A Floresta Escura - Epílogo

Ainda que não fosse digna de uma visita real, Orlane ganhava importância comercial e militar no Grande Ermo, ao contrário da para sempre esquecida Ravina Verdejante

Com colaboração do MestreCavernoso

Ravina Verdejante continua estranha, do mesmo jeito de quando a deixaram, há apenas 4 dias. Bartolomeu ainda suspeita do lugar, daquele pequeno paraíso no meio do caos. O lugar o lembra Stonebridge, uma cidade aparentemente pacata, mas cheia de cultistas que matam crianças e esposas para um deus lagarto. Ravina Verdejante é pior, pois parece mais idílica ainda com sua taverna superfaturada, campos intocados e casas sem necessidade de reparo. Mas Bartolomeu não tem motivos para duvidar, posto não ter visto nada minimamente suspeito. Mas seu nariz coça de maneira incômoda na cidade, e ele imagina que o povoado seja como um súcubo atraente demais em um calabouço. Há minas amaldiçoadas, há goblins, há batedores do exército de gigantes, mas nada disso parece abalar a calmaria do lugar. 

Ninguém mais compartilha das suspeitas de Bartolomeu, muito menos num dia como hoje, quando todos anseiam por uma caneca da exótica cerveja gelada, após dias tensos na floresta perdendo companheiros, quase sendo mortos por raízes assassinas e ur-flans malignos e tendo como paga nada mais que ingratidão e ameaças veladas. Bartolomeu não censura os companheiros que se embebedam na estalagem do Tio Cohen, mas ele, mesmo sentindo mais dor que todos pela morte de Ann, cujo cadáver carrega nos ombros, ele não se dobra tão docilmente às tentações do conforto fácil ou à anestesia do líquido amargo. Bartolomeu foi forjado na guerra, tendo como bigorna a perda e como martelo o cárcere, e é preciso mais do que os eventos das últimas luas para deixá-lo prostrado e desatento. Termina a refeição e se dirige ao templo.

Duncan, o Alto, está lá, conversando com o jovem sacerdote de Bane. Bartolomeu lança um olhar feroz ao garoto, para que ele os deixe a sós antes mesmo de vir com qualquer ladainha, e ele obedece. Apesar de preocupado com tudo o que Bartolomeu relata, Duncan parece distante, como se estivesse perdido em questões filosóficas e desatento às necessidades mais urgentes, como organizar o povoado militarmente, treinar os aldeões, reforçar alguma construção ou colocar defesas no terreno.

Pela familiaridade com que falavam, Duncan e o sacerdote de Santo Bane parecem ter se tornado próximos durante esses dias. Bartolomeu censura, internamente, a atitude do companheiro; não as questões filosóficas, propriamente, mas a inércia em relação às defesas do povoado. Decide, porém, não tocar no assunto: há problemas maiores no momento, e o lugar parece longe dos olhares dos batedores do exército dos gigantes, e, a bem da verdade, longe do alcance de qualquer mal, o que constitui o cerne da desconfiança de Bartolomeu em relação ao local. Quando Duncan o deixa para iri ao encontro dos demais, o astrólogo leva o corpo de Ânn até próximo da fonte no templo. O jovem sacerdote reaparece e gentilmente oferece um lugar no cemitério atrás do templo para o enterro. Bartolomeu recusa com educação, pois tem outros planos. O jovem parece surpreso, mas não argumenta.

Duncan não pareceu nem um pouco preocupado em organizar as defesas do povoado, o que levanta algumas conjecturas sobre o que ele andou fazendo durante os três dias que passou com o sacerdote de Santo Bane.

-----------

Na taverna, o reencontro com Duncan é mais animado do que o decoro em face dos últimos acontecimento permitiria, devido à embriaguez de Eldrin, Bruenor e Gato Preto. Parecem beber para esquecer dos problemas. Wurren, porém, está sóbrio e tenso, mas se alegra com a presença do amigo e companheiro de fé. O paladino da Antiga Fé parece muito preocupado com as mortes de Ânn, Adam e também com a forma como foram banidos da floresta pela Grande Druida. Enquanto nada que os companheiros dissessem pudesse aplacar a dor da perda (principalmente a de Adam), eles não interpretaram da mesma maneira a última conversa com a ninfa, acreditando terem saído de lá contando com a gratidão e confiança de Urinyairoppasath, ainda que ela não concorde com o curso que escolheram. Duncan sentiu-se mais aliviado, mas ainda assim surpreso com tamanha divergência nas interpretações. Bartolomeu dissera claramente que a ninfa falou para saírem da Floresta Escura o mais rápido possível, mas mesmo Wurren viu nas palavras um alerta sincero, e não uma ameaça.

