A Travessia da Floresta Escura - 12° ato


Bartolomeu chora a morte inesperada de Ânn (arte do incrível Bernardo Hasselmann, o Gato Preto, disponível em https://swordenchanter.deviantart.com/art/Inktober2017-18-710450560)

com a colaboração do MestreCavernoso

Os aventureiros descansam por algumas horas no fundo da masmorra, naquela sala com as colunas de malaquita que foram alvo da sanha que Gato Preto e Bruenor têm por tesouros. Enquanto descansam podem examinar com mais cuidado os aposentos que estão ao norte e ao sul, as seis pequenas salas acessíveis pelas portas de madeira – numa das quais Bartolomeu expurgou meia dúzia de esqueletos com o poder de Wee Jas. Em meio ao entulho e poeira, os aventureiros percebem que tais aposentos eram o local onde os habitantes desta masmorra acondicionavam, refinavam, amassavam e coavam alimentos, preparando unguentos, poções, elixires e licores. Tudo está abandonado e intocado pelo tempo. Há corpos esquelético espalhados pelo chão, inertes há séculos ao que parece. Agora, porém, Bartolomeu sente que a aura perversa do local parece ter se dissipado, ou ao menos estar mais rarefeita – talvez por efeito da destruição da árvore negra.

O chão esfriava a bunda de todos em volta da fogueira, que tem uma adaga já com a lâmina incandescente na borda. Sombras bruxuleavam pela sala, entre as colunas outrora adornada com preciosas malaquitas das montanhas Lortmill, que agora, por acaso, enfeitavam as mochilas de Bruenor e Gato Preto. O local é tão úmido que as colunas pareciam transpirar. Amarrado a uma dessas colunas, um homem nu e ferido, com uma estopa exalando cheiro de tocha na boca. Ele está bem na visão periférica de Bartolomeu, mas seu olhar vago e vazio atravessa as chamas, diretamente para o corpo inerte de Ânn, afastado da fogueira, entre sombras.

Bartolomeu perde-se em lembranças e conjecturas, completamente alheio à conversa em torno do fogo. Lágrimas teimosas queimam antes de conseguir escorrer pelo rosto, lágrimas de dor, de ódio, de impotência, de fracasso e de saudade, mas nada disso é perceptível no semblante impassível do sacerdote que contempla a morte -não a sua própria, mas a do cadáver envolto em faixas brancas, nas sombras.

Nada perturba aquela reunião, a não ser o peso do corpo que, mesmo imóvel, parece olhar para todos eles: não há ratos, aranhas, nenhum ser vivo habita aquele subterrâneos que levam ao templo maldito dos Ur-Flân. Um gemido abafado é ouvido, seguido de outro, com um grau de desespero evidente: é o prisioneiro que acorda. Gato Preto levanta-se ágil como, de fato, um felino, e leva sua adaga à garganta do prisioneiro, enquanto a outra mão se estende em direção à estopa embebida em óleo:

- Nem tente alguma gracinha, feiticeiro, ou então veremos se sua língua é mais rápida que minha lâmina - previne, com um olhar malicioso, o furtivo companheiro, enquanto retira o pano.

- Vocês não sabem onde estão se metendo, vermes -responde desafiadoramente o prisioneiro, enquanto cospe seco.  Se tiverem algum juízo, vão me libertar agora.

Bruenor, Bartolomeu e Eldrin se adiantam, enquanto Wurren se afasta, sabendo o que está por vir. 

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O druida já presenciou Bartolomeu torturar um homem-lagarto, um orc e um goblin, e não gostou do que viu. Matar no calor de uma batalha é algo que o meio-orc acha justo e não se envergonha, mas aquele sofrimento imputado a prisioneiros indefesos faz com que ele se lembre de animais enjaulados e maltratados por caçadores inclementes, capazes de retirar órgãos preciosos das criaturas ainda vivas, pois atribuem propriedades mágicas caso sejam retirados ainda "frescos". Retirar informações por meio de torturas é algo tão bárbaro quanto, mas o meio-orc não quer se opor aos métodos deles, pois, afinal, é preciso fazer algumas concessões morais em prol da convivência. O grupo, é preciso reconhecer, fez muito pela Floresta Escura, e não é o sadismo ou a maldade que guiam os interrogatórios de Bartolomeu, apenas a vontade de obter informações que, de outra forma, não seriam acessíveis se dependessem da cooperação voluntária dos prisioneiros.

