5° Ato - O Legado de Sangue (atenção: há conteúdo violento e inapropriado para menores de idade e pessoas sensíveis a imagens de forte impacto)


Harric e Beren conseguiram entrada para as catacumbas sob as Cortes da Iniqüidade. As paredes duras e frias destas catacumbas parecem vivas, pulsante com o sangue derramado pelas muitas vidas brutalmente extirpadas ali. Manchas escuras permeiam todas as paredes, gritos ecoam pelos estreitos corredores e um cheiro profundo de podridão permeiam estas catacumbas.
Todo o subterrâneo das Cortes da Iniqüidade está dedicado à Enard e sua crença profana. Parte do local consiste em uma série de câmaras de torturas e inquisição, outra parte consiste em salões e acomodações destinadas ao repouso e estudo dos sacerdotes. O local não é muito vasto.
Harric e Beren conseguem passear pelo local sem serem muito incomodados, pois não há muitos sacerdotes presentes no local e, portanto, eles não correram muitos riscos de serem vistos. Harric, escondido atrás de uma porta, observa pelo buraco de uma fechadura:


“Como eu disse milorde, há ratos em seu calabouço. Imagines o que dirão de ti ao saberem que tu surpreendestes estes batráquios. Quão grandes não serão tuas glórias por evitares pessoalmente que estes galgassem os profanos das Cortes da Iniqüidade?”


Aquela voz gutural, e inumanamente rouca preenche o ar, enchendo-se de grande peso, tornando-se espesso, difícil de respirar. Um homem estranho, vestindo um assustador manto negro anda circularmente ao redor de um homem de mantos verdes, o qual parece intimidado. A pessoa sob os mantos negros ergue o braço direito, mas não é possível ver sua mão ou qualquer outra parte de seu corpo em razão das sombras que o rodeiam.


O homem nos mantos verdes assente positivamente com a cabeça.


“Pois agora confias em mim? Não demorarás muito e terás a menina em tuas mãos, e podrás oferecer-la em praça pública para que todos vejam. Por hora, confio a ti meus préstimos, oferecendo como sinal de boa vontade estes pobres infelizes.”


Cada novo som produzido pela vocalização deste indivíduo faz arrepiar cada fio de cabelo no corpo de Harric. O homem de negro lentamente vai virando-se de costas, permitindo, com este movimento, que se veja parte de seu rosto (apenas de perfil). Ele possui uma face pálida ao extremo, chegando a ser levemente roxa, como que com o rubor dos finos vasos sanguíneos que lhe irrigam o rosto. Seus olhos são grandes e austeros, e revelam um globo amarelado com uma íris vermelha. Sua boca larga com lábios finos e roxos revelam grande frieza e escondem dentes finos e pontiagudos.


Ele percebe que seu rosto ficou por breves instantes à mostra. De fato, ele parece ter permitido isto de propósito, pois olha, mesmo atrás da porta, nos olhos de Harric de forma tão profunda que parece que se passaram horas. Harric sabe que é impossível que ele o tenha visto por detrás da porte, mas sente-se como se sua mente tivesse sido sugada e estivesse, conseqüentemente, cansada. Após este breve sentimento, logo sobrevém uma sensação absurda de tristeza e desilusão. Todas as suas memórias parecem ter sido lidas, sua privacidade foi invadida e seus segredos mais íntimos relevados. Harric cai no chão indefesos, incapaze de reagir à tão brutal força que o compele a desistir de tudo.


É possível ouvir uma risada maléfica ao fundo quando Beren consegue trazer o colega à si. O homem de mantos negros deixa o ambiente, bem como o homem na túnica verde.


Os dois personagens retomaram a caminhada e descobriram uma vasta galeria de túneis que, pelo que viram, os levaria até uma passagem secreta para o lado exterior da cidade.
No retorno da exploração destes túneis, ambos localizaram as famigeradas câmaras de tortura dos Gananciosos. O local é terrível. Tão logo entram no ambiente, ambos logo identificam a fonte dos gemidos e murmúrios lamuriosos que ouviam durante todo o tempo: há pelo menos cinco pessoas passando pelas mais degradantes formas de tortura neste local.


