Sobre o Papel das Personagens Femininas

Por Roberto Bousquet Paschoalino


25 de fevereiro de 2005

Partindo do princípio de que existam determinadas características (ou qualidades, ou atributos) natural ou essencialmente femininas (e, por conseguinte, outras masculinas), quais são elas?

É deveras forte a imagem da donzela frágil, pura (casta) e desconcertantemente bela que, numa passividade quase que inconcebível, aguarda a vinda de seu cavaleiro forte, corajoso, hábil no manejo das armas e rico. A partir dessas características, chega-se mesmo a deduzir o bom caráter dos dois.
Sim, provavelmente essa imagem soa um tanto que antiquada, em meio à onda de igualdade sexual que varreu o século XX, mas ainda assim ela é forte, em especial nas histórias ambientadas ou inspiradas na Idade Média.
Ainda que por trás de um belo discurso de amor eterno entre as partes, a mulher não raro assume a função de 'prêmio', enquanto seu marido enfrenta perigos e provações diversas nos sete mares (às vezes o Mediterrâneo e um pedacinho do Atlântico já são suficientes). Funcionando como um suporte (emocional), um porto seguro, a esposa meio que personifica o lar, recompensa após desafios vários.
Creio que Arwen Undómiel seja um exemplo bastante ilustrativo desse tipo de mulher, em sua inatividade enquanto Aragorn se lançava à morte quase certa, em sua trilha desesperada pelo poder a que tinha direito; ou então Ceinwyn*, estrela de Powys.
Há vezes em que essa inatividade é trocada por uma série de intrigas e preocupações mesquinhas (tais como engravidar), ao passo que o destino do reino é uma questão distante.
Mas há lapsos de atividade feminina. A Morgana d'As Brumas de Avalon, em sua contraposição à chatice de Gwenwyfar talvez seja um bom exemplo. Há outras que se destacam por poderem competir com os homens nas atividades físicas ou nas artes da guerra. Mas, nesse caso, não serão essas mulheres admiradas por possuírem características masculinas?? Temos o exemplo de Galadriel ('Donzela-homem', se não me engano), mas, de qualquer forma, ainda que consigamos reunir bom número personagens que se encaixem aqui, entre Alustriéis* e Lúthiens, acredito que seja esmagadoramente maior a quantidade de personagens masculinos nesse grupo.


Se não é na guerra que as mulheres se destacam, aonde elas o fazem? Nas intrigas domésticas, ou, através de sua influência sobre seus maridos, em um universo bem maior de pessoas sob o jugo deles? Ou será esse apenas um subterfúgio utilizado para contrapor sua inaptidão bélica? Da mesma forma que atribui-se mais comumente o uso da magia a elas (ouvimos falar em bruxas mais comumente que em bruxos)? Por outro lado, quando o mágico em questão é o malvado que rapta a frágil e indefesa donzela, é um feiticeirO. [Aliás, o antagonista é tão cheio de defeitos que ficamos nos perguntando como pode ele ser um adversário à altura ao cavaleiro reluzente...]

Apesar disso, talvez esses estereótipos que apresentei aqui sejam contos-de-fada demais. Entretanto, nessas visões mais modernas do papel feminino há de fato um interesse em um realismo maior ou existe também uma preocupação em fugir desses estereótipos, o que, ao mesmo tempo que os nega os afirma??

Bom, mas e o romance moderno, ou melhor, ambientado em tempos mais recentes? Creio que, talvez influenciados por essa igualdade de direitos, o aumento no número de heroínas foi substancial. Entretanto, um dado que julgo importante atentar é uma mudança no perfil de herói, que antes de tudo tem que ser inteligente; aquela força arrebatadora não é mais de tanta valia num mundo com leis que, a priori, devem ser seguidas. Valores como coragem continuam em voga, mas mais importante agora é a inteligência, e, justamente por ela ser comum à raça humana, e não a um ou outro sexo, há possibilidade de maior competição entre homens e mulheres. É meio estranho, mas hoje em dia o conceito de herói me parece menos megalomaníaco (ok, há exceções, como Código da Vinci e 007) e mais egoísta, no sentido de que ele tem que vencer seus próprios preconceitos e limitações como ser humano que é. Naturalmente, há também Super-homem e cia contra alienígenas, que representa o oposto.

Talvez eu tenha saído um pouco da questão, mas, para finalizar, e respondendo à minha pergunta, acho que a característica mais exaltada numa mulher é, sem sombra de dúvida, a Beleza. O homem é forte ou ágil, intrepidamente corajoso e -somente para completar o estereótipo- belo. Entretanto, homem algum é exaltado somente por sua beleza; este é mais facilmente encarado como um homossexual, ou um fraco de espírito, e tenta-se rebaixá-lo. Mas com as mulheres não: todas são bonitas, à exceção de Miss Marple*, porque é velhinha, mas que que em compensação é deveras simpática. Através da força, combate-se o mal, pela coragem mantém-se firme, com sabedoria faz-se justiça; mas e a beleza, o que faz? Encanta e? E acaba. Encanta e tem que ser resguardada, como faz-se a uma jóia, um troféu, que não possui em si mérito algum.

Cheguei a essa conclusão e fiquei desconsolado. Sim, geralmente a beleza é coroada com vários predicados, mas isso remete-me a um sistema cujo centro é a beleza e o resto (os predicados) orbita em torno dela. Mesmo sem esses predicados, ela subsiste por si mesma (hum, isso me cheira a pleonasmo), o que não ocorre com as outras coisas. Achei que tinha chegado a uma péssima conclusão, a uma coisa superficial demais para ser apontada como natural, ou melhor, mais exaltada, característica feminina.


*Notas: #Ceinwyn = personagem das Crônicas de Artur, de Bernard Cornwell;
#"Alustriéis" = alusão a Alustriel, personagem de Forgotten Realms, cenário de campanha da Wizards;
#Miss Marple = detetive de Agatha Christie

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