alegres também. Encerrados prematuramente, contudo, naquele combate nas mansões de Durzgol.

Os personagens caíram um a um. Primeiro Harric, depois Astaror, aí Rhalevahn. Beren, porém, conseguiu reunir forças para fugir dali. Durzgol já havia conseguido sair do local com o bebê, aparentemente já incorporado com o espírito de Miranda (segundo garantiu o Lorde). Mas as mulheres-diabo detiveram o grupo, e com fuga de Beren, foram atrás dele. Cercaram-no por dois dias naquela vila abandonada que havia ali perto. Mas o meio-elfo fugiu, e fugiu para bem longe. Foi parar no Império de Kalamar, no leste distante.

Mas, quem disse que o fim havia chegado para os demais?

As mulheres-diabo foram embora daquele local atrás do fugitivo, e deixaram o grupo pra trás, pensando que todos estivessem mortos. Ledo engano.

Apenas dias mais tarde Rhalevahn despertou confuso com o cheiro do pântano pútrido que cercava a mansão do Lorde Durzgol. “Onde diabos estou?” Foi a primeira coisa que lhe passou pela cabeça, mas logo a razão voltou e o svimohz lembrou de tudo. Correu, então, ao socorro dos colegas.

Constatou, porém, que a situação era crítica.

“Pela santa Palavra! O que aquelas diabas fizeram aqui?!”

Harric estava morto. Não havia jeito de recuperá-lo, e só um verdadeiro milagre poderia trazer o valente guerreiro de volta. Rhalevahn tomou de seu pescoço uma correte de prata que carregava consigo, bem como sua espada longa. Aquela altura era sabido que não seria possível dar-lhe um enterro digno, como manda a tradição brandobiana, mas Rhalevahn entoou um cântico antigo para espantar os maus espíritos (esperando com isso espantar qualquer chance de que o amigo se tornasse um lacaio de Zazimash – O Senhor do Submundo) e recolheu aqueles itens porque entendia ser necessário ao menos dar a notícia à sua família e, com isso, devolver alguns pertences à família Witigis.

“Ahhgg...” Um murmúrio de dor, e Rhalevahn viu que Astaror estava vivo!

“Oh, meu poderoso amigo urso do norte! Você está vivo!!!”

O svimohz não podia esconder a felicidade.

Demorou um pouco ainda até que Astaror estivesse recomposto e entendesse o que lhe aconteceu. Sua mente ainda estava inebriada pela fartura e pelo banquete da penúltima noite (no qual ele quase virou o prato principal). Logo ele também caiu em si e lamentou a morte de Harric.

Mas onde estaria Beren? Esta pergunta estava sem resposta. Os dois vasculharam os arredores em busca do corpo do amigo, mas não o encontraram. Suas vagas memórias daquele combate horrendo lhes diziam que Beren ainda estava de pé quando caíram, mas ele não teria tido a menor chance contra aquelas harpias (eram fortes demais).

Vasculharam e procuraram em todos os locais. Foi preciso recuperar a coragem para entrar novamente nas mansões, mas como não encontravam Beren, este ato de coragem mostrou-se única coisa sensata a se fazer naquele momento. A opção era clara: morrer tentando encontrar Beren ou sair dali com vida e sem honra ou glória.

Para aqueles dois a segunda opção não era válida. Os ritos tribais de Astaror lhe impunham sempre um comportamento de liderança e altivez, jamais se acovardando mesmo perante o mais poderoso inimigo. Já para Rhalevahn, manter-se fiel aos companheiros era uma forma de honrar com os mandamentos de Shozhor – O Arauto dA Palavra, então a opção era óbvia.

Foi com cuidado que penetraram nas trevas daquele lugar de novo.

O ar ainda estava carregado com o cheiro de sangue e suor e a atmosfera não poderia ser mais assustadora. Os dois percorreram boa parte dos salões em busca de Beren, e viram toda sorte de imundície e sacrilégios que se possa imaginar. Andaram muito, e àquela altura, já duvidavam que Beren estivesse lá dentro, pois o local estava vazio. Sequer as harpias haviam voltado. Contudo, naquele momento já vigorava um certo espírito aventureiro clamando por investigações mais profundas sobre Durzgol e tudo quanto o envolvia.

Os personagens ficaram boquiabertos com as informações que conseguiram naquele local. Livros, retratos, pergaminhos, cartas... Aquela mansão já foi uma casa de verdade, talvez em tempos remotos, e pertencera a um lorde Cosdolense. Sua surpresa foi maior ainda ao verificarem que tal lorde era o próprio Durzgol.

