Diário de Viagem - Arthurius de Fochlucan [Uma Estranha Colheita, parte 2]

(...)

Após verificar a situação na mureta, avançamos em direção à um solitário toco de árvore que se situava um pouco além dos limites da vinícola. Logo após os primeiros passos, pude perceber a presença de um goblin espreitando-nos por detrás de uma moita, imerso nas sombras da borda da floresta. Tentei não demonstrar que o havia visto, mas acredito que não fui bem sucedido, pois a criatura tentou correr para dentro das matas assim que iniciamos nossa aproximação. Consegui atingir uma de suas pernas com um de meus virotes, mas a criatura continuou sua fuga, até ser pego por Lianon.

Assim que nos aproximamos da criaturinha presa e claramente amedrontada, esperando – bom, ao menos eu estava – que ela ao menos compreendesse nossa linguagem para tentarmos fazer algumas perguntas, o goblin se pôs a implorar: “Por favor! Não matem o pobre gebli! Ele não deseja fazer mal as vossas mercês.”

Foi Gerdrant que deu voz ao primeiro e mais óbvio de nossos questionamentos. “Diga-nos o que está fazendo aqui.”

“Eu estava observando apenas. Não queria fazer mal.”, respondeu o pequeno.

“Observando o que?”, perguntou Camaban.

O goblin entregou algo como “Observar vocês forasteiros.” como resposta.

Camaban então prosseguiu. “O que você sabe sobre os sons e ilusões que estão acontecendo na fazenda?”

“Eu só sei que os ‘eurozess’ roubaram nosso totem, o totem dos gebli!” se defendeu a criaturinha mais uma vez.

Dessa vez foi Miro que lançou a pergunta. “O que esta região tem haver com isso?”

“Os eurozess não precisam do totem.” Explicou o goblin, de forma bastante indireta. “Eles não gostam dos gebli. Maglubiyet protege os gebli, e sem ela os ‘eurozess’ podem ganhar dos gebli, porque eles tem a ajuda de Gruumsh! Bogahrul entrou em nossa casa e roubou nosso totem!”

Se meus estudos não me falham, Gruumsh e Maglubiyet são divindades patronas dos orcs e goblins respectivamente. Apesar de se tratar de um goblinóide, nosso pequeno prisioneiro parecia verdadeiramente inofensivo e razoavelmente honesto. Confesso que não pude deixar de sentir alguma simpatia pela coisinha. Uma curiosa particularidade em seu discurso foram os usos recorrentes das palavras Flan para goblins e orcs, ainda que a segunda tenha sido erroneamente pluralizada...

“Por quê buscar esse totem por aqui?”, prosseguiu Camaban.

“Porque o euroz fugiu pra cá, para as plantações!” afirmou o goblin, sem conseguir esconder o desgosto que sentia pelo ladrão.

“Esses euroz vivem por aqui?” insistiu Camaban.

E o goblin – ainda maltratando a língua de meu povo... – prosseguiu. “Não, os ‘eurozess’ daqui nunca nos incomodaram. Esses são novos ‘eurozess’, ‘eurozess’ diferentes.”

“Como é esse totem de vocês?”, finalmente perguntei, já suspeitando saber a resposta.

“Ele tem a cabeça de Maglubiyet.” respondeu simplesmente a criatura.

Essa última afirmação confirmou nossas suspeitas de que ele estava de fato buscando o pingente de caveira. O goblin ainda disse que esse “totem” foi perdido há algum tempo, no “período das migrações dos pássaros” – Flocktime – há cerca de 2 meses atrás. Em fim concordamos em devolver o amuleto para a criatura em troca de algumas outras informações sobre os acontecimentos da vinícola:
· Ele disse não saber o que está acontecendo de estranho na vinícola;
· Os goblins da região aparentemente não se utilizam de magia;
· Ele acreditava que os orcs também não usem muita feitiçaria, mas Bogahrul foi excessivamente “sombrio” em suas investidas;
· Ele não sabia dizer onde poderia estar Bogahrul ou sua tribo de orcs.

Com as informações colhidas, o totem devolvido e o goblin correndo alegremente para dentro das matas em direção à um pequeno monte, pudemos então pensar nosso próximo passo.

Nesse momento, o grupo se viu dividido. Senhorita Beatrice acreditava que nossos problemas haviam terminado, pois a própria presença dos goblins com suas tochas e guinchos poderia ter causado a impressão de que a fazenda estava sendo assombrada à noite. Senhor Miro e eu discordávamos, acreditando que isso tudo não explicava alguns acontecimentos, incluindo as risadas maléficas sobre as quais Burrbarr nos contou. Por fim, concordamos em continuar investigando pelo menos por essa noite.

