Reflexão RPGística: Novos rumos, nova campanha, novo cenário

Respeitar os mais velhos. Sempre ouvimos este comando imperativo de nossos pais ou professores, mas muitas vezes quando o fazemos não podemos compreender seu real significado. É certo que muitas vezes o desgaste físico e mental ocasionado pelo transcurso dos anos imobilizam as pessoas, tornam suas idéias mais conservadoras e suas perspectivas mais pessimistas. Neste sentido, é o ímpeto da juventude que deve emergir como força equilibradora, capaz de permitir as mudanças necessárias à evolução de pensamento, retirando a sociedade da inércia na formulação de idéias e na tomada de atitudes. Contudo, determinado grau de sabedoria só se pode adquirir com a vivência das muitas experiências da vida, e só o passar dos anos nos dá a oportunidade para tanto. Os mais velhos detém exatamente este conhecimento inacessível que só se adquire entrando para o "clube" do qual fazem parte. Não é dado aos jovens conhecer destes segredos, senão quando e conforme envelhecem - e quanto mais velhos, maior o conhecimento.

Não é preciso estar senil para notar isto. Sem dúvida nenhuma, eu, que hoje conto 22 anos, ao lembrar de quando tinha 16, vejo quão tolo muitas vezes fui ao dizer e defender bobagens. Meus pontos de vista mudaram tanto, alguns diametralmente, que sequer me reconheço mais. Isto representa, pra mim, a mudança de pontos de vista que o amadurecimento trouxe consigo ao longo dos anos. Hoje sim compreendo o brocardo que me foi ensinado: "respeitar os mais velhos". Compreendo, outrossim, que esta jornada de aprendizado não terminou. Ao contrário, estou certo de que cada vez mais me surpreenderei com minhas próprias mudanças e tenho me colocado à disposição da própria vida para absorver todas as lições que ela tem para me dar.

Sempre fui uma criatura muito crítica, fosse de quem fosse (ou do que fosse) e, por isso, sempre me considerei um pouco superior à média das pessoas. Sei que tal postura reflete prepotência, não o nego, pois sou um pouco prepotente também, mas o fato é que neste mundão de "ai meus Deus" as pessoas cada vez mais são adestradas ao invés de ensinadas. Aceitam, desta forma, tudo o que lhes é atirado ao consumo sem nunca se questionar sobre nada ou, quando questionadas, cuspem frases prontas repetidas dos noticiários, de revistas ou de jornais. Limitam-se, pois, ao plágio das idéias veiculadas pela mídia de massa. Pouco importa, a mim, se tais idéias são boas ou más, posto que gostaria mesmo é que cada um tivesse a sua. Valorizo a originalidade ao invés da adequação. Respeito mais (e presto mais atenção) àquele que ultraja na originalidade do que aquele que afaga no tradicionalismo. Antes, contudo, caía no engano - nublado pela própria prepotência aliada ao ímpeto da juventude, de simplesmente opor-me a qualquer discurso que soasse conservador. Ou seja, as raias do criticismo levavam-me a criticar quase que somente por criticar, sem parar para refletir sobre a crítica em si: seria válida, teria algum fundamento outro que não a mera negação das idéias arrostadas? Parecerá estranho, mas tornei-me crítico das próprias críticas e hoje busco incessantemente o ponto de equilíbrio entre a crítica da crítica e o não conservadorismo. A vida tem me ensinado não só a suportar melhor as diferenças, mas principalmente a compreender o que leva uns ao radicalismo e outros ao conservadorismo, uns à extrema esquerda e outros ao extrema direita. Essa mudança de comportamento se revela de muitas formas - e fica mais evidente na política. Mas todo este discurso servirá apenas como pano de fundo para o que direi na linhas que introduzo a seguir.

No RPG, assim como na vida, é preciso depositar certa dose de "fé" em certos elementos objetivos do jogo para ser possível usufruir da jornada. Na vida é preciso ter aquela "fé" objetiva que de que iremos despertar na manhã seguinte - sem a qual nossa existência perderia sentido. Igualmente, o RPG, como atividade lúdica, demanda certa dose de "fé". Para usufruir uma tarde de jogo inesquecível é mister crer na narrativa central da história, pois com uma narrativa pouco convincente o aspecto lúdico se esvazia e predominam as regras materiais do jogo (transcritas nos livros). Neste sentido, é importante considerar aquela evolução de pensamentos e amadurecimento que debatemos acima. Ora, se passamos por mudanças de pontos de vista na vida real, certamente nossos hobbies não passam incólumes a elas. A maneira como enxergamos o RPG, tanto dentro como fora de jogo, se modifica com o tempo. Aquelas mudanças que se passam fora dizem respeito ao foro íntimo de cada um. Mas aquelas que ocorrem dentro de jogo dizem respeito a todos os que se sentam na mesma mesa para jogar. No meu caso particular, tenho notado dificuldade em ter "fé" no cenário a que estamos habituados: Greyhawk. Não significa que o cenário perdeu sua graça, mas simplesmente que as explicações fornecidas pelos seus cânones não fornecem mais substratos sobre os quais minha imaginação possa repousar.

