Uma Estranha Colheita - O Começo

A noite lentamente começa nas terras de Flanaess. Esta foi uma tarde quente na Vila de Dyvers. O sol vai se pondo no oeste, onde as águas do colossal rio Velverdyva encontram o Lago das Profundezas Desconhecidas.

Beatrice e Miro finalmente chegaram na taverna do Cão Vagabundo (Cheap Dog). O nome é a epítome deste local. A taverna parece ser frequentada por toda sorte de pessoas, a grande maioria delas parte da plebe, especialmente por marinheiros desocupados, estivadores cansados, prostitutas de baixo nível, e toda sorte de escória. O chão ensebado, os vidros das janelas opacos de tanta gordura, e a profusão do odor fétido do suor dos corpos dos muitos homens e mulheres que neste princípio de noite abarrotam o lugar se mistura ao cheiro do cozido que o cozinheiro gordo e mal vestido traz em seu gigantesco caldeirão de ferro com a ajuda de um franzino rapaz de aproximadamente 15 primaveras de idade.

Em meio ao barulho das conversas e risadas que amontoam nesse lugar excessivamente mundano, o som distinto de um instrumento de cordas qualquer se destaca. É possível ver o grupo animado que se acomoda numa das mesas mais desprivilegiadas da taverna – logo ali, tão próxima da saída para o estábulo da taverna. Ainda assim, o grupo canta e bebe enquanto o bardo toca aquela animada melodia.

Os dois magos estão aqui para encontrar com um homem chamado Gerdrant. Ewlyn (Éulin) disse que Gerdrant é um homem valente e confiável, em quem poderiam confiar suas próprias vidas se precisassem. Sabe-se lá porque ele confia tanto nesse tal Gerdrant, que foi descrito quase como o cavaleiro branco dos contos de fadas, mas isso não importa agora também.

Há uma mesa esvaziando agora mesmo, e os dois viajantes não demoram a nela se sentar. O bardo parou de tocar sua melodia. Este evento tão banal passaria desapercebido se os visitantes não estivessem tão alertas. Há um turbilhão de informações ao seu redor, dezenas de pessoas falando e gritando, rindo ou gargalhando, indo e vindo. Ainda assim, Miro e Beatrice conseguem perceber o homem que põe seu punhal em riste face outro homem mal encarado, também percebem a forma desastrada com que um atendente derruba uma caneca de lata no chão. Suas cabeças giravam tanto, tentando gravar cada informação relevante sobre este local que um único evento importante passou desapercebido.

Uma sombra se projeta sobre os ombros de Beatrice. Ela sente a presença do estranho, e percebe que ele, que trazia a mão direita sob a capa na altura do peito, subitamente tira a mão daquela posição. O coração de Beatrice dispara por alguns segundos. Seu colega arregala os olhos, esfregando as pontas dos dedos nervosamente, tentando prever o que acontecerá na próxima fração de segundos.

Tarde demais.

O homem estranho já tirou as mãos de debaixo da capa e seu movimento brusco continua.
Na próxima fração de segundos Miro lembra-se de um feitiço que poderia ser útil se...
Tarde demais. Não há tempo para reagir. O homem põe a mão sobre a cabeça, reclina-se para frente, balança graciosamente a mão esquerda num cumprimento cordial, enquanto a temida mão direita só faz tirar o chapéu da cabeça, levando-o até a espalda.
Beatrice solta a respiração. Miro pode sentir sua têmpora latejante e os braços relaxam, e a língua que, afiada, preparava um feitiço, se desenrola em sua boca.

“Boa noite senhorita!”

As palavras daquele homem certamente não são ameaçadoras. Mas que paranóia ridícula, Miro pensa. Beatrice apenas lhe dirige o olhar, agora confiante de que está tudo bem.

“Senhor.” A figura olha para Miro sorridente.

“Vocês devem ser Beatrice e Miro. Estou correto?”

Obviamente a resposta foi positiva.

“Éwlyn disse que vocês viriam. Me chamo Arthurius, será um prazer recebê-los na majestosa Dyvers e prazer ainda maior será acompanhá-los nos Bosques de Gnarley até a casa de Burrbarr. Mas antes devo apresentar vocês à Gerdrant. Ele não se encontra aqui no momento, mas vou levá-los até aquele pobre homem.”

Um breve diálogo, e Miro deseja ver respostas para fatos tão intrigantes: "como ele pôde imaginar que 'nós' somos Miro e Beatrice"?