Quando estávamos voltando para a fazenda, Lianon subitamente começou a latir para um ponto no meio da floresta e partiu em disparada em direção a alguma coisa. Camaban o seguiu, comigo logo atrás e o resto de nossos amigos a seguir. Após alguns muitos metros de corrida, ouvimos o crepitar de chamas, e logo observamos a cor ígnea que anunciava a presença de um incêndio banhando as neblinas que se formavam em torno da vinícola. O galinheiro atual da fazenda estava em chamas, e os funcionários tentavam freneticamente evitar que o incêndio chegasse até o casarão principal.

Ao chegarmos até o local, Camaban perguntou ao senhor Burrbarr como o incêndio havia começado. Ele nos disse que as risadas maléficas foram ouvidas mais uma vez, e o galinheiro começou a queimar rapidamente, sendo completamente tomado pelas chamas em poucos momentos. Ao que parece, até ele próprio está começando a ceder às crendices locais, perguntando-se se Feoca tem algo haver com isso, se seu espírito está realmente irritado com alguma coisa.

Nos espalhamos pelo local para tentar ajudar da melhor forma possível. Achei que o suposto culpado poderia estar por perto, então rondei a fazenda em busca de algum vestígio ou intruso, mas sem sucesso. Poucos minutos depois ouvi a voz de Camaban nos chamando. Ele encontrou rastros que partiam do galinheiro para dentro da floresta, e logo começamos a segui-los.

A trilha do suposto incendiário terminou numa grandiosa bronzewood. Paramos alguns momentos para observar nossos arredores e Gerdrant avistou algo no meio da mata, investindo com ferocidade. Logo todos passaram a perseguir o que acreditávamos ser uma espécie de primata super-crescido de pelagem branca. Após ser atingido por um de meus virotes, Lianon conseguiu pegá-lo. Ao nos aproximarmos, pudemos ver que na realidade a criatura era um ser humano bem esguio e esquisito, trajando trapos que nem mesmo um mendigo invejaria. O mais estranho é que esse sujeito estava descalço, enquanto que a trilha perseguida por Camaban foi deixada por uma pessoa de botas.

O sujeito se identificou como Dina. Ele disse morar por aqui, e disse também ter fugido de nós por medo. De fato ele parecia bem assustado e arredio, mais até que nosso amigo goblin de uma hora antes. Repetia incessantemente que não sabia de nada e que não havia visto nada, sendo que não tínhamos sequer tido a chance de dizer que “algo” de fato chegou a acontecer. Fizemos um pouco mais de pressão, até que a senhorita Beatrice farejou – literalmente – algo nas mãos de nosso estranho visitante, algo que ela acreditava ser óleo de baleia.

Completamente acuado, Dina disse receber ordens de um tal de Jondisius, e que ele não teve escolha, já que esse sujeito é muito poderoso. Acho que já ouvi esse nome antes na estalagem do cão vagabundo. Se não me falha a memória, ele é um feiticeiro de Greyhawk que foi a Dyvers procurar trabalho. Sujeito misterioso, do tipo em que não é seguro se confiar. Beatrice e Miro também o conheceram há algum atrás tempo na Universidade Cinzenta, mas ele sumiu do grande colégio há muitos meses.

Ao que parece, Jondisius mandou que Dina e um tal de Bogahrul – o mesmo que surrupiou o totem dos goblins e que, segundo Dina, é na realidade um mestiço – botassem fogo no galinheiro de Burrbarr. Nosso amigo de pernas bambas pareceu bastante preocupado em enfatizar que foi Bogahrul que realizou o ato em si. Ao final de todo esse diálogo, Gerdrant mostrou piedade para com esse homem estranho e entregou-lhe uma algibeira, ordenando que Dina saísse dali e buscasse uma vida nova e digna em outro lugar. Antes que ele se retirasse, perguntamos ainda onde estaria Jondisius. Ele disse que o próprio arcano havia deixado instruções na fazenda em um pedaço de casca de árvore. Ignoramos durante um momento essa resposta evasiva – ainda que ela trouxesse por si só uma informação relevante – e tornamos a perguntar onde poderíamos encontrar Jondisius e Bogahrul. Dina, muito relutante, por fim apontou uma direção para o sul da floresta, e mencionou uma certa torre vazia.