Com alguns dos companheiros empenhados mais em beber que em conversar, Wurren e Duncan deixam a taverna para conversar entre as árvores que margeiam a cidade. O teor dessa conversa, nem mesmo este narrador conhece. As consequências, porém ficarão claras ao final deste ato.

-----------

O sol foi embora, e a noite e o silêncio, aos poucos, tomou Ravina Verdejante. Todos se recolhiam Às suas casas e os únicos hóspedes da estalagem eram Eldrin, Gato Preto e Bruenor, que continuavam bebendo e comendo, mas com menos voracidade. Levantaram-se para vomitar algumas vezes, mas voltavam e bebiam e comiam mais. Tomavam não mais a exótica cerveja gelada, que, perceberam, enjoava mais rápido que a tradicional, com que agora se refestelavam. Contavam histórias, mas mal as conseguiam terminar, pois um cortava a história do outro com as suas próprias; porém, como sempre acontece com os amigos bêbados, se entendiam perfeitamente.

Bartolomeu não sentia fome, apesar de sua barriga dizer o contrário. O sacerdote chorava e velava o corpo de Ânn, buscando, ainda, respostas a perguntas que ele sabia formular, e a outras que nem isso conseguia. Com o cair da noite, desnudou o corpo da clériga e limpou-o com a água da fonte. Não havia sinais de decomposição sérios ainda, pois o sacerdote conseguiu, com a magia que a própria Ânn o ajudou a descobrir, preservá-la da putrefação. A tez tinha cor verde-azulada, os músculos relaxados, a pele rija e o esgar de dor no canto direito da boca, porém, persistiam, e não havia nada que o jovem pudesse fazer quanto a isso. Já não orava mais em desespero a Wee Jas para que a trouxesse de volta, como fizeram na floresta, pois deu-se conta do pedido descabido. Limpava, porém, a sujeira, os líquidos que vazaram, retirava os anéis, os colares com símbolos sagrados, e o sangue coagulado. Ânn sofreu antes de morrer. Morreu rápido, mas fora ferida diversas vezes ao longo dos últimos tempos, em encontros anteriores ao que a vitimou. As cicatrizes que tinha nas costas, porém, pareciam surpreendentemente suavizadas com a morte, e mesmo a área em torno de seus olhos, menos dura e triste -ou, talvez, foi isso o que o jovem sacerdote quis ver.

-----------

A névoa acabou chegando, vinda de cima das colinas que cercam o povoado. Com ela, vieram também os vagalumes, espalhando-se por entre os arbustos, paredes e telhados e conferindo um ar ainda mais feérico e ilusório ao local. Bartolomeu sentiu um tremor na espinha ao ver apenas os topos das lápide acima da neblina baixa, e os insetos subindo e descendo no nevoeiro pálido. Esse lugar, decerto, não parecia real, não parecia possível, aos olhos do astrólogo. Alguma coisa paira em Ravina Verdejante por trás dessa atmosfera pacífica, adormecida talvez, sedativa talvez, mas é algo estranho em que quase se pode tocar. 

Bartolomeu, observando tudo isso, decidiu que aquela sua noite ali seria a última. Nem a Floresta Escura lhe pareceu tão ameaçadora e fora do tempo e do espaço. Sem conseguir sustentar o cansaço, dormiu no meio de sua vigília, no chão frio do templo, um sono inquieto cheio de sonhos dos quais foi incapaz de se lembrar de qualquer trecho que fosse. Já seus companheiros na taverna, caíram cada um em um canto, nenhum deles se lembrando das últimas horas. De Wurren e Duncan, não se sabe onde dormiram.

