10º Ato - O Legado de Sangue

Os personagens continuaram sua aventura rumo aos picos de Legasa, nas montanhas de Elanon. A esta altura o grupo já se encontrava no interiro dos bosques de Lendel, seguindo pela margem norte do rio Brolador.

Todos estavam muito cansados, esvaziados de suas forças pelo combate com a perversa criatura que haviam sido obrigados a enfrentar.

Cerca de dois dias depois, quando já era noite, os personagens avistaram, apesar da pouca visibilidade, a imagem de dois homens (ou humanóides) parados em um ponto distante na mata, naquela mesma margem do rio.

"Esperem!" Disse Beren. "Vejo que há duas pessoas ali, mais adiante"

"Ahn? Não vejo nada..." Rhalevahn crispa os olhos e mira atentamente na direção apontada por Beren. "Ah! Sim, posso vê-los. O que farão numa hora dessas em um local tão inóspito?"

Podia-se ver a silhueta de duas pessoas. Uma estava de pé, provavelmente vestindo mantos longos, e portava uma arma dupla. A outra estava ajoelhada de forma obsequisosa diante da primeira figura. Àquela distância não se podia ver muito.

"Uhm... de fato, posso ver o que citou, Beren. Mas aquelas figuras parecem ser gigantescas! Pois, se apesar de toda a distâcia entre eles e nós podemos vê-los com tanta nitidez, julgo que são maiores do que um ser humano normal!" Disse Harric.

Institintivamente, Beren se aproximou, utilizando árvores para se ocultar e tomando máximo cuidado para não fazer qualquer ruído que chamasse a atenção daquelas duas pessoas. Ao se aproximar, fez um sinal com as mãos para que os demais viessem também, pois percebeu algo muito peculiar sobre tais figuras.

"Fiquem tranqüilos. Ees não oferecem ameaça alguma, são estátuas e não pessoas de verdade!"

"Estátuas?! Como você pode ter tanta certeza, hein, Faísca?" Perguntou Astaror.

"Astaror, você por acaso não percebeu que Beren tem sangue élfico?" Interrompeu Harric. "Dizem que os elfos podem ver no escuro muito melhor que os humanos".

"Ahmmm... pessoal, vamos nos focar.. Beren, você disse que são estátuas? Tem certeza?" Perguntou Rhalevahn

"Sim, estou certo disso. São duas estátuas gigantes!"

Beren não estava equivocado. Eram duas estátuas bem grandes, que representavam pessoas com cerca de 3 metros e meio de altura.

O grupo então se aproximou sem medo. Peceberam logo que aquele local se assemelhava muito a um templo antigo e abandonado; as estátuas estavam bem no meio deste local, uma área quadrada com cerca de 200 metros quadrados cercado por pilastras antigas e arruinadas. Obviamente o mato já havia tomado tudo...

Como dito, eram duas estátuas, uma representando uma pessoa de pé e a outra mostrando uma pessoa ajoelhada diante da primeira. Quando os personagens se aproximaram, viram que a pessoa de pé era um elfo altivo, que portava na mão direita uma espada dupla e na esquerda um livro e a pessoa ajoelhada era um homem igualmente altivo, trajado com roupas nobres, cujo fisionomia em muito lembra um rei brandobiano.

"Pessoal, vejam só o que está escrito neste livro!" Disse Rhalevahn, referindo-se ao título que estava esculpido na pedra: "e'Bilosu Doril".

"Alguém já ouviu falar nisto?" Perguntou ele.

Ninguém soube responder. O texto estava escrito em alfabeto brandobiano arcaico, mas aquelas palavras não apresentavam nenhum significado conhecido.

Em algum momento durante a investigação, quando os personagens já pensavam em passar a noite naquele local, após ouvirem um som misterioso de uma arpa, surgiu uma figura exótica se aproximando do local. Tratava-se de um elfo, cuja pele alva brilhava na noite escura, quase ofuscando os delicados mantos acinzentados.

"Deixem meu território, abandonem-no agora e terei misericórdia de voz!"

Apesar da aparência graciosa, o elfo inspirava muita suspeição e falava em tom agressivo. Todos ficaram perplexos, pois não viram de onde tal figura havia surgido.

