A Travessia da Floresta Escura - 6º Ato

Para os antigos povos celtas, o carvalho era uma árvore sagrada, que conectava seu povo aos espíritos guias da natureza. Assim também são os druidas de Flanaess, para quem o carvalho simboliza sua conexão com Obad-Hai e a mãe Beory.

Os aventureiros deixam a clareira para trás. A imponente criatura não deu mais nenhuma palavra, apenas abriu passagem de forma convidativa, deixando o caminho livre para que o grupo pudesse prosseguir pela trilha que estavam seguindo. E ela se estende um pouco mais longe. Desta vez ela parece mergulhar numa escuridão cósmica, subindo de forma sinuosa pela beira de um abismo que contorna uma grande montanha que não parece ter fim. Só o céu fica mais perto, tão perto que é possível tocar nas estrelas. Bartolomeu, mais familiarizado com os astros, pensa ter avistado as nove irmãs (uma constelação distante) naquele céu cada vez mais brilhante. E até mesmo os infinitos cometas do Moedor que circundam Oerth – normalmente invisíveis aos olhos – puderam ser vistos naquele local.

Finalmente, depois de incontáveis minutos, quando pensavam que a subida poderia mesmo se conectar com o firmamento, uma majestosa e imensa árvore surge no que parece ser o final da trilha e o topo da montanha. As estrelas ainda brilham no céu, agora menos azul escuro e mais avermelhado. No entanto, ouvem-se trovões rugindo e uma delicada chuva começa a cair, umedecendo o chão e levantando o inconfundível aroma petricor, que é o cheiro que exala da própria mãe Beory quando a chuva começa a cair sobre o solo seco: é o cheiro de terra molhada, o cheiro do orvalho.

A árvore é realmente imensa. Gigantesca. Maior que a maior das árvores. Parece-se com um carvalho, mas nenhum carvalho poderia ser tão colossal. Sua copa é frondosa, mas denota alguns sinais de cansaço, de muita idade. Suas raízes grossíssimas projetam-se vigorosamente ao seu redor, agarrando-se ao topo do monte com um vigor impressionante. Os aventureiros veem uma pequena multidão se movimentando na proximidade destas raízes. Parecem-se com peregrinos, mas são druidas, iniciados dos muitos círculos da antiga fé. Eles observam com perplexidade e admiração. Wurren parece um pouco confuso, pois nunca havia estado naquele lugar que, agora, de repente, lhe parece tão familiar.

- Chegamos! Finalmente chegamos! É aqui! O Grande Concílio já deve ter começado! – falou o pequeno Bereen – Venham logo – ele complementou em seguida, afastando-se do grupo para juntar-se à fila daqueles seres estranhos que sobem por largas escadarias entalhadas no caule até uma grande abertura que leva ao interior da árvore, de onde uma luz alaranjada tremula e um calor intenso emana.
Sim. São criaturas estranhas. Há todo tipo de seres ali, muitos se parecem com aberrações. Mas outros são “homens” fantasiados com hediondas caveiras, peles ou máscaras. Os aventureiros conseguem se misturar naquele influxo constante de criaturas e seres, e ao subirem as escadas e entrarem na grande árvore, seus pulmões são invadidos pelo cheiro intenso de fortes incensos. Os túneis são estreitos e sinuosos. O chão é irregular, as paredes curvas e salientes como se o vento as tivesse esculpido. E há muitos caminhos. Uma miríade deles. E os peregrinos se dissipam entre eles muito rapidamente.

A visão dos aventureiros já está turva. Bartolomeu pensa que aquilo não é possível, e que talvez não tenha sido uma boa ideia adentrar ali. Gato Preto está sentindo um estranho enjoo, como se tivesse comido muito doce e Eldrin sente sua própria pele arder como brasas. Já Wurren está apenas confuso, mas conhece aquele aroma de ervas, aquela fumaça inebriante.

Os corredores são labirintos tortuosos cada vez mais confusos, iluminados por velas antigas dispostas ao seu longo, no chão mesmos, em intervalos irregulares, mas sempre acompanhadas de bacias e vasilhas de barro ungidas com unguentos. Numa delas, os aventureiros veem uma boneca de vodu imersa em um líquido grotesco. Noutra órgãos e pedaços de carne que parecem muito frescos. Noutra, ainda, uma raiz de mandrágora assustadoramente parecida com uma criança recém-nascida está deitada sobre leite. Claramente, são rituais druídicos macabros.

E numa das muitas esquinas, entorpecidos, os aventureiros esbarram com um fauno, que olha nos olhos de Wurren. Ele tem muitas marcas estranhas na face, especialmente na testa. Mas ele não diz nada.