-----------

O dia nublado já encontrou Bartolomeu de pé, tremendo de frio no chão de pedra do templo. Ainda sem fome, perambulou pelos arredores, mas sem perder a casa de Santo Bane de vista. Já mais tarde, o sacerdote do santo trouxe para ele um desjejum, que ele esforçou-se para comer -não porque estivesse ruim, mas porque doía quando descia na garganta. Conversaram durante um tempo, e o adolescente encheu Bartolomeu com suas questões morais, certamente um eco das conversas que ele tivera com Duncan. O jovem tentava perscrutar as intenções divinas, mas sentia-se solitário, como se os deuses não atendessem a suas súplicas. Queria mudar o mundo, ser mais útil ao povoado, e parecia ávido em separar o mundo entre bem e mal; Bartolomeu viu naquilo não só uma afobação juvenil, mas a ingenuidade de quem nada conhece do mundo e dos corações dos homens e mulheres. Viu também a moral rígida de Duncan, que certamente incutira algumas de suas ideias na cabeça confusa do jovem. 

Como não queria passar o dia inteiro falando sobre esses assuntos com ele, Bartolomeu sugeriu que fosse viver e ver o mundo com os próprios olhos, ao invés de julgar tudo previamente. E que o mundo é mais crepúsculo do que noite e dia, e se ele tentasse curvar tudo à sua vontade de luz, mais rapidamente acabaria nas trevas. Contou algumas verdades e ações nada heroicas de Duncan, para desfazer um pouco a aura de adoração em que o jovem parecia ter cercado o paladino. Com mais dúvidas que respostas o jovem deixou Bartolomeu, que respirou aliviado. Contava, porém, que algumas palavras encontrassem morada na cabeça confusa do sacerdote de Santo Bane, mas não haveria de voltar para saber se isso aconteceria ou não.

As nuvens se abriram e o sol pode castigar o solo. Gato Preto acordou suado, com a cabeça martelando, a boca seca. Numa tremenda ressaca também estavam Eldrin e Bruenor, na taverna. Encontraram-se todos lá, mas não havia sinal de Duncan e Wurren. O quarto do paladino na estalagem estava intocado, como se ele ainda lá estivesse hospedado, mas não como se lá tivesse dormido. Bartolomeu caminhou pela cidade, enquanto os outros se curavam da ressaca, comprando mantimentos e procurando pistas dos dois. Um camponês que tinha ido à casinha viu os dois deixando a cidade muito cedo, antes do dia se anunciar.

Para Bartolomeu, aquele era o momento de também partirem. Ninguém no grupo parecia confortável com a ideia de Duncan e Wurren terem ido embora sem nenhuma explicação. Bruenor, especialmente, se ressentia muito da decisão dos colegas, mas escondia a frustração debaixo de um velho adágio anão:

- A diferença entre um conhecido e um amigo é de cem anos! Deixe que partam! Sigamos nós o nosso destino! - falava o guerreiro astuto.

Talvez não fosse esse, exatamente, o caso. Mas é fato é que o grupo havia se reunido há pouco menos de um mês atrás apenas. Muitas foram as aventuras vividas neste curto espaço de tempo, mas parece que o "contrato" que os unia foi desfeito com o trágico destino vivido por Ânn.

-De qualquer maneira, essa é uma forma sórdida de abandonar os companheiros, depois de tudo o que passamos junto. Levaram consigo o contrato de Ânn, o tomo de Rillikandren e também o livro com a língua reptiliana pregado à capa, além daquelas pedras nefastas. É um fardo e tanto para carregarem sozinhos, e derramamos muito sangue para consegui-los e protegê-los das mãos dos inimigos -Bartolomeu falava com amargor. Íamos para Niole Dra, tentar desvendá-los. Agora, estamos novamente no escuro, e imagino que ele vão se enfiar nas florestas e buscar o auxílio dos Deuses Antigos, sendo que acabamos de entrar em conflito com os druidas da Antiga Fé.

- Bom, eles se foram, e a menos que queiramos perseguir nossos companheiros, nada mais podemos fazer. Para onde, então? - perguntou Eldrin.
- Hochoch - falou Gato Preto.
- Não sei. Acho que temos assuntos não resolvidos em Orlane, não é Bruenor? - falou Bartolomeu.
- Sim, vamos até Orlane primeiro. Tenho uma encomenda para pegar - o anão respondeu enquanto os aventureiros já punham os pés na estrada.