Alheio aos julgamentos morais do druida, Bartolomeu despreza a tortura. Ele acredita na liberdade, mas, por outro lado, acredita nas consequências dos atos. Esse conjurador filho da puta a seus pés estava tentando trazer os demônios de volta à Floresta Escura, além de ter matado Ânn; essas foram suas escolhas, e Bartolomeu não vai permitir que ele prossiga espalhando esse tipo de crueldade pelo mundo. Uma morte rápida seria justa, mas os deixaria tão no escuro quanto estavam antes. Ironicamente, era esse feiticeiro miserável que poderia fornecer as informações que o Arquidruida se negou a fornecer e que Ânn jamais lhe explicará, pois está morta. Tantas semanas buscando respostas e todas elas lhes escaparam, a não ser por esse puto desse assassino a seus pés. Então, ele vai ter que fazer esse tempo de perseguição valer a pena. Ele vai ter que falar.

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Bartolomeu conhece bem esse tipo de gente, que fala grosso quando encurralada, mas não por temerosidade, e sim por ignorância.

- Diga logo e sem rodeios: quem é você? - Bartolomeu estava com uma adaga em mãos.

- Eu sou o terror da noite, a sombra que paira sobre os Cânions dos Condenados, a morte que ronda o Desfiladeiro de Oyt, aquele por quem os sinos dobram em Talbeire. Eu sou Bellak, o Escuro, e nunca esquecerei que vocês cruzaram meu caminho, se me matarem, a morte será minha aliada e voltarei para tomar suas almas em nome do Ceifador, se me libertarem terão seus dias prolongados em ignomia!

O feiticeiro amarrado à pilastra não é nenhum novato, já teve sua dose de batalhas na vida. Sabe bem o que é raiva, por isso cospe arrogância, desafio e esbraveja uma determinação que ele não tem.

- Suas bravatas não me assustam e duvido que a morte seja mais sua aliada do que minha, seu merda! Que lugar é este? - Bartolomeu não estava disposto a demonstrar paciência e cordialidade.

- Hahahaha! Não sabem mesmo no que estão se metendo, não é? Este é o Zigurate de Evshast [pronuncia-se "Évixaste"]. Os espíritos antigos de meu povo ainda habitam este lugar eu os ouço dizerem que vocês não são bem vindos!

- Que diabos é Evshast? - Bruenor se intrometeu, causando desconforto em Bartolomeu.

- Tolos! Evshast foi o grande governador destas terras eras no passado, quando os Cataclismas Gêmeos assolaram o oeste e os usurpadores liderados por Slerotin, fugindo da Chuva do Fogo Incolor. Ele comandou os exércitos do Mestre do Trono Aracnídeo, destruindo os Maranos e os Ddraigasianos (didigrassianos), estabelecendo seu Império sobre o Vale (Sheldomar). Ele decapitou os generais dos arrogantes suelitas, empalou suas cabeças e construiu um grande muro que sussurrava nos ouvidos de seus inimigos os horrores que esperavam aqueles que se opunham ao Império Oculto! Eu farei o mesmo com vocês, seus bastardos! - respondeu o tocado pelos planos.

- O que você quer aqui? Que portal era esse? Para onde levava? É melhor ser claro desta vez, estou começando a perder a paciência com você - Bartolomeu estava, de fato, muito aborrecido.

- Idiota! Acha que tenho medo de você? - Bellak respondeu em tom desafiador.

Bartolomeu, então, pegou a mão do inimigo indefeso e amputou-lhe dois dedos de uma só vez. Além da dor física, aquela lesão representaria uma perda muito importante para Bellak, afinal, os gestos são componentes importantes de quase toda conjuração mágica.

- Hahahahaha - Bellak ria ao tentar conter a dor do grave ferimento sofrido. Aquele era um vilão sádico e claramente cruel - A traição do Mão-Sangrenta fez o Império imergir para longe dos olhos mortais e até mesmo dos deuses! Mas seus mistérios não estão todos perdidos! Hahahahaha! A Antiga-Fé se encarregou que guarda-los! – e ele olha fundo nos olhos de Wurren – Seus veneráveis anciões mantiveram este portal aberto, para que um dia o proscrito pudesse encontrar os segredos perdidos da Icrácia! Este portal levava até lá! Aos palácios aracnídeos da Icrácia, o baluarte do Império no Vale Sheldomar!