Faz algum tempo que não tenho mais disponibilidade para sentar-me frente ao computador por tardes e noites à fio preparando páginas e mais páginas de aventuras, planejando minuciosamente cada diálogo e preenchendo cada campo deixado em aberto pelos próprios livros básicos do jogo. Não disponho mais da disposição física e mental para pensar cada lacuna do cenário, racionalizando respostas para as possíveis perguntas de cada jogador. O mundo de Greyhawk é maravilhoso para se jogar, e representa muito em termos de tradição em Dungeons & Dragons. Mas, até mesmo em razão da época em que foi desenvolvido, sua preocupação nunca foi com o realismo. Nunca se desceu a detalhes sobre os costumes dos povos que habitam Flanaess, nem quanto ao credo dos seguidores das muitas divindades de Oerth e menos ainda quanto à geografia e história dos reinos. Sempre foi o objetivo deste cenário deixar o maior espaço possível para que o Mestre pudesse trabalhar suas próprias idéias. Contudo, isto não é mais uma opção para mim. Não posso mais gastar meu tempo preenchendo os espaços deixados em branco pelo cenário. Ocorre que, fossemos mais jovens, nem notaríamos tais "brancos", mas nosso nível de jogo exige maior detalhamento. Falando por mim, qualquer preenchimento que se dê às lacunas não basta: deve ser um preenchimento plausível, realista do ponto de vista da história, verosimilhante. Explicar fantásticamente ou simplesmente deixar de explicar não é uma opção.

Por causa disto tudo, lancei-me em busca de novos cenários que pudessem fornecer material mais condizente com essas necessidades. Foi quando relembrei de Kingdoms of Kalamar - um cenário que até então parecia-me totalmente exótico. Quando aprofundei-me nos seus meandros, interessei-me (para não dizer apressadamente que apaixonei-me). Sua linha de desenvolvimento respondia exatamente ás questões que fazia. Tudo (ou quase tudo) dentro do mundo tem uma razão plausível de ser. Para se dar um exemplo, até a topografia do continente foi pensada de forma a responder positivamente ao menor questionamento quanto à sua verosimilhança com aquilo que se entende por "possível" no nosso mundo. Os povos do cenário possuem linguagens próprias, a despeito de uma língua comum aos comerciantes; o conceito de feudalismo se aplica para o bem ou para o mal; as religiões possuem fincas em divindades verdadeiras, e não tratadas como números em uma ficha e etc. Tudo me pareceu bastante excitante e julgo valer à pena ao menos experimentar este cenário.

Por isso, anuncio a extinção da atual campanha de D&D, passada em Greyhawk. De modo que em breve inciaremos uma nova campanha, desta vez em Tellene (mundo de KoK). Os personagens atuais, por terem sido pouco utilizados, poderão ser reaproveitados na nova campanha (inclusive com suas biografias).

Enquanto a nova campanha não começa, retomamos as partidas de Call of Cthulhu!

Abraços

Comentários

  1. você já tinha comentado que tinha encomendado o KoK, mas não sabia que iria acabar com a atual campanha tão rápido, rsrsr... mas acho melhor também, já que ainda está bem no início, dá pra aproveitar os pcs na outra mesmo, só devem ser necessárias algumas pequenas adequações...

    e cthullu vai ser uma continuação daquela ou uma nova? pergunto pq os personagens daquela já estavam bem insanos, rsrs...

    abs

    ResponderExcluir
  2. É, realmente, quanto à campanha de Greyhawk iremos ter que fazer pequenas modificações nas fichas e algumas outras ns biografias (por óbvio). Mas nada disso é gde dificuldade... rsrsrs...

    ... qto a Cthulhu, usaremos os mesmos Pjs da outra aventura. Estamos retomando aquela campanha, inclusive a mesma linha de história. A questão da insanidade não é um problema (por enquanto! rsrsrs).

    É isso aí...

    Abraços

    ResponderExcluir
  3. Bom já q vcs vão jogar CoC ( que eu particularmente não gosto) esperando o KoK q eu to afim de ver qual é eu jogarei WoW pq não tenho nada melhor pra fazer ><

    abraços a todos

    ResponderExcluir

Postar um comentário