Beren ficou completamente fragilizado com as circunstâncias em que se encontravam aquelas pessoas. Ele foi criado junto aos elfos de Lendelwood, portanto, tal forma grotesca de tratamento a um ser vivo jamais lhe passou pela cabeça. O choque foi tanto que Beren mal conseguia se mover dentro do ambiente.


Harric, enquanto isso, avistou quem parecia ser o verdugo responsável por quela verdadeira tragédia. Tratava-se de um homem deformado, completamente corcunda, que naquele momento, após esquentar um instrumento de ferro em uma fornalha, o precionava contra um dos seios de uma mulher que ali estava algemada. Harric não se conteve e com um duro golpe pôs abaixo o maldito.


“Quasímodo imundo!!! mereces não outro fim que não a própria morte!!! Bastardo! Monstro! Não irás mais ferir pessoa alguma, verme imundo!!!"


Harric estava descontrolado, após nocautear o verdugo, atirou seu corpo inerte nas chamas da fornalha.


Diante de tal cena, Beren começou a prantear, desesperado por aquilo tudo.


Uma pobre mulher – identificada como Olita, a tia do bebê seqüestrado – estava amarrada nua, sentada sobre uma trave de madeira com pesos de pedra amarrados nos tornozelos. Aquilo fazia com que a trave rasgasse-lhe lentamente o corpo à partir da sua genitália. Além desta, um homem encontrava-se deitado sobre uma mesa, com parte de seu intestino sendo lentamente retirado por uma haste de ferro. Outra vítima era, mais uma vez, uma mulher. Esta encontrava-se pendurada na parede por algemas de ferro, e seus seios estavam dilacerados.




Aquelas demonstrações de vilania extrema abalaram Beren de tal forma que o meio-elfo entrou em uma espécie de estado de choque, chorava, pois, incontidamente sem poder reagir a nada. Quando viu Harric atirar o verdugo na fornalha, o que Beren viu foi, na verdade, mais uma atitude vilânica e cruel.


“Malditoooo!!! O que estás fazendo?! Não vês que assim se iguala a este monstro?! Quasímodo, pois, és tú, besta humana! São todos iguais! Malditos vermes humanos! Tenho vergonha de carregar em meu sangue parte desta raça perversa! Agora entendo a repulsa de meu povo!”


“Espere Beren! Não vês que este quasímodo não merece outro tratamento?”


Beren não suporta aquela situação, irrompe em pranto e deixa o local desesperado. Por sua sorte, não encontrou adversário algum em seu caminho até a saída do templo!


Harric ainda teve a frieza de aliviar a dor dos torturados. Visivelmente sem condições de alguma forma digna de sobrevivência após aquele ritual sádico de tortura, Harric tratou de acabar-lhes com a vida, pedindo perdão a todos antes de pôr-lhes fim à vida – especialmente à Olita.
Depois desta atitude, Harric foi atrás de Beren, encontrando-o apenas na estalagem.


A esta altura, Beren já havia encontrado Rhalevahn, que contava histórias sobre A Palavra para a pequena menina que havia sido violentada. O Svimohz passou a consolar Beren, pois estava bastante preocupado com o estado catatônico em que este se encontrava! Suas várias perguntas não foram respondidas por Beren. Só quando Harric chegou tudo foi esclarecido. Lentamente, com as palavras sábias de Rhalevahn, Beren foi se recuperando do choque.


À exemplo do que havia feito para com a pobre menina, Rhalevahn extravasava sabedoria e proferia palavras de consolo bem empregadas, restaurando, pouco à pouco, o bom ânimo de todos. Após quase uma hora de conversas e consolações, todos entenderam por bem pôr um fim à missão logo! Concordaram que ou localizavam os documentos naquele momento ou não teriam outra oportunidade em semanas.


