A Travessia da Floresta Escura - 7º Ato

Lolth, a Rainha-Aranha, é uma figura mitológica de Flanaess que permeia todo o universo de D&D. Os aventureiros acreditaram que o trono aracnídeo que enxergaram em sua visão pertencia a ela! (Keith Parkinson)

Texto de Sacripanta

Cada um foi quieto para um canto, em torno do monolito druida, ainda confusos com as últimas horas. Havia maravilhamento, estranheza, incredulidade, inefabilidade. Fora uma viagem fantástica, e a menor delas acabou sendo o encontro na clareira, com a criatura envolta nas chamas do carvalho, por mais impressionante que também ele tenha sido. Mas o caminho até a árvore da vida foi algo que nenhuma música, pintura ou devaneio jamais trouxe. Aquele lugar era tão carregado de energia, de vida, de símbolos e mistérios que era difícil tentar relembrar de tudo e dar alguma lógica aquele céu multiestrelado, com raízes antigas como o firmamento, e seres que pareciam ou alienígenas, ou muito sábios, ou assustadoramente banais. Havia de tudo lá, como se diferentes tempos ali se encontrassem. Aquele não era o local de encontro dos druidas da Floresta Escura, e sim de viajantes de diversos povos e de era distintas, cada um ali chegando por diferentes motivos.




O aventureiros estavam anestesiados com a quantidade de informação que a jornada propiciou. Bartolomeu pensava sobretudo no céu estrelado, com constelações tão próximas que ele podia ver muito mais estrelas do que de fato ele julgara existir, e também outras que ele jamais vira. Estrelas cadentes aos montes, estrelas azuis, vermelhas, amarelas, anéis em torno de estrelas, aglomerados com tons de roxo. O topo da árvore parecia tocar o firmamento! Que lugar seria aquele? Quanto não daria para se perder naquele céu? Quanto tempo até dominar todas aquelas estrelas, e tentar extrair delas conhecimento? Os traços dos deuses eram muito mais nítido ali, naquela imensidão galáctica! Ainda assim, tal como era visível no céu de Oerth, havia um pedaço sem nenhuma estrela ou constelação, um buraco negro em meio a um mar de estrelas, o que fez Bartolomeu estremecer: mesmo ali, no paraíso estelar, havia o vazio.

Wurren deslumbrava-se ainda com aquela árvore, e o estranhos seres que lá encontrou. Druidas veneráveis em meio a criaturas mitológicas, animais sapientes e antropomórficos, todos celebrando a vida e o encontro, mas, ainda assim, tão distantes, se cruzando infinitamente com outros seres nos corredores labirínticos das raízes da árvore da vida. Sem saber, ele ansiava voltar para aquele lugar, para participar mais daquela comunhão, fazer parte daqueles túneis em que era plenamente compreendido e aceito.

Gato Preto, Bruenor e Eldrin estavam perturbados demais com tudo para conseguir, efetivamente, discernir a beleza daquilo tudo. A experiência superava em muito o aceitável, em suas mentes limitadas. Aquele mundo era por demais alienígena para não despertar mais temor que adoração, a fumaça dos incensos adentrava por todos os poros e os atordoava, ao invés de abrir as portas para novos céus.

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Bartolomeu fez um esforço para esquecer das estrelas daquele céu único e focar no motivo da viagem, a resposta que foram buscar junto ao Grande Druida: como reencontrar Ânn. Era importante aproveitar enquanto tudo estava fresco na memória, para tentar dar algum sentido àquilo tudo.

...um monte muito alto, com um reino poderoso ao fundo. Um príncipe cativo geme e oito feiticeiros vão ao seu socorro, mas uma imensa força maligna os impede. O príncipe era um simulacro, e os oito são derrotados, revigorando involuntariamente o espírito maligno que se dispersa, fortalecido pela essência roubada daqueles incautos.

O astrólogo julgou  que essa visão se tratava de algum conhecimento arcaico, perdido da memória e dos livros, e não fazia a menor ideia do que se tratava.

- Isto é o que já foi – diz o velho. Que toca novamente com o cajado nas águas turvas. E uma aura negra paira sobre um pântano desolado, onde uma ave sobrevoa imponente e uma serpente se arrasta sorrateiramente. Então, as névoas que recobrem o pântano se abrem com uma lufada de suave brisa, e se vê que a sombra silenciosa de uma mulher mergulha desaparecendo sob suas águas.

Icrácia, Kharlixes, Salahadra e Ânn.

- Isto é o que já foi – repetiu o velho.  Então, sem que desta vez tenha tocado nas águas, uma floresta aparece, vista pelos olhos de um pássaro que voa muito alto. E a floresta agoniza, e se torna cinza. E muitas árvores são derrubadas. E a floresta arde. E rios são desviados e secam. E suas águas se tornam podres e a ave agoniza, caindo uma espiral mortal não sem antes vislumbrar no sul a torre negra onde jaz um trono aracnídeo.

A Floresta Escura, talvez. O templo aracnídeo poderia se tratar de Lolth, mas, tendo em vista os acontecimentos recentes, o sacerdote crê se tratar, na verdade, de Vecna.

- Isto é o que será. O passado não volta mais. O futuro ao amanhã pertence. Cabe a você escolher o que fará com o seu presente - E, então, toca mais uma vez com o cajado nas águas. E a água se torce, mostrando os astros do céu caindo sobre a terra, ferindo os filhos de Beory com a morte.

- Esta é a mensagem da Fé Anciã, iniciado. Você terá um dilema diante de si - falou dirigindo-se a Wurren - E quando for chegada a hora, seu coração decidirá o destino dos seus irmãos - E então, toca na água pela última vez, que então mostra a ninfa na tumba druídica. Sua pele está muito pálida, e no lugar de veias azuis, vê-se raízes por onde flui a seiva mágica de Obad-Hai, e elas saltam grotescamente para fora do corpo dela, se ligando ao solo e a toda a floresta.

Urinyairoppasath parece estar além da salvação, mas, de fato talvez Charix estivesse falando a verdade, quando afirmou que a saúde dela estava intrinsecamente ligada à saúde da floresta.

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Bartolomeu se levanta e se junta a seus companheiros em torno da fogueira, calados e pensativos. Ele tenta conversar sobre a viagem, mas o esforço é vão: nenhum deles parece extrair nenhum significado das visões, e apenas se perdem em lamentos sobre a linguagem enigmática  com que se comunicam os druidas, aparentemente avessos à objetividade e simpáticos ao obscurantismo. Mesmo Wurren nada acrescenta ao que viram. Bartolomeu conta então sua interpretação dos fatos, ainda que ela não forneça qualquer pista sobre o que fazer agora, nem revele nada do que vireram ali buscar, permanecendo a questão: onde andará Ânn?


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