1° Ato - O Legado

"O outono vai chegando lentamente às terras de Eldor. Os pastos outrora verdejantes nas cercanias da estrada agora acinzentam-se juntamente com o firmamento, as campinas que um mês atrás estariam esbanjando a vivacidade da natureza agora foram transformadas em um deserto de cores e formas. Construída em eras passadas, quando o império Brandobian florescia em Tellene, a estrada, que segue até onde a visão alcança, é pavimentada com lajotas de pedras hexagonais e guarnecida com canaletas laterais para o escoamento das águas pluviais. Ao norte dela, arbustos espinhosos margeiam um pequeno bosque ressacado pelo frio. Ao sul, entre as árvores distantes, as evidentes marcas no terreno denotam a passagem de um córrego. Folhas de um vermelho intenso ou amarelas flutuam graciosamente com a brisa leve, mas não são muitas, eis que a maior parte delas ainda não se desprendeu das copas das árvores.
A luz do dia vai se consumindo e, lentamente, Veshemo emerge no firmamento irradiando sua pálida luz amarela. Apenas horas mais tarde Pelselond e Diadolai ficam visíveis, diminuindo um pouco a escuridão. Mas a esta altura já não importa, pois seu corpo já se rendeu ao cansaço da viagem. Faz quase um dia desde que Harric deixou Nogven, e agora Premolen está apenas a poucas léguas de distância. Enfiado no interior de um saco de dormir velho, ele assiste ao crepitar da fogueira até que o sono o acomete e ele, então, adormece."


Mais tarde, naquela noite fria, um som profundamente pertubador, impossível de ser ignorado, desperta Harric do meio de um sonho. Sua mente acorda confusa, e aos poucos se recompõe. Gradualmente ele vai percebendo que aquilo que, por breves instantes, pensa ser a vocalização de algum animal, na verdade era o choro compulsivo de uma criança.


"Harric abre caminho através da relva até encontrar o local de onde emana o choro copioso. Ao transpor os últimos metros, afastando a vegetação com os braços, ele deixa de sentir seu coração por breves instantes, enquanto um frio profundo lhe sobe pela espinha e os joelhos flexionam levemente. Uma mulher, trajando vestimenta simples, típica de uma camponesa, com os cabelos recobertos por uma toca branca com laços, está, por uma fina corrente enferrujada que se lhe enrosca no pescoço, pendurada ao galho mais grosso de uma árvore de olmo. Manchada por sangue e fluídos corporais, a saia da jovem se estende até os pés, os quais, delicadamente calçados em sapatilhas de couro estão esticados para baixo, como numa tentativa jamais bem sucedida de alcançar o solo. Um rastro de sangue oriundo do interior de sua saia escorre por suas pernas até se revolver em seus pés e finalmente gotejar no chão lamacento, onde Harric, já com os olhos encharcados, reconhece o corpo de um recém nascido agonizante, utilizando suas últimas energias para tentar sobreviver."

A cena chocante paraliza-o por alguns momentos. Harric tenta desvencilhar a mulher das correntes que lhe prendem o pescoço, todavia percebe já ser tarde demais. Ao tomar o bebê nos braços, nota se tratar de, talvez, um bebê elfo - ou, mais provavelmente, meio-elfo. Mas neste momento, tomado de emoção, Harric sequer consegue se lembrar do desprezo que lhe foi ensinado a nutrir pelos povos faéricos. Embrulha a desafortunada criança no seu saco de dormir, único objeto ao alcance capaz de conter o imimente congelamento do bebê.

Após, pisoteia o que restava da fogueira que havia preparado antes de dormir, recolhe suas coisas e parte rapidamente em diração a Premolen. Pouco tempo depois de retomaar sua caminhada pela estrada, Harric avista um grupo de pessoas vindo pela estrada em sua direção, carregando tochas, garfos e ancinhos.

Desconhecendo aqueles que vinham pela estrada, Harric atirou-se ao matagal juntamente com o bebê (ainda envolto no saco de dormir, usado como manta). Quando o grupo passava enfrente ao local onde estava escondido, Harric ouviu quando os homens bradavam:

"Apressem-se! Temos que encontrá-la imediatamente! Não a deixem escapar!"

Harric percebeu que falavam da jovem encontrada morta naquele olmo, e silenciosamente repousou o bebê no chão. Sacando sua espada e saltando da relva:

"Digam-me, quem sois vós e o que querem com aquela pobre mulher?"

Ao saltar para a visão de todos, Harric notou que havia com eles três mulheres, sendo um delas muito idosa e as outras duas mais jovens (as quais choravam muito). O restante era composto por homens, cerca de 15 deles, que se entreolhavam quando Harric saltou do matagal. Um destes homens, aquele que parecia liderar as buscas, interpelou:

"Diga-me antes quem és tu, o que fazes aqui e o que sabes sobre a mulher que estamos procurando!"

Harric não se conteve:

"Me chamo Harric, de Nordolen! Rumo em direção a Unvolen para servir ao senhor daquelas terras na guerra contra os elfos dos bosques de Lendel. A mulher que estão procurando está morta, enforcada por uma corrente, numa árvore mais adiante!"

As duas jovens mulheres se alarmaram profundamente, um delas jogou-se ao chão desesperada e,entre um soluço e outro lamentava a morte da sua filha. A velha senhora não deixou de soltar um leve sorriso. O homem a quem Harric se dirigia, estava próximo da mulher em questão, e, por um breve momento, a confortou com um afago.

"Aqui está seu neto! Está vivo e saudável! Eu mesmo o tirei das entranhas de sua filha."

