O azar dos pseudo-intelectuais

Há muito tempo atrás eu escrevi um artigo, intitulado "É Fantástico", que abordava a maneira como a imprensa tratava o caso da morte de uma estudante em Ouro Preto e o chocante desfecho do caso Richthofen. Em ambos os casos tentou-se inferir que determinados tipos de jogos teriam influenciado o comportamento dos jovens envolvidos nas execuções dos crimes. No caso de Ouro Preto foi o RPG (role playing game) e no Richthofen foi o CS (counter strike - o irmão de Suzane, se não me engano, estaria jogando CS em uma Lan-House enquanto os agentes perpertravam seus planos vis).

Cinco anos, muita corrupção, chacinas, e outras tragédias (incluindo a do pobre João Hélio) mais tarde, em 2007, eis que assistimos mais um "caso chocante". Uma quadrilha de bandidos da classe alta violenta mulheres na noite carioca. Não demora muito e os telejornais de algumas emissoras da TV aberta começam a apresentar reportagens sobre jogos violentos (mencionando inclusive um deles, o GTA).

Antes mesmo de continuar, eu gostaria de apresentar aqui o artigo de que falei no ínicio do post.


- É Fantástico -


É fantástico como a imprensa brasileira é marrom. É incrível como os poucos veículos informativos de grande circulação deixaram de lado o jornalismo e adotaram o sensacionalismo!
Temos acompanhado pela televisão e pelos jornais a apuração de casos como as mortes de Aline em Ouro Preto e dos pais de Suzane em São Paulo, e o que temos visto? Bom, o estômago embrulha só de pensar que existem pessoas loucas o suficiente para matar de forma tão "diabólica" e pelos motivos mais absurdos (não que haja alguma motivo que justificasse tal ato), mas é impossível conter a náusea quando vejo como estes casos são tratados pela polícia e principalmente pela mídia. Os assassinos são encontrados, presos e quase linchados, mas... e daí? A raiz do problema continua existindo e a violência é como aquele mato chato que insiste em nascer no quintal (chamado de tiririca por aqui), se você não arrancar a raiz TODA, ele vai nascer novamente. Não é possível que a mídia continue lavando o cérebro das pessoas com essas idéias hipócritas de que "a culpa é dos video-games" ou "o RPG é satânista, vamos proibi-lo" e as pessoas continuem aceitando! A nova onda do imperador é dizer que o jovem é culpado de tudo, o jovem bate mais com o carro, o jovem engravida mais, o jovem fuma mais, o jovem é mais violento, o jovem não respeita ninguém e etc. Agora, cá entre nós, e vocês adultos?! Será que vocês estão fazendo sua parte? "Ah, o futuro é dos jovens", mas e o presente?! Bom, o presente é dos adultos, e é no presente que se planta para o futuro. Planta-se violência, colhe-se violência (Cristo já disse isso fazem 2002, quase 2003 anos!). Será que a solução para os problemas sociais é castrar o jovem, ou será moralizar os adultos para que estes criem seus filhos em um ambiente familiar e de respeito?
Não adianta criar um filho largado, entregue à própria sorte e à mercê das más influências (que sempre vão existir) e depois exigir respeito.
Nossa sociedade é podre como sepulcro caiado (já dizia Jesus), que ostenta bela aparência, mas por dentro é cheia de toda a podridão. Prova disso são esses artistas (ou seriam demagogos?) que vão pra TV gritar: "Dê esperança à uma criança!" e no cotidiano ensina que roubar a mãe e vender o corpo pra comprar drogas é bonito, porque no final tudo sempre dá certo, e todos se casam (tem final de novela mais criativo?). E ai daquele que levanta-se contra o reino "Marinho" porque estes são como os amados "yankees", confundem liberdade com libertinagem, democracia com opressão.
No caso de Aline e dos pais de Suzane, quando as mortes foram associadas à jogos como o RPG e o famoso "Counter-Strike", esqueceu-se de dizer que milhões - isso mesmo, milhões - de pessoas pelo mundo jogam estes mesmos jogos, inclusive eu, e que ninguém sai por aí matando os pais ou realizando cultos satânicos. Onde estavam os pais das criaturas que iam toda noite pro cemitério?! Vendo novela certamente. Onde estavam os pais de Suzane? Será que não sabiam que a filha encobria o irmão mais novo? Bom, deles eu não ouso falar, e que Deus os tenha em sua infinita misericórdia!
É triste ter que tocar em assuntos tão revoltantes na virada de mais um ano. Acabou que o século 21 não tem correspondido nem ao futuro promissor, nem à era de aquário. Acho mesmo que é o fim. Não que ele - o fim do mundo - venha a chegar amanhã (mas se vier, estejam prontos), é o fim da minha paciência que está chegando, e não dá mais pra agüentar tamanha ignorância.
Os papéis nesta sociedade estão invertidos: a mídia, detentora da informação, desinforma e coloca cabrestos nas nossas cabeças (não na minha) e os adultos, bem os adultos querem deixar a cáca deles pra nós limparmos.
Deus nos abençoe e abençoe ao Brasil.

Ora, realmente não é de se surpreender que nada tenha mudado. Mais uma vez a imprensa associa a conduta criminosa de determinados indivíduos a um "jogo", como se um jogo fosse capaz de produzir indivíduos de caráter mau formado, capazes de distribuir a violência de maneira gratuita e sem sentido. Se um jogo é capaz de fazer isso, então filmes, novelas e o próprio noticiário também o são e, portanto, deveriam ser alvo das mesmas críticas efusivas. Mas o que se quer aqui não é discutir a influência de jogos ou filmes na psiquê humana, essa discussão não é pacífica e certamente iremos encontrar diversas opiniões à respeito deste assunto. O que impressiona e o que quero discutir é o "marronzismo global" que permeia a cultura jornalística brasileira e que se evidencia a cada nova reportagem do gênero.

A meu ver está claro um padrão: Um grupo de jovens ricos praticam um crime de maior potencial ofensivo e a imprensa busca subterfúgios para transformar os criminosos em vítimas (neste caso da própria violência, supostamente "ensinada" por alguns jogos), amainando o impacto da notícia e distraindo a sociedade daquilo que realmente importa no momento (a devida persecução penal e posterior punição dos culpados). Propositalmente querem nos convencer de que a influência de um jogo (uma forma de entretenimento tal qual o cinema, o teatro ou a própria televisão, que somente uma pessoa demente confundiria com a realidade) é capaz de suplantar o caráter e as noções de civilidade e cidadania dada pelos pais aos filhos, ou mesmo a influência do meio sobre o indivíduo. De repente, de um momento para o outro, o entretenimento com classificação adulta passou a ser a principal fonte formadora de caráter dos jovens de classe alta (porque pobre não tem acesso a video game caro nem vai ao cinema - caro também, diga-se de passagem. Quando muito assiste a TV Globo)!

O azar dos pseudo-intelectuais é que nem os próprios pais dos criminosos concordam com estes argumentos. O pai de um destes espancadores em voga (um tal de Sr.Ludovico), afirmou publicamente que "estas crianças não podem ficar presas com bandidos" e que "mulher fica roxa com mais facilidade". Ou seja, assinou embaixo e reconheceu firma de que o caráter dos filhos ainda deve, sim, muito à educação dada pelos pais e provavelmente mais ainda ao meio onde vivem (ou alguém dúvida que este pai, no fundo, "don't give a shit" para as mulheres inocentes atacadas pelo bando?).

E tenho dito...

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