O homem chamado Arthurius os guia através da noite escura pelas ruas da Vila de Dyvers. Através deste passeio os magos conseguem contemplar desde os becos escuros e perigosos da cidade até as grandes avenidas que a entrecortam. O chão lamacento contém profundos sulcos formados pelas águas das chuvas, que escoam livremente até o bueiro mais próximo, de onde exala sempre um odor pútrido como poucas vezes Beatrice e Miro sentiram. As casas apinhadas umas sobre as outras, geminadas e que se projetam em direção às ruas causando uma sensação sufocante para uns e aconchegante para outros. Esta na verdade é uma verdadeira metrópole, repleta dos problemas das grandes cidades.

No caminho passam por uma grande praça, uma grande área pavimentada com paralelepípedos, aberta, sem nenhuma construção, exceto por aquelas que a cercam. No centro uma fonte e um monumento de mármore branco, que marca a fundação da cidade relembra os memoráveis tempos de realeza da cidade.

Diante dos seus olhares curiosos, Arthurius somente diz:

“São marcas deixadas de um tempo em que Dyvers era a capital de Furyondy. Não se espantem se virem o nome do Rei ou de Viscondes e Duques nas ruas e lojas mais antigas.”

Dyvers, definitivamente transpira a história do leste de Flanaess.

Os pensamentos se perdem por breves momentos, mas logo os personagens percebem que estão enveredando por caminhos cada vez mais sinuosos. Novamente a transpiração e o palpitar surgem. Seus corpos estão rijos, prontos para reagir a qualquer ameaça iminente.

O caminho leva a umas pequenas escadas em becos apertados. Arthurius empurra dois portões de ferro que bloqueiam a passagem pelo beco.

Os pés grudam no chão graças à lama. O cheiro de bosta humana está impestiando o ar.

“Estamos quase chegando!”

Logo Beatrice e Miro percebem que estão caminhando por uma viela baixa da cidade que conduz até a beira de um pequeno e estreito canal, onde desembocam os esgotos da cidade.

O pequeno riacho só pode ser definido como uma coisa: PODRE. Em seu leito é possível observar animais mortos, dejetos sólidos e toda sorte de imundície.

Já está muito escuro e Arthurius acende uma tocha. Os personagens estão se espremendo entre as paredes das casas altas e o riacho, numa calçada de pouco mais de um metro apenas. Adiante conseguem observar uma ponte, em forma de arco, que cruza o riacho. A ponte está à cerca de 3,5m de altura em relação à calçada. Ela fornece passagem por sobre o canal para aqueles que seguem pelas ruas da cidade. Embaixo da ponte é muito escuro, mas pode-se ver um foco de luz tênue e solitário.

Conforme se aproximam conseguem ver que há muitas pessoas abrigadas debaixo da ponte. Muitas mesmo! Ao chegarem perto percebem que o cheiro de merda se alastra ainda mais. Aquelas pessoas são a escória da humanidade. Homens, mulheres e crianças leprosas, com seus corpos cobertos de chagas e cancros abertos que exalam o odor dos mortos. Esses seriam seres humanos ou verdadeiros mortos-vivos?

Mas dentre todos aqueles, um homem se destaca. Há um sujeito aparentemente sadio, vestido em roupas simples, guarnecido por apenas uma capa de chuva, que, segurando um castiçal simples e apoiado sobre um dos joelhos, beija aos leprosos, dá-lhes alimento e conforto. Ele toca nas feridas profundas de um homem velho, e elas se fecham como em um milagre.

“ Que a espada de Mayaheine possa abrir o véu de trevas que cobre os vossos olhos e que a luz cintilante de Pelor possa iluminar o vosso caminho, meus irmãos.”

O homem se põe de pé e vira-se para Arthurius, Miro e Beatrice.

Ele não é um homem na verdade. É apenas um garoto, um jovem de no máximo 20 anos de vida. Mas há uma confiança em seu olhar e há bondade.

“Prezados, deixe que eu lhes apresente Gerdrant!” - Diz Arthurius.

“Luz, senhores (ele diz em tom de saudação)! É um prazer conhecê-los. Vocês é que são os enviados de Éwlyn?”

Claro que sim.

“Então ponho meus serviços à vossa disposição. Tenho uma dívida de gratidão com Éwlyn, e é chegada a hora de pagar-lhe, portanto, contem com a minha presteza.”

Assim, o grupo se organiza e parte naquela mesma noite rumo aos Bosques de Gnarley, tentando primeiro encontrar um homem a quem Arthurius fez referência: Camaban, o druida.

Ele servirá de guia nas matas fechadas do bosque, repletas de inimigos à espreita.

O primeiro ato começa agora!

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