- Ele não vai falar de forma mais clara... - lamentou Wurren - E nem está respondendo às suas ameaças, Bartolomeu. Acho que é preciso dar um outro estímulo a ele - disse o meio-orc tomando em mãos o grande livro que Bellak trouxe consigo através do portal. 

- O que você pensa que está fazendo? Tire suas mãos imundas deste livro! Ele é meu!!! - Bellak gritou com ódio.

- Nada disso - respondeu Wurren com visível ironia - Acho até que vou colocar fogo nele. Eldrin, vem comigo! - o feiticeiro ouviu e entendeu o "recado" e acompanhou o colega druida até a sala ao lado, passando diante do inimigo já estalando os dedos e fazendo fogo.

Bellak sabe bem o que é frustração, por isso se revolta e tenta pensar em meios de se soltar e matar a todos ali. Mas ele não sabe o que são duas coisas importantes: dor e perda. E hoje, Bartolomeu sabe, ele vai morrer conhecendo esses dois sentimentos.

- E sobre Ânn? Quem ela é? Por que você a matou? - o astrólogo já quase não segura as lágrimas de dor e ódio.

- Então vocês conhecem essa mulher? Huhuhuhuhu! – Bellak dá uma risada sinistra – Eu os amaldiçoo! Que suas entranhas apodreçam em vida, que sua morte seja dolorida! Que os corvos comam os seus olhos, e suas almas vagueiem em opróbio! – Ele cospe no chão e seu rosto se contorce de ódio e dor enquanto ouve o crepitar provocado por Wurren e Eldrin.

- Responda seu desgraçado! - o astrólogo insistiu cravando a adaga em sua perna.

- Não sei quem era, mas a vadia ficou em meu caminho! Por isso morreu! Hahahaha. Se querem saber, ela tentou fugir, queria o tomo de Rillikandren para si! Mas ela não é melhor do que eu! É pior! Muito pior! Dei-lhe o castigo merecido por colocar suas mãos em segredos que não são de sua conta. Retorci sua alma! Corrompi seu coração! Conspurquei seu espírito, tornei-o imundo! Sua alma deve agora estar se afogando no Rio Styx! Hahahahaha!

Bartolomeu não podia acreditar no que estava ouvindo. Andou em círculos pela sala por alguns instantes, levando as mãos ao rosto para enxugar as lágrimas, inconformado.

- Eu poderia colocar seu espírito de joelhos e fazê-la falar! Mas vocês parecem se importar demais com ela, então não perderei meu tempo com isso! Digam! Como vocês descobriram este portal? Quem os mandou aqui? Pouquíssimos são os que já ouviram falar dos segredos e ninguém sabe sua localização exata! Nada obstante, há aventureiros, oportunistas, buscando-os avidamente! Eu tentei quebrar Jumdish Dour, mas o desgraçado nada falou! Destruí Hargitay e sua ridícula Capela da Montanha Baden e seus asseclas. Foi como tirar doce de uma criança - Bellak prosseguia, tentando fingir que não se importava com o que o meio-orc e Eldrin pretensamente faziam na sala ao lado.

Nenhuma resposta viria, porém. Bartolomeu não aguentou. O sacerdote de Wee Jas explode o punho fechado na boca do prisioneiro que não para de ameaçá-los. Dois dentes se quebram, sangue voa pela boca aberta. O olhar embaçado e o tremor no corpo do conjurador mostram que a conversa entre eles será bem curta. 

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Bartolomeu limpa a faca ensanguentada e a devolve a Gato Preto, agradecendo-o. O jovem claramente já perdeu alguém importante na vida, e valoriza a vingança. Às vezes, é tudo de que se precisa para conseguir um pouco de sono tranquilo.

O sono tranquilo, porém, não virá nessa nem nas próxima noites. A morte do assassino Bellak não traz Ânn de volta, e as respostas retiradas do feiticeiro passaram longe de esclarecer a trama em que se meteram.

O caminho de volta é feito rapidamente, e em silêncio. Bartolomeu carrega nos ombros o corpo de Ânn, mas é Wurren quem tem o caminhar mais arrastado, com o rosto voltado para o chão, escondendo o olhar perdido, cheio de dúvidas que o inquietam. Mas nada é falado.

Ao transporem o arco que leva à sala onde repousa Urinyairoppasath, eis que a veem de pé, como se acabasse de se levantar de seu leito comatoso. Sorve com vontade um jarro de água, ao lado do fauno Charix.

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