Há tempos Dágora não faz nada digno de nota, por isso não tem aparecido nesses relatos. Que conste aqui, portanto, que o singular felino não foi mais visto depois que Wurren partiu

-----------

Ainda que não seja uma cidade, propriamente, Orlane tem experimentado tempos prósperos. Uma prosperidade agridoce, é verdade: com a guerra, ela se tornou o local mais seguro situado entre o fronte de batalha oeste (centrado em Hochoch), a Floresta Escura e os Rushmoors, um local que oferece recursos e possibilita movimentação rápida das tropas para as fronteiras ameaçadas na região. 

Antes uma vila agrícola ameaçada pelos fantasmas do pântano e por incursões ocasionais de grupos globinóides fugindo dos perigos da Floresta Escura e Oytwood, o povoado sempre contou com um grupo armado corajoso, que mantinha o local seguro. Agora, com a guerra contra os gigantes, exibe muitos acampamentos improvisados e moradias mais ou menos precárias sendo construídas. Uma paliçada foi erguida, e vem aos poucos sendo reforçada pelo trabalho dos soldados do Grande Reino; para assegurar a defesa, duas torres foram erguidas, e depois que um barão se instalou no povoado, ele começou a ganhar ares de cidade, e uma fortaleza já se encontra na fase final de construção. 

Com isso, o cheiro podre e as valas negras aumentaram na cidade, e os campos se expandiram, aproveitando a terra fértil do vale dos rios Grande e Javan. Após passar pelos campos cultivados, avistaram a paliçada e, logo depois, o cheiro das centenas de latrinas da cidade. Adentrando pela vila, Bartolomeu relembra a ameaça da bexiga e pensa em quantas vidas foram poupadas por sua ação e de seus companheiros, ainda que nenhum aldeão saiba disso. Incabulos e Nerull não devem vê-lo com bons olhos agora, mas isso não importa. Que venham!, desafiou em pensamento, sabendo que jamais chegaria a qualquer tipo de termo com deuses tão vis. 

Bruenor foi ao armoreiro pegar sua encomenda, enquanto Bartolomeu esperava o retorno do mestre anão na sombra de uma faia, à procura dos estandartes dos Wyverns Dourados. Mas não havia nenhum. A cidade parecia quieta, apesar das tropas. Bruenor demorou, mas quando voltou exibia uma bela armadura de escamas de dragão negro. Kharlixes fora morto pelo grupo e agora, ironicamente, protegia o peito largo de Bruenor.

Resolveram passar a noite numa estalagem do lado de fora das paliçadas. Era meio suja mas tinha boa comida e camas confortáveis, e isso era o que bastava. Logo souberam que os Wyverns Dourados tinham levantado acampamento e seguido para o leste, mas isso não aumentou sua vontade de permanecer no lugar. Deliberadamente, Bartolomeu não foi falar com Zulu, a filha do estalajadeiro Ainda estava de luto por Ânn.

Decidiram partir pela manhã.

------------

Mas partir para onde? Com a "deserção" de Wurren e Duncan, o grupo estava praticamente à deriva. pois o poucos fios a que podiam se agarrar foram soltos: os planos de explorar os dois livros amaldiçoados fora por terra e, com isso, as únicas pistas que tinham para tentar esclarecer Icrácia e as tramas da Floresta Escura. Wurren e Duncan tomaram para si a tarefa. Bartolomeu declarou que iria a Hochoch, para alertar a cidade dos planos dos gigantes de assaltar a cidade e também a Orlane, tal como o orc havia contado. Libertou Eldrin e Gato Preto da dívida que tinha com eles: a incursão à Floresta Escura já tinha sido a paga. 

Os aventureiros, porém, se dispuseram a acompanhá-lo. Afinal, com os pântanos ao sul, a floresta a leste e a guerra ao norte, restava o oeste, onde está Hochoch. De lá, poderiam reavaliar os destinos.

-------------

                                                                                                                                               Ato anterior


Comentários