Rhalevahn, contudo, percebeu que o elfo, apesar de não calçar nenhum tipo de bota ou sapato, e mesmo em um local tão distante de qualquer tipo de civilização, estava completamente limpo. Diante disto, começou a desconfiar da verdadeira natureza do mesmo.

"O que diabos é isso?" Indagou-se Harric.

O elfo foi se aproximando de Rhalevahn, de forma ameaçadora. Beren começou a ficar bastante nervoso com aquela situação.

Percebendo o nervosismo de Beren, Harric irrompeu: "Beren, o que você tem? Está sentido alguma coisa? É algum tipo de truque? Você sabe ver isso? Beren!!!"

O meio-elfo estava atônito. Foi preciso que Harric lhe chamasse a si por meio de uma certa brutalidade de gestos e palavras. Astaror já estava pronto para desferir um ataque no adversário, que à esta altura, estava perigosamente próximo de Rhalevahn.

Saindo do "transe", Beren diz em voz alta: "Rhalevahn, não se mexa! Deixe-o se aproximar!"

Com muito custo, e protegendo-se atrás de seu escudo, Rhalevahn acatou a ordem de Beren e permitiu a aproximação do elfo. Quando este finalmente o encostou, seu corpo tornou-se translúcido e desapareceu como pó, lentamente diante dos olhos incrédulos dos personagens!

Logo, ouviu-se novamente o som daquela arpa misteriosa.

"É algum tipo de feitiço! Deve haver algum maldito bruxo por aqui!" Harric gritava.

Os personagens circulavam pelo local, sem afastarem-se muito uns dos outros. Harric viu uma figura sobre o galho de uma árvore próxima do templo e, sem exitar, disparou uma flecha. Com tal ataque, o personagem apenas conseguiu assustar a figura que espreitava escondida, mas não a acertou.

"Deixem minhas terras pacíficamente. Eu não 'querer' machucar vocês!" Uma voz rouca e gutural, porém imponente se ergueu no bosque.

"Cade você? Onde está? Apareça!" Gritou Astaror

Logo, uma pessoa estranha salta aos olhos dos personagens. Tratava-se de uma criatura medate bode, metade humana. Suas pernas eram como as do animal citado, bem como possuía chifres daquela mesma natureza. Contudo, seu torso, braços e rosto eram verdadeiramente assemelhados aos de um humano.

"Esperem, não façam nada ainda!" Disse Rhalevahn.

A criatura possuia movimentos imprevisíveis e trejeitos próprios, mas nem por isso deixava de revelar certa graciosidade. Sua aparência, ao invés de asco, causava certo conforto aos olhos e sua voz, embora gutural, inspirava sabedoria.

"Como disse, eu não 'querer' fazer mal, apenas exigir que vocês deixem este local sagrado!"

Os personagens se entreolhavam perplexos, sem saber exatamente como reagir. A criatura, como dito, possuia características monstruosas, mas, contrariamente ao que isto poderia suscitar nos corações dos personagens, ela emanava altivez. Rhalevahn tomou a frente e disse:

"Deixaremos o local, já que tu o pediste. Perdoe nossa invasão, estamos em uma demanda muito longa e julgamos que este local seria apropriado para descansar."

"Vós não 'precisar' lamentar nada. Pois nada ocorre ao acaso. 'Devedes' deixar este solo sagrado em busca do que buscai" A criatura gesticulava muito com as mãos.

"Rumai para onde?"

"Estamos indo para as montanhas de Elanon, não queremos nada nestes bosques!" Disse Harric.

"Oh! Estais indo para mui, mui distante de aqui! Que quereis por lá?!"

"Buscamos uma planta, uma orquídea mais precisamente, para ajudar um amigo que está muito doente, pois foi afetado pela praga negra..." Rhalevahn dizia.

"Este pobre servo da natureza lamenta pelo destino inglório de vosso amigo! Mas dizei: como pretendeis encontrar tal planta nas montanhas de Elanon?"

"Sabemos que a planta não é nativa desta região, mas nos foi dito que poderíamos, com um pouco de sorte, encontrar alguns exemplares que lá florescem." Respondeu Harric.

