Carta para Siobham

Vau Brindin, 2 de Portacerrada, 578

Siobham,

Se te escrevo poucas horas após ter dito "até logo", em frente à tua taverna, é porque Vau Brindin me pareceu tão fria, eu tão inquieto.
Mas ao te escrever, a caneta vacila entre meus dedos, e esta folha de papel faz-me sentir muito mais inseguro do que, com a flecha em riste, jamais me senti perante os mais desafiadores inimigos.
Já corri por este mundo, pelo outro e por outros, deliciei-me com as mais altas copas das mais frondosas árvores de Oerth, andei descalço sobre areias celestiais, fartei-me da mais perfeita maçã, ouvi a língua dos anjos, percorri o mesmo caminho de muitos heróis conhecidos e desconhecidos, do profundo Nyr-Dyv seu mais belo fruto eu vi, descobri a verdadeira amizade, e ela é brilhante quando o dia é claro, e mais fulgurante ainda quando as trevas predominam. Mas cansei dos lagos, estradas e florestas que há pelo mundo, já não me atraem os perigos, os inimigos, as jóias. Fartei-me de olhar insistentemente para fora; se encontrei sucesso aonde muitos outros só acharam perdição, esse caminho não mais me satisfaz.
E por que já não me faz feliz, por que me cansei, por que, após tantas aventuras conturbadas, desejo ansiosamente a paz? E desse desejo que não se concretiza advém minha inquietude; e ele não se realiza justamente porque me falta algo, algo pelo que procurei em todos os lugares onde estive, mas sem nunca saber o que era.
E eis que, como relâmpago, tudo se torna claro para mim. O véu que cobria meus olhos finalmente cai, frente ao perigo de perder-te para sempre...
Nem o sopro de vida compara-se à plenitude do amor. Foste tu, donzela de Cador, que, mais certeira que qualquer uma das setas que já disparei, flechaste meu coração no primeiro momento em que nos vimos, ainda que meus olhos de águia, que enxergam longe no horizonte, demorassem a perceber a causa de meu descontentamento nas trilhas da vida.
Nosso conto não possui fadas, castelo ou torre encantados, feitiço, bruxas, maçãs nem reis. Mas, juntos, nós somos arco e flecha (perdão, mas não encontro par mais perfeito), somos um só, e isto é o suficiente para que o mundo se curve a nossos pés!

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Bemus: Sei que o momento não é o mais oportuno para o tema, mas como bem sabeis, ele não escolhe hora para aparecer. Se pensais que, enclausurada no templo (de Pelor), às voltas com meus fantasmas, durmo indiferente ao vosso semblante teso, enganai-vos. Se vos escrevo, ao invés de ter convosco, é tão-somente para manter vossa privacidade, uma vez que não sois obrigado a abrir-se com uma clériga que, semanas atrás, vagava sem rumo na estrada. Não sois obrigado também a acatar os conselhos de uma dama muitas dezenas de primaveras mais nova que vós, garboso arqueiro élfico. Caso o motivo desta carta não tenha ficado tão evidente quanto julgo ter ficado, torno-o claro: não esperei, Bemus, ide atrás de vossos sonhos.Isilmë

Aeris Isilmé Telempë, Sacerdotisa de Pelor


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Por fim, Bemus se declarou à Siobham. O nobre arqueiro élfico aposentou-se de suas viagens e casou-se com a bela dama.

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