- Mestre Apalgas, não se detenha! – um homem vestindo um capuz sinistro chamou, e o fauno atendeu, deixando Wurren perplexo com estranha familiaridade.

E o grupo perambula vendo muitas cenas chocantes e estranhas. Até que, finalmente, Wurren sentiu que a caminhada terminou, bem de fronte para um velho decrépito que se senta num canto, sobre uma trouxa de roupas, e que bem poderia se passar por um mendigo num burgo qualquer (segundo Gato Preto). Mas ao se aproximarem , veem que ele ostenta uma imponente (e estranha, é claro) galhada de cervo sobre sua cabeça. Não se parece com um mero ornamento de seus emaranhados cabelos brancos. E suas vestes são pesados mantos de lã encardida, e muitos (talvez dezenas) de fios de cipó verde enrolados no pescoço como colares, onde estão pendurados dentes, orelhas, línguas e outras bizarrices indescritíveis.

Os druidas da antiga-fé possuem muita sabedoria e guardam segredos antigos (Imagem: http://simplywallpapers.com/wallpaper/Druid-celtic-mythology/55063/ . Acesso em 18/10/2017)

E ao ver os aventureiros, seu olhar cruza com os deles. São olhos opacos, tomados de catarata, mas ainda assim profundos. Dotados de sabedoria capaz de desnudar a própria alma. E isso é desconfortável. Muito desconfortável, especialmente para Gato Preto e Eldrin, que não estão habituados e nem gostam destas “cousas”. O velho abre a boca, revelando poucos dentes (e pretos). Mas ele não diz nada. Apenas se apoia num cajado, que não passa de um galho velho e retorcido, adornado com cipós, folhas de visgo e de carvalho. E ele não diz nada. Apenas toca na parede que se abre atrás dele como uma vagina, assim, mas não vulgar.

- Você veio atrás de respostas. Para algumas perguntas nada posso dizer. Para outras, contudo, este velho pode ser de alguma valia. A grande mãe me disse que viria. Acompanhado de sombra, de fogo e de morte. A grande mãe nunca se engana. Então lhes mostrarei a todos o que normalmente não é mostrado a ninguém – e ao dizer isso o velho entra sem dificuldade pela abertura sinistra e logo, seguindo-o, os aventureiros se veem num pequeno e claustrofóbico espaço. Ali é escuro, e assim que o último entra a vagina se fecha e tudo se apaga por um breve instante, até que o velho acende uma luz azulada e fraca no seu cajado e toca com ela num espelho d’água no chão, onde os aventureiros tem a visão de um monte muito alto, com um reino poderoso ao fundo. Um príncipe cativo geme e oito feiticeiros vão ao seu socorro, mas uma imensa força maligna os impede. O príncipe era um simulacro, e os oito são derrotados, revigorando involuntariamente o espírito maligno que se dispersa, fortalecido pela essência roubada daqueles incautos.

- Isto é o que já foi – diz o velho. Que toca novamente com o cajado nas águas turvas. E uma aura negra paira sobre um pântano desolado, onde uma ave sobrevoa imponente e uma serpente se arrasta sorrateiramente. Então, as névoas que recobrem o pântano se abrem com uma lufada de suave brisa, e se vê que a sombra silenciosa de uma mulher mergulha desaparecendo sob suas águas.

- Isto é o que já foi – repetiu o velho.  Então, sem que desta vez tenha tocado nas águas, uma floresta aparece, vista pelos olhos de um pássaro que voa muito alto. E a floresta agoniza, e se torna cinza. E muitas árvores são derrubadas. E a floresta arde. E rios são desviados e secam. E suas águas se tornam podres e a ave agoniza, caindo uma espiral mortal não sem antes vislumbrar no sul a torre negra onde jaz um trono aracnídeo.

- Isto é o que será. O passado não volta mais. O futuro ao amanhã pertence. Cabe a você escolher o que fará com o seu presente - E, então, toca mais uma vez com o cajado nas águas. E a água se torce, mostrando os astros do céu caindo sobre a terra, ferindo os filhos de Beory com a morte.

- Esta é a mensagem da Fé Anciã, iniciado. Você terá um dilema diante de si - falou dirigindo-se a Wurren - E quando for chegada a hora, seu coração decidirá o destino dos seus irmãos - E então, toca na água pela última vez, que então mostra a ninfa na tumba druídica. Sua pele está muito pálida, e no lugar de veias azuis, vê-se raízes por onde flui a seiva mágica de Obad-Hai, e elas saltam grotescamente para fora do corpo dela, se ligando ao solo e a toda a floresta. E a visão acaba, e os personagens estão de volta no círculo druídico onde encontraram Charix, perplexos e um tanto quanto aborrecidos por não terem entendido muito daquele encontro bizarro.

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