Harric remove o bebê do solo e caminha entre os homens, para entregá-lo à jovem, que em prantos tomou para si, agradecendo-o ternamente. Neste momento, dentre todos aqueles homens, um velho senhor, trajando mantos verdes e uma bata amarelada, surgiu dizendo.

"A menina encontrou o fim que merecia, mas tu fizestes um grande favor a todos nós, e, já que teu caminho se cruzou com o dessa criança, penso que posso lhe ser útil e fazer-lhe o favor de recomendar-lhe aos meus amigos em Unvolen, que de certo pagariam, então, grande soma de ouro para tê-lo em suas fileiras. Contudo, antes deves procurar-me, daqui a três dias, em Premolen, nos salões da Corte da Iniqüidade, para que possa lhe conceder uma pequena tarefa. Somente então dar-te-ei a carta de recomendação prometida."

A esta colocação Harric apenas assentiu com a cabeça, estando seguro de que a criança estaria segura nos braços cuidadosos de sua avó materna. Estranhava, contudo a forma como aqueles homens olhavam com desprezo para a mulher.

Premolen estava a poucas horas dali e logo chegaram. Harric acompanhou o grupo, sempre observando atentamente a jovem que carregava o bebê nos braços. Os portões da cidade estavam fechados, mas ao clamor do velho que trajava túnicas verdes, os mesmos se abriram rapidamente e todos puderam entrar.

Apinhada, em premolen as casas, coladas umas às outras, se projetam por sobre as ruas estreiras de terra. Durante o dia, além dos pedestres, carroças, porcos, galinhas e outros animais disputam espaço nas ruas repletas de todos os tipos de dejetos e detritos que são atirados diretamente sobre ela pelos habitantes do local para serem somente limpos (ou diluídos) quando a próxima chuva cair sobre a cidade.

Harric dirigiu-se para a primeira estalagem que avistou: o Monge Inocente.

Lá, presenciou a discussão entre o estajadeiro e um shvimohz. Tudo porque o pobre homem havia derrubado uma das tijelas da estalagem ao chão. O dono do local insistia que o shvimohz deveria pagar pelo que fez, mas Harric logo constatou que a tijela sequer haiva se danificado, não entendo o porque de tal exigência (sendo que havia visto algo semelhante ocorrer momentos antes com um "típico" brandobian e nenhum problema havia se criado por conta daquilo).

Assistindo a tudo estava Ithan, mercenário recém chegado em Premolen. Este jovem já havia se comuniado com o shvimohz, tendo estabelecido com ele um breve diálogo, no qual deixou claro não compartilhar do pensamento xenofóbico da maioria dos brandobians. No exato momento da discussão, contudo, Ithan já estava se retirando ao segundo pavimento, rumo ao seu quarto (que por coincidência teria que dividir com o shvimohz em razão da falta de leitos vagos).

Harric quase se desentendeu com o estalajadeiro, mas prontificado e evitar um conflito, e certamente já habituado com este tipo de tratamento, o shvimohz pagou-lhe um moeda de prata e livrou-se de maiores problemas, tendo, contudo, demonstrado gratidão pela forma como Harric o defendera.

Instantes mais tarde, quando já recolhido, Ithan surpreedeu-se com os hábitos de seu companheiro de quarto. Antes de deitar-se, o homem, claramente um viajante, prostrou-se ao chão e, com apenas a luz de uma vela, fez a leitura atenta de um trecho de um livro.

"Acaso estás a honrar algum deus?" Perguntou Ithan, após o fim das orações.

"Sim, claro! Queres ouvir mais sobre Shozhor?" Replicou o shvimohz.

"Ahm, não conheço este a quem adoras"

"Ah, perdoe-me. Mas não sei como Shozhor é conhecido nestas terras, nem por que nome é chamado. Mas na Língua dos Mercadores, Shozhor é conhecido como o 'Arauto da Palavra', 'Alteza Honorável', 'Senhor nas Alturas' ou como 'O Irrepreensível'."

"Ahm, sim, claro. Fico feliz que tenhas encontrado satisfação na devoção ao seus deus. Mas, como disse, não sou familiar a esta ou a qualquer outra religião". Disse Ithan.

"Compreendo. Mas, se assim mesmo, quiser ouvir algo sobre a sagrada Palavra de meu senhor, ficarei feliz em narrar-te os bravos feitos dos santos de minha fé e das maravilhas reservadas àqueles que conservam a honra e a ética do Irrepreensível. A propósito, meu nome é Rhalevahn Aziri Ghanin."

"Ah, e eu me chamo Ithan, de Sonden, em Cosdol".

Deste modo se deu o breve diálogo entre os dois naquela noite. Após, recolheram-se e foram dormir.

Na manhã seguinte, os três encontraram-se no salão da estalagem. Rhalevahn, Ithan e Harric conversaram brevemente sobre o incidente envolvendo o estajadeiro e, ainda durante o desjejum, perceberam que todos estavam pretendendo rumar a norte dentro em breve. Diante disto, e considerando o perigo de se viajar sozinho (ou mal acompanhado) pelas estradas de Eldor, combinaram de fazer companhia uns aos outros, até que seus destinos os separassem. Antes de partir, contudo, Harric avisou que necessitaria cumprir pequena tarefa na cidade. Aproveitando-se do tempo que deveriam esperar, Ithan e Rhalevahn decidiram caminhar até uma das feiras de cidade para comprar suprimentos de viagem. E foi na feira da praça central da vila que ouviram os sinos tocarem e diveros sacerdotes trajando túnicas verdes e batas amarelas dirigindo-se a um grande templo, notadamente marcado por um símbolo caracterizado pela 'caveria de uma cabra sustentando uma balança desequilibrada'.

Parece que algo está para acontecer na cidade em breve... o que será?

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