"Sim, sim. E acaso vocês esqueceram que estamos entrando no inverno? Ora, no inverno toda a montanha fica coberta de gelo, nenhuma planta sobrevive."

"Aprecio a informação, mas foi de pouca ajuda, temos que arriscar mesmo assim. A vida de Ithan depende disso!" Completou Harric meio irritado.

"Calma Harric! Diga-me, qual o seu nome?" Rhalevahn perguntou.

"Apalgas é como me chamam."

"Uhm, bem, Apalgas, você vive aqui faz muito tempo, eu suponho, conhece alguma outra maneira de salvar nosso amigo, pois se o que disse sobre a montanha for verdade, ele irá morrer!" Continuou Rhalevahn.

"Eu 'viver' aqui faz muito tempo, mais do que um elfo qualquer. Também, 'conhecer' muitas coisas, e 'poder' dizer que certamente seu amigo não precisa morrer, pois há muitas curas. Contudo, a vocês não é dado saber!"

"Ahm?! Como assim? Não pode nos contar?! Você precisa nos ajudar! Deve haver algo que possamos fazer para recompensá-lo"

Beren, pela primeira vez, se insurge nesta conversa.

"Ahhh... sim, de fato há. Talvez vossas mercês 'podeis' fazer um pequeno favor para Apalgas e talvez Apalgas queria ajudar-lhes com o amigo doente. Que dizeis?"

"Diga, o que devemos fazer?" Rhalevahn demonstrava ansiedade na voz. Harric, neste momento, demonstoru um certo desconforto.

"Eu 'perder' um bem muito precioso que 'precisar' de volta. 'Precisar' que vocês tragam de volta minha mandrágora."

"Sua o que? Que que é isso?!" Harric retrucou.

"Mandrágora é seu nome. Uma raiz muito preciosa para mim, mas que me foi roubada!"

"Quando ela foi roubada?" Harric continuava perguntando.

"Detalhes eu ainda não 'poder' dar, mas 'mostrar' tudo para vocês se quiserem ajudar!"

Os personagens acenaram positivamente após uma breve discussão. Harric mostrou-se relutante no começo e Astaror parecia indiferente a tudo o que acontecia. A decisão acabou ficando nas mãos de Rhalevahn e Beren, que acabaram decidindo pela proposta feita pela estranha criatura.

"Eu estar muito satisfeito com vossa escolha. Agora poder mostrar o coração da floresta, onde estão escondidos os segredos."

"Isso fica muito longe daqui? Temos pressa. Você não pode contar o segredo agora?" Harric demonstrava muita impaciência com a conversa da criatura.

"Vós não deveis se preocupar. Eu 'levar' vocês em pouco tempo, pois o coração da floresta fica perto daqui."

Assim, os personagens seguiram com a criatura. A caminhada pela mata durou cerca de duas, e varou parte da noite. Os personagens já estavam deveras cansados, pois não haviam tirado tempo algum para relaxar.

Quando chegaram ao chamado coração da floresta, logo todos perceberam porque esta região tem tal nome. As árvores aqui são verdadeiramente gigantescas, algumas atingindo até 150 metros de altura e outras quase 50 metros de largura.

O "lar" da criatura ficava nos ramos de uma destas árvores gigantes. Apalgas utilizou um pequeno feitiço e logo uma verdadeia escada se formou ao redor do caule da árvore, composta basicamente de plantas menores e demais vegetação. Assim, todos puderam subir até o abrigo e lá Apalgas mostrou aos personagens, através de um espelho d'agua, imagens turvas dos homens que teria levado sua mandrágora. Eram três ao todo, e aparentavam ser soldados de Eldor que haviam se perdido de seu destacamento. Contudo, pelo que as imagens demonstraram, apenas um deles saiu de dentro da floresta, rumo a uma cidade próxima, dotada de duas torres altas bastante distintas.

Deste modo, os personagens, colhendo algumas outras pequenas informações junto à Apalgas, retornaram ao templo das estátuas e lá finalmente descansaram. No dia seguinte seguiram viagem até as bordas do bosque, se deparando novamente com a cidade de Unvolen e suas duas torres muito peculiares...

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