Estrada para os Montes Resolutos - 1º Ato

Muitos ursos habitam as regiões florestais de Geoff e do Grande Ermo (Imagem: Museum Meermanno, MMW, 10 B 25, Folio 11v) 


Assim que amanheceu, os aventureiros deixaram Orlane, tomando a mesma estrada da qual vieram no dia anterior. Quando chegaram na encruzilhada que leva até Ravina Verdejante, sentiram uma pontada de tristeza, mas desta vez seguiram adiante. Hochoch está há apenas alguns dias de viagem. A partir deste ponto, a estrada atravessa longos campos onde ocasionalmente se veem plantações de grãos, e pasto para cordeiros e bois. Entretanto, conforme o dia avança essa paisagem muda para uma região erma cercada de morros rochosos. A noite eventualmente chega e os aventureiros precisam descansar.

O dia seguinte não é mais excitante. A estrada se torna cada vez mais precária e, a medida que os morros ficam distantes, cruza por áreas cultiváveis abandonadas. Em diversos pontos há cercas de madeira destruídas, plantações tomadas por pragas e capim e casebres arruinados.

- Parece que essa região foi muito afetada pela guerra! – murmura Bruenor com pesar. E, de fato, por esta estrada milhares de soldados marcharam ao longo dos últimos anos para enfrentar os gigantes e liberar Hochoch de sua opressão.

Muito antes do meio-dia, os aventureiros chegam a uma pequena vila destruída onde poucas casas estão em condições de moradia. Ali, pode-se ver apenas a miséria do povo sofrido da região, que não parece ter forças para reerguer-se daquela desgraça. Os poucos homens que ainda vivem ali, principalmente os muito velhos para lutar, não puderam ajudar muito. Os campos estão destruídos, não havia sementes nem ferramentas para arar a terra antes do plantio. Os estoques de alimentos são baixos e provavelmente não durarão até o próximo verão. Portanto, os meses de penúria do inverno serão rigorosos.

Não há nada ali para Bartolomeu, Eldrin, Gato Preto e Bruenor. A visão é triste, mas é a realidade comum de tempos difíceis como os atuais. Aventureiros que são, ludibriados pelos tesouros que amealham em suas demandas, talvez as vezes se esqueçam que Geoff, Sterich e tantas outras antigas províncias de Keoland caíram nas mãos de invasores implacáveis, que nada deixam de pé por onde pisam. Ver a desgraça do Pomar de Leilam, como o vilarejo é chamado pelos locais, foi apenas o choque de realidade de que necessitavam antes de chegar à fronteira.

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A noite cai mais uma vez e nenhum sinal de Hochoch. No horizonte, apenas grandes montanhas e a vastidão do espaço cinzento de Flanaess. Os aventureiros encontram um local retirado da estrada para acampar, onde a luz de sua fogueira não atraísse a atenção de bandidos e outros viajantes enxeridos. Bartolomeu e os demais revezam as vigílias. Aquela noite estranhamente fria trazia a todos muito desconforto, obrigando-os a improvisar cobertores e aparas contra o vento.

- Esse frio, eu posso sentir pelo cheiro, vem com o vento que sopra das montanhas – falou Bruenor, com tom professoral – Eu sei distinguir o odor do degelo que impregna a brisa gelada que refresca as planícies. Bem como sei distinguir o cheiro da terra revirada pelos homens que alcança o topo das montanhas levado pelo sopro aprazível o verão.

Os aventureiros papeiam enquanto conseguem. Aquecem água em uma panela, cozinham umas batatas doces surrupiadas por Gato Preto na passagem pelo Pomar de Leilam e comem umas rações. Infelizmente, Wurren não está mais com o grupo e, portanto, a caça não é mais tão fácil. Quando já era tarde, bem tarde na madrugada, e a lua crescente se escondia sobre as nuvens, Eldrin, que estava de vigília, desperta assustado com o som gutural dos rugidos de dois ursos cinzas que vasculham o acampamento onde seus colegas estão dormindo inocentemente. É necessário ter cuidado para não assustar os animais e fazê-los ficarem agressivos.

- Hey, pessoal! - sussurrou o feiticeiro - Acordem!

Gato Preto abriu os olhos e logo percebeu o que estava acontecendo. Levou um pouco mais de tempo para que Bruenor e Bartolomeu se situassem. O ladino logo pegou seu arco e um punhado de flechas, deslizando para trás de uma moita a fim de emboscar o urso. Os ursos se aproximavam lentamente, com curiosidade. Mas, então, Eldrin estalou os dedos e produziu uma fagulha, acendendo a fogueira que antes estava apenas com cinzas e poucas brasas. Em seguida, o feiticeiro pronunciou confusas palavras do idioma dracônico, invocando as chamas do plano elemental do fogo para aquecerem a fogueira, produzindo com isso uma enorme labareda que afugentou completamente o par de ursos.

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Comentários

  1. Bartolomeu ficou tocado com a visão do vilarejo decadente. Ele sabe bem o que a guerra causa, a quantidade de vidas abruptamente interrompidas que, não bastasse a própria desgraça individual, tem repercussão nas famílias que se viram desprovidas de braços para cavucar a terra e proteger as famílias. Sua consolação repousa no fato de que, desde que fugira de sua prisão, tem ajudado a poupar os sobreviventes de ameaças cruéis: a escravidão nas mãos dos homens-lagarto, surto de bexiga, a sombra que tentou se levantar na floresta escura; perigos que nem chegaram a tirar o sono dessa gente já combalida pelos anos de guerra, pois foram debelados antes que fossem conhecidos por eles.

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