“Estou certo de que os Gananciosos ainda não perceberam que estivemos por lá. Ou agimos agora ou não agimos mais, pois estou certo de que logo eles saberão que alguém invadiu as Cortes e é provável que comece uma verdadeira Caça às Bruxas nestas cidade!” Disse Harric.


Ithan havia chegado naquele instante. Disse, com breves palavras que esteve no Grande Carvalho, e, após se inteirar das últimas notícias, disse:


“Concordo com Harric. A coisa vai ficar feia aqui na cidade tão logo os Gananciosos percebam que seu reduto foi violado! Precisamos agir rapidamente!”


“Está certo então, e quanto à moça?” Perguntou Rhalevahn.


“Deixemos ela ir embora para casa oras!” Respondeu Harric.


A moça, à princípio, não quis se desvencilhar do grupo – deixando claro seu desgosto em ter que retornar para a casa dos pais. Mas quando avisada dos muitos perigos que correria e das conseqüências de ser vista com aquele grupo de pessoas, ela rapidamente desistiu da idéia de segui-los.


Tudo acertado, os personagens recolheram suas coisas e deixaram a estalagem rumo às Cortes da Iniqüidade pela última vez. Eles entraram novamente pelo telhado. Pois as portas estavam sendo vigiadas por sacerdotes, visivelmente agitados. O grupo fez seu caminho pelos corredores da catacumba até o terceiro piso no subsolo, onde se encontravam os aposentos dos sacerdotes.


Lá, embora seus esforços tenham sido grandiosos, foram finalmente avistados e grande agitação começou. Harric e o bravo Rhalevahn se encarregavam de segurar o maior número de sacerdotes que conseguiam, enquanto Beren e Ithan vasculhavam os cômodos atrás de livros e documentos.


A sorte do grupo foi que, pegos de surpresa, nenhum sacerdote estava preparado para um combate e já era tarde da noite, estavam, portanto, prontos para se recolherem ao repouso noturno. Somente quando já se preparavam para sair é que chegaram os primeiros sacerdotes e guardas prontos para o combate.


O que se seguiu foi uma emocionante batalha, com Harric opondo-se bravamente aos adversários e Rhalevahn entregando sua vida quase até o limite entre ela e a própria morte – tamanha a quantidade de sangue derramado!


“Beren, para os túneis! Vá rápido!” Gritou Harric.


Assim, com muito esforço, o grupo conseguiu fugir pelos túneis que levavam ao exterior da cidade. O caminho, contudo, não foi o mais acertado. Aquele complexo de túneis levava a muitos lugares e o traçado escolhido por Harric não levava ao exterior da cidade, mais sim aos jardins do castelo do barão!


Com a guarda das Cortes da Iniqüidade se aproximando, o grupo ficou atônito, pois estavam no quintal do homem mais poderoso da região e não seria possível explicar sua presença ali. Decidiram voltar e tomar outro túnel. Desta vez tiveram mais sorte, pois de fato este parecia levar para o exterior da cidade, porém sua sorte acabava aí.


O túnel estava bloqueado por barras de ferro e soldados se aproximavam. Não houve escolha! Harric se colocou entre os demais e os guardas, e foi os enfrentando até exaurir suas forças.
Ao fim, Rhalevahn e Beren conseguiram romper as grades, bem no momento em que Harric derrotava o último guarda. Seu estado era deplorável.


O grupo conseguiu fugir para a floresta de Brolador ainda naquela noite, mas foram forçados a parar para descansar tamanha a fadiga. O mais importante é que Beren e Ithan carregam em suas mochilas um valioso tesouro: diversos documentos e livros importantes das Cortes da Iniqüidade e, possivelmente, o documento de que Elassil precisa para desatar o nó que desvendará a identidade do traidor e, quem sabe, revelará o paradeiro do bebê filho de Aryvel!

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