Retornamos até a bronzewood para tentar encontrar o rastro de Bogahrul. Assim que voltamos para perto da árvore, o senhor Miro revelou ter sentido uma vibração vindo dela da primeira vez que passamos por aí. Camaban disse acreditar se tratar apenas de uma impressão, e por fim conseguiu encontrar diversas trilhas antigas partindo da árvore, mas nenhuma referente ao rastro que nos levou até o local. Ao que parece, nosso criminoso havia desaparecido no meio da relva.

Retornamos finalmente até a fazenda em busca da tal casca de árvore. Ao contarmos ao senhor Burrbarr tudo que aconteceu, ele se exaltou com Gerdrant por ter deixado Dina sair livre, mas o senhor Miro o apaziguou cobrindo as despesas do galinheiro e das 5 galinhas mortas. O senhor das terras nos entregou então a tal casca de árvore, que havia sido atirada para dentro de uma das janelas da casa. Lá estava escrito o seguinte:

“Sejais prudentes! Entregai o amuleto de Maglubiyet e sereis poupados da fúria dos servos de Gruumsh. Fazei-o para o bem de seu povo, para tanto deixai o amuleto sobre o pé do grande bronzewood até a próxima meia-noite.”

Senhor Miro deu a idéia de prepararmos uma emboscada para esse sujeito. Combinamos alguns detalhes dessa operação e em seguida fomos dormir, pretendendo retomar nossos planejamentos quando estivéssemos mais descansados. Afinal de contas, como a própria quantidade de páginas desse diário dedicadas ao sétimo de reaping pode atestar, foi um dia muito cheio.

8 de Reaping, 594

Pela manhã, continuamos nosso planejamento. A partir dos restos de uma pequena lebre, criamos uma réplica do amuleto, colocando-a dentro de um pequeno saco. Deixamos também uma corda presa em uma das raízes da bronzewood e a espada de Gerdrant recoberta por folhas próximas à grande árvore. Nosso guerreiro de Pelor se propôs a fazer a entrega. Esperamos então a noite chegar em tocaia próximos à árvore.

Durante horas, tudo que podemos averiguar foram os minguantes raios de sol refletindo o tom avermelhado daquela árvore tão majestosa e nosso sentinela marchando despretensioso em volta da mesma, aguardando pacientemente o confronto por vir. Já durante as horas da noite, uma figura “brutamontesca”, provavelmente pertencente à Bogahrul, se aproximou pra “negociar” com Gerdrant. Eles trocaram algumas palavras – tudo muito difícil de ouvir a distância – mas Bogahrul, acabou por partir para cima de nosso companheiro. Com algumas magias – incluindo a corda encantada e estrategicamente posicionada – e virotes, Bogahrul foi rapidamente derrotado, sendo por fim levado ao sono pelo senhor Miro.

(...)

Notas importantes

1. Os discursos tratados aqui não são reproduções perfeitas dos diálogos travados, já que não possuo a memória – apesar dessa atender todas minhas necessidades – equivalente a de um Aboleth.
2. Monstros, ao contrário do que esses manuscritos possam sugerir, geralmente não possuem fluência ou acuidade verbal com as línguas de seres intelectualmente mais desenvolvidos. Porém, eu me recuso a escrever qualquer coisa que se assemelhe a “Mim só saber que ‘eurozess’ roubar nosso ‘tutem’” em minhas narrativas.

Comentários

  1. Talvez o Camaban até pudesse revelar pro Arthurius o que pode ter sido aquela vibração, mas, sabendo que essa informação iria acabar entrando no seu diário, ele preferiu ficar quieto...

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  2. Tem problema não, nível que vem ele misteriosamente descobre hehehe

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  3. Ahuahauhauhaua... druidic stuff

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  4. pufff...mó patota esse lance ai de virar druida no meio do caminho hehe ><
    a uns 4 ou 5 anos atraz o mario nunca permitiria. =P

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  5. infelizmente não pude estar "presente" para mais uma frase de efeito.

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  6. Seu próximo nível vai ser de druida, né?

    É verdade, Cacá, tente organizar seu horário para participar da próxima... A frase de efeito fez falta, rsrs...

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  7. ... a cinco anos atrás eu era um cara mais chato que hoje... por isso... numa escala de 0 à 10, hoje sou um 7,5 ou 8. Na época devia ser um 9 ou 10.

    Live and let live!

    E vê se aparece pra jogar PORRA!!! A gente fica q nem filho da puta testando video conferência pra que?

    ahahahahha

    Abraços

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