A Travessia da Floresta Escura - 8° ato

As estranhas criptas em que se meteram os aventureiros não despertaram nenhum tipo de respeito em alguns dos aventureiros, e sim cobiça


Naquela noite, cada um foi para seu canto dormir. Bartolomeu demorou a pegar no sono, sua mente pensando incessantemente no céu estrelado que vira, a visão apocalíptica, a falta de respostas, os acontecimentos recentes, a druida Ur-Flân, a morte de Adam, as veias da pálida Grande Druida adentrando como raízes na terra, pulsando. Lembrou de Duncan, sozinho no estranho vilarejo de Ravina Verdejante, do exército dos gigantes que dizima ou aprisiona tudo o que encontra pela frente, e também de Icrácia, Salahadra, Kharlixes, o Grel, Ânn, o beijo de Ânn, a noite em que a viu nua e fugiu, Orlaine, a prisão, a fuga, os amigos mortos, os anos de solidão, loucura, abandono, a guerra, as aldeias élficas destruídas, sua família e seu povo indo para longe, o fracasso em conseguir fugir junto com eles, as danças, as elfas, os livros, os cantos, sua mãe e seu pai, até que Bartolomeu adormeceu.

Adormeceu e resgatou, de um canto já esquecido da memória, de uma conversa que seus pais tiveram, poucos anos após eles terem chegado na vila, quando ele ainda era muito jovem.

- Quando contaremos a ele, Aerdor?
- Deixemos para os anciãos decidirem. Eles já estão a par, Guiomar.
- Eu não entendo esse silêncio, sinceramente. Vocês nos protegem há tanto tempo, por que esse cuidado com a verdade? Não seria melhor para todos se isso não fosse segredo ao menos entre os nossos? E, afinal, faz tanto tempo...
- Tanto tempo que nem sabemos qual a relevância disso, atualmente. Não falo isso como ofensa, claro. Mas, me diga, qual importância alguém teria em saber que vocês têm o sangue de Tholomai? Isso só atrairia atenção indesejada.
- Estás louco, Aerdor? Temos o nosso legado, que vocês protegem conosco. O resto do Vale do Sheldomar já se esqueceu de nós, mas nós não podemos nos esquecer dele. Eu sei, o sangue já não é mais o mesmo, após tanto tempo, após tantas mortes e tantas guerras. Mas Teluriel é diferente, você sabe. Ele tem força, tem vontade, o menino é valente. E ele não é o único. Antes que essa maldita guerra recaia sobre nós, precisamos avisá-los.
- Chegará a hora em que Bartolomeu carregará esse fardo. Mas deixê-mo-lo ser feliz, enquanto isso. Há desgraça no horizonte, e as memórias desses dias felizes serão importantes para ele.


Bisbilhotar nunca é bom, mas, como todos sabemos, às vezes é necessário (ou então acontece por acaso)
[foto encontrada no perfil de algum usuário sacripanta do instagram]

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No dia seguinte, deliberam sobre que rumo tomar. Deve-se considerar que essa sombra que se abateu sobre esse templo druídico pode muito bem ter se estendido a outros, dos quais Wurren conhece alguns. Porém, existe uma passagem de pedra próxima ao leito de Urinynairopassath que parece ter sido tosca e recentemente tampada e que não custaria nada investigar. O próprio Charix, como de costume, não sabe do que se trata, e não vê nada de anormal ali. Talvez até mesmo por isso, por desconfiarem do fauno após o banquete traiçoeiro que lhes foi servido, os aventureiros se determinaram a investigar a passagem.

Do outro lado havia uma construção subterrânea muito antiga e aparentemente intocada há dezenas de anos, pelo menos. Alçapões abertos, algumas paredes tortas, estátuas com rostos já desfigurados; aquelas salas e corredores cheiravam a abandono. Numa sala cheia de estátuas, havia uma arca destrancada, encimada pela seguinte mensagem, em runas druídicas:

À noite elas vêm serem buscadas, 
e de dia são perdidas sem serem roubadas.

Wurren, que já tinha analisado as estátuas, se dirigiu até uma e retirou uma orbe que uma delas segurava, depositando-a dentro da arca e fechando-a. Quando tornou a abri-la, encontrou uma chave ao lado da orbe, que representava os corpos celestes no céu noturno. Sorrindo satisfeito consigo mesmo, continuou a explorar a masmorra junto aos demais.

Conforme exploravam o ambiente, sem conseguir, contudo, identificar quem o teria construído, ficava mais evidente que estavam em uma cripta improvisada em uma construção mais antiga. Uma cripta meio abandonada, com tumbas mal fechadas, alçapões levando a armadilhas que não funcionavam, salas alagadas, escadas quebradas. Um lugar estranho, logo ao lado dos aposentos da comatosa druida.

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