Foi há muitos e muitos anos atrás, quando Durzgol perdeu sua filha, que tudo começou. Ela se chamava Miranda e vivia nas terras de Curdven, governadas por seu pai. Ela era jovem ainda quando se apaixonou perdidamente por um certo homem chamado Ardrus. Ele não era exatamente o tipo de partido que Durzgol desejava para sua filha, e as tradições brandobianas são muitos rígidas e claras quanto a romances como estes. Logo, Durzgol não poderia permitir que aquele namorico fosse muito longe.

O que havia entre Miranda e Ardrus era um amor forte e profundo, juvenil e inocente. Os dois estavam convictos que seria possível enfrentar mesmo a potência do lorde para viverem juntos, como marido e mulher. Juras eternas de amor permeavam as tardes em que passavam caminhando pelos campos nos arredores do feudo.
Todavia, nenhum romance é bom o suficiente para ser contado sem que haja uma tragédia que contrabalanceie toda aquela ternura.

Ardrus era jovem assim como Miranda, mas já era homem havia alguns primaveras (embora não contasse nem sequer com vinte desde seu nascimento). Seu pai não passava de um servo nas cortes de Randolen, e ele aspirava ser algo mais. Casar-se com Miranda era seu sonho naquele momento. Melhor do que isso só se ajuntasse para si e sua amada grande fortuna!

Foi especialmente por essa razão (ou pelo menos foi o que disse à jovem) que partiu para o fronte de guerra entre Eldor e Lathlanian. A guerra que durava muitas décadas parecia querer chegar ao fim, e haveria grande espólio, de modo que Ardrus planejava se apoderar do que fosse suficiente para garantir-lhe um título de nobreza qualquer – o bastante para satisfazer seu ego e realizar seu sonho. Casar-se com Miranda já era uma promessa, que agora só precisava ser cumprida ao tempo em que pudesse lhe honrar a origem nobre. Assim, Ardrus foi embora certa noite, deixando Miranda desesperada.

A menina amava muito o jovem mercenário. Queria viver como os contos antigos , que falavam de amor eterno, felicidade plena e realizada. Balela cantarolada pelos elfos que uma vez passaram pelas ruas de Cosolen, mas que marcaram sua existência de forma profunda. Sonhava com aqueles dias de felicidade como forma de escapar da profunda solidão e tristeza que a vida em Curdven lhe proporcionava. Até a paisagem daquele local, marcada pelo pântano fedorento, lhe perturbava.

Movida pela esperança de que o amor sempre vence todas as barreiras, ela procurou seu pai certa vez:

“Que desejas minha filha?”

“Pai, eu amei o eldoriano, para viver junto com ele, é o que proclama ao mundo minhas ações violentas. Submeteu-se-me o coração à essência mesma de meu consorte, vi o retrato de Ardrus em seu espírito, e suas honras e partes valorosas, minha sorte a alma inteira dediquei. Assim, pai, se eu ficar tal qual parasita da paz e ele partir para essa guerra, privada me verei das qualidades que amá-lo me fizeram, sobre ser-me necessário aguentar esse intervalo moroso e fatigante de sua ausência. Deixai, pois, que com ele também eu siga.”

O apelo de Miranda foi em vão. Se sua mãe fosse viva, talvez partilhasse da mesma crença no amor, mas seu pai era um homem racional e por vezes até sombrio e não cria neste tipo de besteira. Incomodava-lhe, também, a sombra daquele homem por detrás de seu pai.

A negativa de Durzgol não parou a moça, que partiu mesmo sem sua autorização. É claro que ela não fez dentro de poucos dias, pois seu pai sabia o que ela pretendia fazer. Mas esperou até quando reconquistasse a confiança do lorde, e sumiu, deixando para trás apenas uma carta amorosa de despedida. E foi viver seu grande amor.

Ardrus e Miranda se reencontraram e viveram felizes por pelo menos um ano. Nem mesmo as idas e vindas de Ardrus, sempre com as legiões eldorianas, a desanimavam. Naquele interregno, dera a luz a um filho, a quem batizaram de Harric. Era um garoto saudável, e que contava com quatro meses de vida quando Miranda apresentou os primeiros sinais da peste que consumia os homens e mulheres na região de Motven naquele inverno.

Os homens de Eldor acreditavam que se tratava de um poderoso feitiço élfico, mas Ardrus só conseguia pensar que a vida de Miranda estava por um fio e que o sonho acabaria. Seu sofrimento cortava-lhe a alma, mas ela parecia feliz mesmo assim.

Seus lábios pálidos tocaram em Ardrus pela última vez de forma absolutamente sublime. Seu amor era verdadeiro sem sombra de dúvidas, mas a peste a consumiu por inteiro e não lhe restava mais força alguma para resistir.

“Cuide de nosso filho querido, meu amor! Viverei eternamente como uma lembrança perene na profundidade dos olhos do nosso amado Harric! Amo-te demais, e aguardarei nos Salões do Mortos até tua chegada, para então irmos juntos ao encontro de nosso Senhor!” Miranda, convalesceu após entregar-lhe o sinete com o brasão de sua família para seu amado.

Os olhos de Ardrus estavam cheios de água e a pressão no peito era demais. Ele não se conteve e começou a chorar copiosamente. Talvez ele jamais tenha amado Miranda da forma tão profunda e verdadeira como ela o amou, afinal, era homem e não se familiarizava com histórias de romances. Mas aquele último ano foi realmente especial, e ele amou Harric muito mais do que a maioria dos pais ama seus filhos por causa da lembrança de Miranda.

Este amor tão forte o lançou numa busca desesperada na caça a seus inimigos mais antigos – os elfos. O bebê Harric estava muito debilitado, apanhado pela mesma doença a mãe. Ele não resistiria muito, mas sabia que se havia alguém capaz de conceder uma cura tão milagrosa seriam os elfos. Ou pelo menos assim lhe disse Zaralda, que lhe contou sobre os poderes de uma planta muito, muito especial, que só os elfos poderiam ajudá-lo a conseguir.

Ardrus se lançou na busca feroz pela planta conhecida como mandrágora. Foi nesta curta empreitada que conheceu Lia, e foi com ela que afogou suas mágoas e carências naqueles momentos tão difíceis. Essa história, contudo, a maioria dentre vós já deve conhecer.

O seu retorno foi para Unvolen, onde Zaralda estaria esperando. Harric tinha ficado com ela. Era uma mulher de meia idade, misteriosa, mas a única esperança para salvar o bebê na urgência dos fatos. Ela provou merecer a confiança de Ardrus e salvou seu filho.

Ela sabia, como seria visto mais tarde, que havia algo de diferente em relação àquelas pessoas. O sinete na mão de Ardrus lhe causava arrepios na espinha. Ardrus partiu para Randolen com Harric nos braços e abandou as guerras para sempre.

Enquanto isso, Durgzol ardia em ódio ao nome Witigis quando recebia a notícia de morte de Miranda. A raiva em seu coração era muito forte, a tolice de sua filha era imperdoável, só aplacada pelo fato de que certamente fora enfeitiçada pelo plebeu desgraçado!

Pharagûl acompanhou todo o desenrolar desta história de perto. Era um conselheiro e fiel defensor de Durzgol. Ele jamais permitiu que Durzgol aceitasse a convivência de Ardrus com Miranda e sempre que o lorde manifestava qualquer sensibilidade para atender às vontades da filha, Pharagûl o trazia para a “realidade”.

Estava claro, para Rhalevahn e Astaror, que Pharagûl exercia grande influência sobre as decisões de Durzgol, e ele (com muito mais fervor do que o próprio lorde) era intolerante com Ardrus. Por que?

Os relatos de Durzgol eram muito vastos. Ainda havia muitas coisas para serem lidas. Mas as harpias voltariam ainda naquele dia.

Rhalevahn e Astaror estavam com os corações pesados graças ao tormento que aquelas leituras lhes traziam. Recolheram o máximo de livros, diários e cartas possível e partiram. Mas as servas demoníacas retornaram para interceptá-los.

Seguiu-se um breve combate. As criaturas demoníacas, embora em maior número, não tiveram muito sorte, pois estavam despreparadas para o encontro. Além do que Rhalevahn e Astaror estavam se sentindo estranhamente motivados com tudo aquilo.

Aos trancos e barrancos eles saíram da mansão até o pátio dos fundos. Algumas harpias estavam atrás deles ainda e, embora eventualmente elas desistissem de persegui-los, eles andaram à esmo no pântano por muitos e muitos dias ainda, perdendo a conta de quanto tempo ficaram sobrevivendo à míngua, com pouquíssima água e comida que conseguiram encontrar naquele local.

(a história não acabou, aguardem as próximas postagens...)

Comentários

  1. Muito bom!!! E enfim sabemos exatamente para que foi usada a mandrágora: não para ajudar no nascimento de Beren, mas para salvar o bebê Harric!!

    Que venham os próximos posts!!!

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  2. Reli o post hoje, desta vez com mais calma, e percebi uma coisa: o sinete que o Beren usa é o sinete de Durzgol, não?? Ou estou viajando?

    No momento prévio ao combate na mansão, lembro-me que o Lorde reconheceu o sinete e as feições de Ardrus em Beren, mas não tinha sequer passado pela minha cabeça que o sinete, em verdade, era o símbolo da família de Durzgol, que Ardrus usava em honra à Miranda. Detalhe curioso esse...

    E, Bogus, como falamos há muito tempo atrás, a vingança virá sim, ainda que não de imediato... E será com os mesmos personagens, espero, hehe...

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  3. Esse detalhe sórdido será revelado no próximo post!

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